Páginas

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"A ACADEMIA" E O RETRATO DA ALDEIA


Foi no mezanino de "A Sua Livraria" que Edézio Nery Caon "lançou" o livro. Era setembro de 1977 e vários exemplares da novela A Academia foram arremessados ao ar, na direção dos amigos que se fizeram presentes naquele convescote.

O autor, enquanto executava essa hercúlea tarefa, se apoiou na escrivaninha, disse: Está lançado! Em seguida, deixou entrever um sorrisinho maroto de canto de lábio − uma espécie de suave desprezo pelas vaidades que movem o mundo. Sem pressa ou ansiedade, desceu a escada, recebeu cumprimentos dos amigos, autografou meia dúzia de exemplares, e não se incomodou com o curso da vida. Como lhe era típico.

Esse deveria ser o trajeto normal dos acontecimentos. Não foi. Alguns dias depois, um dos personagens, perdão, uma das pessoas que suspeitaram ter servido de inspiração para o enredo da novela, se declarou indignada com a apropriação ficcional de suas trapalhadas (inclusive literárias) e publicou um artigo no jornal Correio Lageano.

Datado de 27 de setembro de 1977, mas publicado no dia 28, Mensagem aos homens de boa vontade ocupa meia página. Depois de longa introdução, onde o auto−elogio se equilibra entre as frases, o articulista − entre outros agrados − identifica que O livro é tão impatriótico, tão injusto e tão pornográfico, que somente acreditei ser da autoria de Edézio quando isso me foi garantido por vários amigos merecedores de fé.

A seqüência de adjetivos (impatriótico, injusto e pornográfico), que mistura conceitos difusos e, de certa forma, contraditórios, indica falta de clareza intelectual. Também expõe a miopia psicológica do articulista, que se declara incapacitado para ler o nome do autor na capa do livro.

A série de incoerências prossegue condenando a capa do livro, desenhada por uma das figuras mitológicas da vida cultural da província, Nereu de Lima Goss: é igualmente ofensiva à própria humanidade, pois que apresenta caricaturas de animais como membros de uma Academia de Letras. Sem se importar com a "boa vontade" que solicita aos leitores de A Academia (em particular) e aos lageanos (por extensão), o articulista condena − de forma veemente − o zoomorfismo artístico. Provavelmente (não) se identificou com as imagens que ilustram o livro.

O desfecho do parágrafo, natural para o autoritarismo político em vigência na época, é exemplar: É uma capa que, como o livro, merecia a apreensão pela censura federal, a bem da moralidade.

Esse "carteiraço" (no melhor estilo "aqui quem manda sou eu") deixa expresso nas entrelinhas uma ameaça sobre o alcance do longo e inflexível braço da lei. O contexto se aclara quando se descobre que o articulista foi juiz de direito (voltado à direita).

O artigo termina em tom desconexo: Sem objetivo de polêmica – e muito a contragosto – alinhavei estas palavras como se estivesse descrevendo um sonho mau, um horrível pesadelo, preferindo acreditar que Edézio Nery Caon, quando escreveu seu livro, estava sofrendo de um ataque de amnésia, esquecera−se do homem bom e correto que era e se transformara num autêntico lobo mau. Por isso, desejo de coração que seu ato maldoso não seja considerado pelo Senhor quando, como todos nós, dever apresentar−se perante o Supremo Juízo.

A citação sobre a possibilidade do autor de A Academia ter que se apresentar diante do Senhor, no Supremo Juízo, é emblemática advertência velada sobre a possibilidade de não haver futuro.

Depois da publicação do artigo, que serviu de publicidade gratuita para um livro que não tinha muitas pretensões, foi inevitável conter o surgimento de um best−seller. Os primeiros 500 exemplares foram vendidos em menos de 48 horas. Outros 500 exemplares foram impressos em regime de urgência – e também se esgotaram rapidamente.

Um pequeno detalhe precisa ser agregado a essa história. A Academia é uma espécie de roman à clef. A narrativa descreve algumas situações que provavelmente aconteceram, embora algumas cenas sejam frutos da imaginação do autor. Nessa mescla entre a realidade e a ficção, Edézio Caon preferiu utilizar um recurso estilístico interessante: preservou a identidade dos personagens. Todos são designados por pseudônimos.

Se ninguém é identificado no livro, há que se esclarecer que um dos amigos de Edézio elaborou uma espécie de "quem é quem" em A Academia. Encostado na porta da livraria, entregou cópias da lista a quem comprou um ou mais exemplares do livro. Mais do que um "plus" para a compreensão da leitura, essa relação de nomes se tornou "Cult". Os leitores, com a lista ao lado, puderam conferir alguns dos detalhes sórdidos que constituem a vida provinciana.

A "lista" (cópia fornecida por
Nereu Alves de Sá)
Passados 35 anos da publicação de A Academia, pode−se dizer que ficou muito pouco dessa história. Restam escassos exemplares do livro. Muitos deles estão acumulando poeira nas estantes das bibliotecas. Quase artesanal, impresso de maneira descuidada, repleto de erros de composição gráfica, provavelmente nunca mais será reeditado. Depois de tanto tempo, o enredo não mais provoca interesse ou riso - inclusive porque não relata em suas páginas nenhuma pornografia (como alegavam seus detratores). Além disso, muitos dos seus personagens faleceram – o que impede um contraste crítico ou algumas fofocas malévolas.

Mas, afinal, qual é o enredo de A Academia? A narrativa se concentra na história ficcional da fundação da Academia Vargem−de−cimense de Letras. Alguns "intelectuais" resolvem se reunir para obter elevação cultural. Presunçosos, não medem esforços para cobrir a mediocridade com camadas de um verniz contemporâneo, moderno. Quer dizer, nem todos. Dona Jussara, professora e secretária da Academia, muito mais esperta do que a maioria, aproveita a situação para conseguir vários empréstimos e doações. Quando o cofre da instituição ficou cheio, não deixou escapar a oportunidade. Foi viver o bem−bom longe daquela gentarada ignorante. É isso. Uma história de vaidade e roubo. Nada demais.

No entanto, houve quem não conseguiu abstrair a parte histórica da parte ficcional e, se julgando humilhado e ofendido por ter sido exposto em praça pública, manifestou reação intempestiva. Foram esses "chiliques" que forneceram visibilidade ao livro. Como é freqüente em casos descompensados, o que era apenas diversão se tornou holofote.

Uma última anedota. Na segunda edição de A Academia, Edézio acresceu algumas informações paratextuais sobre o título genérico de Opiniões sobre A Academia. Aproveitando o que havia de interessante em várias publicações, fez uma espécie de coletânea de elogios ao seu livro. De Mensagem aos homens de boa vontade retirou e publicou os únicos trechos que não são ofensivos (!): (...) teci elogios a Edézio, como advogado e cidadão. (...) porque Edézio Nery Caon, com a formação cultural e a capacidade de trabalho que ninguém lhe pode negar.... Ao inverter os propósitos, como se houvesse sido elogiado, Edézio mostrou, mais uma vez, bom humor e ironia. Os adversários nada puderam fazer contra.

No final do mesmo ano, Edézio Nery Caon publicou outro livro sobre o ridículo provincial: A Faculdade, mas não obteve o mesmo êxito de A Academia.


Nenhum comentário:

Postar um comentário