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terça-feira, 3 de setembro de 2013

VIDAS PROVISÓRIAS

A literatura brasileira morre de medo da ficção política. Aliás, evita – sempre que possível – se comprometer. Prefere trabalhar com temas mais amenos. Nos últimos dez anos foram publicados centenas de romancezinhos fúteis sobre a eterna crise que envolve o ser e o estar no mundo cor-de-rosa dos conflitos amorosos burgueses. Em compensação, dá para contar nos dedos (de uma mão) as narrativas centralizadas na época da ditadura militar (1964-1985).

Vidas Provisórias, de Edney Silvestre, navega na contramão. Sem temor de colocar em primeiro plano as sessões de torturas físicas e psicológicas promovidas pelos órgãos de repressão política, conta – simultaneamente – duas histórias de exílio. Aproveitando personagens que já haviam aparecido em seus dois romances anteriores, Paulo (um dos meninos que protagonizam Se Eu Fechar os Olhos Agora) e Bárbara (filha de Major, o motorista do publicitário em A Felicidade é Fácil), Edney Silvestre escava fundo em cerca de trinta anos da história recente do Brasil.

Em 1970, Paulo Roberto Antunes, estudante de direito, confundido com um participante de grupo armado contrário ao governo, consegue sobreviver às atrocidades promovidas pelos militares brasileiros, nos porões dos órgãos da repressão política. Um dos torturadores é o irmão, Capitão Antonio Molina – que, seguindo a mais nobre e honrosa tradição fraterna, odeia com fervor o outro filho de seu pai.

Em 1991, Bárbara Costa, no mesmo instante em que aceitou um passaporte falso argentino, trocou o sobrenome por Jannuzzi. Deixando para trás a história da morte de seu pai, a mãe, o padrasto e as dificuldades financeiras, viaja para Estados Unidos, na vã esperança de dias melhores. Sem falar o idioma, eternamente com medo do Departamento de Migração, aceita trabalhar como faxineira.

Como um farrapo humano, doente, sem perspectivas de voltar ao Brasil, Paulo segue o roteiro geográfico comum a diversos sobreviventes da ditadura (Paraguai, Chile, Argentina, Suécia). As cicatrizes físicas desapareceram com o tempo, mas as lembranças se eternizam na memória.


Em Nova Iorque, Bárbara encontra Silvio – outro brasileiro, mas que possui um motivo específico para não voltar para o Brasil, AIDS, o corpo corroído com voracidade pela morte. Além das relações trabalhistas, que separam patrão e empregada, eles desenvolvem uma relação de amizade bastante estreita. Em alguns momentos, Silvio, como se tivesse fazendo um balanço de sua vida, revela detalhes da história da vida privada. Não são histórias edificantes. A luxúria sexual, a ganancia econômica e a futilidade tomam conta da parte que lhe cabe no relato.

Em Estocolmo, Paulo, aos poucos, vai reconstruindo a própria identidade. Com a ajuda de Anna consegue cidadania sueca, um trabalho na Unesco e um filho, Edward – uma homenagem ao amigo de infância, Eduardo, que o acompanhou na aventura relatada em Se Eu Fechar os Olhos Agora. Mas, infelizmente, essa tranquilidade não se mantém. O passado costuma reaparecer nas horas mais impróprias. A visita do irmão, em 1976, reabre as feridas emocionais, colocando em suspensão a estabilidade.

Bárbara, depois da morte de Silvio, sobrevive como pode. A comunidade brasileira reflete o inimaginável (prostituição, violências físicas, descaso com quem precisa de ajuda). O 11 de setembro de 2001 torna muito pior a situação dos imigrantes ilegais. Todo cuidado é pouco. A vida provisória se torna ainda mais provisória.

A história de Paulo escorre com rapidez. O nascimento do segundo filho, Joseph (Jo-Jo), a mudança para o continente, muitas viagens em função do trabalho, o crescimento dos filhos. Tudo é descrito de forma acelerada, sem muitos detalhes, como se houvesse urgência em deixar para trás o passado.

Em dezembro de 2001, Edward (nascido em 1975) está em Nova Iorque. Por um desses acasos que somente a literatura consegue explicar, ocorre aquilo que Goethe chamou de afinidades eletivas. Ele se encontra com Bárbara (nascida em 1974). O circulo se fecha. De forma complicada, a história de Paulo se une com a história de Bárbara.

Vidas Provisórias é um romance ágil, embora aposte – em alguns momentos – na velocidade excessiva. Através da invenção ficcional, Edney Silvestre reinventa o horror, a tortura e a história de uma geração que precisou sobreviver à ditadura militar. Enfim, resgata parte do corpo brasileiro que foi amputada pela força das armas.

Estocolmo, capital da Suécia
P.S.: O projeto gráfico de Vidas Provisórias flerta com o extravagante. O desenvolvimento das duas histórias não precisava ser demarcado por páginas coloridas. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

DIGAM A SATÃ QUE O RECADO FOI ENTENDIDO

Seguindo a trilha esburacada da coleção Amores Expressos, Daniel Pellizzari, em Digam a Satã que o Recado foi Entendido, conseguiu dar várias demãos de tinta colorida na falta de graça de um projeto que nasceu prometendo qualidade e, depois de dez tentativas, ainda está em débito.

Pellizzari, simulando um desses mágicos de fraque e cartola, desvia atenção do público com algumas historinhas enquanto realiza o truque narrativo. Terminado a leitura, cabe a pergunta: como é que ele fez isso?

Qualquer um que queira usar a Irlanda ou, especificamente, Dublin como cenário precisa pagar tributo. Ou ser muito criativo. E isso tem uma explicação trivial: parte da mitologia literária mundial costuma passar férias na Irlanda. Em outras palavras, George Bernard Shaw, Oscar Wilde, James Joyce, Samuel Beckett, Colm Tóinbín, John Banville, entre outros, nunca esconderam ter nascido naquela ilha abandonada por Deus. Obviamente, esse álbum de figurinhas jamais ficará impune. Ou melhor, não pode ser amenizado pelo uso de suéteres verde e branco. Ou pelo ignorar que protestantes e católicos estão matando uns aos outros. O pagamento ocorre de outra maneira. E de forma muito mais cruel. Em poucos lugares do mundo o alcoolismo altera a substância da existência. May I have a pint of Guiness?

Como um par romântico, desses que estão – desde sempre – destinados um ao outro, o fracasso caminha de mãos dadas com o ridículo. Visão panorâmica das profundezas do inferno. O demônio se alimenta de gargalhadas. O tridente alfinetando a bunda dos tolos. Fornecendo historias e trapalhadas. Uma mais maluca que a outra.

Bartholomew (Barry, Bazza) O`Shaugnessy. Figurinha carimbada e politicamente incorreta. Em lugar de integrar o elenco de alguma ópera-bufa obscura, onde provavelmente seria indicado para algum prêmio mais obscuro ainda, protagoniza os eventos mais engraçados do romance. Como um dos sócios da agência de turismo especializada em roteiros mal assombrados, inventa fábulas, mitos e fantasias. Viajantes ávidos por emoções baratas gostam desse tipo de brincadeira. Pagam para serem enganados. Os maiores absurdos acompanham a farsa – o leitor, deliciado, segue as trapalhadas. Riso fácil.

Barry, natural da “República de Cork”, estereótipo intelectual dos torcedores do Corinthians. Linguagem cortante, agressiva, repleta de palavrões. Difícil abandonar o livro no trecho em que ele, em primeira pessoa, relata a vida que leva no casarão em que mora de favor com Stuart. A avó de Stuart, Aoife, também mora com os rapazes, provedora econômica de intermináveis dias e noites de orgias sexuais, bebidas, drogas e games. Esbórnia total. Geral. Stuart só gosta das feias. Barry fala muito e não come ninguém. A velha “parte dessa para uma melhor” no melhor estilo pastelão. Ponto alto da narrativa, puro escracho, trapalhada grotesca.

Na outro lado da confusão, Magnus Factor. Oscilando entre os corpos da eslovena Stefanija e da adolescente irlandesa Laura, o “fator máximo” não consegue encontrar os acordes musicais capazes de desatar os nós emocionais que amarrou em torno de si mesmo. Tanto que inicia e termina o livro sem saber qual é o seu sabor preferido de milk-shake. Esse tipo de indecisão não atrapalha a falta de coerência que o orienta. Nas horas vagas, iluminado pelo desatino e por Laura, trava um leve flerte com um grupo de guerrilha poética, bando de malucos que saqueiam cemitérios, armam bombas em bares e restaurantes e, como compete aos perdedores, não conhecem as distinções entre a intervenção política e o terrorismo.

A imaginação não conhece limites. Percebe-se a correção dessa afirmativa ao ler os depoimentos extravagantes dos diversos personagens, histórias fragmentadas que unem as múltiplas pontas com comedimento, em tom de comédia e refletem a globalização – epidemia que se esparrama entre as mais diferentes nacionalidades possíveis, russos, brasileiros, ingleses, polacos e filhos naturais da Ilha Maurício. O mundo marcando encontro nas ruas de Dublin com os exilados econômicos, gente que não tem onde cair morto, tomando de assalto os pubs, brincando de esconder entre os pelos púbicos de quem quiser se divertir gostoso. Fato que, obviamente, não constitui impedimento contra pequenos incidentes sexuais, brochadas épicas ou surpresas como a do adolescente Glen Heaney, conhecido como Patricia, item desestabilizador dos planos do bruxo Demetrius Vindaloo, que necessitava de uma fêmea para poder ressuscitar o deus-serpente dos Celtas.

Farra, farsa, narrativa a-pós-o-moderno – pouca importa o rotulo ou a nódoa. Digam a Satã que o Recado foi Entendido, de Daniel Pellizzari, prova – de forma inconteste – que ainda há esperança para a literatura brasileira. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A MORTE COMO EFEITO COLATERAL

O Brasil desconhece a literatura da Argentina. Frequentemente, fazemos questão de ignorar nuestros hermanos – exceto aqueles que conquistaram um lugar no Olimpo literário: Jorge Luís Borges, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, Macedonio Fernández. Algumas vezes, não muitas, aceitamos que há um mínimo de talento em meia dúzia de semideuses: Ricardo Piglia, Martín Kohan, Alan Pauls, Juan José Saer, Mempo Giardinelli e Cesar Aira. Como se fossem filhos de um vizinho que brigou com nossos pais, fazemos de conta que os demais não existem. Na pior das hipóteses, talvez por apresentarem a face criminal dos filhos bastardos, em inconteste ato de generosidade verde-anil, cabe-nos fornecer abrigo para escritores do nível de Tomás Eloy Martinez, Rodrigo Fresán e Rodolfo Fogwill. Raríssimas vezes alguém se lembra de Osvaldo Soriano, talvez o mais divertido de todos os escritores argentinos. Alguns anos atrás, por força do marketing e da cegueira masculina, uma legião declarou adoração por Pola Oloixarac – esquecendo que a beleza é transitória, ao contrário do talento.

Nesse ritmo um pouco desafinado, que não se decide por samba, tango ou jazz, Ana María Shua está destinada à exclusão. Um de seus romances, A Morte como Efeito Colateral, foi publicado no Brasil em 2004. Passou completamente despercebido.
Ana Mária Shua

Ernesto (Eni) Kollody assiste a lenta morte do pai. Câncer no intestino. Temporada no hospital, várias cirurgias, pós-operatórios dilacerantes. Em um lugar não tão secreto do meu coração, eu desejei para papai uma morte muito doce, e nem por isso me senti culpado. O fim de tudo, a tranquilidade desejada, não acontece. Ao contrário, a vida se estende por muito tempo, uma eternidade retratada em 208 páginas, sem economizar detalhes ou sentimentos. Não é fácil para Eni aceitar que a história humana funciona em outro diapasão, diferente daquele que tinha sido imaginado. Essa falha nos planos multiplica os elementos desencontrados do enredo. Alguns bastante desagradáveis. O fracasso possui razoável nitidez, principalmente quando, depois de tantos anos, confrontado com a força paterna reflete aquilo que costuma ser negado com veemência.  Estou próximo demais da velhice para pensar na morte – em qualquer morte – apenas como alívio. Tenho medo.

Buenos Aires. Futuro não muito distante. Mundo apocalíptico. Classes econômicas em constante atrito. Ricos escondidos em condomínios fechados. Vivendo em separado dos pobres – que a todo instante saem às ruas para morrer pelo que nunca terão. A violência, amparada pelas drogas e a ausência do Estado, insufla a barbárie – uma palavra que causa calafrios mesmo antes de ser pronunciada.

Personagem-narrador, Eni dirige o seu relato para uma mulher ausente. O monólogo interior disfarçado como se fosse uma longa carta, entrecortada por capítulos, reflete as sutilezas que devoram o discurso. A descrição pretérita supera os momentos de ação. As pausas no ritmo permitem a respiração, um golpe astuto para não sufocar o leitor com tamanha angústia. A proposta filosófica do pensar e falar se destaca e adquire relevância mais significativa do que o fazer. Assim era o nosso contato: a paixão era sua, os excessos emocionais; a mim correspondia certa frieza sorridente, uma calma de esgrima intelectual que me permitia observar seus flancos descobertos, e poderia ter me conduzido à estocada definitiva se não fosse porque, de repente, por uma hábil torção de discurso, seu entusiasmo fazia voar as palavras-espadas pelo ar e já não era esgrima, mas uma luta de corpo a corpo na qual você sempre ganhava.

Eni, ao mesmo tempo em que descreve a tirania patriarcal, a demência da mãe, a ausência de maturidade da irmã, vai tecendo a história da decadência familiar. Com afirmações contundentes, essa espécie de boneca enrugada, como um trapo mal passado, de cor amarelada e olhos desesperados, que tinha sido nossa mãe, estabelece o andamento sem comiseração do seu relato. Quer transmitir a quem endereça o seu texto o máximo de “verdade” que seja possível. 

Maquiador profissional, Eni está escrevendo um roteiro de cinema. Quem o contratou foi Goransky – um milionário que vive imerso em seu próprio mundo de ficção, entre as imagens dos seus sonhos. Ou seja, um sujeito que se realiza intelectualmente no cinema que nunca filmará. Mas que se diverte imaginando essa possibilidade. É através do imobilismo que imagina filmes de aventuras, romances, ficções científicas – todos situados na Antártida. O roteiro, peça mutante, que nunca assume forma objetiva, instrumentaliza a brincadeira.

Meu pai cheira a merda. Entre os odores medicinais e antissépticos, odores perfumosos, da Unidade de Terapia Intensiva, é possível sentir um suave rastro que vai se acentuando ao se aproximar de sua cama. No mundo das sensações, a morte se apresenta de maneiras diferentes. Talvez a mais cruel seja a que chamamos “vida”. Sofrimento, reclamações, desgostos e suplícios se misturam em proporções desiguais. Contra isso não há nenhum anestésico. A partir de certa idade, de certo grau de invalidez, a verdadeira prisão é o corpo e qualquer outro confinamento não é nada mais que uma compensação menor.

Quando o pai pede para morrer em casa, Eni – por alguma razão pouco plausível ou por desejo de vingança inconsciente – resolve sequestrá-lo da Casa de Repouso. Quer oferecer uma morte digna ao velho torturador. A sequência dos eventos mostra que – mais uma vez – nada ocorre como planejado. De qualquer forma, uma metáfora significativa da degradação humana.

A Morte como Efeito Colateral, exercício técnico de romance realista, apresenta uma surpresa a cada página. E todas – as surpresas e as páginas – são ótimas. O que significa dizer – embora isso nada queira dizer – que o patético, assim como o humor negro, acompanha a morte.



TRECHO ESCOLHIDO


Em meu desespero de compartilhar cm você tudo o que nos era possível compartilhar, falei muitas vezes do meu pai. Você me ouvia sem me escutar, sem impaciência entretanto, e eu nunca consegui adivinhar se você ficava entediada. Em compensação, eu me precipitava sobre cada resto, cada vaga palavra dita por você que pudesse me dar mais informações sobre sua vida, seus gostos, sua história. Saber, por exemplo, que você sempre, desde muito nova, odiou a cor verde foi um dado surpreendente. Cada vez que escolhia um presente para você, nosso segredo me obrigava a refletir sobre sua personalidade: meus presentes clandestinos tinham que passar por escolhas suas. Era fácil presenteá-la com livros, discos, vídeos de clássicos do cinema ou desses filmes velhos e ruins que por algum motivo nós dois recordávamos e que eu sabia como conseguir. Mas às vezes eu precisava dar-lhe um presente que me levasse mais para perto do seu corpo. Eu me decidia, então, por uma echarpe, um cinto, uma camisa de seda de qualquer cor, desejando que você apreciasse com quanta intensidade eu evitava o verde.

Eu falei muitas vezes do meu pai, mas as palavras impõem limites. É preciso ter participado – por engano ou interesse – nos jogos que meu pai propõe, e nos quais só ele ganha, para entender certas estruturas da realidade que a linguagem não pode imitar. Falei demais: era lógico que o poder dele sobre mim aguçava sua curiosidade. Descansando com sua cabeça sobre meu ombro e um meio sorriso distraído, você me escutava muito mais e muito melhor do que eu nunca me atrevi a desejar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

MEU CORAÇÃO DE PEDRA-POMES

Wanda Escapulária, 19 anos, coração puro como o gelo, adora sexo. Autointitulada Lawanda (pronúncia correta: Laúanda; pronúncia errada: Lavanda), imagina que o encontro entre uma vagina bem lubrificada e um pau duro resulta em fortuna, beleza, gozo. Sabe que viver está relacionado com o usufruir desse doce suplício. Tanto que diz: caminho rebolando, como qualquer mulher que aceitaria ser infeliz para sempre por ser bem penetrada. Sem remorsos, sem responsabilidades, sem pecados ou beijos gelados. Prefere os molhados – saliva, excitação, arrepios. Sempre restará como alternativa, nos momentos de crise afetiva ou econômica, trabalhar em um bordel.

Meu Coração de Pedra-Pomes não é romance pornográfico. Enganou-se quem pensou tal bobagem. Com o narizinho empinado de princesa etrusca, desbocada, sem papas na língua, que a língua está reservada para outras utilidades, outros sabores, Lawanda não conjuga corretamente as inúmeras declinações do erotismo comercial. Principalmente naqueles momentos em que arremessa engraçados coquetéis Molotov nas 109 páginas em que protagoniza e ironiza os cinquenta tons de fruição literária. Meu coração é um bandido, até a mim tem traído, deixa escapar em momento sentimental. Foda-se quem aposta nas boas maneiras e no processo civilizatório. Que vá para a puta que o pariu quem imagina que primeiras, segundas, terceiras impressões, fantasias, miragens, utopias, significam alguma coisa.

A matéria humana, carne e ossos, cérebro e alma, exige calma em qualquer hora. Mesmo quando percebe que Há certas manias incompartilháveis. Adeus socialismo barato. Hello, glamour! Poética imagem. Segredinho particular. Sem romance as pessoas se tornam esquecíveis. Para ser lembrado nesse vale de lágrimas urge desfilar pelas passarelas carcomidas da futilidade burguesa.

Foda mal dada é um perigo para o humor, explica Lawanda, aquela que adora ser arregaçada por José Júnior, o amante adúltero que a faz gozar com fúria bíblica. Quando ele me come de quatro, pode ver suas pendências. Depois de gozar, chora e jura voltar para a mulher original sem pecado capital. Os homens são todos iguais – embora diferentes.

Lawanda, aquela que perdeu as chaves, a carteira, o relógio. Tudo, menos a razão, talvez esteja internada no hospital, um lugar que tem um cheiro de vidas infelizes de cinema e onde, por diversos motivos, os doentes param seus gemidos e reclamos e assistem, incrédulos, ao (...) espetáculo. Trabalha como faxineira. Esfregão, balde d’água, desinfetante. O chão brilhando. Como exige Lucrécia, a cruel chefe do serviço de limpeza.

Nas horas vagas, Lawanda exerce a mui digna e rentável profissão de contrabandista. Frango à passarinho, batatinha, refrigerante. Algumas vezes fornece salvo-conduto para visitas furtivas, fugas líricas, danças antes da meia-noite. O cliente, ou melhor, o doente (particular ou terminal) solicita e é atendido. Serviço profissional. Feito por uma amadora. A irresistível vontade de trocar amor por muitos dinheiros. Breve resumo da merda que, em dias melhores, chamo de vida.

Ando pelos corredores fazendo carinho no corrimão, bem devagar, como se ele fosse um bicho manso. O bombom humor recheado de surpresas derretendo na boca como um convite ao pecado. Durante as madrugadas, nos quartos da casa de saúde, acontecem situações mirabolantes, encantadores delitos, fábulas apocalípticas. Poucos percebem a nuance. É triste quando temos nossa vida para cuidar e perdemos a dos outros.

Alucinações, rompimento amoroso, demissão do emprego, sequestro de seus besouros de estimação, despejo da casa da fanática religiosa Vandercília – complicações e mais complicações. Um vendaval de confusões. Perda de foco, imagens embaralhadas, capítulos escandalosos de novela, vida de artista, lance surrealista. Será que Lawanda continua se recusando a tomar os remédios? Será que adicionou nas traquinagens diárias uma coleção de alucinações persecutórias? Gosto dos escritores. Eles não têm culpa dos seus delírios. Por fim, enfim, o desentendimento com o policial: Devo me lembrar de adicionar no meu balanço elegíaco essa nova tragédia.


Lawanda: alegria de quem dança na chuva e não seca o céu.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O ANJO ESMERALDA: EXERCÍCIOS DE VIOLÊNCIA



Leon Zhelezniak, ciente de que Os dias eram todos iguais; os filmes, não, gasta a vida e as esperanças dentro das salas de cinema. Três, quatro, cinco sessões por dia. Em algum momento impreciso, há um desvio de rota. Leo (é assim que sua companheira, Flory, o chama) descobre – como se fosse o reflexo de um espelho – que outras pessoas também vão ao cinema com frequência. Uma mulher se destaca na multidão. Alterado o ordenamento obsessivo, Leo começa a persegui-la. Vai aos filmes que ela escolhe, senta perto, quer estar perto dela, quer entender porque ela vai ao cinema. Um dia, dentro do banheiro feminino, conversam. Ou melhor, se separam. Certos filmes não comportam finais felizes.

A Famélica, um dos nove contos da coletânea O Anjo Esmeralda, de Don DeLillo, descreve o desespero tranquilo de Leo, que, na beira do precipício emocional, está prestes a pular na direção do desconhecido. Entre o real e o imaginário sobram poucas escolhas. Esse também é entendimento das irmãs de caridade Edgar e Grace, personagens do conto homônimo ao título do livro e que se refere a uma situação peculiar: a vida marginalizada das crianças nas periferias urbanas. Enfrentando os múltiplos perigos, ladrões, traficantes, estupradores, cabe ajudar. Ajudar ao Outro, mesmo que à força, como quer irmã Grace. Ajudar ao Outro, com doçura, como quer Irmã Edgar. Nos dois casos, a vida foge pelo vão dos dedos. Outro grafite irá decorar o muro das lamentações na periferia de uma grande cidade. A salvação humana não depende de boas intenções. Ou de pequenos milagres – tábua de salvação para almas corroídas pela brutalidade.

A barbárie humana está visível nas pinturas sobre a morte de Ulrike Meinhof e Andreas Baader. Nesse cenário, composto por tristeza incontida, ausência de entendimento, perplexidade, o encontro amoroso que não se completa. Não se trata de um corpo em contato físico com outro corpo. Prazeres circunstanciais são insuficientes para delimitar a vida e as promessas vazias que a agasalham. A solidão se alimenta de momentos truncados, ausências, pequenas tragédias, banalidades imperfeitas. Situação difícil de aceitar. Impossível acertar o tom desse drama que se repete a cada instante, agulhada na carne, dor intensa.

Os valores do capitalismo (poder econômico, ausência de escrúpulos, mercantilização sexual) se expõem em Criação. Casal em férias não consegue voltar para casa. Momento repleto de mal-entendidos e apetites insuspeitos. Traição amorosa. A vida de vários personagens se fragmentando. Como cobras que trocam de pele, deixam destroços pelo chão, vestígios do que se perdeu.

Nos nove contos de O Anjo Esmeralda os sentimentos são substituídos pela aridez. Não há envolvimento. O distanciamento narrativo incomoda – é o efeito desejado, marca registrada da boa literatura.


Don DeLillo, um dos mais importantes escritores estadunidenses, escreveu Submundo, Ruído Branco, Cosmópolis, Os Nomes, Homem em Queda, entre outros romances de incontestável qualidade.

 

TRECHO ESCOLHIDO

Flory tinha opiniões a respeito da vocação de Leo. Naqueles primeiros anos, entre um e outro trabalho como atriz, locutora, vendedora e passeadora de cachorro, de vez em quando ela o acompanhava, às vezes três filmes no mesmo dia, até mesmo quatro, a novidade daquilo, a loucura inspirada da coisa. Um filme pode ser prejudicado pela pessoa que está assistindo conosco, ali no escuro, um efeito cascata, a cada sequência, a cada tomada de cena. Ambos sabiam disso. Sabiam também que Flory não faria nada que comprometesse a integridade do projeto dele – nada de cochichos, cutucadas, sacos de pipoca. Mas ela não exagerava sua consciência de premeditação cuidadosa. Não era uma pessoa banal. Compreendia que ele não estava transformando um entretenimento rotineiro numa espécie de obsessão infernal.

O quê, então, ele estava fazendo?

Flory propunha teorias. Ele era um asceta, dizia ela. Essa era uma das teorias. Haveria algo de santo e louco em seu empreendimento, um toque de abnegação, de penitencia. Ficar sentado no escuro reverenciando imagens. Os pais dele eram católicos? Os avós dele iam à missa todo dia, antes do raiar do dia, em alguma aldeia nos Cárpatos, e ficavam repetindo as palavras de um padre com uma longa barba branca e um manto dourado? Onde ficavam mesmo os Cárpatos? Flory falava tarde da noite, normalmente na cama, os corpos em repouso, e ele gostava de ouvir essas ideias. Eram ficções impecáveis, sem que ela fizesse nenhuma tentativa de saber de que modo ele via a situação. Talvez ela soubesse que era algo que teria de sair pelos poros, mais uma febre na pele do que o produto de uma mente consciente.

Ou então Leo era um homem que estava fugindo do passado. Ele precisava dissipar em sonhos uma lembrança lúgubre da infância, alguma desventura da adolescência. Os filmes são sonhos que temos acordados – devaneios, dizia ela, uma proteção contra o coice daquela maldição antiga, aquela praga. Flory parecia estar recitando as falas de uma remontagem desastrosa de uma peça que outrora fizera sucesso. O som terno de sua voz, o faz de conta que ela conseguia desenvolver, por vezes perturbava Leo, que começava a sentir uma ereção a zumbir por baixo das cobertas.

Ele estava no cinema para ver um filme, perguntava ela, ou talvez, de modo mais restrito, mais essencial, apenas para estar no cinema?