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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

COMO FUNCIONA A FICÇÃO

A crítica literária é uma atividade intelectual difícil. Requer imaginação, talento e muito conhecimento (específico e geral). Quem lê um livro e escreve 500 palavras, elogiando-o ou jogando-o na lata de lixo mais próxima, está escrevendo uma resenha ou se divertindo. Isso está ao alcance de qualquer um (qualquer um!). A crítica literária deve (deveria, deverá) levar a discussão para outro nível. Conduz (conduziu, conduzirá) ao amadurecimento intelectual. Do crítico e/ou do leitor.

Toda vez que alguém lê um texto de, por exemplo, Antonio Candido, Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Luiz Costa Lima ou Leyla Perrone-Moisés, para ficarmos nos brasileiros mais significativos, descontadas as idiossincrasias e antipatias afetivas, há aprendizado. Eles, os críticos, sempre conseguem ver algo que faz a diferença, que escapou ao olhar comum. E esse compartilhamento da experiência intelectual ilumina a leitura com tamanha intensidade que motiva outras leituras, outros diálogos.

Ao mesmo tempo, a crítica literária é o reino dos estraga-prazeres. Alguns profissionais dessa “arte” gozam (sexualmente?) quando assumem a persona daqueles sujeitos que, em um espetáculo de mágica, denunciam a fraude do artista. Ou seja, revelam os mecanismos que possibilitam a realização dos truques. E, como ninguém pode negar, a literatura está repleta de prestidigitação, de macetes, de fórmulas prontas. Semelhante a muitas questões sociais, resta saber se o leitor quer continuar crédulo ou se quer destruir as ilusões.

Como Funciona a Ficção, livro escrito pelo inglês James Wood, está no lado negro da força. Sem muitos escrúpulos, Wood não se furta em usar a linguagem mais impactante para mostrar o que a ficção não é uma brincadeira de faz-de-conta. Talvez seja por isso que escreveu um texto que não está destinado ao leitor de romances de entretenimento. Seu público-alvo é outro: profissionais da crítica literária, professores de Teoria da Literatura, além de todos aqueles que acreditam que os livros compõem uma porção da grandeza do mundo.

Partindo de temas complicados como personagens, narradores, metáforas e foco narrativo, Wood vai tecendo uma rede de informações muito instrutivas, pedagógicas. Mas que precisam de um mínimo de informações básicas para serem entendidas. Saber o quê e do quê ele está escrevendo é a diferença entre o inferno e o paraíso. Quem não leu Uma Casa para o Sr. Biswas (V. S. Naipaul) ou Educação Sentimental (Gustave Flaubert), para ficar com dois casos básicos, provavelmente terá dificuldades para perceber a extensão das teses defendidas pelo teórico inglês. 

Um momento importante do livro está no capítulo em que discorda frontalmente do lugar ocupado no enredo por personagens planos e esféricos (de acordo com a célebre classificação proposta por E. M. Forster, em Aspectos do Romance, 1927). Wood estabelece um novo referencial de análise. Não é a tipologia (ou o “acabamento” descritivo) que determina a importância do personagem. Tampouco personagens são construções literárias que precisam, necessariamente, espelhar o “real”. Embora isso pareça simples, poucos percebem a obviedade. Parte deste embotamento intelectual talvez esteja relacionado com o pacto ficcional (acordo tácito – e artificial – que o leitor estabelece com o texto ao iniciar a leitura. Alguma coisa semelhante como: eu aceito que o lobo fale, mas exijo que ele me divirta).


Nesse aspecto, a discussão no capítulo final sobre a validade do realismo como referencial para a literatura contemporânea constitui uma lição de grande valor teórico. Qualquer indivíduo que tenha como pretensão trafegar pela literatura, precisa lembrar que (...) o escritor tem de agir como se os métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções, e por isso ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. O verdadeiro escritor, aquele livre servidor da vida, precisa sempre agir como se a vida fosse uma categoria mais além de qualquer coisa já captada pelo romance, como se a própria vida sempre estivesse à beira de se tornar convencional.

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