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segunda-feira, 25 de junho de 2012

FAHRENHEIT 451

No início de Fahrenheit 451, romance escrito por Ray Douglas Bradbury, a personagem Clarisse McClellan pergunta para Guy Montag: Você é feliz?. Sem saber qual a resposta adequada para esse tipo de situação, alguma coisa entra em curto−circuito na mente do bombeiro. Esse questionamento jamais lhe ocorrera. Viver, até então, nunca fora uma questão de discutir felicidade ou sofrimento.

Em uma sociedade futura, onde a mão−de−ferro do Estado absolutista controla as informações, Montag é um bombeiro – ironicamente, sua principal tarefa profissional é destruir livros e incendiar as casas dos inimigos do Estado.

Ele vive em um mundo onde não há lugar para a reflexão crítica, onde os programas televisivos, antecipando aquilo que chamamos de reality show, impõem comportamentos e alienação.

Em determinado momento, Montag substitui o embotamento político pela curiosidade. Por que os livros causam tantos problemas? Por que são tão perigosos? Durante uma das operações de combate aos inimigos da ordem pública, não consegue resistir e, de forma imprudente, leva alguns livros para sua casa. Percebe que ler é um estimulante intelectual. Uma porta para novos horizontes. Em contraste com a apatia de sua esposa, que fica ligada 24 horas por dia no enquadramento dos programas televisivos, Montag começa a ver o que se esconde atrás de uma serie de posturas e condutas. Sem encontrar uma alternativa razoável para controlar o descompasso que essa situação lhe causa, ao se sentir adoentado, falta ao trabalho. Pela primeira vez na vida, não lhe parece adequado destruir o conhecimento.

Inevitavelmente, recebe a visita de Beatty, seu superior imediato − que, usando de singular pedagogia, esclarece algumas questões obscuras. Mais do que isso, aproveita o momento e não economiza ameaças sobre o destino de quem rejeita as normas de conduta social. No embate entre a força e a razão, Montag hesita. Esse ínfimo intervalo na procura de qual caminho deve seguir é suficiente para que os bombeiros invadam sua casa e a destruam. Livros são perigosos, causam infelicidade – é a lição que esse duro aprendizado grava na pele de Montag.

Elevado à condição de marginal político, Montag fuge. Conta com a ajuda do professor Faber. Descobre que, além das fronteiras da cidade, em uma espécie de terra de ninguém, residem outros foras−da−lei. São pessoas que, assim como ele, em algum momento infringiram alguma regra imposta pelo Estado.

Nessa sociedade ágrafa (onde a escrita se transforma em sinônimo de transgressão), a sabedoria retoma as origens pré−históricas: é a transmissão oral que garante a perpetuação do conhecimento.

Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel entra em combustão, é a temperatura em que a História humana se transforma em loucura.

Ray Douglas Bradbury nasceu em 20 de agosto de 1920 e faleceu em 06 de junho de 2012, aos 91 anos de idade. Escritor de ficção científica de primeira linha, começou a publicar na adolescência. Em 1945, o conto The big black and white game é selecionado como o melhor conto de ficção estadunidense. Ficou conhecido mundialmente com a publicação do livro de contos Crônicas Marcianas, em 1950. Fahrenheit 451 foi publicado em 1953.

Em 1966, François Truffaut dirigiu a versão cinematográfica de Fahrenheit 451, alterando ligeiramente o texto original.

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