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terça-feira, 16 de agosto de 2016

MORTE SÚBITA

O texto literário de ficção não possui compromisso com a distinção entre a verdade e a mentira (conceitos fluídos e de difícil comprovação). Sob esse dístico, o mexicano Álvaro Enrique escreveu um romance que desafia as classificações acadêmicas – embora, muitos críticos não tenham o mínimo escrúpulo para sacar do coldre uma daquelas palavras mágicas com que costumam rotular tudo o que foge da normalidade: pós-moderno. De qualquer forma, através de capítulos curtos (encadeados em ritmo de contraponto), Morte Súbita mistura em um liquidificador ficcional parte das histórias políticas, religiosas e artísticas de Espanha, Inglaterra, Vaticano e México. Ao mesmo tempo, envereda por um caminho literário pouco trilhado, desses que se recusam a se tornarem nítidos – o desejo mais significativo dessa proposta não é explicar, é complicar. Não bastasse, o texto está repleto de um humor fino, pouco convencional, onde nada está a salvo da ironia e da crítica. 

Álvaro Enrique
Através de uma partida de pallacorda (um esporte ancestral do tênis) entre o artista plástico italiano Michelangelo Merisi de Caravaggio, (1571-1610) e o poeta e ensaísta espanhol Francisco Gómez de Quevedo y Santibañez (1580-1645), o romance mapeia uma serie de temas paralelos, todos imprescindíveis para o adequado entendimento do inicio da modernidade: o autoritarismo político e social, a reforma protestante e a contrarreforma católica, o mecenato artístico, o surgimento da burguesia e, não menos importante, a ascensão e queda da honra cavalheiresca. Além disso, abusando da fluidez narrativa, o narrador (onisciente, em terceira pessoa, esbanjando erudição) contrapõe os atos “civilizatórios”, praticados pelos europeus, com a colonização do México.

Caravaggio (autorretrato)
Em outro plano narrativo, o chiaroscuro, que caracteriza a pintura de Caravaggio, fornece visibilidade às nuances decorrentes da luta política e econômica que é travada nos bastidores do Vaticano. A contraproposta, expressa no maneirismo reacionário da poesia e da prosa de Quevedo, procura esconder as diferenças essenciais que separam a nobreza e a população sem propriedades ou títulos nobiliárquicos. 

No meio desse turbilhão, os dois artistas em muitas coisas são semelhantes. Talvez a maior aproximação ocorra em torno da questão sexual. Em todas as páginas do romance, considerando as diferentes preferências e oportunidades, Caravaggio e Quevedo estabelecem como meta fundamental da existência levar alguém para a cama. Ou para algum canto escuro. Lugares onde possam praticar (sem interrupção) quaisquer transgressões que considerem excitantes. Evidentemente, essas ações estão conectadas com incontáveis perigos. Ou prazeres. Ou as duas coisas. E que estão representadas no duelo entre visões antagônicas de mundo que ocorre na quadra de pallacorda. Confirmando que os jogos não devem ser reduzidos a uma guerra por outros meios, a tensão sexual (Eros e Thanatos) entre os dois homens não diminui com a troca de golpes e contragolpes. Talvez, através de uma metáfora incomum, queiram expressar a ideia de que a morte e o esporte são apenas faces da mesma moeda.

Francisco de Quevedo
Enquanto os jogadores se movimentam para lá e para cá, cabeças rolam – literalmente. Os cabelos de Ana Bolena, logo após a sua decapitação, serviram de enchimento para quatro bolas de pallacorda. Outras peças capilares também se transformaram em equipamento esportivo – comprovando que a vida dos homens e das mulheres está à mercê da vontade dos reis. Ou das apostas que se multiplicam entre aqueles que estão assistindo o embate. O valor da vida (ou da honra) de um indivíduo somente pode ser aquilatado pela quantidade de dinheiro que movimenta.

Por fim, há o horror construído pelos espanhóis. Os rios de sangue produzidos pelos sofrimentos de Moctezuma II, Cuauhtémoc, Tletlepanquetza e Malitzin (além de milhares de outros corpos astecas) estabelecem uma nova hidrografia em terras mexicanas. Ao longe, a Espanha e a Igreja Católica aplaudiram a violência praticada por Hérnan Cortés de Monroy y Pizarro Altamirano, primeiro Marquês do Vale de Oaxaca (1485-1547), que, como um monstro ávido por destruição, não teve escrúpulos para extinguir uma civilização (em muitos aspectos mais avançada do que a Europa). Naquele momento histórico, nenhuma selvageria foi considerada excessiva, pois tinha como objetivo conseguir um bem maior    alguns quilos de ouro.

Hérnan Cortés
Morte Súbita, romance com raízes históricas, construído como ficção, consegue, com habilidade narrativa, embaralhar a grandiosidade da tragédia e a banalidade da comédia de costumes. 

Procurando romper com alguns paradigmas formais do discurso clássico do romance, Álvaro Enrique consegue elevar a arte literária e, em consequência, produzir um texto importante para a discussão travada pela teoria sobre o entrecruzamento entre a História e a ficção.


TRECHO ESCOLHIDO


O duque perdeu a compostura que vinha conservando a duras penas desde o início da partida ao ver como o lombardo havia encaçapada a bola no ponto anterior. Caralho, disse. Barral murmurou ao seu ouvido: Estamos bem arrumados, chefe. Nenhum dos dois jamais tinha visto uma paralela como aquela, tão veloz que era quase invisível, tão precisa que parecia, mais que ter entrado no buraco matador, ter sido tragada pelo muro.


O duque pediu tempo e chamou seu valido. O poeta continuava a sentir a vitória ao alcance da mão e estava convencido de que a fuzilada de seu oponente fora apenas fruto do acaso. Vimos como ele passou a partida inteira tentando acertar, disse ao duque, e só agora conseguiu, sem dúvida foi sorte. O duque balançou a cabeça. Barral ergueu um dedo, pedindo licença para intervir. Que é?, perguntou o chefe. Também pode ter sido encenação para nos fazer apostar tudo. Uma sombra de dúvida atravessou o rosto do poeta. O homem está morrendo de ressaca, disse; duvido que ele tenha sido capaz de aguentar a partida inteira só para ganhar uns trocados. Bah, disse o duque. Por ora, esquece o efeito no saque e manda a bola para o fundo da galeria, para que o cadoz não fique tão perto dele e tenha que lançá-la em curva.


O poeta voltou ao seu campo. Tenez! Mandou uma bola lenta e sem efeito que deveria cair como uma bexiga no canto do fundo da cobertura. Acompanhou sua ascensão e notou, desde que começou a descer, que a colocara exatamente onde queria. Ia quicar estranho, ia cair num lugar incômodo, o italiano ia ter que pegá-la num ponto distante e, com sorte, de revés.


O duque chegou a gritar: Cobre o cadoz, ao ver um brilho nos olhos o artista, que só estava esperando sua hora. Recuou sorrindo até atrás da linha de base e cruzou o braço para receber a bola de revés. O espanhol correu para o fundo. Quando viu a pedrada que vinha em sua direção, baixou a cabeça. Caccia per il milanese, disse o matemático. Ter-due

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A CIDADE & A CIDADE

Um dos aspectos mais surpreendente dos estudos literários é a falta de conexão entre a literatura e a geografia. Claro, existem os livros do Franco Moretti (Atlas do Romance Europeu, 1800-1900 e A Literatura Vista de Longe), Gaston Bachelard (A Poética do Espaço) e Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Dicionário de Lugares Imaginários), entre outras tantas tentativas de estabelecer olhares sobre o tema. Mas, sem desprezar isto ou aquilo, há outras dimensões – e que ainda não foram desvendadas ou estudadas com a devida atenção que o tema requer. Por exemplo, a questão das estruturas geo-espaciais que assumem no interior da narrativa a importância de um personagem requer uma análise mais detalhada. Em alguns textos, mais do que um mero suporte para que o enredo possa se situar e se desenvolver, a geografia identifica (ou revela) elementos que contribuem de forma decisiva para que a verossimilhança esconda, na medida do possível, o artificialismo narrativo. O incremento ficcional (para quem escreve, para quem lê) adquire um valor inestimável. 

China Tom Miéville (nascido em 1972) 
O inglês China Tom Miéville, um dos nomes mais importantes da new weird (um subgênero da literatura de fantasia, de cunho realista, que orbita em torno da ficção científica e das narrativas de horror), forneceu significativa contribuição para o tema com o romance A Cidade & A Cidade.

As cidades gêmeas de Besźel e Ul Qoma, situadas em lugar impreciso na Europa Oriental, estão sobrepostas. Embora constituam nações independentes, com línguas (besź e illitano), sistemas políticos e econômicos diferentes, há uma zona (in)comum, um espaço físico em que a área urbana de uma se confunde com a de outra. A simetria siamesa se sustenta em um conjunto de regras (procedimentos, comportamentos) que precisam ser obedecidos para que cada uma delas conserve a identidade e as características que lhe são peculiares – embora os componentes especulares mostrem que cada uma das cidades é similar à outra (mesmo nos momentos em que são diferentes).

Os habitantes de cada uma das cidades (não importa qual) precisam “desver” os habitantes da outra cidade. A sobrevivência dos indivíduos está ligada ao conceito de não-existência do Outro. Reconhecer a presença daquele que está (sem estar) ao lado implica em severa punição. Qualquer relação com o paradoxo de Schrödinger não deve ser entendida como mera coincidência. 

Somente aqueles que possuem algum tipo de interesse (comercial, político, acadêmico) no outro lado recebem permissão para, através de Copula Hall, única conexão legal entre as duas cidades, atravessar a fronteira – passaportes e vistos são exigidos.

O fio narrativo de ”A Cidade & A Cidade está alicerçado em uma morte – Mahalia Geary, uma estudante de arqueologia, foi assassinada em Ul Qoma e o seu cadáver foi encontrado em Besźel. A possibilidade de ter ocorrido uma “brecha” (uma transgressão) não pode ser omitida. Cabe ao Inspetor do Esquadrão de Crimes Hediondos Tyador Borlú (protagonista e narrador do romance) desvendar esse mistério. Ao longo da investigação, que transcorre nas duas cidades, há um desfile de personagens dos mais variados matizes ideológicos. A política (seja de unificação das duas cidades, seja de distanciamento físico e geográfico) se mostra onipresente. Com o passar do tempo, Borlú descobre que, diante do que está em jogo, a morte de Mahalia não têm a mínima importância.

A aplicação implacável de um sistema jurídico recíproco garante relativo equilíbrio na história de rivalidades e agressões mútuas entre as duas cidades. Dependendo da gravidade da brecha, cabe invocar a Brecha (assim, com letra maiúscula), ou seja, torna-se necessário delegar autoridade para que um dispositivo militar resolva, sumariamente, a questão. Inexplicavelmente, com a morte de Mahalia Geary, que constitui uma evidente infração do código social, o uso desse mecanismo não é permitido pela Comissão de Supervisão. Resta a Borlú prosseguir na investigação ou encerrar o caso, considerando-o como insolúvel.

Com fortes tons kafkanianos, A Cidade & A Cidade evoca a metáfora mitológica do labirinto – “topos” de caráter artificial, construído para que o indivíduo se confunda em sua jornada e tenha dificuldade para encontrar a saída da situação opressiva em que se encontra. Entre Besźel e Ul Qoma, a localização indeterminada contamina a existência daqueles que precisam transitar pelas ruas, praças e edifícios que instituem o território urbano das duas cidades. Em cada um dos lados da fronteira, em ambiente pouco amistoso, o espaço físico (via de deslocamento de personagens como Tyador Borlú, Lizbyet Corwi, Qussim Dhatt, David Bowden e Yolanda Rodriguez) se mostra decisivo para que a narrativa tenha fluência e desenvolvimento.

Ao final da leitura das 289 páginas que constituem A Cidade & A Cidade talvez seja necessário concluir, por diversos motivos, principalmente os políticos, que não há nada mais próximo da realidade do que a ficção.


TRECHO ESCOLHIDO


Aquele fedor de insinuação e mistério – por mais cínico ou desinteressado que você se considerasse, ele impregnava você. eu vi Corwi olhar para cima e para as fachadas pobres dos armazéns quando fomos embora. Talvez vendo um pouco demais na direção de uma loja que ela devia perceber que estava em Ul Qoma. Ela se sentiu vigiada. Nós dois nos sentimos, e estávamos certos, e nervosos.


Quando saímos, levei Corwi – uma provocação, confesso, embora não para ela, mas para o universos, de certo modo – para almoçar na pequena Ul Qomatown de Besźel. Ficava ao sul do parque. Com as cores e escritas particulares das vitrines de suas lojas, a forma de suas fachadas, os visitantes de Besźel que a viam sempre achavam que estavam olhando para Ul Qoma e desviavam o olhar com pressa e ostentação (o mais perto que os estrangeiros chegavam de desver). Mas com um olho mais cuidadoso, experiência, você repara no tipo de kitsch apertado do design dos edifícios, uma autoparódia anã. Você consegue ver os detalhes num tom chamado azul-Besźel, uma das cores ilegais em Ul Qoma. Essas propriedades são locais.


Essas poucas ruas – nomes mestiços, substantivos illitanos e um sufixo besź, YulSainStráz, LiligiStráz e assim por diante – eram o centro do mundo cultural para a pequena comunidade de expatriados ul-qomanos vivendo em Besźel. Eles tinham vindo por diversos motivos: perseguição política, autoaprimoramento econômico (e, como os patriarcas que haviam passado pelas consideráveis dificuldades da emigração, eles deviam estar amargando isso agora), capricho, romance. A maioria dos que têm quarenta anos ou menos é da segunda e agora terceira geração, fala illitano em casa, mas besź sem sotaque nas ruas. Há talvez uma influência ul-qomana em suas roupas. Várias vezes, valentões locais ou coisa pior quebram suas janelas e batem neles nas ruas. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

DIAS DE ABANDONO

A escritora italiana Elena Ferrante, cujo nome verdadeiro ninguém sabe qual é, escreveu um livro assustador: Dias de Abandono. A célebre autora da tetralogia Série Napolitana (somente foram publicados no Brasil os dois primeiros volumes, A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome) mergulhou – com a perícia de um cirurgião – nas trevas produzidas pela desestruturação emocional. Em apenas 183 páginas, Olga (que acumula a dupla função de protagonista e narradora) descreve – com cores fortes e realistas – o instante em que ela, a personagem, atinge o grau máximo da alienação. A causa? Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. A simplicidade da informação contida na frase inicial do romance contrasta com a intensidade com que Olga transmite (através da narração) o seu sofrimento – imagem especular de outra história, ocorrida trinta anos antes, quando uma vizinha de Olga enlouqueceu, depois de ser abandonada pelo marido: (...) quando você não sabe segurar um homem perde tudo, (...), o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada. A mulher perdeu tudo, até o nome (talvez se chamasse Emilia), se tornou para todos “a pobre coitada”, começamos a falar dela chamando-a desse jeito. A pobre coitada chorava, a pobre coitada gritava, a pobre coitada sofria, dilacerada pela ausência do homem vermelho suado, com olhos verdes de perfídia.

Dias de Abandono foi construído como um exercício prático das sutilezas que envolvem a tessitura da linguagem. O uso exagerado da emoção consegue vedar o artificialismo do discurso literário. Os lamentos de Olga são, na medida do possível, os lamentos do leitor – que, em muitos momentos, está impedido de escolher entre a empatia e a irritação. Parte dessa sensação está expressa sob a forma de monólogo interior – que se assemelha a uma conversa entre amigos, dessas em que há trocas de confidências, em que há o lastimar do amargor da vida.

Sem o marido, Olga precisa tomar conta dos dois filhos (Gianni e Ilaria) e de um pastor alemão (Otto). Não consegue. A mágoa, o rancor e as lembranças de um passado que ela julga ter sido feliz não permitem – principalmente depois que descobriu que Mário, o marido, a trocou por Carla (dezoito anos mais nova). Esse conjunto de sentimentos ruins é macerado – lentamente – ao longo dos dias. Movida pelo fel da loucura, Olga perde o controle. Passa a viver em um mundo particular, catatônico, onde a tristeza é a única companhia permitida. A apatia se torna uma constante.

Esses momentos estão repletos de cenas agressivas. Olga imagina que o marido está realizando com a amante todas as variantes sexuais que nunca praticou com ela. E comenta essa desgraça com detalhes. Obviamente, o desvario somente serve para ampliar a depressão. A realidade (a realidade que ela pode perceber) se transforma em névoa, lugar onde todos os indivíduos se transformam em figuras pastosas, sem identidade. E isso também vale para os filhos e o cachorro.

Como sair dessa situação? Difícil propor algum antídoto. Mesmo quando Olga resolve dar um basta, (...) tentei voltar aos gestos de sempre, como um doente que esteve por muito tempo no hospital e, também para superar o medo de adoecer novamente, deseja ancorar-se novamente à vida dos sadios, isso não parece ser suficiente. Algumas feridas jamais cicatrizam.

Dias de Abandono não é um romance fácil de ler. Talvez seja um romance fácil de arremessar contra a parede – embora me pareça inevitável retomar a leitura, dez minutos depois. Afinal, gostar de literatura significa não ter medo do que é incômodo.


TRECHO ESCOLHIDO


Reagir. Me pus a botar as coisas em ordem. Quando terminei, recomecei novamente, uma forma de ronda à caça de tudo aquilo que não parecesse estar em ordem. Lucidez, determinação, segurar-se à vida. No banheiro encontrei o caos de sempre entre os remédios. Sentei-me no chão e passei a separar os remédios vencidos dos que ainda estavam valendo. Quando todos os remédios inutilizáveis acabaram no lixo e o armário ficou em perfeita ordem, escolhi duas caixas de comprimidos para dormir e levei-as para a sala. Coloquei-as sobre a mesa, servi-me um copo bem cheio de conhaque. Com o copo numa mão e a palma da outra cheia de Rivotril fui até a janela, pela qual entrava só um sopro úmido de calor vindo do rio, das árvores.

Tudo era tão casual. Apaixonei-me por Mario quando jovem, mas poderia ter me apaixonado por qualquer um, um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados. Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribui-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasião. Consumimos e perdemos a vida porque um qualquer, em tempos longínquos, por vontade de descarregar o pau dentro de nós, foi gentil, nos escolheu entre as mulheres. Trocamos não sei por qual cortesia dedicada exclusivamente a nós o desejo banal de foder. Amamos sua vontade de trepar, sentindo-nos tão cegas a ponto de pensar que seja a vontade de trepar conosco, só conosco. Oh sim, ele que é tão especial e que nos reconhece como especial. Damos um nome àquela vontade de pinto, a personalizamos, e a chamamos de meu amor. Para o inferno tudo, essa cegueira, esse tesão infundado. Como no passado fodia comigo, agora fode com a outra, o que posso querer? O tempo passa, uma vai, a outra vem. Estava por engolir algumas pílulas, queria dormir deitada sobre o fundo mais sombrio de mim mesma. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

VIAJAR EM QUARENTA E DOIS FRAGMENTOS


Monte Everest (fronteira entre a China e o Nepal)
– Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir. (Amyr Klink)

– Ao viajar, por favor, não exija ida-e-volta; a vida não tem retorno. (Millôr Fernandes)

– Quando [o viajante] põe o pé na estrada, ele obedece a uma força que, surgida do ventre e do âmago do inconsciente, lança-o no caminho, dando-lhe impulso e abrindo-lhe o mundo como um fruto caro, exótico e raro. (Michel Onfray)

– Há um tempo para partir, mesmo quando não há um lugar certo para ir. (Tennessee Williams)

– Eu viajo não para ir a lugar algum, mas para ir. Eu viajo pelo propósito de viajar. A grande sedução é se mover. (Robert Louis Stevenson)

– Viajar! Perder países! / Ser outro constantemente, / Por a alma não ter raízes / De viver de ver somente! // Não pertencer nem a mim! / Ir em frente, ir a seguir / A ausência de ter um fim, / E a ânsia de o conseguir! // Viajar assim é viagem. / Mas faço-o sem ter de meu / Mais que o sonho da passagem. / O resto é só terra e céu. (Fernando Pessoa) 

– Viajar é trocar a roupa da casa. (Mário Quintana)

– As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas. (John Steinbeck)

Anfiteatro Flaviano - Coliseu (Roma, Itália)
– Uma longa viagem começa com um único passo. (Lao-Tse)

– Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro. (Michel de Montaigne)

 Caminante, son tus huellas / el camino y nada más; / Caminante, no hay camino,/ se hace camino al andar. // Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar. (Antonio Machado)

– A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens e sim em ter novos olhos. (Marcel Proust)

– Viajar é a maneira mais agradável, menos prática e mais custosa de instruir-se. (Paul Morand)

– O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. (Cora Coralina)

– Só há duas espécies de viagem: em primeira classe e com crianças. (Robert Benchley)

– Em minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar. (Érico Veríssimo)

Ponte do Rialto (Veneza, Itália)
– Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. (Fernando Sabino)

– Que viagem / assim que você chega / a abóbora vira carruagem. (Alice Ruiz)

– A viagem só é necessária para as imaginações curtas. (Sidonie Colette)

– Como todo grande viajante, vi mais do que poderia me lembrar e me lembro mais do que poderia ter visto. (Benjamin Disraeli)

– Turistas não sabem onde estiveram, viajantes não sabem para onde irão! (Paul Theroux)

– Não há homem completo que não tenha viajado muito, que não tenha mudado vinte vezes de vida e de maneira de pensar. (Alphonse de Lamartine)

– A viagem mais longa é a viagem interior. (Dag Hammarskjöld)

– Eu sou o mundo em que caminho. (Wallace Stevens)

– A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. (Fernando Pessoa)

– Para o desesperado, a partida não parece menos impossível do que o retorno. (Thomas Mann)

Templo Budista (Nara, Japão)
– A felicidade não é a estação em que chegamos, mas uma maneira de viajar. (Margareth Lee Rimbeuk)

– Se você deseja viajar para longe e rápido, viaje leve. Deixe para trás todas as suas invejas, ciúmes, incapacidade de perdoar, egoísmo e medos. (Glenn Clark)

– Não sei que hajam muitas coisas acima do prazer de viajar; viajar é multiplicar a vida. De país em país, de costumes em costumes, o homem nasceu com propensão e gosto para isso, renova-se e transforma-se. (Machado de Assis)

– Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se não o carregamos conosco, nunca o encontraremos. (Ralph Waldo Emerson)

– Viajar é mudar o cenário da solidão. (Mário Quintana)

– O pior naufrágio é não partir. (Amyr Klink)

– É preciso que o discípulo da sabedoria tenha o coração grande e corajoso. O fardo é pesado e a viagem, longa. (Confúcio)

– Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida. (Simone de Beauvoir)

La Grand Place (Bruxelas, Bélgica)
– Mas eis a hora de partir: eu para a morte, vós para a vida. Quem de vós segue o melhor rumo? Ninguém sabe, exceto os deuses. (Sócrates)

– Se as viagens simplesmente instruíssem os homens, os marinheiros seriam os mais instruídos. (Marquês de Maricá)

– O casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante que o homem jamais poderá empreender. (Soren Kierkegaard)

– Devolvem nossa mala e sentimos que ela, também, está cansada da viagem. (Millôr Fernandes)

– Um viajante! Pois tendes razões de sobra para serdes triste, receio muito que houvésseis vendido vossas terras para ver a dos outros. (William Shakespeare)

– Nunca viajo sem o meu diário. Devemos ter sempre algo sensacional para ler no trem. (Oscar Wilde)

– Não se deve voltar aos lugares onde fomos felizes. (Ditado chinês)

Palácio Schonbrunn (Viena, Áustria)
– (...) eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda. E se acaso distraído eu perguntasse para onde estamos indo? – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer ubiquidade: estamos indo sempre para casa. (Raduan Nassar)

terça-feira, 21 de junho de 2016

MACHADO DE ASSIS AINDA ESTÁ VIVO!

Joaquim Maria Machado de Assis, considerado pela (ou por parte da) crítica como o mais importante escritor brasileiro de todos os tempos, ainda está vivo! A explicação para esse fato sobrenatural (ou ficcional) está na constante republicação de seus romances e contos. Além disso, não passa um só dia sem que alguém acrescente alguma novidade em sua (dele) fortuna crítica. Ninguém está interessado em deixar que os vermes corroam o cadáver do escritor!

Atualmente, quem quiser interpretar corretamente o pensamento machadiano precisa ler as contribuições teóricas de Roberto Schwarz, Lucia Miguel Pereira, Raymundo Faoro, José Guilherme Merchior, Alfredo Bosi, Astrogildo Pereira, Augusto Meyer, etc. E não é somente em terras tupiniquins que a fama de Machado de Assis se projeta como um cometa incandescente. Depois dos estudos pioneiros de Hellen Caldwell e Jean-Michel Massa, que ressaltaram a importância do Bruxo do Cosme Velho como interprete social e político, foram publicados diversos textos elogiosos de V. S. Pritchett, Susan Sontag, Carlos Fuentes, Alberto Manguel, entre outros. Por último, o inglês John Gledson revitalizou diversas teses sobre o escritor, inclusive propondo temas que, por esse ou aquele motivo, ninguém tivera antes a coragem de abordar.

A recente publicação de uma caixa (três volumes em capa dura) com todos os nove romances de Machado, além de onze “contos consagrados”, pode ser considerada como um belo presente de aniversário para aquele que, se estivesse entre nós, completaria cento e setenta e sete anos no dia 26 de junho de 2016. Embora a edição não credite o nome do autor da ideia, há um pequeno texto de M. Cavalcanti Proença no final do terceiro volume. Será isso suficiente? Obviamente, não! Um bom ensaio introdutório às obras do autor concluiria o projeto com aplausos e alegria. Para quem admira as obras de Machado, nada é excessivo ou aborrecido. Ele é um daqueles casos de quanto mais, melhor.

A leitura dos quatro primeiros romances, característicos da fase “romântica”, permite antever o salto de qualidade que foi efetuado na fase “realista”. Ou seja, Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) constituem a preparação para a beleza estética e literária apresentada em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891). Por sua vez, o pleno domínio técnico e artístico atinge a maturidade com Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). São os três últimos romances que, misturando humor e melancolia, fornecem as derradeiras mãos-de-tinta ao estilo que consagrou Machado de Assis.  Mas, convém esclarecer que isso é apenas uma espécie de síntese da tese que Roberto Schwarz elaborou com profundidade nos sensacionais Ao Vencedor as Batatas (1977) e Um Mestre na Periferia do Capitalismo (1990), livros básicos para quem quer ingressar no universo machadiano.

Machado de Assis foi um escritor múltiplo. Além de excelente romancista (na fase realista), escreveu contos, poesias, crônicas e teatro. Os contos mais importantes foram reunidos pelo John Gledson, numa edição de 1998 (caixa, dois volumes) e, posteriormente, numa edição econômica. Obviamente, há outras coletâneas. Dúzias. Para todos os (des)gostos. Umas melhores, outras nem tanto. Basta escolher. As crônicas foram reunidas em diversos volumes separados, de acordo com os veículos jornalísticos em que foram publicadas. Livros como Balas de Estalo (1998), Histórias de Quinze Dias, Histórias de Trinta Dias pretendem mapear esse território - que é vasto, vastíssimo. Em compensação, o teatro e a poesia, salvo engano, continuam negligenciados. A verdade é que Machado não era exatamente um grande poeta – e nem um bom dramaturgo. Claro, há quem não concorde com essa afirmação. Machado de Assis tem leitores de todos os matizes.

A consagração de um autor se torna definitiva quando um escritor se transforma em personagem ou quando os seus (dele) personagens migram para outros autores. Há vários romances em que Machado de Assis sofre essa transformação. Cito dois, mas há mais. Memorial do Fim, de Haroldo Maranhão, sobre os seus (dele) últimos dias, e Por Onde Andará Machado de Assis?, de Ayrton Marcondes, que é uma espécie de releitura de Esaú e Jacó. Em compensação, em relação aos personagens machadianos, Capitu (Maria Capitolina Santiago) ganhou uma notoriedade que ultrapassa todas as fronteiras. Há várias adaptações para cinema e televisão, além de vários livros sobre ela: Capitu, de Paulo Emilio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles (roteiro de cinema), Capitu – Memórias Póstumas, de Domício Proença Filho (romance), Capitu Sou Eu, de Dalton Trevisan (contos), e vários outros. Para os demais personagens, há centenas de reinterpretações. Os curiosos podem procurar por Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema (Org. Osman Lins), Capitu Mandou Flores (Org. Rinaldo de Fernandes) e Recontando Machado (Org. Luiz Antonio Aguiar). 

Para quem gosta de bisbilhotar a vida alheia, há pelo menos duas biografias de Machado de Assis no mercado. A mais antiga, e melhor, embora contenha algumas lacunas, foi escrita em 1981, por Raimundo Magalhaes Júnior (quatro volumes). Daniel Piza também tentou desvendar a vida de Machado. A crítica especializada não gostou muito. Além disso, a primeira edição tem alguns erros de informação. Coisa pouca, mas que não ajudou um livro que nasceu problemático.

Em síntese, Machado de Assis continua vivo. E assustando cada vez mais. Ninguém fica impune depois de ler algum de seus livros. Não consigo encontrar um elogio maior para um escritor.