Páginas

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLIX)

 


Estou com as costas em pandarecos. Não sei de onde surgiu a expressão pandarecos, era muito comum algum tempo atrás, fui ao dicionário verificar o significado, tá lá, assim mesmo, no plural: estilhas, frangalhos, destroços, pedaços. Enfim, a palavra serve para contextualizar a bobagem que fiz ontem.

Resolvi colocar as estantes com a literatura brasileira em ordem. Coisa pouca, o trivial básico. Ninguém que quer se especializar em um assunto escapa dessas armadilhas – e, antes que alguma voz se pronuncie em defesa da modernidade, declaro minha aversão literária aos instrumentos digitais, PDFs, Kindles e demais quinquilharias. Gosto de livros com vida – isto é, com capa, textura de papel, cheiro e peso. Na minha concepção, os personagens somente adquirem substância e densidade no livro físico.

(Preciso abrir parênteses para relatar que uma de minhas maiores angústias ocorreu quando li, no excelente Ex-Libris – confissões de uma leitora comum, da Anne Fadiman, vários exemplos de loucuras cometidas por leitores excêntricos. Um dos que mais me assustou foi o de seu pai, um leitor voraz, que, para diminuir o peso dos livros que carregava, rasgava os capítulos lidos e os jogava no lixo. O retorno da barbárie foi o mínimo que pensei.).

O fato que importa nesta narrativa é que, nos últimos tempos, eu ia retirando os volumes do lugar, e, depois, os amontoava em cima da mesa, a velha bagunça de sempre. O mesmo acontecia com as novas aquisições. Acabei transformando a área onde está o computador em uma ilha. Mais do que isso, fiquei asfixiado. A situação exigia uma atitude. E de forma imediata e efetiva.

Fiz o que precisava ser feito. Separei os volumes em ordem alfabética por sobrenome de autor e fui tentando encaixá-los entre os outros livros. Inevitavelmente, precisei afastar alguns para a próxima prateleira. E, nesse ritmo, fui executando a tarefa, durante umas duas horas. O problema é que esqueci que não tenho mais 18 anos. Lá pela letra D, o suor escorrendo pelo rosto, sentei no sofá e pedi água. Literalmente. Foi nesse momento que percebi, pela primeira vez, que algo estava errado. Mas, como compete aos heróis das histórias em quadrinho, ignorei os sinais de perigo e prossegui – acreditando no mito de que apanhar faz parte da luta, no fim o mocinho sempre vence, não importa a profundidade das cicatrizes.

Depois da pausa e da hidratação, retomei o serviço. Mas, sem o mesmo empenho. Uma dor – de difícil localização – começou a incomodar. Fiz de conta que era uma bobagem sem maiores consequências. Foi um erro.  

Na letra T acabou o espaço de manobra. Em outras palavras, precisarei comprar novas estantes. Os autores que o sobrenome começa com as letras U, V, X, Z, Y e W estão temporariamente amontoados em cima de outros livros.

De uma forma ou de outra, consegui implantar o suave tédio da ordem (nas palavras de Walter Benjamin). Obviamente, não esqueci que todo esse esforço está ligado ao temporário. Amanhã ou depois vou precisar olhar esse ou aquele texto e, mesmo que consiga ter um mínimo de disciplina, a desordem será restabelecida, confirmando que o caos sempre vence. 

O que parece ser permanente é a dor nas costas. Antes de dormir, tomei um relaxante muscular. Dose dupla. A doce ilusão de que uma noite de sono seria suficiente para resolver a questão. Acordei pior. Dói tudo e mais um pouco. Estou velho.






segunda-feira, 7 de setembro de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLVII)

 


Minha mãe recheava dois pedaços de polenta com queijo, empanava tudo em ovo e farinha, e fritava. Era mágico. E delicioso. Nunca mais encontrei aquele conjunto de sabores.

Essa comida rústica (e, ao mesmo tempo, sofisticada) era servida quente. Ao primeiro corte, o queijo derretido se espalhava pelo prato. Naquele tempo, minha família não comprava queijo no supermercado – sequer conhecíamos essas fatias amarelo desmaiado, insípidas, ricas em conservantes, envoltas em plástico, e disponíveis nas seções de frios. Tampouco a fiscalização sanitária se incomodava com a produção rural e com o controle de qualidade. O laticínio usado por todo mundo era o queijo de colônia (colônia de bactérias, como costuma dizer a mãe de Mítia). No Mercado Público ou no armazém da esquina era possível adquirir um pedaço (quase sempre a metade) de umas peças redondas, pesadas, e que tinham mil e uma utilidades (sanduíches, macarronadas, para comer com goiabada, etc.). De acordo com o método de produção, era possível encontrar alguns queijos mais salgados ou mais insípidos, mais “curados” ou mais “verdes”. Variedade nunca foi um problema.

Estou lembrando o passado distante, mais de 45 anos, quase 50. A resistência bacteriológica da população também era outra. As crianças andavam descalças, as ruas eram de chão batido, ninguém ficava doente por caminhar na chuva e os brinquedos não exigiam pilhas alcalinas extra-hiper-super-mega-potentes. Tudo era mais simples (claro, isso não quer dizer que era melhor).

Depois, com o passar do tempo e das experiências, as preocupações dos adultos se transformaram em problemas para todos. E tudo ficou mais confuso. E menos calmo. A inocência se perdeu na necessidade de encontrar mecanismos de sobrevivência.

Quando a tempestade familiar passou, após cerca de dois anos de afastamento, voltei a morar com minha mãe. A polenta com queijo foi ficando para trás, nessa corrida de obstáculos que é a vida. Ela só fazia esse prato em ocasiões especiais (um ou outro aniversário ou quando a insistência era insuportável). No geral, costumava dizer que dava muito trabalho, que podíamos comer coisa melhor – mesmo que fosse apenas ovo frito.

Não foram poucas vezes em que as dificuldades econômicas atropelaram os nossos sonhos por boas refeições. Os bifes à milanesa eram escassos, mas sempre bem-vindos. O mesmo se pode dizer das lasanhas, naquelas travessas de vidro enormes, que saiam do forno fumegando odores e sabores. Dobradinha (bucho) era presença constante, possivelmente uma vez por semana (inclusive porque era comida barata). Apesar de todas as dificuldades, sempre tinha alguma sobremesa: doce de gila, figo em calda, sagu de vinho, arroz doce, gelatina, fruta (banana ou bergamota). Chocolate só era possível no Natal ou na Páscoa. Refrigerante era uma ficção somente ao alcance dos ricos. Ao nosso alcance estavam Q-Suco, capilé, limonada, suco de laranja (raramente). Ou água.  

Agora, que Dona Vina abandonou os afazeres da cozinha, percebo que era nas refeições que amarrávamos os sentimentos. Nada muito explícito. Nunca fomos de distribuir beijos e abraços como se fossem balas de hortelã. A vida nos ensinou que o afeto produz vulnerabilidades.



sábado, 5 de setembro de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLVI)



Lavar a louça me aproxima da filosofia. O calor do corpo contrasta com o vidro e a porcelana de copos e pratos. O tempo e o espaço são engolidos por um vórtice difícil de definir. Olho para as mãos molhadas e percebo que a (minha) vida está pulsando. Sêneca e Epicuro (que li em tempo pretérito) voltam a fazer sentido.

Contei nove colheres, três garfos e cinco facas. Deve existir alguma explicação lógica para essa falta de proporção. A grande dificuldade está em entender porque usei mais um talher e menos o outro. Poderia rastrear as últimas refeições, investigar quantas vezes abri e fechei a gaveta onde essas ferramentas estão guardadas. Não há necessidade de fazer isso. O desejo não está voltado para essa direção.

Ninguém lava a louça duas vezes na água que escorre pela torneira. Imagens e pensamentos aparecem e somem na medida em que o trabalho vai sendo realizado. A ação mecânica do ato doméstico (não) corresponde à sensação de que tudo está envolto pelo transitório. A espuma que encobre o prato (que em algum momento esteve sujo) sinaliza que algum tipo de perda está próximo. Limpar a louça significa produzir outra realidade, atravessar o momento de conflito e descobrir que os afetos desequilibram o controle das emoções. Ter consciência de que, em algum momento, a dor terá consistência e espessura.

Nada perdura. Tudo existe (em algum momento ou dimensão). A luta consiste em perseguir o entendimento que foge a cada instante, que não se deixa apreender. Em alguns momentos, o sinônimo do existir é o esquecimento.    

Diante da pia, algumas analogias. Ao manejar o pano de prato surgem figuras, sombras e sobras. Os fantasmas. Seres que anunciam o horror. Ou o fim do mundo. Que no es lo mismo / pero es igual, como cantou um dos muitos menestréis de América Latina. Difícil manter a serenidade e o estoicismo diante das urgências do agora.

Talvez seja sensato viver cada dia como se fosse o último. Sem pressa, sem se ater aos interesses daqueles que querem comprar e vender mercadorias como se fossem artigos necessários para garantir a felicidade. A ilusão não pode ser uma proposição existencial, mas também não pode impedir a utopia.

Terminada a tarefa, os pratos, os copos e os talheres limpos, o cenário se modifica. Restam muitos fiapos do pensamento, fragmentos da busca intelectual, e a certeza de que o caos do mundo jamais será domesticado. O vazio se estabelece como uma brasa dormida. De qualquer forma, amanhã recomeço. 

     

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLV)

 


Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, retifica, diariamente, alguns dados oficiais. Em todas as publicações que usaram esses números, ele os substitui pelo último informe do Ministério da Pujança. Em seguida, descarta as informações anteriores, impedindo que a nova versão seja contestada.

Os discursos também são adaptados para se enquadrarem na nova situação. Ao eliminar os erros, os equívocos, as imprecisões e toda e qualquer distorção que possa existir no pensamento do Grande Irmão, garante para a posteridade a expressão absoluta da verdade – ou daquilo que se pretende que seja a verdade.     

Esse tipo de emenda também incide em relação aos nomes daqueles que – citados no texto que foi expurgado – caíram em desgraça. Infelizmente, por diversos motivos, algumas pessoas são incapazes de corresponderem aos anseios do partido. Nada mais resta ao Estado senão “vaporizá-las”.   

O horror está presente em diversos momentos do romance 1984, de George Orwell, publicado em 1949. Mas, no trecho descrito acima, e que foi inspirado no revisionismo stalinista, percebe-se a antecipação dos conceitos contemporâneos de pós-verdade e fake news. Para o Estado (e para aqueles que utilizam o governo para se manterem no poder), os fatos (verdadeiros ou não) perderam a relevância. Não servem sequer como curiosidade histórica. E, por isso, precisam ser eliminados administrativamente. Nenhum traço do passado que deixou de interessar deve ser conservado. Cabe abastecer a população com documentos constantemente atualizados – e que autenticam os interesses do agora.

Uma das principais características de uma significativa camada da população consiste no cultivar da amnésia. A ignorância é uma benção divina (quanto menos se souber sobre qualquer assunto ou tema, maior a probabilidade de atingir a felicidade – dizem os estudos sobre comportamento social). Com o passar do tempo, os indivíduos vão abrindo buracos da memória, esquecendo o passado e aceitando como expressão do real aquilo que é endossado pelo Estado.  

Mesmo assim, apesar da repressão e de muitas ameaças (veladas ou explícitas), ocorrem algumas dissidências e, consequentemente, a contestação das comunicações governamentais. Independente da correção desse proceder, algum tipo de punição sempre ocorre. A Lei (que é um dos tentáculos do governo) não admite ser contrariada.  

Qualquer analogia com o atual governo federal não será mera coincidência. Os sistemas totalitários nunca desaparecem, confirmando o axioma hegeliano de que a História se repete no mínimo duas vezes; ao que Karl Marx acrescentou: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

Estamos na era do farsesco. Ou do simulacro. A ideia de usar uma régua particular para negar as experiências do passado significa construir alternativas sem identidade e sem estrutura. Provavelmente desabará em pouco tempo. O exemplo mais trivial dessa tese está no esforço que fazem para “cancelar” Paulo Freire – o educador mais importante da História brasileira.

Em síntese: querem obter a tabula rasa instituindo o palimpsesto.





terça-feira, 1 de setembro de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (CLIV)

 


Setembro começa hoje e anuncia, timidamente, que a primavera também está chegando. O céu está encoberto, uma metáfora dos tempos sóbrios que estamos vivendo. Em breve as flores e as folhas darão algum colorido ao mundo. Mas, exceto a mudança climática, nada de significativo está desenhado no horizonte. Aparentemente, tudo continuará igual.

Os jornais alardeiam que vacinas contra o Covid-19 estão sendo desenvolvidas por diversos laboratórios. Mas, ressaltam que os testes ainda não terminaram e que, se essa fase for bem sucedida, a produção em larga escala ainda vai demorar. Alertam que janeiro como meta pode ser muito otimista. Enquanto isso, as curvas estatísticas da necropolítica continuam oscilando – e assustando. É necessário ter nervos fortes para suportar o massacre diário.  

Salvo engano, 2020 será lembrado pelas próximas gerações (se houver próximas gerações) como um momento de impasse entre o utilitarismo tecnológico e a necessidade de adotar medidas profiláticas para a preservação da vida. Vitória do primeiro grupo, evidentemente.

Nada contra o progresso (seja lá o que isso for). Alguns grupos de analistas garantem que a qualidade de vida no século XXI evidencia superioridade ao século XIX. E citam, para comprovar essa tese, os avanços da medicina, da agricultura, da construção civil, da informática e dos direitos civis. Quem interpreta a modernidade frequentemente se esquece de citar os itens que permanecem inalterados (racismo, feminicídio, homofobia, desigualdade de gênero, genocídio indígena, salários aviltantes, etc.). Gostariam que essas questões não fizessem parte da discussão.

O cinismo capitalista não possui limites. Na hora da discussão teórica, todos proclamam que o direito à vida é inalienável e que devem ser realizados todos os esforços possíveis para mantê-la. Na hora da prática, o que interessa é o som das moedas (a soma entre a produção e o consumidor é igual ao lucro). Simples exercício de ética flutuante.

Contemporaneamente, o mercado determina o valor dos indivíduos. Isto é, quem deve viver e quem deve morrer. As regras do jogo (poucos percebem que as cartas estão marcadas) estabelecem quem tem direito ao mercado de trabalho e quem deve procurar soluções alternativas. “Cidadãos de segunda classe” dificilmente terão acesso às vacinas (ou algum antidoto) – confirmando que o Estado não está interessado em fornecer qualquer tipo de assistência médica à população em situação de vulnerabilidade ou que possua baixa renda mensal.

No momento em que ficar comprovado que a barbárie venceu a civilização, também se descobrirá que as portas da cidadela não foram arrombadas, mas sim abertas por dentro. Além das trapaças com cavalos de Troia, há traidores em todos os cantos.   

Por enquanto, para aqueles que estão enquadrados nos diversos “grupos de risco”, cabe esperar pela primavera ou pela morte – o que vier primeiro.