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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

UMA RELEITURA DE A PESTE

Houve um tempo (entre os anos 30 e 80 do século passado) em que a literatura estava atrelada ao compromisso político e social. Mais do que isso, havia uma espécie de determinismo moral a mover o comportamento artístico. Nenhum escritor "de respeito" empunhava a pena (ou a caneta) sem objetivar a transformação do mundo. Em alguns momentos, essa postura de cavalheiro errante, à procura de alguma causa para justificar a espada em riste, resultava em absoluta chatice. Em outros, dava sentido à vida que estava sem sentido. Entre um descompasso e outro, milhares de jovens encheram a cabeça com as idéias enunciadas em textos como Os Frutos da Terra (André Gide), A Peste", A Queda e O Estrangeiro (Albert Camus) ou A Idade da Razão e Entre Quatro Paredes (Jean−Paul Sartre).

No livro Por que ler os clássicos, Italo Calvino observa que Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo..." e nunca "Estou lendo...".

A releitura é uma forma de viagem, passeio a um lugar onde se esteve antes, mas... a paisagem se mostra um pouco diferente daquela que povoa as lembranças. Quer dizer,... é a mesma, mas não o é. A surpresa aparece a cada instante, a provocar algum tipo de curto−circuito emocional. Se ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, como dizem que dizia Heráclito de Éfeso, também não é possível reler um livro com os olhos voltados ao passado. A história de cada indivíduo acrescenta novas camadas de significado ao texto (é possível que esses detalhes já estivessem ali, na primeira visita, mas, por algum motivo, não foram percebidos). Não é o texto que se modifica. É o leitor. A releitura comprova essa mudança.

O romance A Peste, escrito em 1947, por Albert Camus (1913−1960), é um dessas narrativas que persistem como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível (Calvino, outra vez). A catástrofe apocalíptica, ocorrida na cidade de Oran, na Argélia, continua sendo uma alegoria terrível da luta travada contra os regimes políticos autoritários, o racismo e o preconceito − mesmo depois de 65 anos da publicação do livro.

A modernidade substituiu os pieds−noirs (pés negros, designação pejorativa para os franceses nascidos no norte de África) por outras minorias – algumas com mais, outras com menos marketing. O horror continua atual. E muito parecido ao que foi experimentado por Bernard Rieux, Jean Tarrou, Joseph Grand, Raymond Rambert, Cottard e o padre Paneloux.

Por outro lado, em situações de crise, os valores que orientam a conduta humana são despedaçados pela mesquinharia e pelo egoísmo. No regime de encarceramento, onde os limites físicos se confundem com a perda da racionalidade, o comportamento dos indivíduos revela aspectos que − por força das convenções sociais – costumam ficar escondidos. Nesses momentos, a civilização se confunde com a barbárie.

O enredo de A Peste não é complicado. Em algum momento, Oran é invadida por milhares de ratos. Parte da população fica doente. Depois de muita indefinição e centenas de óbitos, a prefeitura admite que há uma epidemia. Como parte da estratégia preventiva e sanitária, as portas da cidade são fechadas. O estado emergencial se integra à vida urbana. Nessa ilha artificial, todos se tornam presas fáceis da morte.

A resistência é liderada por Bernard Rieux. Sem o perfil dos heróis circunstanciais (ou vocação para brigar com Deus), ele não economiza esforços para combater o Mal. Diante da insaciabilidade da peste, a contabilidade da morte revela a falta de misericórdia. Assim como Sísifo, o médico está condenado a uma missão repetitiva, aparentemente inútil.

Foi no Diário do Ano da Peste, escrito por Daniel Defoe, que Camus encontrou a epigrafe de seu romance: É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe. O contexto metafórico expressa uma situação opressiva, onde todos (sem exceção) se tornam prisioneiros. A doença sinaliza para os regimes políticos totalitários. O inominável se torna concreto através de palavras.

Romance escrito em terceira pessoa (como se fosse um ensaio enviesado, de caráter moral), o tom narrativo de A Peste beira o coloquial (embora apresente excelente correção descritiva). A discussão filosófica sobre os limites da vida está expressa sem muitas complicações. Os elementos textuais vão sendo acrescentados sem muita pressa. Em alguns momentos, esse proceder retarda o desfecho; em outros, procura fornecer verossimilhança. Ao final do relato, o leitor é informado de que o cronista dos acontecimentos trágicos é Rieux.


Em 1949, Camus visitou o Brasil. Em um subúrbio do Rio de Janeiro, recebeu de presente uma garrafa de cachaça. O jovem poeta que lhe entregou a bebida fez uma pergunta: Trouxe Tarrou? A história não registra a resposta do romancista e filósofo. Talvez tenha sido apenas um sorriso de canto de lábio. Não importa. Tarrou sempre esteve junto com Camus.

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