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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

JAMES JOYCE E EU

Se tivesse sobrevivido ao alcoolismo, à cegueira, à úlcera no duodeno, à falência econômica e às diversas catástrofes naturais, James Augusta Joyce teria celebrado 130 anos no dia 02 de fevereiro. Primogênito entre dez irmãos, pai de dois filhos (Giorgio e Lucia), esposo de Nora, escritor magistral, adjetivos não faltam para nomeá−lo.

Minha história pessoal está ligada com a de James Joyce. Estive em Zurich, durante dois dias, em novembro de 1990. Foi naquela cidade, em diferentes períodos, que Jim viveu vários anos, foi lá que ele morreu, é lá que ele está enterrado.

Antes de sair do Brasil, embriagado pela leitura de duas biografias (Richard Ellmann e Chester G. Anderson), imaginei, com a mesma alegria daqueles pré−adolescentes que vão para a Disneylândia, uma espécie de passeio sentimental por aquelas ruas.

Depois do almoço, apesar da garoa que insistia em molhar a cidade, procuramos pelo número 8 da Augustinergasse. É uma transversal da Bahnhofstrasse, o coração comercial de Zurich. A rua é estreita, escura e sinuosa. As casas são antigas. O endereço corresponde a um sobrado de dois andares. Na porta fechada, um cartaz anunciava que o Museu James Joyce só abriria no dia seguinte. Pensei em ir embora, mas a mulher que, dois anos depois, se transformaria na mãe do meu filho discordou. Unindo as palavras à ação, apertou a campainha.

Algum tempo depois, uma senhora simpática nos autorizou a visita. A biblioteca impressiona. Centenas de cópias de uns poucos livros. A diferença é que estão escritos em diferentes idiomas e dialetos. Fui informado que um dos objetivos do museu (que não é museu, no sentido formal do termo, e sim um instituto de pesquisas) é reunir todas as traduções possíveis dos livros escritos por James Joyce. Claro, também estão lá ensaios críticos, obras de referências, dicionários,... Quase tudo o que se possa imaginar sobre o universo bibliográfico joyceano.

Em outra sala, o delírio produzido pelo fetiche. Escrivaninha, cópias de manuscritos, canetas, gravatas, bengala, caixa vazia de charutos, algumas peças de arte. A presença do personagem é superior ao homem que usou aqueles objetos.

Em dado momento, a diretora da instituição me pergunta pelo tradutor brasileiro de Ulisses. Tento explicar que não conheço (não o conhecia) Antonio Houaiss e que há outras pessoas interessadas em divulgar a obra de Joyce no Brasil. Depois de algum esforço, citei os Irmãos Campos, José Geraldo Vieira, Hamilton Trevisan, Paulo Leminski. Não tenho certeza se fui entendido.

Antes de irmos embora, comprei um lote de postais. Custaram caro. Guardo−os como se fossem relíquias.

De volta ao burburinho das ruas, caminhamos pelas calcadas, tentando se esconder da garoa. As ruas estão cheias. Os guarda−chuvas nos atropelam. Há certa pressa, uma urgência não declarada no ar. A impressão é que todos querem fugir, o mais rápido possível, do centro da cidade.

Toda aquela agitação precisava ser controlada com uma boa caneca de cerveja estupidamente gelada, é o que decido. Sou lembrado que isso é delírio: na Suíça, a cerveja é servida na temperatura ambiente. Tudo bem, vamos ao Odeon!

O prédio é lindo. São cinco andares de uma arquitetura de cartão postal. Conta a lenda que Jim cansou de encher a cara nesse boteco. Dizem que Vladimir Ilitch Ulianov, mais tarde conhecido por Lênin, também comparecia no estabelecimento para "molhar a palavra". Há quem aposte que os dois tenham estado juntos muitas tardes e noites, talvez um ao lado do outro. Provavelmente nunca conversaram.

Sentamos nas banquetas do balcão em forma de "U" e pedimos cerveja – servidas em copos enormes, sob "bolachas" cor−de−rosa, em forma de coração. Impossível ler o que lá está escrito: alemão.

O ambiente do bar é estranho, pesado, como se estivesse esfumaçado. A iluminação é ruim. Ou melhor, kitsch. Nas mesas, muitas pessoas conversando, rindo, bebendo. De repente, algumas coisas se revelam para nosso particular escândalo. Estamos em um bar "gay"! O carinho exagerado das mulheres, na mesa próxima; o moço bonito, de terno, que conversa com o rapaz de jeans; o garçom... Pedimos mais cerveja e ficamos, provincianamente, a exercitar o voyeurismo. Pergunto para mim mesmo: como será que Joyce reagiria, nessa situação?

Com fome, fomos embora. A garoa havia se transformado em temporal. O taxi nos deixa em frente ao Pfauen, o restaurante onde parte do work in progress (mais tarde conhecido como Finnegans wake) foi escrito. Enquanto esvaziava dezenas de garrafas de Fendant, Joyce imaginava aquelas maravilhas linguísticas que muita gente não consegue entender.

O salão é enorme. Com direito a um mezanino que leva a outro salão, no andar superior. O restaurante estava lotado. Pedimos peixe agridoce e frango. Vinho, também. Procuro, nas paredes, alguma menção a respeito de Joyce. Em vão. A comida e a bebida estavam ótimos.

Depois de pagar a conta, fizemos questão de conhecer todo o restaurante. Do alto da escada, olhando por uma janela, percebo que a chuva está diminuindo. Ao olhar para o outro lado, vejo o candelabro gigantesco que ilumina o salão: é perturbadoramente bonito. Ao mesmo tempo, há um "quê" de desencontro, de objeto fora de lugar.

Em frente ao hotel, depois de pagar o taxi, senti a chuva me envolver em um abraço carinhoso. O reflexo das lâmpadas no rio Limmat aumentou o calor do meu corpo. Por um instante, pensei, mais uma vez, naquele homem magro, eternamente sem dinheiro, obcecado pela própria obra literária e que viveu vários anos, entre 1915 e 1941, naquela cidade maluca. "Melhor curar o porre debaixo das cobertas", lembrou−me a futura mãe do meu filho.

Pela manhã, o trem nos levou embora. Nas ruas de Berna, encontramos ursos, canivetes, fundues, praças, pessoas jogando xadrez em tabuleiros gigantes e um sol de fazer inveja ao Rio de Janeiro.

P.S: Esse texto é um resumo do artigo Pelas ruas de Zurich, com James Joyce, publicado originalmente no jornal A Notícia (Joinville, SC, 21 de setembro de 1996, p. C−8)


3 comentários:

  1. Caro Raul, como vai? Deliciei-me com cada parágrafo desse texto. Do mestre Joyce já li Dublinenses, agora estou lendo "Retrato do Artista Quando Jovem" e tenho "Ulisses". Ainda me falta sua obra máxima "Finnegas Wake." Parabéns pelo artigo. Abraço do Gonçalves.

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  2. O senhor deveria continuar publicando seus próprios textos e poemas, além das coletas alheias.

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