Chuva. Meio da noite. Depois de uma viagem de mais de três horas, chuva.
Quando o ônibus chegou à rodoviária, apesar do mau tempo, considerou a possibilidade de caminhar até em casa. E essa alternativa adquiriu solidez quando olhou o cenário: as cabinas telefônicas, os guichês fechados das empresas rodoviárias, o olhar esperançoso dos motoristas de taxi, a lanchonete (deprimente e suja).
Saiu do prédio e, segurando a mala, iniciou a jornada.
Com a água a escorrer pelo rosto, colocou os óculos no bolso da camisa molhada. Os vários graus de miopia o fizeram sentir um ligeiro mal−estar. Percebeu que a partir daquele momento até que chegasse a seu destino, somente conseguiria ver imagens embaçadas, desfocadas.
Passou a mão nos cabelos e na face, na vã tentativa de enxugar o cansaço.
A avenida estava deserta, como se fosse alguma espécie de anuncio publicitário do silêncio urbano. Em vinte minutos de caminhada, ultrapassou dezenas de postes da iluminação pública, que se multiplicavam exponencialmente na noite.
Em intervalos irregulares, vários carros deslizaram pela rua, desenhando a solidão entre poças d’água.
Na primeira esquina, dobrou à direita. Seguiu em frente por quatro ou cinco quadras. Depois, dobrou novamente à direita. Passou mais um carro, o rádio ligado em alto volume.
Diante do colégio, cumprimentou o guarda−noturno e recebeu um seco "boa noite" em resposta. Na esquina seguinte, uma viatura da polícia se perdeu na névoa e na distância.
A umidade começou a incomodar, o frio invadindo o corpo, um leve tremor. Pensou no quanto, naquele instante, seria bom tomar uma xícara de chá ou uma taça de vinho. Doces ilusões custam caro, filosofou enquanto levava a mão molhada, outra vez, aos cabelos, como se isso fosse necessário para diminuir o desconforto.
Vários relâmpagos riscaram o céu vitrificado pelo temporal. Trovões. Dobrou à esquerda. Sem dar trégua, a chuva continuava intensa. Atravessou a rua. Desceu a ladeira. Contornou a praça. Caminhou uns 500 metros. Espirrou.
Em frente ao prédio em que mora, um alívio que não era alívio. Retirou do bolso o molho de chaves, abriu a porta do hall e entrou no edifício. Subiu pela escada os oito andares. Abriu a porta do apartamento e, nesse momento, sentiu uma vontade incontrolável de chorar.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
ARTES E PERIPÉCIAS DO ILUSTRE E MUI ARDILOSO MORÔ
Cezarino José Ramos era um personagem de Federico Fellini. Tinha os olhos oblíquos, o corpo ligeiramente curvado e uma aposentadoria do INSS. Era um pouco gordo e nunca foi considerado um dos dez mais elegantes de Planalto Catarinense − embora jamais tivesse se preocupado com essas futilidades. O seu mundo era outro. De que importam smokings, summers, blaisers, colunas sociais e outras bobagens para um homem que teve como ocupação profissional mais importante vender rifas?
Conta a lenda que, quando chegou a Lages, aos 14 anos, vindo de Correia Pinto, tinha muitas dificuldades para articular os sons. Normalmente só conseguia balbuciar um "ô lôco!", que funcionava para exprimir todas as categorias gramaticais, além das suas emoções. Esse desajeito era a sua maneira de se comunicar com o mundo. Depois, com o passar do tempo, foi aprendendo os fonemas, distinguindo os significados, estabelecendo comparações, musicando as frases. Na escola da vida, aprendeu as noções básicas de fonoaudiologia, linguística e semiótica. Mesmo assim tinha a voz arrastada, difícil de ser entendida.
Quando as pessoas queriam saber se ele havia compreendido alguma coisa, perguntavam, usando uma expressão corrente da época: "Morô?". A resposta era imediata: "Morô!". E nesse ping−pong surreal o apelido acabou se estabelecendo. A partir desse instante, Cezarino se transformou em Morô. E isso está tão enraizado no inconsciente coletivo dos serranos quanto o amor de Cezarino, digo, de Morô, pelo Vasco da Gama.
Sim, ele viveu uma paixão sofrida e ardente pelo time de futebol do seu coração. Era um sentimento obsessivo. Quando o Vasco esteve em Lages, em 1976, para um amistoso, Morô correu pelas ruas da cidade atrás do ônibus da delegação. No hotel, com o rosto molhado pela alegria, fez vigília. No campo, durante o jogo (vestido a caráter: calção, camiseta, chuteira), vibrou tanto com o 2 x 1 do seu time contra a equipe local, o Internacional, que a cada gol vascaíno deu uma volta olímpica pelo estádio. Há quem diga que foi o seu momento de glória – para espanto dos principais jogadores da equipe cruzmaltina: Mazzaropi, Roberto Dinamite, Ramon e Abel.
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| (da direita para a esquerda: Morô, João Carlos Leão, Roberto Dinamite, Servílio Ferreira e Luís Carlos Xavier). Arquivo de Fernando Leão. |
Durante muitos anos, perdeu a paciência com a cartolagem do Vasco. Com uma letra redonda e um pensamento absolutamente límpido (se é que isso é possível quando o assunto é futebol) escrevia longas cartas à diretoria do clube, sugerindo mudanças no plantel ou a troca de alguns integrantes da comissão técnica (inclusive o treinador). Enfim, manifestava o seu descontentamento.
Quem está na chuva acaba molhado. Então, vez ou outra, recebia respostas falsas do Vasco. Alguns conhecidos, envoltos em pura sacanagem, montavam o cenário teatral. Quando Morô descobria a trapaça, a ira tomava conta do ambiente. Mas isso era raro. Inclusive porque ele aprendeu a conviver com essas brincadeiras.
Outras coisas ele nunca conseguiu esquecer. E isso significou o atropelamento do destino, na estrada dos sonhos desfeitos. Torcedor fanático, costumava tratar como inimigos todos aqueles que se mostravam contrários ao Vasco. Comentários sem pretensões se transformavam em ofensas gravíssimas. O comerciante João Daniel Duara amargou muitos prejuízos em uma dessas historias. Alguns "corneteiros−de−plantão" inventaram que ele era feiticeiro e que estava fazendo um "trabalho" contra a equipe cruzmaltina. O Galáxie do comerciante apareceu todo riscado. Algum tempo depois, um vândalo começou a agir toda noite, quebrando os vidros de sua banca de revistas. Daniel resolveu fazer "uma espera". Confirmou o que era mais do que uma simples suspeita. Morô foi apanhado em flagrante. Alegou "legítima defesa", estava defendendo a honra do Vasco.
Mas nem só do Vasco viveu Morô. O seu ganha−pão era a chamada "rifa eterna". Eterna? Pois é, houve quem dissesse que era sempre a mesma. Intrigas da oposição, óbvio. O que nunca foi possível negar é que... havia algo de estranho nessa história toda. Sem profissão definida, com dificuldades motoras (uma vez tentou ser auxiliar de cozinha – não deu certo), Cezarino optou por fazer pequenos trabalhos que lhe pudessem render alguns trocados. Com o passar do tempo, entrou no ramo das loterias. Primeiro, bilhetes da Federal; depois, pequenas rifas. Com habilidade matemática razoável, percebeu que as rifas eram mais rentáveis. Tornou−se um profissional do ramo. O único problema é que... dá para contar nos dedos (de uma das mãos) os ganhadores conhecidos. No entanto, como garantia o comerciante Walter Gill de Souza, isso não era de todo verdade: "Ele entregava, sim". E acrescentava, logo em seguida: "Desde que fosse conveniente".
De qualquer forma, existem pelo menos dois casos públicos e notórios de pessoas que receberam os prêmios. Um deles é o advogado Jorge Barroso Filho. Conhecido pelo seu mau humor cáustico, Barroso, em determinada oportunidade, assinou uns dois números de uma das rifas. Sem a mínima intenção filantrópica, ele queria, na verdade, se "livrar" da presença incomoda e indesejada de Morô. Além disso, o prêmio era insignificante: uma galinha assada – que era carregada, prá lá e pra cá, debaixo do braço, como se fosse um troféu. Não valia a pena se incomodar com o resultado. No entanto, para surpresa do advogado, na manhã seguinte, o nosso herói bateu em sua porta. Queria cumprimentar o ganhador e entregar o prêmio. Barroso tentou recusar a honra. Irredutível, Morô passou o prêmio às mãos do advogado, que ficou com a galinha ensebada nas mãos, sem saber o que fazer.
Em outra oportunidade, o caso foi diferente. O comerciante João Daniel Duara estava passando por situação financeira muito ruim. Praticamente falido, não tinha dinheiro nem para o cafezinho. Inclusive, estava pensando em ir morar em outra cidade – pelo menos até a maré de azar passar. Inesperadamente recebeu a notícia que havia ganhado uma enorme cesta de natal. "Deve ser um presente dos céus", comentou com um amigo. Só poderia ser: ninguém ganha alguma coisa sem jogar. Na duvida foi até a loja em que a cesta estava exposta e fez questão de receber o prêmio – que foi doado para os velhinhos do Asilo Vicentino, logo em seguida.
A moral dessa história surgiu logo depois: informado que Daniel estava viajando, Morô "deu um jeito" para que o comerciante fosse o vencedor. Assim, faria uma "média" e diminuiria o boato de que ninguém recebia os prêmios das rifas que promovia. Era um plano simples e baseado em lógica elementar: alguns dias mais tarde, em virtude do não comparecimento do ganhador do premio para reclamar o ganho, Morô iria confiscar a cesta e, em seguida, promover nova sessão de apostas. Fácil como roubar doce de criança. O único senão foi que Daniel voltou mais cedo da viagem e... estragou a festa.
Pequenas travessuras. Coisas menores. Artimanhas da sobrevivência. Alguma forma maluca, provavelmente inconsciente, de dizer: "tudo é permitido, se for divertido".
No outro extremo da idiossincrasia humana, Morô era um homem supersticioso, influenciável e cheio de manias. Entre outras coisas, não tolerava que fizessem o sinal da cruz nas suas costas. "Dá azar", reclamava candidamente.
Muitas vezes se comportava como criança grande. O barbeiro Waldir Buck, o "Perereca", lembrava de episódio ocorrido alguns anos antes. Morô foi desafiado, em uma "prova de coragem", pelo comerciante Mauro Rodolfo, proprietário do restaurante Rei do Frango – que, na época, era localizado no centro da cidade. Fizeram uma aposta. O resultado desse jogo foi o seguinte: dissimulado e um pouco sem jeito, Morô entrou no Salão Irmãos Buck, sentou em um banco e ficou a olhar para o teto, como quem não quer nada. No momento que sentiu que ninguém estava prestando atenção, retirou do bolso centenas de tampinhas de garrafa e as jogou pelo chão, causando espanto e riso em todos os presentes. Ato contínuo: fugiu correndo, às gargalhadas.
E assim, no meio do caos urbano, Morô atravessava os dias e o folclore. Caminhando pelas ruas, com uma cartela de rifa nas mãos, poderia ser encontrado nos locais mais estranhos e absurdos da cidade. Da "zona" ao Coral, passando pelo Morro do Posto, Brusque, Vila Nova, Copacabana, Aeroporto Velho, Santa Helena, calçadão – nada era limite para esse andarilho que muitas vezes foi chamado de "mendigo sofisticado".
Muitos sociólogos sem diploma fizeram a seguinte análise: essa história de vender rifa (que ninguém ganha) nada mais era que uma maneira muito particular de pedir ajuda financeira, sem precisar "pedir" de fato. Pode ser. Pode não ser. Isso nunca foi importante. Pelo menos para ele.
Lages é o lugar onde Morô empenhou suas esperanças e construiu um mundo muito particular, onde tudo é límpido e transparente, beirando a ingenuidade. Ao mesmo tempo, certo das incertezas da existência, nunca sentiu medo de continuar vivendo. Talvez seja por isso que apostava diariamente no jogo do bicho. Era a forma com que respondia uma pergunta inquietante: será que a sorte não está por aí, querendo anunciar o amanhã?
P.S: Este perfil (publicado na capa do suplemento "Anexo", do jornal "A Noticia", em 02 de janeiro de 1997) tangencia o "new journalism", inclusive porque todas as informações sobre o protagonista foram obtidas a partir da visão de terceiros.
A presente versão, embora conserve a ideia original, sofreu diversas alterações, inclusive nos tempos verbais. A última revisão foi feita em julho de 2026.
Olhando para o passado, se me defrontasse outra vez com a mesma tarefa, este texto provavelmente seria escrito de forma diferente, abordando aspectos mais humanos e menos folclóricos. Mas isso agora é impossível, inclusive porque vários dos personagens citados (João Daniel Duara, Waldir Buck, Walter Gil de Souza, Jorge Barroso Filho, Mauro Rodolfo) desapareceram na poeira do tempo.
Cezarino José Ramos, o Morô, faleceu aos 80 anos, em 2010, depois de seis meses de internação hospitalar.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
A FESTA E O BETÃO DA PENHA
Ninguém entendeu quando Adalberto Medeiros Silva e Souza, também conhecido mundialmente como Betão da Penha, abandonou o subúrbio e foi morar no centro da cidade. A perplexidade aumentou quando, uma semana depois, o caminhão de mudanças trouxe tudo de volta. Os vizinhos inventaram algumas histórias para tentar explicar os fatos.
De acordo com Mané Sandoval, tudo estava resumido em três palavras: golpe do baú. E explicava: Eulália, viúva e rica, tinha sido enganada por aquele cafajeste. Em momento de pura insanidade havia transferido em cartório parte de seus bens para o patife. Agora que as chamas da paixão haviam se transformado em cinzas, o safado decidira aproveitar a vida, longe do local do crime.
Pedro Sargento contribuiu com outra versão. Homem de mau humor e péssima reputação, dizem que era suspeito de envolvimento em vários tiroteios, inclusive contra a policia. Betão, que estava cobiçando Maria das Graças, filha do mau elemento, pensou bastante sobre a vida (e a morte) e, antes que a desgraça acontecesse, resolveu cortar o mal pela raiz: fugiu do combate enquanto estava inteiro.
As fofocas também mencionaram o tumultuado romance entre Betão e a socialite Elizabeth Macarrônica. Trinta segundos após entusiástica ginástica sexual, a madame exigiu dedicação integral do namorado. Prometendo um mundo sem fundo, e muito mais, Elizabeth providenciou a mudança (além do endereço, queria transformar o namorado em homem civilizado, desses que freqüentam clubes sociais, usam roupas de grife e aparentam ser inteligentes).
Seja qual for o motivo, Betão de Penha, com suas bombachas sujas, folha de capim no canto da boca e sandália de couro, mudou−se de mala e cuia para um desses treme−tremes que chacoalham o coração da cidade.
De acordo com Mané Sandoval, tudo estava resumido em três palavras: golpe do baú. E explicava: Eulália, viúva e rica, tinha sido enganada por aquele cafajeste. Em momento de pura insanidade havia transferido em cartório parte de seus bens para o patife. Agora que as chamas da paixão haviam se transformado em cinzas, o safado decidira aproveitar a vida, longe do local do crime.
Pedro Sargento contribuiu com outra versão. Homem de mau humor e péssima reputação, dizem que era suspeito de envolvimento em vários tiroteios, inclusive contra a policia. Betão, que estava cobiçando Maria das Graças, filha do mau elemento, pensou bastante sobre a vida (e a morte) e, antes que a desgraça acontecesse, resolveu cortar o mal pela raiz: fugiu do combate enquanto estava inteiro.
As fofocas também mencionaram o tumultuado romance entre Betão e a socialite Elizabeth Macarrônica. Trinta segundos após entusiástica ginástica sexual, a madame exigiu dedicação integral do namorado. Prometendo um mundo sem fundo, e muito mais, Elizabeth providenciou a mudança (além do endereço, queria transformar o namorado em homem civilizado, desses que freqüentam clubes sociais, usam roupas de grife e aparentam ser inteligentes).
Seja qual for o motivo, Betão de Penha, com suas bombachas sujas, folha de capim no canto da boca e sandália de couro, mudou−se de mala e cuia para um desses treme−tremes que chacoalham o coração da cidade.
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A primeira providência no novo endereço (e provavelmente o principal motivo para o retorno ao bairro) foi uma imensa, espetacular e fantástica festa.
Betão convidou para o evento os mais variados exemplares da fauna e da flora regional.
Betão convidou para o evento os mais variados exemplares da fauna e da flora regional.
A música, uma mistura de sertanojo com roquinról aborrecente, acordou o quarteirão inteiro. Um dos vizinhos, Frederico Antunes, sem conseguir dormir, perdeu a paciência e foi reclamar. No corredor, ao ver a movimentação, principalmente as garotas vestindo shorts minúsculos, perdeu a razão e abriu a lata de cerveja que, como um passe de mágica, alguém colocou na sua mão.
"Acho que vou ter que derrubar mais um pinhal!", sussurrou Betão, quando viu Soninha Alicate subir em cima de uma mesa e mostrar com quantas peças de roupa um strip−tease enlouquece o distinto público.
No melhor da bagunça, a festa foi interrompida por gritos furiosos. Ao notar a ausência do "com azar" no tálamo conjugal, a digníssima consorte de Frederico não pensou duas vezes e foi tentar impedir que o canalha se transformasse em Fred, o pobre. Sabia que o marido não resistia a um rabo−de−saia. Fato que se comprovou quando, naquele "antro de indecências", o viu obnubilado pela exuberância calipígia de Adriana Toda Hora.
Disposta a mostrar com quantos paus de macarrão se faz uma briga, a megera só se acalmou quando acertou o marido com o primeiro vaso que encontrou ao alcance da mão.
Foi um estrago. Frederico caiu desmaiado, sangue escorrendo pela testa, gritos histéricos do mulheril em fuga, sirene policial, ambulâncias, vinte pessoas presas, o inferno tomando conta de tudo.
Betão da Penha, do outro lado da rua, apoiado no balcão da lanchonete, tomando refrigerante, assistiu ao espetáculo com um sorriso satisfeito no rosto.
sábado, 2 de abril de 2011
À LUZ DE VELAS
Durante algumas horas, como consequência de uma tempestade, parte da cidade ficou no escuro. Sem saber exatamente o que fazer, esperando que a energia elétrica fosse restabelecida, fui até a janela do apartamento. Olhando a escuridão urbana e a garoa que insistia em não parar, lembrei dos dias em que a luz das velas ou do lampião de querosene estabelecia cores e sombras que nunca mais encontrei.
Na infância, em Morrinhos, no coração da Coxilha Rica, na propriedade de meus avós, vivíamos sem eletricidade, todo mundo dormia antes das vinte e uma horas e o mundo era mais simples, menos dependente da tecnologia (um dos poucos contatos com o mundo exterior era ouvir a sessão de avisos da Rádio Clube).
Pela manhã, depois de ajudar na ordenha das vacas, caneco de camargo na mão direita, pedaço enorme de pão feito em casa (camada de nata com um dedo de espessura) na outra mão, a boca lambuzada pela voracidade, o olhar de reprovação dos donos da casa (controlando-se entre o desejo de puxar a orelha do infrator e o sorriso condescendente: “Pare quieto, menino! Parece que você tem bicho-carpinteiro!”).
Para o almoço, bastava pedir que alguém fosse à horta e colhesse batatas, tomates, alfaces, cebolinha verde. Na volta, se pudesse carregar, vinha parte da sobremesa: um punhado de butiás, cachos de uva, ameixas, figos (carnudos, sumarentos, doces como deve ser o paraíso). Na despensa, guardadas em vidros um pouco diferentes daqueles de compota de pêssego, havia vários tipos de geleias, doce de gila, marmelada – quitutes reservados para as raras visitas, de seis em seis meses aparecia um vizinho querendo negociar pelegos, sabão de cinzas ou uma saca de feijão.
No final da tarde, diante do oratório, ninguém escapava de rezar o terço, um ritual interminável, às vezes o olhar das crianças se perdia no carreiro de formigas que atravessava a sala, aquilo era uma praga doméstica, não adiantava destruir os formigueiros, era impossível evitar que a casa, algum tempo depois, fosse assaltada por um novo exército de operárias. A voz da avó ditava o ritmo das orações e nós aproveitávamos a oportunidade para fugir para um mundo particular (quem é que queria ficar ali, ajoelhado, rezando? Melhor sonhar com outra vida, de preferência na companhia do Capitão Nemo, do Tarzan, do Winnetou).
Não sei quantos minutos fiquei na janela, olhando para um tempo em que computador, televisão e celulares não tinham importância. As recordações desapareceram quando a luz voltou e precisei devolver o passado à escuridão.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
O PRAZER E A CACHAÇA
Boteco, sexta-feira, final de tarde. Intermináveis copos de cerveja para sedes intermináveis. Conversa espichada, sem preocupações, sem horário para acabar.
Negro, roupa suja, completamente bêbado – ninguém o viu entrar, mas ele ali estava, pedindo dinheiro.
— Moçu? Mi dá dinheru prá comprá cachaça?
— Enlouqueceu? Se ainda fosse para comprar comida...
— Cumida, num quéru. Num tô cum fomi. Quéru cachaça!
— ????
— Eu qui bebu e cê é qui fica surdu? Moçu, quéru cachaça!
— Não! Dinheiro para cachaça eu não dou.
— Tudo bem. Já vi esse firme antes. Cê gosta memu é di mintirosu.
— O que foi que você disse?
— Moçu, quéru cachaça. Num tô pidindu grana prá comprá pão ou cumida. Eu gostu é di cachaça. Num quéru comprá pão. Num si iluda. Quéru cachaça!
— Definitivamente, essa conversa está ficando muito maluca.
— Num veju purquê. Eu gostu di cachaça. E só tô pidindo argum trocadu prá móde podê comprá um copu di pinga. Qualé o pobrema?
— Ora, nunca ninguém me pediu dinheiro para comprar cachaça. Você é o primeiro.
— Também nunca vi pulitico honestu, ma continuo creditando qu’um dia vai parecê o sarvadô da pátria. Será que cê pudia mi dá argum dinhero prá comprá cachaça?
— Caramba! Além de insistente, você é meio filósofo!
— Moçu, tem grana ou não?
— Não. Para cachaça não dou dinheiro.
— Sei...
— Que tom de deboche foi esse?
— É qui cê também é um poco isquisito. E a cerva, aí?
— O que é que tem a minha cerveja?
— Ora: eu gosto di cachaça, cê gosta di cerveja.
— Não entendi.
— Moço, mi dá arguma moeda prá comprá cachaça?
— Não! Para cachaça, não dou dinheiro! Mas, satisfaça a minha curiosidade: porque você gosta de cachaça?
— Purque cachaça é bão.
— Olha: tem alguma coisa fora do lugar nessa tua história. Diga lá, você bebe por algum desgosto na vida?
— Não, moçu. Bebu porque gostu.
— Francamente, não dá para acreditar nisso.
— O quiéqui num dá prá creditá?
— Que alguém beba em quantidade apenas porque gosta. Você é casado?
— Fui.
— O que foi que houve?
— A muié mi dexô.
— Será que não foi por causa da cachaça?
— Foi.
— Então, a cachaça estragou a tua vida!
— Não!
— Não entendi.
— Moçu, ela num gostava dus meus pileque, da minh’alegria, do meu jeito de vivê. Prifiriu i’bora, ca’as crianças. É a vida. Agora tenhu a cachaça só prá mim. Eu bebu porque gostu!
— Mas, será que você não entende que a bebida está estragando a tua vida?
— Moçu, cê é que num intendi nada! Eu gostu de cachaça!
— Está certo, eu vou te dar o dinheiro. Mas, quero que você me prometa que vai comprar, além da cachaça, um pouco de comida.
— Não! Nessa cundição num quero dinheru!
— O quê?
— Tô pidindo dinhero prá comprá cachaça. Cumida, num quéru!
— Não dá para entender a tua lógica!
— Moçu, eu gostu di cachaça! Será qué difícir intendê uma coisa tão simpres?
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