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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

TRÊS FILÓSOFOS DO FUTEBOL (30 FRASES)

 Antonio Franco de Oliveira, o Neném Prancha
O importante é o principal, o resto é secundário.

Quem pede, tem preferência; quem se desloca, recebe. 

Bola tem que ser rasteira, porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama. 

Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem, defende. 


Jogue a bola pra cima, pois enquanto ela estiver no alto não há perigo de gol. 

Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado. 

Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida. 

Jogador de futebol tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar. 

Penalti é uma coisa tão importante que quem devia bater é o presidente do clube.

O goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas. 

Jogador bom é que nem sorveteria: têm várias qualidades. 

Futebol moderno é que nem pelada. Todo o mundo corre e ninguém sabe para onde. 

O Didi joga bola como quem chupa laranja, com muito carinho. 

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Nelson Rodrigues
Não há em toda a literatura brasileira um personagem que saiba bater um escanteio. 

Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos... 

Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia. 

Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro. 

Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar.

Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. E podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos. 

Grandes são os outros, o Fluminense é enorme. 

O escrete é a pátria de calções e chuteiras. 

Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time. Há, porém, um torcedor, entre tantos, entre todos, que não se parece com ninguém e que apresenta uma forte, crespa e irresistível personalidade. Ponham uma barba postiça num torcedor do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível.

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Vicente Matheus
Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático.

O Sócrates é invendável e imprestável. 

O futebol é uma faca de dois legumes. 

Se entra na chuva para se queimar.

Comigo ou sem migo o Corinthians será campeão. 

O difícil, vocês sabem, não é fácil... 

Espero que os corinthianos compareçam para naufragar nas urnas o meu nome.

Aquele jogador que contratamos, corre devagar. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A SABEDORIA DE GEORGE BERNARD SHAW EM SESSENTA FRASES


– A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos.

– A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la com os jovens.

– O jornal é um instrumento incapaz de discernir entre uma queda de bicicleta e o colapso da civilização.

– O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.

– O segredo do sucesso é ofender o maior número de pessoas.

– A diferença entre um assaltante e um homem de bem é que o assaltante rouba dos ricos. 

–  Pode haver dúvidas sobre quem seriam as pessoas mais indicadas para educar as crianças. Mas não há dúvidas de que os pais são as piores.

– De todas as perversões sexuais, a castidade é a mais perigosa.

– O ódio é a vingança do covarde.

– A virtude não passa de tentação insuficiente.

– Não existe amor mais sincero do que aquele pela comida.

– Há duas tragédias na vida. Uma é a de não obter tudo o que se deseja ardentemente; a outra, a de obtê-lo.

– A dança: uma expressão perpendicular de um desejo horizontal.

– A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos outros dez.

– Cabe à mulher casar-se o quanto antes e ao homem ficar solteiro o maior tempo que puder.

– Uma mulher preocupa-se com o futuro até encontrar um marido, enquanto um homem apenas se preocupa com o futuro depois de encontrar uma mulher.

– O matrimônio não é loteria. Na loteria algumas vezes ganha-se.

–  Os americanos são pessoas que ficam felizes quando conseguem acrescentar uma casa à sua garagem.

–  O americano 100% é 99% idiota.
  
– Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá-la. Seria o inferno.

– A minha maneira de brincar é dizer a verdade. É a brincadeira mais divertida do mundo.

– A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente.

– Presume-se que a mulher deve esperar, imóvel, até ser cortejada. Mais ou menos como a aranha espera a mosca.

– Nunca resisto a tentações, porque eu descobri que coisas que são ruins para mim não me tentam.

– Não faças aos outros o que gostarias que fizessem a ti. O gosto deles pode não ser o mesmo.

– Do modo como a concebemos, a vida em família não é mais natural para nós do que uma gaiola é para um papagaio.

– O silêncio é a mais perfeita expressão do desprezo.

– Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.

– Nenhuma pergunta é tão difícil de ser respondida quanto aquela cuja resposta é óbvia.

– Alguns homens vêem as coisas como são, e dizem Por quê? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e digo Por que não?

– Professores de grego são pessoas privilegiadas: poucos deles sabem grego e, os que sabem, não sabem mais nada.

– A sabedoria dos homens é proporcional não à sua experiência, mas à sua capacidade de adquirir experiência.

– O segredo para ser infeliz é ter tempo livre para se preocupar se se é feliz ou não.

– O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada.

– Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma.

– Cuidado com o homem que não devolve a bofetada: ele não a perdoou, nem permitiu que você se perdoasse.

–  Pouquíssimas pessoas podem dar-se ao luxo de ser pobres.

– Inocente é o sujeito que não foi apanhado em flagrante.

– O homem razoável se adapta ao mundo; o irascível tenta adaptar o mundo a si próprio. Assim, o progresso depende do homem irascível.

– Uma boa esposa é um grande consolo para o homem em todos os contratempos e dificuldades - que ele nunca os teria se tivesse continuado solteiro.

– Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.

– Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte.

– A reputação de um médico se faz pelo número de pessoas famosas que morrem sob seus cuidados.

– Não há satisfação em enforcar um homem que não faz objeção a isso.

– Quando um homem quer matar um tigre, chama a isso desporto; quando é o tigre que quer matá-lo, chama a isso ferocidade. A distinção entre crime e justiça não é muito grande.

– O pior pecado contra nosso semelhante não é o de odiá-los, mas de ser indiferentes para com eles.

– De quanto mais coisas um homem se envergonha, mais respeitável ele se torna.

– Aprendi mais com a primeira mulher burra por quem me apaixonei do que com tudo que meu cérebro me ensinou.

–  As coisas que as pessoas mais querem saber nunca são da conta delas.  

–  Os filhos se tornaram tão caros que, hoje em dia, só os pobres podem se dar ao luxo de tê-los.  

–  Há homens que não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade.

– Temos tempo bastante para pensar no futuro quando já não temos futuro em que pensar.

– Se ao menos os pais soubessem como chateiam os filhos!

– Há uma única religião, embora haja centenas de versões.


–  Minha objeção aos instrumentos de sopro é a de que eles prolongam a vida de quem os toca.

–  Posso perdoar a Alfred Nobel a invenção da dinamite, mas só um demônio teria concebido o prêmio Nobel.

– Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está apenas cumprindo seu dever.

– A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado.

– Se todos os economistas fossem postos lado a lado, nunca chegariam a uma conclusão.

– A falta de dinheiro é a raiz de todo o mal.












quinta-feira, 10 de outubro de 2013

ALICE MUNRO



Aos 82 anos de idade, a escritora canadense Alice Anne Munro (nascida Laidlaw) se tornou, na manhã do dia 10 de outubro de 2013, a décima-terceira mulher a receber o Prêmio Nobel de Literatura. O seleto grupo das ganhadoras é composto por Selma Lagerlöf (Suécia, 1909), Grazia Deledda (Itália, 1926), Sigrid Undset (Noruega, 1928), Peal Sydenstricker Buck (EUA, 1938), Gabriela Mistral (Chile, 1945), Nelly Sachs (Suécia, 1966), Nadine Gordimer (África do Sul, 1991), Toni Morrison (EUA, 1993), Wislawa Szymborska (Polônia, 1996), Elfriede Jelinek (Áustria, 2004), Doris Lessing (Grã-Bretanha, 2007) e Herta Müller (Romênia/Alemanha, 2009).

Ao anunciar o nome de Alice Munro, a Academia Sueca chamou-a de mestre dos contos contemporâneos. Essa afirmação ratifica a opinião de Cynthia Ozick que considera Munro uma espécie de Tchekov da língua inglesa. Aliás, muitos escritores e críticos significativos se curvam ao talento da canadense. Segundo David Homel, Ela escreve sobre mulheres e para mulheres, mas não amaldiçoa os homens. O eternamente midiático Jonathan Franzen, no ensaio De Onde Vem Essa Certeza de que Você Mesmo Não é o Mal?, que está incluído na interessante coletânea Como Ficar Sozinho (Companhia das Letras, 2012) não faz economia de elogios para descrever o quanto a literatura de Munro o impressiona: A leitura de Munro me deixa num estado reflexivo no qual penso sobre a minha vida: sobre as decisões que tomei, as coisas que fiz e que não fiz, o tipo de pessoa que sou, a perspectiva da morte. Ela faz parte daquele punhado de escritores, alguns vivos, a maioria morta, que tenho em mente quando digo que a ficção é a minha religião. Porque enquanto estou imerso num conto de Munro, estou atribuindo a um personagem totalmente fictício o tipo de respeito solene e de interesse enraizado que me atribuo em meus melhores momentos como ser humano.    

Munro não costuma frequentar seminários, congressos literários ou eventos promocionais. Recentemente, em entrevista ao jornal New York Times, anunciou a aposentadoria. Depois uma operação cardíaca e de um câncer, quer se dedicar à família: parece natural fazer aquilo que outras pessoas de 80 anos fazem, declarou.

Alice Munro nasceu em Wingham, província de Ontário, em 10 de julho de 1931. Casou com Michel Munro, aos 20 anos de idade, e foi morar em Vancouver. Separou-se em 1972 e voltou para Ontário. Casou com Gerald Fremlin, em 1976. As três filhas são frutos do primeiro casamento.

A carreira de escritora solidificou a partir do segundo casamento. Publicou 14 livros de contos, sendo que, salvo engano, nove  possuem tradução no Brasil: Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (Editora Globo, 2004), Fugitiva (Cia das Letras, 2006), Felicidade Demais (Cia das Letras, 2010) e O Amor de Uma Boa Mulher (Cia das Letras, 2013), Vida Querida (Cia das Letras, 2013), A Vista de Castle Rock (Biblioteca Azul, 2014), A Amiga de Juventude (Biblioteca Azul, 2014), Falsos Segredos (Biblioteca Azul, 2015), O Progreso do Amor (Biblioteca Azul, 2017). O filme Longe Dela (Away from Her. Dir. Sarah Polley, 2006) foi baseado nos contos de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento.

Um dos momentos representativos da prosa escrita por Alice Munro está retratado no conto Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (que integra o livro homônimo). Para se livrar de uma vida opressiva de empregada, Johanna decide mudar as regras do jogo. Iludida por cartas que acreditava terem sido escritas por um admirador, Ken Boudreau, resolve procurá-lo. Quer casar. Por isso, compra um vestido de noiva e despacha a mobília por trem. Depois de uma viagem estafante, encontra o pretendente doente. Cuida dele, limpa a casa, desfaz hábitos nocivos, impede a desordem financeira. E permite que ele se apaixone.     

A prosa descritiva, pouco afeita aos efeitos modernosos dos fluxos de consciência e dos monólogos interiores, reconstrói pacientemente a intimidade doméstica. As personagens femininas são fortes, determinadas. Na busca de algum impulso vital, recusam o niilismo e o puritanismo. São contos caudalosos, média de 50 páginas os mais concisos, repletos de detalhes. O interesse do leitor se mantém por dezenas de páginas em função do domínio absoluto do enredo e dos diálogos, que acrescentam – explicita e implicitamente – dezenas de informações.

Alice Munro ganhou três vezes o Governor General’s Literary Awards (1968, 1978, 1986) e o Man Booker International Prize (2009), entre outros prêmios. 

Lista dos livros de Alice Munro: 

Dance of the Happy Shades, (1968)
Lives of Girls and Women (1971)
Something I’ve Been Meaning to Tell You (1974)
The Beggar Maid (antes Who Do You Think You Are?) (1978)
The Moons of Jupiter (1982).
The Progress of Love (1986)
Friend of My Youth (1990)
Open Secrets (1994)
The Love of a Good Woman (1998)
Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage (2001)
Runaway (2004)
The View from Castle Rock (2006)
Too much happiness (2009)
Dear Life (2012)


(texto revisto em 03/05/2018).

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DIVÓRCIO

Todas as histórias de amor terminam mal. E isso quer dizer que a guerra que se segue à separação física jamais significará o fim da história emocional. Independente do grau de “civilidade” dos envolvidos, nunca mais será possível evitar os destroços psicológicos. Não há como contornar a dor, o ressentimento, o ridículo. 

Talvez seja isso o que ambiciona esclarecer a narrativa Divórcio – texto amargo, repetitivo, contraditório, repleto de lamurias e muito diferente de todos aqueles que ostentam o nome Ricardo Lísias na capa.

Divórcio, uma história pequena, cheia de personagens mesquinhas, foi estruturado com uma linguagem próxima do leitor, como se fosse uma conversa informal entre amigos, dessas em que segredos são revelados e discutidos. Soma-se a isso o uso do narrador em primeira pessoa, elemento literário que coloca em risco as informações transmitidas. A parcialidade, longe de ser uma dádiva, é uma maldição – como percebeu Machado de Assis ao forjar um de seus personagens mais emblemáticos, Bentinho (santo protetor de todos os portadores da dor-de-corno).

Escorado no sofrimento romântico, herdado das narrativas que fizeram sucesso de público e de crítica nos séculos XVIII e XIX, Ricardo Lísias, personagem e narrador do livro escrito por Ricardo Lísias, ao descobrir “algumas verdades” escritas nas páginas do diário da esposa, entra em pânico. Ou melhor, perde a capacidade reflexiva. E transforma o seu talento literário em arma de destruição em massa. Sem se importar com os danos colaterais (jornalistas e advogados são as principais vítimas), atravessa as 237 páginas do seu inferno particular lambendo feridas, encenando a cultura do abandono, protagonizando a figura do homem rejeitado. Quem dá alguma chance para o amor fica vulnerável, explica. 

Não há uma palavra de ficção nesse romance, afirma o personagem/narrador/autor. Em outro momento revela que o Divórcio é um livro de ficção em todos os seus trechos. O suplício de um escritor é não conseguir traduzir em palavras o discurso que está enunciando. Por isso, essas duas declarações contraditórias merecem atenção e um pouco de dúvida. Em primeiro lugar, o uso da palavra romance para identificar a classificação gramatical de algumas narrativas requer cautela. Embora o romance seja um gênero literário complicado, sustentado por condições históricas e sociais muito específicas, isso não quer dizer que seja incapaz de superar algumas regras de estrutura. As inovações de forma e linguagem servem para ampliar o jogo semântico e estrutural. Marthe Robert, em Romance das Origens, Origens do Romance, lembra que A verdade do romance não reside em outra coisa senão em um aumento de seu poder de ilusão.

Para alguns teóricos, transformar experiências pessoais em literatura não amplia o poder de ilusão ficcional. Ao contrário, implica em risco, em riso. Ou isca. Sempre há alguém disposto a cair na armadilha. Independente dos episódios que integram o texto serem “reais” ou “falsos” (categorias filosóficas capazes de provocar discussões intermináveis), o hibridismo da autoficção, gênero nem isso nem aquilo, nem romance nem autobiografia, se concentra em doses maciças de narcisismo. O uso excessivo do “eu” poucas vezes se mostra capaz de perceber que a narrativa não deve ser confundida com partidas de xadrez, onde os jogadores se divertem semeando ciladas pelas 64 casas do tabuleiro.

Só gente vulgar não gosta de silêncio, declara o personagem/narrador/autor, esquecendo que sente prazer em espalhar o barulho. Independente de qualquer justificativa, Divórcio é um texto muito ruidoso. Seja pelo uso propositalmente repetitivo de algumas informações, seja pela forma com que o pathos (paixão, sofrimento, doença) multiplica o litigio amoroso. Ao não economizar a verborragia, elimina a possibilidade de uma reflexão mais aprofundada. Ou seja, em lugar de acrescentar, subtrai. E isso também incomoda. Inclusive porque reforça a ideia de que escrever sobre o rompimento amoroso implica em demonstrar insegurança, em ressentimento incontrolável e em exigir e exibir vingança.

Além disso, para constrangimento do leitor, em alguns episódios – e não são poucos – prevalece a falta de elegância. Mesmo nos momentos em que acrescentam densidade ao drama relatado pelo personagem/narrador/autor, as cenas de descrição sexual não combinam com a lucidez estética de livros anteriores como Duas Praças (2005) ou O Céu dos Suicidas (2012). Mesmo admitindo que o fracasso do casamento, que durou apenas 40 dias, produziu mudanças comportamentais significativas, o “choque de realidade” que Lísias apresenta ficcionalmente ao leitor assusta. Muito.

Ao jogar farofa no ventilador, sem temer o estrago emocional ou a exposição pública, o personagem/narrador/autor decide enfrentar a dor mais pungente que pode afligi o ser humano: a insensatez amorosa. Unindo destempero, desespero e desamparo, transforma a vida pessoal em literatura-verdade (talvez o mais ridículo dos oximoros ficcionais). Falta-lhe o distanciamento afetivo e a invenção de, por exemplo, Intimidade, romance escrito pelo inglês (ou paquistanês) Hanif Kureishi, que, por outro ângulo, aborda a dissolução do casamento.

O exercício de humilhação pública e do remoer infinito do dilaceramento atinge o seu momento máximo no capítulo treze. Estou escrevendo um romance sobre o amor e o que as pessoas podem fazer com ele quando estão corroídas, explica o personagem/narrador/autor, como se os diversos argumentos “lógicos” que apresenta fossem suficientes para ratificar todo o esforço que dispendeu para efetivar a construção argumentativa. Ironicamente, dois parágrafos depois, deixa escapar que A verossimilhança deixou de ser um imperativo para a ficção. Ou seja, preocupado em parecer malvado não consegue mimetizar a fratura emocional, não consegue construir literariamente uma versão particular dos Fragmentos do Discurso Amoroso que (de)compõem a narrativa. Tampouco recupera a figura feminina – uma representação do inimigo – como elemento capaz de transcender o rancor e o ódio.

Divórcio talvez possa ser sintetizado em outra frase da narrativa e que, no transcurso do texto, o personagem/narrador/autor tudo faz para ignorar: O amor não é um jogo, mas sim um romance. É melhor colocar o ponto final em um para fazer outro.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

DENTRO DA CASA

A sala de aula é uma das primeiras batalhas que a literatura precisa vencer. Essa façanha só se torna possível em circunstâncias especiais. Por exemplo, quando professores e alunos se unem em torno de uma causa comum: os desdobramentos do mundo ficcional. De uma maneira muito peculiar, esse é o tema do filme Dentro da Casa (Dans la Maison. Dir. François Ozon, 2012).

Germain (Fabrice Luchini), professor de francês no Lycee Gustave Flaubert, assume uma nova turma, a 8ª C. Uma das primeiras tarefas que solicita aos alunos, uma redação sobre os acontecimentos do final de semana, confirma a sua frustração com a qualidade do ensino. Em tom indignado, com a voz alterada, diz à esposa, Jeanne (Kristin Scott Thomas): O pior não é a ignorância deles. É imaginar o amanhã, pois eles são o futuro. Os filósofos reacionários predizem a invasão dos bárbaros. Mas eles já chegaram. Estão nas salas de aula.

Esse juízo de valor mostra-se equivocado quando constata que um dos alunos difere dos demais. Encantado pelo texto escrito por Claude Garcia (Ernest Umhauer), Germain projeta no aluno o escritor que nunca conseguiu ser. Imediatamente, sem perceber a extensão do que está fazendo, começa a ministrar aulas extracurriculares de teoria da literatura para o rapaz.

A história pessoal de Claude evoca os romances de Charles Dickens: filho único, precisando cuidar de um pai tetraplégico, abandonado pela mãe, tímido, 16 anos, costuma se sentar na última fila da sala de aula, lá onde você vê a todos e ninguém te vê.

Solitário, imagina um folhetim como tarefa escolar. Para poder frequentar a casa de um colega, Rafael Artois (Bastien Ughetto), se oferece para lhe ensinar matemática. A história do amigo, em tudo diferente da vida suburbana e insipida que leva ao lado do pai, delineia os elementos primordiais de uma narrativa de sedução amorosa. Como objeto do desejo, surge em cena Esther (Emmanuelle Seigner), a mãe de Rafael. No texto escolar que entrega a Germain, Claude escreve: Olho Esther e sua pele parece macia. Como uma maçã a ser comida. A adolescência, território sagrado da perversidade, se alimenta de fantasias sexuais.

Ao se apropriar literariamente de um modo de vida que não lhe pertence, Claude, como compete a um escritor de talento, posterga o desfecho ao máximo. Ciente de que o prazer de olhar pelo buraco da fechadura é um dos grandes segredos da ficção, termina cada um dos seus textos com a palavra “continua” entre parênteses.

O professor não resiste, fica curioso. Quer saber o que acontece no capítulo seguinte. Sem poder distinguir se o que o aluno está narrando está escorado na realidade ou na ficção, acaba enredado na teia literária que está sendo construída ao seu redor. O envolvimento se acentua a cada sequência da narrativa. Coincidentemente, essa estratégia está de acordo com uma das lições que – mais tarde – vai ministrar ao aluno: Nada de chance para o leitor. Ele precisa estar sob pressão. O leitor é como o sultão de Sheherazade: Se você me aborrecer, corto sua cabeça. Mas, conte uma boa história e o sultão entrega seu coração. O sultão é como todos nós. Precisamos de alguém contando histórias”. Inflamado pelo discurso, Germain arremata: A vida sem histórias não vale nada.

Em compensação, em uma das narrativas paralelas que constituem Dentro da Casa, contrasta o cinema e a literatura com as artes plásticas contemporâneas. Jeanne (Kristin Scott Thomas), a esposa de Germain, trabalha em uma galeria chamada Le Labyrinthe du Minotaure. Como uma Ariadne a-pós-o-moderno, dessas que dispensam a ajuda de Teseu, movida pelo desespero de salvar a própria pele, ou seja, o emprego, procura por obras que – apesar das sutilezas das proposições teóricas – se mostram incapazes de construir uma narrativa artística com um mínimo de coerência. Em efeito especular, Germain explica para Claude que a péssima literatura se assemelha aos textos que acompanham os catálogos das exposições.    

François Ozon, em livre adaptação de El Chico de la ultima fila, texto teatral de Juan Mayorga, consegue realizar – sem grandes estardalhaços feéricos – uma instigante brincadeira. Dentro da Casa, ao misturar vários planos narrativos (as conversas conjugais entre Germain e Jeanne, o vacuidade do mercado de artes plásticas, a vida burguesa da família de Rafael e as histórias que Claude escreve ou inventa), multiplica ao infinito, de forma lúcida e lúdica, o dialogo com os livros, com a tradição literária. Ou seja, consegue integrar os enredos de Madame Bovary (Gustave Flaubert), O Jovem Törless (Robert Musil), Teorema (Pier-Paolo Pasolini), Viagem ao Centro da Noite (Louis-Ferdinand Celine), As Mil e uma Noites, e muitos outros clássicos, na estrutura narrativa de um filme magnífico.

A cena final, que homenageia Alfred Hitchcock, sintetiza o que está em jogo. O adolescente, maliciosamente satisfeito com os acontecimentos que ajudou a desencadear (em alguns casos, de forma inconsciente), anuncia ao espectador do filme: O Sr. Germain havia perdido tudo, sua esposa, seu trabalho, mas eu estava ali, ao seu lado, pronto para contar-lhe uma nova história.


François Ozon, um dos mais brilhantes diretores do cinema francês, dirigiu diversos filmes importantes: Sob a Areia (2000), Oito Mulheres (2002), Swimming Pool - À Beira da Piscina (2003), O Tempo que Resta (2005), Ricky (2009) e Potiche (2010)