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terça-feira, 12 de maio de 2015

UM GATO INDISCRETO E OUTROS CONTOS

A história da literatura está repleta de interessantes fenômenos. Um deles – o desaparecimento de escritores que em determinado momento histórico foram referências obrigatórias –, ao mesmo tempo em que expõe os sempre bem-vindos avanços e recuos da estética, da técnica e das proposições literárias, também revela um pouco de ingratidão. Não há motivos dignos de compreensão para justificar o porquê de talentos como O. Henry (pseudônimo de William Sidney Porter, 1862-1910), Damon Runyon (nascido Alfred Damon Runyan, 1880-1946) e William Somerset Maugham (1874-1965), por exemplo, terem se transformado em escritores que somente aparecem em cena como espécimes raros, recuperados em exaustivas pesquisas arqueológicas. Algo semelhante a ossos de dinossauros ou pedaços de cerâmica grega do século IX antes de Cristo. Em outras palavras, mesmo que eles não façam mais parte de um mundo que se dissolveu no tempo, a literatura que produziram continua viva. E isso certamente não será a qualidade a ser destacada em alguns dos semianalfabetos que povoam o mundo literário atual. 

Hector Hugh Munro (1870 - 1916)
Hector Hugh Munro (1870-1916) também pode ser citado como um desses casos extremos. Nasceu na Birmânia (atual Mianmar), filho de pais ingleses. Sua mãe faleceu quando ele tinha dois anos. Junto com seus irmãos (Charles e Ethel), foi criado pelas tias paternas (retratadas frequentemente como mulheres amargas, ressentidas e de péssimo humor). Somente se livrou da opressão familiar quando foi estudar em colégios internos ingleses. Voltou à Birmânia como membro da polícia. Depois de contrair malária, abandonou a vida militar. Na Inglaterra, trabalhou em alguns dos mais importantes jornais ingleses. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, alistou-se outra vez. Morreu atingido por uma bala na cabeça. Ficou conhecido no mundo literário através de um pseudônimo: Saki – que é o nome do serviçal que serve o vinho aos hóspedes da grande festa retratada nos versos do poema persa Rubaiyat, escrito por Omar Kháyyám (1870-1916).

Um Gato Indiscreto e Outros Contos, edição de 2009, reúne vinte histórias curtas. As mais conhecidas são Um Gato Indiscreto (algumas vezes publicada como Tobermory), O Contador de Histórias, O Tigre de Mrs. Packletide, A Janela Aberta (também publicada como A Porta Aberta) e Os Intrusos. Todas se caracterizam por retratar a sociedade inglesa, durante o reinado de Eduardo VII (1901-1910). Essa época, que marca o início da derrocada do Império Britânico – que, depois de um longo período de dominação e repressão em diversas partes do mundo, não teve fôlego para resistir às duas guerras mundiais e às centenas de revoltas coloniais –, serve de espelho para um código de comportamento baseado nos valores aristocráticos, na fleuma e, sobretudo, na aparência. Os contos de Saki, repletos de situações inusitadas e cômicas, constituem uma instigante radiografia desse mundo social, econômico e cultural.

Tons de “nonsense” e de realismo fantástico aparecem no conto Um Gato Indiscreto. Ao adquirir a fala humana, o gato Tobermory (arrogante, cínico e mordaz) ameaça a estabilidade de um grupo de amigos. Se ele sair pelo mundo, contando certos fatos que ouviu ou presenciou, não será possível conter a desgraça de todos. 

Bertie van Tahn, que fora tão depravado aos dezessete anos que há muito desistira de tentar ser pior, ficou de uma matiz opaca de branco-gardênia, mas não cometeu o erro de correr da sala como Odo Finsberry, um jovem cavalheiro que sabiam estar estudando para a vida eclesiástica e que estava possivelmente perturbado pela ideia dos escândalos que poderia ouvir sobre outras pessoas. 

                                                                                 (trecho de Um Gato Indiscreto)

Esse recurso estilístico, misturar o "real" com o fantástico, também aparece em Gabriel-Ernest, contraponto entre a civilização e a barbárie, e em Esmé, que projeta o macabro como seu elemento principal. 

Vários personagens aparecem de forma constante e em histórias diferentes. Talvez o mais significativo seja Reginald, um indivíduo esnobe, completamente insensível sobre qualquer sentimento que não se relacione com o próprio egoísmo. Seu propósito primordial é ofender a tudo e todos, pouco se importando com as consequências. De uma forma ou de outra, ele estabelece a gênese de outros personagens, como Lady Carlota, protagonista de O Método Schartz-Metterklume, ou Clovis Sangrail, de A Cura do Desassossego. Nessas duas narrativas, há um jogo de cena, onde a maldade (sem muita maldade, se isso for possível!) predomina. A esperteza contra a inocência. A vontade de brincar, sem se importar com os danos. Essa é a ambição de Vera, a criativa adolescente de A Janela Aberta, especialista no “romance de improviso”, que induz sua interlocutora em um contexto macabro, próprio do decadentismo, e que, além de ser extremamente perverso, também revela que a graça desse proceder reside na falta de coerência humana. O ponto alto desse, na falta de uma palavra melhor, passatempo (a diversão com a boa fé dos ingênuos) está caracterizado no protagonista de O Contador de Histórias. Durante uma viagem, dois adultos e três crianças dividem a cabina do trem. A mulher, para distrair os sobrinhos, conta uma história edificante. Entediado, o quinto personagem toma a palavra e faz um relato completamente oposto. Seduz as crianças com o realismo, com a brutalidade. A tia coloca objeções, mas recebe em troca, a única declaração possível, De qualquer modo, (...), consegui deixar eles quietos por dez minutos, o que é muito mais do que a senhora foi capaz. 

Há outras situações incomparáveis na literatura de Saki, como a greve dos serviçais (A Omelete Bizantina), os apuros de um adolescente diante de rivais violentos (O Estrategista), a vaidade contraposta com o preço a ser pago pelo teatro social (O Tigre de Mrs. Packletide), a luta moral entre o desejo infantil e a selvageria adulta (Srendi Vashtar) e o horror – em grau absoluto – revelado sem filtros (Os Intrusos).

Em muitos momentos, as personagens de Saki ambicionam por um grau de pertença social que não se concretiza. Ao falhar em seus propósitos, o jogo das aparências, do faz-de-conta, se dilui. Tornam público o que há de mais nocivo em suas personalidades. E isso, além de ser inadequado, mostra o quanto o ser humano é patético. Impossível não rir com tamanho desacerto.

Saki (ou Hector Hugh Munro) continua atual, dolorosamente atual. Infelizmente, o humor que emana de seus contos raramente pode ser encontrado na atualidade. Talvez ele não seja um bom exemplo da literatura que se perdeu nas brumas do tempo. Talvez ele seja o reflexo da falta de prazer (de escrever, de ler) que habita o mundo contemporâneo.

Munro e sua família

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