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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

CORAÇÃO


O coração não se aposenta. Coleciona cicatrizes.

Embriagados pelas promessas românticas que povoam o imaginário inventado no século XIX, os amantes embrulham em papel de presente as mais doces mentiras.

Paixões antigas, novas, próximas, distantes, violentas, tranqüilas, ciumentas, ausentes. As ilusões se repetem mil vezes em mil variações diferentes. O imprevisível brincando de se esconder entre clichês e aflição.

Alguns casais não percebem que estão desperdiçando a sorte que saquearam do mundo. A insanidade oposta à aposta do bom−senso. Todas as historias estão à beira do abismo. Anunciando discussão, desentendimento, ruptura, separação. Quatro aprendizados e um conflito. O amor se confunde com a impossibilidade de respirar.

Ficar olhando, enquanto você passa – sem pressa − pela calçada, no outro lado da rua. O vestido longo, florido, desses que ficam justos nos quadris. Deslizando contra o vento. Os olhos ocultos atrás dos óculos de sol. O sorriso de quem está prestes a cometer outro crime. A forma esguia do pescoço, a fileira de pérolas escorrendo na direção dos seios. Fechar os olhos. Deixar a imagem se dissolver. Como se fosse alucinação.

Os apetites escondidos por baixo das roupas. Quero brincar com o teu corpo e mais nada. Liturgia medieval anunciando o efêmero (subversivo e corruptor) escorrer do desejo (sofrimento e umidade) escondido entre as trompas de Eustáquio (alaridos e sevícias) e de Falópio (sabores e delícias). A vida transformada em templo (tempo de consagração e conversão). A felicidade caminha na direção do deslumbramento. Para dentro de você. Como um poeta − que acaricia a sua amada com palavras.

O coração não se aposenta. Deixa de bater.


(Reproduções de pinturas do artista plástico inglês David Hockney)

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