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quarta-feira, 6 de maio de 2015

WHIPLASH

Jazz não é música para todo mundo, lamenta Andrew Neiman, protagonista de Whiplash – em busca da perfeição (Dir. Damien Chazelle, 2014), um dos melhores filmes sobre música nos últimos anos e vencedor, na edição de 2015, de três Oscar: Melhor Ator Coadjuvante – J. K. Simmons –, Melhor Montagem, Melhor Mixagem de Som. 

Andrew tem razão. O som bate-estaca e a falta de educação nas letras das canções substituíram o romantismo artístico e o bom gosto. A vala comum está soterrando a música que faz a diferença.

Tendo como cenário o Conservatório de Música Shaffer, onde os alunos mais ambiciosos torcem pelo erro dos outros músicos, o enredo de Whiplash está concentrado na luta pelo poder entre um aluno ambicioso e um professor sádico. Trata-se de uma versão do mito faustiano, a velha história do sujeito que vende a alma ao diabo para obter algo inatingível aos homens comuns. Contemporaneamente, a metáfora se mostra perfeitamente adequada, visto que somente os corajosos ou os idiotas conseguem resistir aos apelos (emocionais, psicológicos e publicitários) do mundo competitivo – aquele que proclama em voz alta que o segundo colocado em qualquer atividade é apenas o primeiro perdedor.

Andrew Neiman (Miles Teller) – como muitos jovens que desconhecem os perigos da vida adulta – mistura ingenuidade e audácia. Filho de um escritor mediano, sem mãe (que o abandonou quando criança), ele quer se tornar um excepcional baterista de jazz. Quer alcançar o nível de Buddy Rich, Jo Jones ou Max Roach. E, nessa caminhada, não se importa em sacrificar qualquer coisa – a autoestima, a namorada, o respeito familiar, o que for necessário. Essa  pretensão o leva a intermináveis horas de estudo, além de calos e feridas nas mãos. Em uma reunião de família, ao ser confrontado com o que lhe espera no futuro, declara, evocando Charlie Parker: Prefiro morrer bêbado e pobre aos 34 anos e falarem de mim à mesa a viver rico e sóbrio até os 90 anos e ninguém se lembrar de quem eu fui. Não há ambição humana mais esplêndida do que obter a imortalidade.     

Terence Fletcher (J. K. Simmons), dono de péssimo temperamento, não admite qualquer coisa além das que são de seu agrado. Sob a desculpa de que está contribuindo para encontrar o próximo gênio musical, não mede esforços para infernizar a vida de cada um dos seus alunos. A crueldade está presente a todo instante, sob a forma de ofensas verbais, agressão física e truques sórdidos (em determinado momento promove o revezamento de três bateristas, impedindo que cada um deles obtenha estabilidade emocional). Regendo a Studio Band, combatendo o jazz “fast-food”, se considera acima do bem e do mal.

Nessa atmosfera da obstinação, quando forças díspares e convergentes colidem, quando momentos de histeria e insanidade se multiplicam, a pressão gera stress. E erros. E erros costumam ser fatais em uma carreira competitiva. Em determinado momento, diante das dificuldades em estabelecer quem é genial e quem é genioso, não há como escapar das perdas. Neiman têm um colapso nervoso e deixa de tocar bateria, Fletcher é expulso da escola.

Alguns meses depois, no verão, ocorre o reencontro. Neiman descobre que Fletcher está tocando piano em um bar. Não consegue resistir e vai ver o antigo professor. Pela primeira vez, a conversa entre eles é civilizada. Na hora em que estão se despedindo, Fletcher convida Neiman para tocar na sua nova banda de jazz, em um festival que acontecerá em poucos dias.

A tragédia está ligada com nossas escolhas. O convite esconde uma cilada. Fletcher sabe que o depoimento de Neiman foi decisivo para o seu desligamento do Conservatório de Música Shaffer. E, de certa forma, quer reviver o ambiente de competição e mesquinharia que, em um passado não muito remoto, os uniu.

O restante da história está em um nível em que a vingança e a mediocridade são superadas por algo acima da iniquidade humana. A cena final apresenta um dos mais impressionantes solos de bateria já filmado pelo cinema. Talvez o som do chicote (whiplash) seja também o som da beleza musical. 




P.S.1) Há quem considere a bateria como um instrumento destinado a apenas marcar o ritmo. Esse é um dos maiores preconceitos musicais, típico de quem desconhece o mínimo necessário. 

P.S.2) Miles Teller toca bateria desde os quinze anos. Para participar de Whiplash teve aulas intensas de quatro horas por dias durante várias semanas. Parte do sangue nas baquetas é o seu. Ele tocou em 70% das cenas.


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