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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

AQUELES CÃES MALDITOS DE ARQUELAU



A biblioteca é um lugar onde o conhecimento e o horror se espelham. Além de ser o ambiente propício para o estudo, pode ser portal para o universo (O Aleph, Jorge Luis Borges), espaço adequado para mostrar o quanto o poder é risível (Um General na Biblioteca, Ítalo Calvino), cenário para crimes (Um Corpo na Biblioteca, Agatha Christie), incêndios (O Nome da Rosa, Umberto Eco, Auto de Fé, Elias Canetti, e Fahrenheit 451, Ray Bradbury), além de constituírem um território farto para o exercício da censura política. Tudo pode acontecer enquanto o silencio é cumplice de quem passa parte de seu tempo enclausurado em uma sala repleta de livros.

Não é exatamente o caso dos personagens de Aqueles Cães Malditos de Arquelau, de Isaias Pessotti (São Paulo: Editora 34, 1993), embora todos trabalhem no Istituto Galileo Galilei per la Storia della Conoscenza, próximo de Milão. Em outras palavras, parte da narrativa está conectada com um tipo específico de bibliofilia: missais, antifonários, herbários, bestiários, bíblias, pergaminhos, códices, cartas geográficas, incunábulos, manuscritos, etc. Quanto mais antigo for o livro, melhor. E o valor do volume aumenta se tiver escólios (anotações, comentários). Por isso, parte da ocupação profissional daqueles que trabalham no Galilei consiste em vasculhar conventos, igrejas, porões e cofres de sacristias, batistérios ou cenáculos, bibliotecas, sótãos, armários, oficinas de restauração. Nas palavras de Emílio Donatelli, o narrador do romance: Descobrir esses esconderijos era uma espécie de hobby nosso nos finais de semana, quando saíamos, quase sempre no Citroen 2HP de Bruno Salvadori, atrás de boa comida, bons vinhos e velhos escritos”

Em uma viagem ao interior do Piemonte, próximo de Madonna della Spina, cinco dos integrantes do Galilei (Emílio, Bruno, Lorenzo, Isabella e Beatrice) encontram em uma Villa afastada uma igreja em ruínas – construída (possivelmente) no século XV pelo Bispo Lutércio, religioso que era chamado pelo povo da região de Bispo Vermelho. Completando o evento, eles descobrem alguns livros raros, inclusive um Commentarium sobre o teatro grego.

Como acontece nessas situações em que o desafio intelectual surge como um estímulo para que a pesquisa sobre o passado distante elabore algum tipo de aproximação, o Instituto Galilei é tomado por um furor intelectual. Diversas hipóteses – algumas fantasiosas, outras mais elaboradas – são alvo de exame detalhado. No meio desse nevoeiro espesso, em que a cultura do período medieval está muito distante do presente narrativo, sobressai o exagero descritivo do narrador – Emílio é um detalhista e a tudo quer nomear, como se isso reduzisse as distâncias entre o olhar e o objeto.

Emílio, latinista, trabalha na transcrição do Commentarium. Entre os diversos trechos do livro sobressai a rivalidade entre Eurípedes (480 a. C. – 406 a. C.) e Aristófanes (446 a. C. – 386 a. C.) – uma das abordagens que o texto enuncia, colocando em relevo os interesses do escritor. Mas, além disso, existem outras questões. A mais inquietante está na suposição de que as primeiras traduções dos dramaturgos gregos para o latim foram feitas pelo autor do Commentarium (que talvez seja o Bispo Lutércio). Como ao interprete cabe saber distinguir as diferenças entre a verdade textual e a verdade factual, Emílio assinala: Mas quando se trata de descobrir e entender figuras do passado, pessoas, uma certa dose de paixão ilumina detalhes que a mera racionalidade não enxerga”. Evidentemente, isso serve de baliza para não insistir no engano causado pelas certezas provisórias ou por se apaixonar por personagens que se parecem com imagens idealizadas. Aqueles que viveram no período medieval enfrentaram situações diferentes daquelas que vivencia o tradutor – e isso nem sempre é percebido. Por exemplo, os Domini canes (...) estavam prontos a denunciar por heresia quem, através dos textos clássicos, contribuía para a criação de um “novo paganismo” Qualquer referência ao teatro grego, pagão, provavelmente atrairia a atenção da Inquisição (cães do Senhor), originando consequências desagradáveis. 

O conhecimento deve ter uma dimensão erótica, escreve Emílio em um parágrafo que deveria passar desapercebido. Ao trabalhar com a transcrição do Commentarium, ele finge não ter disposição para causar algum tipo de atrito. Como todo tradutor/traidor, ele sabe que qualquer relação com o texto implica em contato com outra pele, com a fricção entre os corpos, com o propósito último que é o de obter o gozo. Mas também sabe que existe a possibilidade de Eros ser superado por Thanatos – o que talvez amplie a volúpia.

Nesse poço que ninguém conhece a profundidade, incontáveis páginas da tradução do Commentarium revelam uma discussão interminável sobre as obras de Eurípedes. Essa tarefa corre paralela ao desejo carnal de Emílio por Anna (pesquisadora do teatro grego clássico). Nesse momento, em que o desejo adquire dimensões de diferentes intensidades, a metáfora que une a vida ao teatro parece relampejar entre as páginas de Aqueles Cães Malditos de Arquelau. Embora Emílio e Anna consigam superar as barreiras e conjugar os verbos do prazer de forma substancial, o texto suscita mais perguntas do que respostas.

A importância da igreja católica apostólica romana adquire destaque no texto que está sendo traduzido. Isso significa que o andamento narrativo sofre transformações – a cultura literária grega é substituída pela desconfortável influência da Inquisição.

A descoberta de que Lutércio é uma contração do nome de Ludovico III (LV Tertius/Ludovico Terzo) de Monferrato, um cardeal que caiu em desgraça em uma das muitas intrigas na sucessão papal, muda em muito o entendimento dos pesquisadores. Os livros que sobreviveram a essa época se tornam testemunhas de um projeto repressivo e que confirma que todos aqueles que, por algum motivo, se desviaram do ordenamento religioso ou da estrutura política (que em muitos casos é a mesma coisa) foram, de uma forma ou de outra, considerados como inimigos. Ludovico III prefere se retirar desse cenário viciado e se refugia em uma vila no interior do Piemonte, constrói a capela, o teatro, e passa a viver isolado da maldade humana. Pelo menos, é essa uma das possíveis hipóteses a que chegam os pesquisadores ao examinarem os documentos que vão sendo reunidos na medida em que a pesquisa avança.

O que era para ser procura por livros raros evolui para um enigma sobre a história (italiana e da igreja católica). Na medida em que novos elementos se somam nesse emaranhado de fatos, o desenho que está inscrito nessa tapeçaria, nessa tessitura, que constitui o espaço literário, adquire visibilidade – embora algumas questões continuem embaçadas.

No último parágrafo do Commentarium, Emílio encontra um aviso sobre o destino daqueles que ousam desafiar a ordenamento social: Quando um homem superior ao seu tempo (tempori praestans), após tanta incompreensão e falsidade, insultado em seu nome e escarnecido em seu amor pela verdade e a justiça, cansado de amarguras renunciou ao convívio de seu povo, às causas que amara, para escapar do sofrimento no refúgio último de seus sonhos e afetos, não tinha ainda concluído seu destino infortunado. Ainda o esperavam, para dilacerar seus sonhos e seu corpo, aqueles cães malditos de Arquelau”. 

Ou seja, no desfecho do drama descobre-se que Ludovico III e sua amante foram dilacerados pelos cães do marido de Victória (que, por uso de figura de linguagem, é identificado como o governante da Judéia, da Samaria e da Idumeia no período em que nasceu Jesus Cristo).

Aqueles Cães Malditos de Arquelau pode ser definido como um romance erudito. A prosa pesada, repleta de citações em latim e grego, além de dados sobre um passado remoto e que é reconstruído ficcionalmente, exige do leitor paciência e, em alguns momentos, boas fontes de consulta – se o leitor quiser separar a ficção dos fatos históricos. Para amenizar um pouco essa lentidão e excesso cultural, surgem algumas notas de humor nos diálogos entre os personagens, uma espécie de esgrimir entre a inteligência e os elementos de prazer que constituem a leitura.  


Isaias Pessotti (1933-2024)


domingo, 15 de dezembro de 2024

ONIRISMO E NONSENSE


Pintura de Rob Gonsalves (1959-2017)


Todo mundo sonha. Dizem. Das coisas alheias pouco sei – exceto o que me contam e o que leio ou assisto no cinema. O que posso afirmar com segurança é que nos últimos tempos tenho dormido quase oito horas ininterruptas e em suave serenidade infantil. Raramente há interrupções no sono.  

Em outros tempos, muitos sonhos recorrentes com a família. Hello, darkness, my old friend / I’ve come to talk with you again. O eterno conjunto de desacertos que a vida nos presenteia. É possível que tenha, em algum momento, por motivo impreciso, consertado o parafuso frouxo que carrego na cabeça (como dizia minha avó) e solucionado o problema. Nunca mais apareceram.

O inconsciente costuma nos transportar para lugares que gostaríamos de ir. Situações que gostaríamos de ter vivido. Mas nem sempre. O contrário também se mostra verdadeiro. Muitas vezes o que se faz presente é o horror. Talvez para nos lembrar que estar acordado também prova que o inferno existe.  

O surrealismo foi a corrente artística que mais valorizou os sonhos. Flertando com o anarquismo, eles acreditavam que a arte não deve estar atrelada à lógica e à razão – cabe à imaginação ultrapassar essas barreiras e estar receptiva para todas as possibilidades da mente humana.

Recentemente, sonhei que estava em sala de aula. Era um daqueles dias de sol escaldante, todos de bermuda e camiseta. Muita gente entrando e saindo da sala, conversas paralelas ensurdecendo o mundo. Pareceu-me que algum rock comportado dava o tom da trilha sonora. Sentado em uma carteira estava um ex-colega do segundo grau. Fazia muito tempo que tínhamos perdido o contato e, salvo banalidades, nunca tivemos interesses convergentes. No sonho, ao contrário, parecia que éramos amigos íntimos. E o mais estranho, o tempo ainda não tinha produzido muitos estragos em nossos corpos. Éramos alegres e cabeludos. Tínhamos 16, 17 anos. Depois de trocar algumas palavras com ele e algumas pessoas que não conheço, deixei a sala, caminhei pelo corredor e... acordei.

Durante a manhã, procurei por alguma coerência nesse sonho. Não foi preciso ir longe. No ritmo da automedicação, conclui que não era caso de internamento psiquiátrico, tampouco havia motivo para marcar consulta com o doutor Sigmund – o bisbilhoteiro da mente humana. No século passado, quando fui aluno na UFSC, uma das disciplinas abordou os dois volumes de Alice, o célebre texto de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, 1832-1898). Foi uma bagunça. Alunos demais (inclusive alguns conhecidos) O ar condicionado não estava funcionando. Quem chegava atrasado não conseguia lugar para sentar. Poucos conseguiram ouvir o professor.

Será possível estabelecer algum tipo de ligação entre essas aulas malucas e o sonho? Sou daqueles que acreditam que nada acontece por acaso. Sempre há um fio solto dentro do labirinto e que raras vezes aponta para a saída. O usual costuma ser um convite para tomar chá com o Chapeleiro Louco (Mad Hatter) e a Lebre de Março (March Hare). Ou então, em outra versão, mergulhar no mundo proposto por um daqueles filmes estranhos do Luis Buñuel Portalés (1900-1983). 

De qualquer maneira, sem estabelecer conexões entre o que está certo e o que está errado nos passeios oníricos, só vou começar a me preocupar no momento em que ouvir os gritos da Rainha de Copas: Cortem-lhe a cabeça!





segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

RETORNO A REIMS

 


Não importa quando, nem por quais motivos, estamos sempre voltando para casa. Essa afirmação provavelmente está conectada com a necessidade psicológica de recuperar algumas coisas que se perderam durante a ausência, ou melhor, a separação. O exílio, escreveu Edward Said, é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada.    

Logo após a morte de seu pai, o filósofo francês Didier Eribon fez uma espécie de recuperação da história familiar em Retorno a Reims (Belo Horizonte: Âyiné, 2024. Tradução de Cecília Schuback). Mas, ao contrário do que manda a tradição neste tipo de narrativa, ele não queria produzir uma nova versão da Parábola do Filho Pródigo. O que escreveu está afastado da procura pelo acolhimento. O que passou, passou – não há motivos para arrependimento.

Embora tenha iniciado os seus estudos de filosofia na Universidade em Reims, somente depois que conseguiu sair de casa (e de Reims) é que Didier pode desfrutar da potência decorrente do exercício da sexualidade e do posicionamento político. Na infância e na juventude, os comportamentos e as ações eram definidos através dos relacionamentos afetivos. Migrar, mais do que uma rota de fuga da obrigatoriedade de protagonizar o registro social da masculinidade, serviu para explorar os sentimentos – sem os mecanismos repressores do universo familiar. Eu poderia dizer que os livros de Simone de Beauvoir e o desejo de viver livremente minha homossexualidade foram as duas grandes razões que presidiram minha mudança para Paris.   

Depois que foi morar em Paris, em contato com o mundo universitário, descobriu que a vida poderia ser diferente daquela que constituía a sua família, aquela que ele tantas vezes renegou de forma veemente. Fez amizade com Claude Levi-Strauss, Michel Foucault e Pierre Bourdieu, entre outros intelectuais. Tornou-se professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Amiens. Além disso, apesar de muitas restrições, publicou artigos em diversos veículos da mídia como Liberation e Le Nouvel Observateur.

Do ponto de vista político, o mal-estar de Didier está manifesto de várias formas. Uma delas surge de maneira assustadoramente honesta: Meu marxismo de juventude constituía, portanto, para mim o vetor de uma desidentificação social: exaltar a “classe operária” para melhor me afastar dos operários reais. Ele conhecia a teoria, mas não gostava da prática – porque tinha vergonha do trabalho do pai e da mãe. No seu entendimento, eles deveriam estar alguns degraus acima na escala social e econômica (o que era impossível, pois não tinham qualificação). (...) isso imprimiu em mim, acredito, uma aversão a essa miséria, uma recusa ao destino ao qual eu era intimado e a ferida secreta, mas ainda aberta, de ter que carregar para sempre em mim essa lembrança. Em outro momento da narrativa, Didier acrescenta mais uma camada de inquietação: (...) mal nos interessávamos por arte na minha casa (...) O gosto pela arte se aprende. Eu aprendi. Isso fez parte da reeducação quase completa de mim mesmo que me foi necessário realizar para entrar em outro mundo, em outra classe social – e para distanciar-me daquele e daquela de onde eu vinha. A transição do mundo idealizado para o mundo concreto nunca se realiza de modo pacífico. A compreensão parece fugir a cada instante. As mudanças no vocabulário e nas construções frasais, o vestuário, o conhecimento literário e musical, os amigos, tudo isso constitui parte do processo de adaptação para quem deseja se sentir partícipe do mundo almejado. Infelizmente, aquele que renega a suas origens, precisa conviver com a soma das contradições, que nunca estabelecem o ponto exato em que o indivíduo está situado. Além do aumento da aflição e da ansiedade, a sensação constante de que está traindo a si mesmo. “Você fala que nem um livro”, me disseram várias vezes na minha família para zombar desses novos modos, manifestando que sabiam bem o que significavam.        

O desassossego se acentuou mais tarde quando a sua família trocou a lealdade ao Partido Comunista pelos movimentos de direita e extrema-direita. Para quem fez parte da militância estudantil e universitária qualquer passo atrás nas conquistas sociais não era coerente. Didier foi incapaz de entender que os operários estavam cansados das promessas de uma vida melhor e que nunca se concretizavam. Além disso, os movimentos políticos da esquerda sofreram uma série de mutações – que se intensificaram com o passar do tempo: a pretexto de renovar o pensamento de esquerda, trabalhavam para apagar tudo o que fazia da esquerda a esquerda. (...) Não se falava mais de exploração e resistência, mas de “modernização necessária” e “reformulação social”; não mais de relações de classe, mas de “conviver”; não mais de destinos sociais, mas de “responsabilidade individual”. A noção de dominação e a ideia de uma polaridade estruturante entre os dominantes e os dominados desapareceram na paisagem política da esquerda oficial, em prol da ideia neutralizante de “contrato social’, de “pacto social”. Essa posição política se aproxima perigosamente do pensamento reacionário, aquele que dita que os interesses particulares sejam esquecidos (isto é, a calar-se e deixar os governantes governarem como bem quisessem). Nesse sentido, o desejo de diluir as fronteiras conflitantes entre a direita e a esquerda pode ser interpretado como um mecanismo que favorece o controle socioeconômico e, simultaneamente, não permite espaço para qualquer tipo de contestação.

Infelizmente, na atualidade (talvez desde sempre), a esquerda mundial vive uma crise de identidade. Parece estar perdida em um mundo em transformação. Enquanto isso, o liberalismo, ou melhor, o capitalismo vai se tornando hegemônico. Esse cenário influencia, evidentemente, as relações de trabalho, que manipulam os indivíduos como se fossem peças descartáveis.        

A xenofobia aparece como outro tema significativo, mas intrinsecamente relacionado com as mudanças políticas: Durante os anos 1960 e 1970, o discurso dos meus pais, e sobretudo da minha mãe, já misturava duas formas de divisão entre “eles” e “nós”: a divisão de classe (os ricos e os pobres) e a divisão ética (os “franceses” e os “estrangeiros”). O colonialismo costuma negar os danos causados aos países que foram explorados. Tampouco aceita que parte da população espoliada queira se incorporar ao sistema do opressor. O nacionalismo ambiciona se eximir da responsabilidade política. 

A vida intelectual nem sempre é bela de perto. A realidade não corresponde em nada à visão idealizada que podemos ter quando desejamos dela fazer parte. É com esse pensamento brutal que Didier percebe que, além de resistência, resiliência e coragem, precisa acrescentar outros itens à bagagem de quem decide abandonar as suas raízes (sua cidade, sua família) e fundar uma nova identidade. Nem todos conseguem.             

Voltar à Reims, a cidade onde nasceu, ou ir até Muizon (local da última residência dos pais), constitui uma forma de reeducação sentimental. É conversando com sua mãe, imerso em lembranças, que se aproxima do passado e passa a refletir mais intensamente sobre o presente. Escrever é o primeiro passo para voltar para casa.

 

Didier Eribon

 

TRECHO ESCOLHIDO

Depois de ter sido faxineira durante muito tempo, ela parou de trabalhar quando meu irmão mais novo nasceu, em 1967. Não durou: coagida pela pressão econômica, ela teve de conseguir um emprego e foi então labutar oito horas por dia em uma fábrica – passei ali um mês durante as férias de verão depois dos exames do fim do liceu e pude constatar qual era a realidade de uma “profissão” daquelas – para que eu pudesse assistir às aulas sobre Montaigne e Balzac no liceu ou, uma vez na universidade, ficar trancado durante horas no quarto para decifrar Aristóteles e Kant. Enquanto ela dormia à noite para levantar às quatro horas da manhã, eu lia até o amanhecer Marx e Trótski, depois Beauvoir e Genet. Só posso aqui retomar a simplicidade com que Annie Ernaux exprime, ao falar de sua mãe que mantinha uma pequena mercearia de bairro, a brutalidade dessa verdade: “Eu estava segura de seu amor e dessa injustiça: ela servia batatas e leite de manhã a noite para que eu ficasse sentada em um anfiteatro ouvindo alguém falar de Platão”. Quando a vejo hoje, o corpo prejudicado pelas dores ligadas à dureza das tarefas que ela cumpriria durante quase quinze anos, de pé numa linha de montagem em que tinha de rosquear tampas em frascos de vidro, com o direito de se fazer substituir dez minutos pela manhã e dez minutos à tarde para ir ao banheiro, fico espantado com o que a desigualdade social significa concretamente, fisicamente. E mesmo a palavra “desigualdade” me parece um eufemismo que não apreende aquilo de que se trata: da crua violência da exploração. Um corpo de operário, quando envelhece, mostra a todos os olhares qual é a realidade da existência de classes. (p. 62).     


sábado, 7 de dezembro de 2024

OS LIVROS E AQUELES QUE QUEREM CANCELÁ-LOS




Um dos grandes pecados que envolvem a literatura encontra-se na confusão entre a narrativa e o escritor. Muitas vezes aquele que escreve acaba sendo confundido com o texto publicado.

Explico. Ezra Pound, Louis-Ferdinand Céline, Pierre Drieu de La Rochelle, entre outros, eram fascistas. No entanto, escreveram romances e estudos teóricos de importância fundamental para a literatura. Recusar, ou melhor, cancelar esses trabalhos significa ignorar que o/a escritor/a é, em primeira instância, um ser humano – portanto, passível de escolhas éticas e morais. Decretar juízo de valor sobre a história pessoal do/a sujeito/a constitui um rebaixamento inapropriado, pois quer medir a qualidade literária com a régua do politicamente correto. E isso não é justo – nem com aquele que escreve, nem com o texto produzido.     

William Burroughs matou a esposa acidentalmente – o filósofo Louis Althusser também fez isso; Ernest Hemingway (Prêmio Nobel de Literatura, 1954) e Charles Bukowski, além de alcoólatras, eram machistas; Vidiadhar Surajprasad Naipaul (Prêmio Nobel de Literatura, 2001) era uma pessoa detestável sob diversos aspectos; Dostoiévski, além de alcoólatra, tinha problemas com jogos de cartas e roleta. Monteiro Lobato era racista; O Marquês de Sade cultivava com esmero incontáveis desvios sexuais; Philip Kindred Dick tinha esquizofrenia; James Joyce costumava pedir dinheiro emprestado e nunca devolvia; Anne Sexton, Sylvia Plath, Virgínia Woolf e Alejandra Pizarnik eram maníaco-depressivas e se suicidaram; a inimizade entre os irmãos Heinrich e Thomas Mann (Prêmio Nobel de Literatura, 1929), Lawrence e Gerald Durrell ultrapassava as fronteiras do bom comportamento; Jack Kerouac era viciado em anfetaminas.

A lista dos/as escritores/as defeituosos se prolonga na direção do infinito. Mas nenhum desses desvios de conduta desmerece o trabalho literário. Deixar de ler um livro por qualquer motivo que não seja as deficiências do próprio livro constitui um sacrilégio e uma prova cabal de miséria intelectual.

As áreas que podem determinar a qualidade de um texto são, em última instância, a crítica literária e o gosto pessoal. Ao lado dos critérios técnicos (que podem estabelecer um grau de avaliação para os inúmeros elementos que compõem a obra), as preferências do leitor ajudam a determinar se uma narrativa deve ou não integrar o cânone. Com a prerrogativa de que esses critérios podem ser alterados na semana seguinte. 

Trocando em miúdos: os instrumentos de análise são subjetivos e podem ser contestados a qualquer momento. O gosto e as listas precisam ser mutáveis (conforme a experiencia vai sendo produzida, os parâmetros estéticos podem evoluir ou regredir). A literatura não precisa estabelecer algum tipo de ordem definitiva (melhor ou pior) ou garantir que o leitor não terá decepções; o que ela almeja é o constante diálogo entre o/s livro/s e o leitor. Disso deve resultar a fruição do texto. Elementos externos e a vida pessoal do escritor não representam um acréscimo ou um demérito na produção literária. 

O leitor se apaixona pelo livro – o escritor é apenas um instrumento dessa ação.

 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

A ESTÉTICA, SEGUNDO O MANIFESTO FUTURISTA

 


A crise estética está instalada. E isso não é nenhuma novidade. Novas avaliações sobre alguns conceitos sociais, baseadas na fluidez da modernidade, forneceram um afastamento radical do pensamento clássico – aquele que pretendia imitar a beleza grega. Um dos primeiros sinais dessa mudança apareceu no Manifesto Futurista, de 1909, proposto por Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944) e outros escritores italianos. Ao glorificar o progresso e as máquinas de guerra (... um automóvel rugidor, que corre sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia), instituíram um novo olhar sobre a arte e a sociedade.

A proposta dos futuristas determinou que a hostilidade acrescenta valor ao objeto artístico. Sem o mínimo constrangimento, declararam: Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. Com esse pensamento impactante ficou estabelecida a eliminação sumária das paisagens pastoris, das cenas do cotidiano urbano, dos retratos familiares, da poesia lírica, da música intimista, das esculturas ornamentais. Para que isso se efetive urge destruir os museus, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.  

O fascismo encampou (e se encantou com) esse tipo de proposta. A ideia de instituir uma nova ordem estética (Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível?) sempre fascinou os que são contra a democracia, os que se julgam excluídos pelo Sistema, os que defendem os privilégios da burguesia, a masculinidade tóxica, os que querem criar o caos, os que empunham as picaretas, os machados, os martelos e destroem sem piedade o passado histórico.

Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher, defende o Manifesto Futurista, imaginando que, depois do fim do mundo, e a sua consequente "higienização", virá a redenção espiritual e política. Inclusive porque quer estabelecer "o lugar correto" para cada um dos atores nessa sociedade renovada. Caberá aos profetas do Apocalipse explicar esse dogma às multidões, declarando que, depois das mudanças, a corrupção será extinta, os pecados desaparecerão e a meritocracia dará a cada um o seu valor – religiosamente. Nenhuma surpresa: as ruas estão repletas de indivíduos que não conseguem encontrar o óbvio, apesar de tropeçarem nele a todo instante.

A contradição é uma das partes do motor que move o irracionalismo. Na tentativa de encontrar uma saída da mediocridade a que acreditam estar condenados, os desesperados se agarram em qualquer ideologia. E, sem refletir sobre o que isso pode afetar o coletivo, propõem outras regras para um velho jogo: Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas forças neste eterna e inútil admiração do passado, do qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados? Arauto da estética da destruição, o Manifesto Futurista finge estar livre das estruturas sócio-políticas vigentes. E segue em frente sem estabelecer qualquer tipo de correlação com o presente ou com o futuro.

Embora tenha mais de um século de existência, o Manifesto Futurista continua atual. Alguns ciclos nunca terminam. Entram em estado de hibernação. E, um dia, por algum motivo, voltam a assombrar. A autofagia é um vício inesgotável.  

   

Filippo Tommaso Marinetti (1876 - 1944)