A revista inglesa Granta, versão tupiniquim, publicou um volume com os vinte melhores jovens escritores brasileiros. O uso das expressões melhores e jovens na mesma frase é hilário e, salvo engano, indica algum tipo de liberdade poética, porque, com raras exceções, a nova elite literária está composta por idosos. Todos os vinte "eleitos" são veteranos no mercado editorial.
Para alguns escritores, a literatura é sinônimo de algum dinheiro. Não muito, óbvio. De qualquer maneira, ter o nome relacionado em publicação mundial não pode ser desprezado. Por isso, diversos predadores (os mais hábeis) não perderam a oportunidade para divulgar seus mais elementares talentos e livros. Além da publicação na Granta, ainda foi possível aparecer em jornais e televisões − onde encantaram a plebe ignara com opiniões inócuas e sorrisos prêt−à−porter.
O volume nove de Granta, seguindo as indicações da comissão julgadora (Beatriz Bracher, Cristovão Tezza, Samuel Titan, Manuel da Costa Pinto, Ítalo Moriconi, Benjamin Moser e Marcelo Ferroni) mapeou escritores abaixo dos 40 anos e, boa piada editorial, com pelo menos um conto já publicado.
São quatorze homens e seis mulheres, indivíduos aparentemente bem nutridos, desses que estudaram em bons colégios e foram alimentados com danoninho na infância. Seguindo esse critério claríssimo, negros, mulatos, índios e pobres devem ser ágrafos ou péssimos escritores. Nenhuma novidade, a distância entre a casa grande e a senzala continua abissal. Em compensação, a brasilidade mais autêntica está representada pelos herdeiros dos melhores genes caucasianos (descendentes sul-americanos de espanhóis, europeus do leste, diversos modelos de judeus).
Geografia é destino. Quase todos os escritores publicados por Granta moram no circuito Elizabeth Arden da literatura brasileira (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). As exceções (um paraibano, um santista, um francês que mora em Chicago) não devem demorar para embarcar no trem que liga o anonimato ao paraíso. Quem não é visto não é lembrado – diz a sabedoria popular. E isso também deve explicar porque nenhum acreano ou sul−mato−grossense foi escolhido por Granta. Nem mesmo o Maranhão (famoso por seus péssimos políticos−escritores) recebeu atenção. Como é de conhecimento amplo, geral e irrestrito na democracia que nos envolve com a igualdade social e política, alguns iguais são mais iguais do que outros.
Diversos boatos maldosos sugerem que existem mais editoras do que livrarias no Brasil. Não é isso que revelam as fichas técnicas dos autores relacionados por Granta. Muitos deles estão ligados à Companhia das Letras, à Record e à Objetiva/Alfaguara – que são os verdadeiros donos do campinho, das camisetas e da bola. Como é comum em muitas questões nacionais, o jogo é somente para convidados - e o placar foi decidido muito antes do jogo começar. Empresas editoriais menores, menos conhecidas nas redações das revistas semanais ou dos suplementos literários, estão excluídas da vitrine editorial. Tanto que somente três dos escritores incensados nesse número "histórico" de Granta tiveram livros publicados pela 7Letras (a editora que revelou alguns dos principais talentos da literatura brasileira contemporânea).
Infelizmente, barrar a entrada dos penetras na festa não foi suficiente para garantir qualidade. Algumas peças literárias publicadas no volume não corresponderam ao nível proposto por Granta. Ops. Definitivamente, essa é uma análise muito drástica. Duvidosa. Provavelmente equivocada. Além disso, pode ferir alguns egos artificialmente inflados pelo deslumbramento. Mais correto é dizer que nem mesmo se fosse fixada em lâmina de microscópio a almejada qualidade se tornaria visível.
Apneia (Daniel Galera), O Jantar (Julian Fuks) e Animais (Michel Laub) são boas histórias e estão perdidas no meio do cascalho que compõem a mesmice expressa no número nove de Granta. Em contrapartida, várias narrativas, dessas que nada acrescentam em inovações formais ou temáticas, parecem destinadas a preencher espaço. Por exemplo, os contos apresentados por escritores de reconhecido talento como Carola Saavedra e Ricardo Lísias não passam de miseras sombras pálidas daquilo que eles são capazes de produzir. Lamentar esse desatino é o que resta ao leitor que gosta do trabalho deles.
Para surpresa geral, há diversos elogios explícitos às belezas do Rio de Janeiro.É como se o resto do Brasil não existisse. Talvez focados nas benesses propiciadas pelo poder aos que se comportam adequadamente, Antes da Queda (João Paulo Cuenca) ou O Rio Sua (Tatiana Salem Levy) ambicionam ser peças de persuasão ideológica. Típico. Uma leitura mais crítica desse fenômeno pode concluir (quiçá, equivocadamente) que esses textos jamais serão capazes de fornecer sentido para a mesquinharia suburbana, praticada com esmero pelos bajuladores da ex−capital da República. Em outras palavras, não passam de narrativas ruins política e literariamente.
Enfim, depois de devorar (inclusive no sentido antropofágico) todos os contos publicados em Granta, leitores atentos provavelmente concordarão que o melhor texto de um brasileiro jovem não está no número nove. A Arte de Apagar Cigarros com Cuspe, de bruno bandido (assim mesmo, em minúsculas) foi publicado na edição de numero oito, páginas 197−203.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
ON THE ROAD, O FILME
Houve um tempo em que o sonho de consumo dos indivíduos situados economicamente entre a classe media e a linha de pobreza estava retratado nas páginas do romance On the Road, de Jack Kerouac, que, na edição clássica da Brasiliense, recebeu do tradutor brasileiro, Eduardo "Peninha" Bueno, um sub−título típico para a época, Pé na Estrada, sinalizando aquilo que todos os adolescentes, jovens adultos e homens em crise de meia idade − em algum momento de suas vidas − ansiavam por dizer aos valores artificiais reiteradamente impostos pela hipocrisia das regras de convivência social. De mochila nas costas, pouco dinheiro no bolso, o coração aberto às novas experiências, a idéia era descobrir a diversidade que compõe a palheta de cores da vida. Era criar um espaço de atuação subversiva no meio da comodidade capitalista. Era uma forma de negar o american way of life.
Em outras palavras, esse propósito significa que perigos, música e muitas drogas eram pontos turísticos obrigatórios para visitas. Todos queriam conhecer os mistérios negados pela vida familiar urbana.
A conceituação teórica passava por essas discussões. Em oposição, a prática não conseguia desmentir o idealismo estéril dos rebeldes sem causa – personagens que exageram nas "atitudes" e que, de uma forma ou de outra, caminham resignadamente para o suicídio (físico, social, afetivo). Falta−lhes a grandeza dos grandes protagonistas – aqueles que, diante das adversidades, conseguem fazer a separação entre a loucura e a idade da razão.
Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela / loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada / em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, escreveu Allen Ginsberg, em uma espécie de síntese do comportamento de uma geração condenada – simultaneamente − à liberdade e à insanidade. Como Ginsberg vaticina, poucos indivíduos conseguem sobreviver a esse tipo de escolha. Na maioria das vezes a insensatez ganha o jogo. O roman à clef que Kerouac escreveu sobre as histórias que viveu ao lado de Neal Cassidy, Allen Ginsberg e William Burroughs, entre outros, potencializa essa tese.
Quando Walter Salles e o roteirista José Rivera iniciaram o trabalho de adaptar On the Road para o cinema, tomaram como base a versão original do livro, aquela escrita, segundo a lenda, em uma bobina de papel, mais de 40 metros, centenas de páginas digitadas de forma ininterrupta durante um imenso e intenso surto criativo. Kerouac, durante cerca de três semanas, estimulado por cigarros e café adoçado com benzedrina (uma versão mais punk afirma que ele estava sob efeito de mescalina ou peyote), em ritmo de escrita automática, redigiu um textos sem pontos, vírgulas ou parágrafos. Uma confusão sem fim. Depois, muito depois, quando o livro foi aceito para publicação, uma das primeiras questões a serem resolvidas foi editar a narrativa. E isso significa que houve supressões, alguns acréscimos e uma estrutura formal artificial. Salles e Rivera preferiram trabalhar com a versão primitiva.
E isso resultou − para decepção de muitos fãs − em um filme arrastado. Em muitos momentos, tedioso. Além disso, há uma suprema traição: não é um road movie – no sentido clássico da definição. As muitas agruras e dificuldades ocorridas nas viagens entre a costa leste e a costa oeste, além da expedição ao México, em alguns momentos, parecem brincadeiras de crianças em parque de diversões. Sal Paradise e Dean Moriarty quase se transformaram em turistas burgueses viajando na primeira classe.
Na versão filmada de On the Road, a parte mais significativa das ações ocorre em quartos de hotéis vagabundos, apartamentos caindo aos pedaços e bares. Há mais interesse em descrever o uso de benzedrina ou glorificar o charme (e a potência) sexual de Dean Moriarty do que em mostrar os carros em alta velocidade. A estrada não é um personagem atuante, é, no máximo, um elemento de ligação entre os paraísos artificiais, entre diversos capítulos da infelicidade.
Dean Moriarty (interpretado por Garret Hedlund) é um personagem carismático, completamente irresponsável e destinado ao sofrimento. Talvez seja essa a sua maior qualidade: todos querem abrigá−lo − como se fosse um animal de estimação que deve ser protegido da violência do mundo. O problema é que ele adora fugir para a rua e, consequentemente, se machucar.
Sal Paradise (interpretado por Sam Rilley) é mais centrado. Embora gravite em torno de Moriarty, sua grande obsessão está em escrever um grande romance e que seja uma espécie de retrato de sua geração. Consciente de que será o porta−voz de um tempo que jamais se repetirá, vai anotando os acontecimentos, vai ficcionalizando o comportamento dos amigos.
São muitos personagens, muitas mulheres que entram e saem da narrativa, quase todas manipuladas pela forca de persuasão de Moriarty. Ao fundo, fazendo contraponto com o comportamento másculo (mas não muito) de Paradise e Moriarty, aparece Carlo Marx, um interessante Allen Ginsberg (interpretado por Tom Sturridge), no início com medo de assumir os desejos homossexuais, depois um furacão determinado a conquistar um lugar no mundo como poeta e agente político. É um personagem que se modifica no andamento do filme - ao contrário de Sal Paradise e Dean Moriarty, que iniciam e terminam no mesmo andamento narrativo.
Entre a fumaça de tabaco e maconha, uma das grandes qualidades do filme de Walter Salles está na trilha sonora. Unindo jazz (bebop) e alguns blues, a intensidade dramática do filme está conectada com a música de forma harmônica (a cena em que Dean Moriarty e Marylou dançam em uma festa, compondo uma espécie de ritual pré−coito é impressionante).
Talvez o problema mais significativo de Na Estrada esteja na literalidade. Walter Salles quis adaptar o livro e esqueceu que o cinema tem regras próprias. Resultado: não é literatura filmada, não é uma boa adaptação cinematográfica. Desse descompasso resultou um filme quase chato e decididamente pouco evocativo da euforia que o texto de Kerouac provocou na juventude dos anos 70 e 80.
Entre o filme de Walter Salles e o livro, melhor ler o livro.
Em outras palavras, esse propósito significa que perigos, música e muitas drogas eram pontos turísticos obrigatórios para visitas. Todos queriam conhecer os mistérios negados pela vida familiar urbana.
A conceituação teórica passava por essas discussões. Em oposição, a prática não conseguia desmentir o idealismo estéril dos rebeldes sem causa – personagens que exageram nas "atitudes" e que, de uma forma ou de outra, caminham resignadamente para o suicídio (físico, social, afetivo). Falta−lhes a grandeza dos grandes protagonistas – aqueles que, diante das adversidades, conseguem fazer a separação entre a loucura e a idade da razão.
Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela / loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, / arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada / em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, escreveu Allen Ginsberg, em uma espécie de síntese do comportamento de uma geração condenada – simultaneamente − à liberdade e à insanidade. Como Ginsberg vaticina, poucos indivíduos conseguem sobreviver a esse tipo de escolha. Na maioria das vezes a insensatez ganha o jogo. O roman à clef que Kerouac escreveu sobre as histórias que viveu ao lado de Neal Cassidy, Allen Ginsberg e William Burroughs, entre outros, potencializa essa tese.
Quando Walter Salles e o roteirista José Rivera iniciaram o trabalho de adaptar On the Road para o cinema, tomaram como base a versão original do livro, aquela escrita, segundo a lenda, em uma bobina de papel, mais de 40 metros, centenas de páginas digitadas de forma ininterrupta durante um imenso e intenso surto criativo. Kerouac, durante cerca de três semanas, estimulado por cigarros e café adoçado com benzedrina (uma versão mais punk afirma que ele estava sob efeito de mescalina ou peyote), em ritmo de escrita automática, redigiu um textos sem pontos, vírgulas ou parágrafos. Uma confusão sem fim. Depois, muito depois, quando o livro foi aceito para publicação, uma das primeiras questões a serem resolvidas foi editar a narrativa. E isso significa que houve supressões, alguns acréscimos e uma estrutura formal artificial. Salles e Rivera preferiram trabalhar com a versão primitiva.
E isso resultou − para decepção de muitos fãs − em um filme arrastado. Em muitos momentos, tedioso. Além disso, há uma suprema traição: não é um road movie – no sentido clássico da definição. As muitas agruras e dificuldades ocorridas nas viagens entre a costa leste e a costa oeste, além da expedição ao México, em alguns momentos, parecem brincadeiras de crianças em parque de diversões. Sal Paradise e Dean Moriarty quase se transformaram em turistas burgueses viajando na primeira classe.
Na versão filmada de On the Road, a parte mais significativa das ações ocorre em quartos de hotéis vagabundos, apartamentos caindo aos pedaços e bares. Há mais interesse em descrever o uso de benzedrina ou glorificar o charme (e a potência) sexual de Dean Moriarty do que em mostrar os carros em alta velocidade. A estrada não é um personagem atuante, é, no máximo, um elemento de ligação entre os paraísos artificiais, entre diversos capítulos da infelicidade.
Dean Moriarty (interpretado por Garret Hedlund) é um personagem carismático, completamente irresponsável e destinado ao sofrimento. Talvez seja essa a sua maior qualidade: todos querem abrigá−lo − como se fosse um animal de estimação que deve ser protegido da violência do mundo. O problema é que ele adora fugir para a rua e, consequentemente, se machucar.
Sal Paradise (interpretado por Sam Rilley) é mais centrado. Embora gravite em torno de Moriarty, sua grande obsessão está em escrever um grande romance e que seja uma espécie de retrato de sua geração. Consciente de que será o porta−voz de um tempo que jamais se repetirá, vai anotando os acontecimentos, vai ficcionalizando o comportamento dos amigos.
São muitos personagens, muitas mulheres que entram e saem da narrativa, quase todas manipuladas pela forca de persuasão de Moriarty. Ao fundo, fazendo contraponto com o comportamento másculo (mas não muito) de Paradise e Moriarty, aparece Carlo Marx, um interessante Allen Ginsberg (interpretado por Tom Sturridge), no início com medo de assumir os desejos homossexuais, depois um furacão determinado a conquistar um lugar no mundo como poeta e agente político. É um personagem que se modifica no andamento do filme - ao contrário de Sal Paradise e Dean Moriarty, que iniciam e terminam no mesmo andamento narrativo.
Entre a fumaça de tabaco e maconha, uma das grandes qualidades do filme de Walter Salles está na trilha sonora. Unindo jazz (bebop) e alguns blues, a intensidade dramática do filme está conectada com a música de forma harmônica (a cena em que Dean Moriarty e Marylou dançam em uma festa, compondo uma espécie de ritual pré−coito é impressionante).
Talvez o problema mais significativo de Na Estrada esteja na literalidade. Walter Salles quis adaptar o livro e esqueceu que o cinema tem regras próprias. Resultado: não é literatura filmada, não é uma boa adaptação cinematográfica. Desse descompasso resultou um filme quase chato e decididamente pouco evocativo da euforia que o texto de Kerouac provocou na juventude dos anos 70 e 80.
Entre o filme de Walter Salles e o livro, melhor ler o livro.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
TRINTA E SEIS FRASES SOBRE SEXO
− Fazer amor com uma mulher que não nos agrada é tão triste quanto trabalhar. (Jean Anouilh)
− Sexo é o único esporte que não é cancelado quando falta luz. (Laurence J. Peter)
− Não sei nada sobre sexo. Sempre fui casada. (Zsa Zsa Gabor)
− A diferença entre o sexo pago e o sexo grátis é que o sexo pago costuma ser mais barato. (H. L. Mencken)
− Não existe pecado do lado de baixo do equador. (Chico Buarque e Ruy Guerra)
− A mulher que teve a infelicidade de se casar com um corno só pode se consolar dormindo com todo mundo. (Sacha Guitry)
− Isto é uma arma no seu bolso ou você está entusiasmado em me ver? (Mae West)
− Depois de se tornar o "latin lover" oficial, você está perdido. As mulheres esperam que todas as suas performances na cama sejam de ganhar um Oscar. (Marcello Mastroianni)
− A classe de pessoas que freqüentam orgias é a mais saudável, porque elas são obrigadas a se manter em forma. Quase tudo o que acontece ali exige fazer flexões, como se sabe. E todo mundo é muito educado. A conversa delas não é grande coisa, mas não se pode querer tudo. (Gore Vidal)
− O beijo nasceu quando o primeiro réptil macho lambeu a primeira réptil fêmea, significando com isso, de maneira sutil e elogiosa, que ela era tão suculenta quanto o pequeno inseto que ele jantara na véspera. (Francis Scott Fitzgerald)
− Cuidado com as imitações – sexo só existem dois. (Millôr Fernandes)
− Os anticoncepcionais deveriam ser usados em todas as ocasiões concebíveis. (Spike Milligan)
− Se a senhora está mesmo disposta a se despir de todos os preconceitos, pode ir tirando a calcinha. (Stanislaw Ponte Preta)
− Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama. (Woody Allen)
− Minha sogra destruiu meu casamento. Minha mulher voltou para casa mais cedo e me pegou na cama com ela. (Lenny Bruce)
− O sexo é uma piada de Deus às nossas custas. (Bette Davis)
− Faz tanto tempo que transei pela última vez que já nem lembro quem levou as
chicotadas. (Joan Rivers)
− Sexo oral é muito prático porque pode ser feito, inclusive, pelo telefone. (Luis Fernando Verissimo)
− Minha reação a filmes pornôs é a seguinte: nos dez primeiros minutos, quero correr para casa e trepar; depois de vinte minutos, nunca mais quero trepar na vida. (Erica Jong)
− Casei−me com um alemão. Toda noite me fantasio de Polônia e ele me invade. (Bette Midler)
− Não existe uma boa família sem uma puta ou um enforcado. (Louis Maréchal)
− O bom é o tête−à−tête que termina em teta−a−teta. (Mário da Silva Brito)
− Maridos são bons amantes, principalmente quando estão traindo suas mulheres. (Marilyn Monroe)
− Para se dar bem com as mulheres, diga que é impotente. Elas ficarão loucas para desmenti−lo. (Gary Grant)
− Todo homem heterossexual deveria sentir a língua de outro homem em sua boca pelo menos uma vez na vida. (Madonna)
− As mulheres honestas não se conformam com os pecados que não cometeram. (Sacha Guitry)
− Não desperto o menor tesão. Às vezes tenho até de vendar meu vibrador. (Joan Rivers)
− Já interpretei tantos papéis de puta no cinema que os produtores não me pagam mais pelos meios normais. Agora deixam o dinheiro em cima da cômoda. (Shirley MacLaine)
− Mulheres são umas chatas. A gente leva pra passear, leva pra dançar, leva ao zoológico, leva ao cinema e, mesmo assim, elas vivem reclamando que nós nunca as levamos a esse tal de orgasmo. (Angeli)
− Às vezes, fala o falo; outras, fala o dedo. (Vinicius de Moraes)
− Um gigolô é um homem que é pago para fazer o que qualquer idiota gostaria perfeitamente de fazer de graça. (Ross Spencer)
− O homem vê a mulher como se estivesse num frigorífico: um pedaço de nádegas, olhos grandes, cabelos pretos, seios fartos. Ele enxerga a mulher aos pedaços. (Rose Marie Muraro)
− Educação sexual só devia ser dada por um veterinário. (Nelson Rodrigues)
− A amante perfeita é aquela que se transforma numa pizza às quatro da manhã. (Charles Pierce)
− Trepada adiada é trepada perdida. (Millôr Fernandes)
− Sexo é o maior nada de todos os tempos (Andy Warhol)
− Sexo é o único esporte que não é cancelado quando falta luz. (Laurence J. Peter)
− Não sei nada sobre sexo. Sempre fui casada. (Zsa Zsa Gabor)
− A diferença entre o sexo pago e o sexo grátis é que o sexo pago costuma ser mais barato. (H. L. Mencken)
− Não existe pecado do lado de baixo do equador. (Chico Buarque e Ruy Guerra)
− A mulher que teve a infelicidade de se casar com um corno só pode se consolar dormindo com todo mundo. (Sacha Guitry)
− Isto é uma arma no seu bolso ou você está entusiasmado em me ver? (Mae West)
− Depois de se tornar o "latin lover" oficial, você está perdido. As mulheres esperam que todas as suas performances na cama sejam de ganhar um Oscar. (Marcello Mastroianni)
− A classe de pessoas que freqüentam orgias é a mais saudável, porque elas são obrigadas a se manter em forma. Quase tudo o que acontece ali exige fazer flexões, como se sabe. E todo mundo é muito educado. A conversa delas não é grande coisa, mas não se pode querer tudo. (Gore Vidal)
− O beijo nasceu quando o primeiro réptil macho lambeu a primeira réptil fêmea, significando com isso, de maneira sutil e elogiosa, que ela era tão suculenta quanto o pequeno inseto que ele jantara na véspera. (Francis Scott Fitzgerald)
− Cuidado com as imitações – sexo só existem dois. (Millôr Fernandes)
− Os anticoncepcionais deveriam ser usados em todas as ocasiões concebíveis. (Spike Milligan)
− Se a senhora está mesmo disposta a se despir de todos os preconceitos, pode ir tirando a calcinha. (Stanislaw Ponte Preta)
− Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama. (Woody Allen)
− Minha sogra destruiu meu casamento. Minha mulher voltou para casa mais cedo e me pegou na cama com ela. (Lenny Bruce)
− O sexo é uma piada de Deus às nossas custas. (Bette Davis)
− Faz tanto tempo que transei pela última vez que já nem lembro quem levou as
chicotadas. (Joan Rivers)
− Sexo oral é muito prático porque pode ser feito, inclusive, pelo telefone. (Luis Fernando Verissimo)
− Minha reação a filmes pornôs é a seguinte: nos dez primeiros minutos, quero correr para casa e trepar; depois de vinte minutos, nunca mais quero trepar na vida. (Erica Jong)
− Casei−me com um alemão. Toda noite me fantasio de Polônia e ele me invade. (Bette Midler)
− Não existe uma boa família sem uma puta ou um enforcado. (Louis Maréchal)
− O bom é o tête−à−tête que termina em teta−a−teta. (Mário da Silva Brito)
− Maridos são bons amantes, principalmente quando estão traindo suas mulheres. (Marilyn Monroe)
− Para se dar bem com as mulheres, diga que é impotente. Elas ficarão loucas para desmenti−lo. (Gary Grant)
− Todo homem heterossexual deveria sentir a língua de outro homem em sua boca pelo menos uma vez na vida. (Madonna)
− As mulheres honestas não se conformam com os pecados que não cometeram. (Sacha Guitry)
− Não desperto o menor tesão. Às vezes tenho até de vendar meu vibrador. (Joan Rivers)
− Já interpretei tantos papéis de puta no cinema que os produtores não me pagam mais pelos meios normais. Agora deixam o dinheiro em cima da cômoda. (Shirley MacLaine)
− Mulheres são umas chatas. A gente leva pra passear, leva pra dançar, leva ao zoológico, leva ao cinema e, mesmo assim, elas vivem reclamando que nós nunca as levamos a esse tal de orgasmo. (Angeli)
− Às vezes, fala o falo; outras, fala o dedo. (Vinicius de Moraes)
− Um gigolô é um homem que é pago para fazer o que qualquer idiota gostaria perfeitamente de fazer de graça. (Ross Spencer)
− O homem vê a mulher como se estivesse num frigorífico: um pedaço de nádegas, olhos grandes, cabelos pretos, seios fartos. Ele enxerga a mulher aos pedaços. (Rose Marie Muraro)
− Educação sexual só devia ser dada por um veterinário. (Nelson Rodrigues)
− A amante perfeita é aquela que se transforma numa pizza às quatro da manhã. (Charles Pierce)
− Trepada adiada é trepada perdida. (Millôr Fernandes)
− Sexo é o maior nada de todos os tempos (Andy Warhol)
terça-feira, 7 de agosto de 2012
WILLIAM FAULKNER E O LANCE MORTAL
Em uma entrevista concedida à Paris Review, em 1956, William Cuthbert Faulkner (1897−1962) disse que Um escritor precisa de três coisas, experiência, observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes uma, podem suprir a falta das outras. Comigo, uma história começa com uma idéia ou memória ou imagem mental. Escrever uma história é apenas uma questão de ir construindo esse momento, de explicar por que aconteceu ou o que provocou a seguir. Um escritor está sempre tentando criar pessoas verossímeis em situações comoventes ou críveis, da maneira mais comovente possível. É claro que deve usar como uma de suas ferramentas o ambiente que conhece.
As seis narrativas que compõem a coletânea Lance Mortal (Knight's Gambit) seguem item por item as regras propostas por Faulkner. Ao mesmo tempo, como um bônus, a clássica alegação de que Faulkner é um escritor difícil não encontra justificativa, exceto no último conto, o mais bem elaborado. Para não perder o costume, essa história foi escrita no velho estilo das frases que se equivalem aos elementos de um colar, uma palavra depois da outra, encadeadas para − muitas vezes − proporem sentidos inesperados. Assim, o pensamento construído por um narrador impessoal, em terceira pessoa, se estende pela página, imitando um rio que corre para o mar e que, tão logo desaparece do alcance do olhar, se perde no horizonte. Para o leitor comum é viagem tortuosa, em alguns momentos lembrando as dificuldades de leitura encontradas em romances como Enquanto Agonizo (As I Lay Dying) ou O Som e a Fúria (The Sound and the Fury). Para o leitor mais treinado, menos assustado com as ilusões narrativas, ler os textos de Faulkner lembra música orquestral, o diálogo simultâneo de vários instrumentos com a beleza.
Nos cinco primeiros contos não há nada disso. São tão lineares que poderiam ter sido escritas por algum outro escritor, desses que apostam no regionalismo como estratégia narrativa – felizmente, há traços inequívocos do talento faulkneriano e que servem para desmentir essa hipótese absurda.
Sob o olhar vigilante de Charles (Charlie, Chick) Mallison, sobrinho do advogado e promotor público Gavin Stevens, as histórias vão se desenvolvendo com vigor e limpidez. Charles é um personagem mutante, desses acumulam varias funções, inclusive narrar as aventuras do seu parente. Em todas as situações está próximo do tio. Seja como a criança que bisbilhota o cenário de um crime, seja com o jovem adulto (18 anos) que acompanha Gavin a um haras, o rapaz testemunha (e relata para o leitor) o poderoso processo analítico proposto pelo promotor: (...) dizendo ao tio o que até agora mesmo o tom de sua voz não dissera.
Homem culto, Gavin Stevens adora jogar xadrez e, como se fosse uma espécie de detetive caipira, vai desfazendo as cortinas de fumaça que surgem a todo instante. Confia mais na intuição do que nos homens. Raras vezes está errado: Era formado em Harvard: um homem pouco desconjuntado, com um tufo de cabelos grisalhos desalinhados, que podia discutir Einstein com professores universitários e passava tardes inteiras de cócoras junto às paredes dos armazéns da região, conversando com os homens em seu próprio linguajar. Para ele, dizia, isso era como sair de férias.
As seis narrativas que compõem Lance Mortal contam situações pitorescas da vida quase rural da cidade de Jefferson, situada no mitológico condado de Yoknapatawpha, no Mississipi. Em Fumaça, há o horror das desavenças familiares. Os irmãos gêmeos, Virgilius e Anselm Holland, irreconciliáveis por mais de quinze anos, quase são enganados pelos estragos produzidos pela ganância. Gavin, através de um pequeno truque, soluciona o caso. Monk explora o preconceito e a ingenuidade. É uma narrativa cruel, humanamente cruel. Mãos sobre as águas apresenta estrutura de conto policial e o desfecho se mostra semelhante a algum enigma solucionado por Sherlock Homes (Charlie fazendo pose de John Hamish Watson). Amanhã é um tour de force, o passado refletindo o presente, revelando que o amor (e a lembrança dos tempos de felicidade) sobrevive à poeira do tempo. Um Erro de Química trata do ilusionismo, das aparências, dessas que escondem as sujeiras que estão escondidas nos bastidores da alma humana. Em Lance Mortal, a mais longa das narrativas, 116 páginas, e, inegavelmente, a de melhor realização estilística, há várias histórias sobrepostas: golpe do baú, a honra ferida, cavalos ariscos, um capitão argentino, as duas cartas enviadas para as pessoas erradas e o reencontro do passado (vinte anos depois) com um amor perdido. Ao fundo, a II Guerra Mundial – como que a lembrar que a maldade do mundo precisa ser castigada. Essa não é uma narrativa pacifica, dessas em que "aparentemente não acontece nada", como evidenciam as palavras agressivas que o Capitão Gualdres diz para Gavin Stevens: Então retornaremos para o meu – nosso – país, onde o senhor não está. Porque eu acho o senhor um homem muito perigoso e eu não gosto do senhor.
Jefferson, Yoknapatawpha, Mississipi – a soma geográfica desses três nomes resulta em histórias sangrentas (Ah, disse ele, mas a justiça não é sempre injusta? Não é sempre composta de injustiça e sorte e lugar−comum em partes iguais?).
O que não e possível negar é que, mesmo em textos "menores", William Faulkner é um mestre. Como podemos ver na maneira elegante com que ele arremata o conto Lance Mortal:
E isso foi vinte anos atrás. E era verdade então ou pelo menos suficiente ou então pelo menos suficiente para você. E agora se passaram vinte anos e não é verdade agora ou pelo menos não o suficiente agora ou pelo menos não o suficiente para você agora. Como os anos fazem tudo isso?
Eles me fizeram mais velho, disse o tio. Eu melhorei.
As seis narrativas que compõem a coletânea Lance Mortal (Knight's Gambit) seguem item por item as regras propostas por Faulkner. Ao mesmo tempo, como um bônus, a clássica alegação de que Faulkner é um escritor difícil não encontra justificativa, exceto no último conto, o mais bem elaborado. Para não perder o costume, essa história foi escrita no velho estilo das frases que se equivalem aos elementos de um colar, uma palavra depois da outra, encadeadas para − muitas vezes − proporem sentidos inesperados. Assim, o pensamento construído por um narrador impessoal, em terceira pessoa, se estende pela página, imitando um rio que corre para o mar e que, tão logo desaparece do alcance do olhar, se perde no horizonte. Para o leitor comum é viagem tortuosa, em alguns momentos lembrando as dificuldades de leitura encontradas em romances como Enquanto Agonizo (As I Lay Dying) ou O Som e a Fúria (The Sound and the Fury). Para o leitor mais treinado, menos assustado com as ilusões narrativas, ler os textos de Faulkner lembra música orquestral, o diálogo simultâneo de vários instrumentos com a beleza.
Nos cinco primeiros contos não há nada disso. São tão lineares que poderiam ter sido escritas por algum outro escritor, desses que apostam no regionalismo como estratégia narrativa – felizmente, há traços inequívocos do talento faulkneriano e que servem para desmentir essa hipótese absurda.
Sob o olhar vigilante de Charles (Charlie, Chick) Mallison, sobrinho do advogado e promotor público Gavin Stevens, as histórias vão se desenvolvendo com vigor e limpidez. Charles é um personagem mutante, desses acumulam varias funções, inclusive narrar as aventuras do seu parente. Em todas as situações está próximo do tio. Seja como a criança que bisbilhota o cenário de um crime, seja com o jovem adulto (18 anos) que acompanha Gavin a um haras, o rapaz testemunha (e relata para o leitor) o poderoso processo analítico proposto pelo promotor: (...) dizendo ao tio o que até agora mesmo o tom de sua voz não dissera.
Homem culto, Gavin Stevens adora jogar xadrez e, como se fosse uma espécie de detetive caipira, vai desfazendo as cortinas de fumaça que surgem a todo instante. Confia mais na intuição do que nos homens. Raras vezes está errado: Era formado em Harvard: um homem pouco desconjuntado, com um tufo de cabelos grisalhos desalinhados, que podia discutir Einstein com professores universitários e passava tardes inteiras de cócoras junto às paredes dos armazéns da região, conversando com os homens em seu próprio linguajar. Para ele, dizia, isso era como sair de férias.
As seis narrativas que compõem Lance Mortal contam situações pitorescas da vida quase rural da cidade de Jefferson, situada no mitológico condado de Yoknapatawpha, no Mississipi. Em Fumaça, há o horror das desavenças familiares. Os irmãos gêmeos, Virgilius e Anselm Holland, irreconciliáveis por mais de quinze anos, quase são enganados pelos estragos produzidos pela ganância. Gavin, através de um pequeno truque, soluciona o caso. Monk explora o preconceito e a ingenuidade. É uma narrativa cruel, humanamente cruel. Mãos sobre as águas apresenta estrutura de conto policial e o desfecho se mostra semelhante a algum enigma solucionado por Sherlock Homes (Charlie fazendo pose de John Hamish Watson). Amanhã é um tour de force, o passado refletindo o presente, revelando que o amor (e a lembrança dos tempos de felicidade) sobrevive à poeira do tempo. Um Erro de Química trata do ilusionismo, das aparências, dessas que escondem as sujeiras que estão escondidas nos bastidores da alma humana. Em Lance Mortal, a mais longa das narrativas, 116 páginas, e, inegavelmente, a de melhor realização estilística, há várias histórias sobrepostas: golpe do baú, a honra ferida, cavalos ariscos, um capitão argentino, as duas cartas enviadas para as pessoas erradas e o reencontro do passado (vinte anos depois) com um amor perdido. Ao fundo, a II Guerra Mundial – como que a lembrar que a maldade do mundo precisa ser castigada. Essa não é uma narrativa pacifica, dessas em que "aparentemente não acontece nada", como evidenciam as palavras agressivas que o Capitão Gualdres diz para Gavin Stevens: Então retornaremos para o meu – nosso – país, onde o senhor não está. Porque eu acho o senhor um homem muito perigoso e eu não gosto do senhor.
Jefferson, Yoknapatawpha, Mississipi – a soma geográfica desses três nomes resulta em histórias sangrentas (Ah, disse ele, mas a justiça não é sempre injusta? Não é sempre composta de injustiça e sorte e lugar−comum em partes iguais?).
O que não e possível negar é que, mesmo em textos "menores", William Faulkner é um mestre. Como podemos ver na maneira elegante com que ele arremata o conto Lance Mortal:
E isso foi vinte anos atrás. E era verdade então ou pelo menos suficiente ou então pelo menos suficiente para você. E agora se passaram vinte anos e não é verdade agora ou pelo menos não o suficiente agora ou pelo menos não o suficiente para você agora. Como os anos fazem tudo isso?
Eles me fizeram mais velho, disse o tio. Eu melhorei.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
JONATHAN FRANZEN ENSAISTA
Tenho problemas com Jonathan Franzen. Nada muito sério. Picuinhas. Obviamente, não serão minhas queixas que abalarão o sono do grande artista. Aliás, nem o meu sono foi perturbado por esse desacerto. Objetivamente, considero As Correções um romance de qualidade. Quando o li, obtive grande prazer. Em contrapartida Liberdade me parece pretensioso e chato (em alguns trechos). Essa desavença resultou em diversas conseqüências elementares. Ainda estou tentando obter coragem para enfrentar Tremor − que foi escrito no início do século, quando Franzen precisava correr para não ser atropelado pelos credores.
Alguém me disse que ele esteve na FLIP. Sou leitor a tempo suficiente para não me deixar enganar pelos mecanismos de persuasão da indústria publicitária. Quase disse – em voz alta − que o público literário brasileiro adora brilhar ao lado de celebridades de terceira grandeza. Consegui me controlar. O silêncio eloqüente é mais coerente – conforme recomenda a arte cavalheiresca do arqueiro zen.
A festança passou, o sujeito foi embora e as livrarias ficam entulhadas com as edições e reedições dos calhamaços que o venerável e venerado escritor está legando à humanidade. Uma dessas preciosidades tem título típico de livro de auto−ajuda: Como Ficar Sozinho. Quando o livro perder o ar de novidade, e isso não vai demorar, não será surpresa se o funcionário encarregado de repor o estoque de alguma livraria guardar, em momento de distração, alguns exemplares ao lado de best−sellers como O Segredo (Rhonda Byrne) ou Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis (Augusto Cury). Sim, eu sei que essa foi triste adaptação de piada antiga e descolorida: procurar por Ao Vencedor, as Batatas (Roberto Schwarz) ou Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu) na seção de agricultura.
Na livraria, com um exemplar de Como Ficar Sozinho nas mãos, pensei umas dez vezes antes de me decidir se deveria comprá−lo. Em pé, li a orelha (um desses textos de laboratório, próprio para convencer leitor desavisado), olhei o índice, folhei o livro várias vezes, li alguns trechos. Coloquei−o de volta na prateleira. Fui procurar por outras coisas, quem sabe não encontrava algo melhor na estante do lado? Dez minutos depois... Voltei. Abri o volume em alguma página aleatória e... Tá certo, aquilo que parecia não estar lá na primeira vez, me interessou. Depois de ler alguns parágrafos, vi um ensaio que não tinha percebido na primeira vez. Ele adora Alice Munro (Ela faz parte daquele punhado de escritores, alguns vivos, a maioria morta, que tenho em mente quando digo que a ficção é a minha religião). Foi uma surpresa. Eu também coloco Alice Munro no alto do pedestal. Ou melhor, sou fã de carteirinha. Da Alice.
Sentei numa poltrona e comecei a ler o texto. Não tenho certeza, mas foram uns quinze minutos de leitura. No mínimo. Em alguns trechos, reler se mostrou necessário. Não porque houvesse dificuldades de entendimento, mas há passagens interessantíssimas e um retorno à página anterior equivalia a um abraço em velho amigo – desses que encontramos casualmente na rua, depois de alguns anos sem o ver.
Fiquei surpreso em descobrir que tinha essa afinidade com Franzen. Afinidade eletiva, diria Goethe, naquele alemão árido que poucos conseguem ler nos dias de hoje. Parte do tempo de leitura foi utilizado para lembrar de alguns contos da Munro. Retirar livros da estante (mesmo que seja apenas metaforicamente) e ficar conversando sobre eles é uma sensação embriagadora. Um dos grandes prazeres da vida.
Entretido, com o livro nas mãos, desconsiderei o mundo ao redor. Passei no caixa e paguei o preço da diversão.
Alguns dos ensaios de Como Ficar Sozinho podem se lidos como se fossem peças de ficção. Franzen raramente aborda assuntos polêmicos − no trivial variado, principalmente nos assuntos que o atormentam (telefone celular, privacidade, cigarros) mostra domínio técnico e pensamento analítico diferenciado. O que diminui o brilho dos ensaios é o uso excessivo da narrativa auto−centrada, onde a primeira pessoa é glorificada e santificada. Franzen adora um espelho – e reflete o mundo pelo que visualiza diante de si mesmo: Vou fazer o que escritores fazem, que é falar sobre si mesmos, na esperança de que minha experiência tenha alguma ressonância em vocês. Em temas difíceis como a morte paterna (O Cérebro de meu Pai - também publicado na revista Piauí), o sujeito não se contém e convida Narciso para assumir o proscênio literário.
Talvez o exemplo mais óbvio dessa estratégia sejam os textos Encontre−me em St. Louis, O Fradinho Chinês e Sobre Ficção Autobiográfica.
O primeiro relata as gravações televisivas para divulgar As Correções − que havia sido escolhido para integrar o Clube do Livro do programa da Oprah Winfrey. Cheio de timidez e reticências, o texto pretende persuadir o leitor que tudo aquilo foi um suplicio. Tarefa inútil. Se houvesse timidez e escrúpulos, o texto não teria sido escrito.
O segundo ensaio está centrado em uma viagem à China. Usando como desculpa um estranho hobby ("estranho" para os brasileiros, óbvio), a observação de pássaros, Franzen, enquanto procura por espécimes raros e massageia o próprio ego, descreve suas impressões antropológicas sobre as relações de trabalho. É uma crítica impiedosa ao capitalismo predatório – que mede as relações de produção pelos custos da mão-de-obra.
Talvez o ponto alto do Como Ficar Sozinho esteja no texto Sobre Ficção Autobiográfica. Mostrando bom conhecimento da teoria da literatura, citando dezenas de livros e autores, elaborando alguns aspectos de sua mitologia pessoal, Franzen implode com quatro perguntas básicas do jornalismo sem criatividade (Quais são as suas influencias?, Quando você trabalha e o que você usa para escrever?, Li uma entrevista de um autor que diz que, a certa altura do romance, os personagens "assumem o controle" e lhe dizem o que fazer. Isso também acontece com você? e, por último, Sua ficção é autobiográfica?). São respostas duras e um pouco agressivas − talvez por terem sido ditas, repetidas, reelaboradas milhares de vezes. Provavelmente 80% dos escritores mundiais gostariam de ter escrito esse texto (apesar do tom mal−educado), porque estabelece um marco comportamental às relações entre literatura e jornalismo.
Outra questão que preocupa Jonathan Franzen é a necessidade quase física de citar nominalmente alguns de seus melhores amigos. As ex−esposas são mencionadas de forma indefinida (minha futura mulher, minha mulher era uma nova-iorquina talentosa e sofisticada ou a californiana - como se tivesse medo de usar os nomes das mulheres, ele sempre usa uma dessas fórmulas). Com os amigos não há esse pudor. Quando escreve sobre David Foster Wallace (autor de Breves Entrevistas com Homens Hediondos) ou David Means (autor de Sinistros com Fogo) não disfarça o orgulho de estar cercado por escritores inteligentes. Só baixa a guarda quando, discorrendo sobre a solidão de Robinson Crusoé, lembra o suicídio de David Foster Wallace – morte que ele provavelmente nunca entenderá. Ninguém está preparado para perder aqueles que amam.
Provavelmente a tese mais controversa que Franzen defende em Como ficar Sozinho seja a de seguir o pensamento de Flannery O`Connor e concordar que a ficção se alimenta da especificidade, e que os costumes de determinada região sempre proporcionaram solo especialmente fértil aos ficcionistas. No mundo globalizado, onde a essência é diluída pela força da mercadoria, buscar no regionalismo a redenção literária parece simpático, mas... essa é uma tese que não convence – as grandes empresas editoriais não costumam arriscar com talentos obscuros, surgidos do nada ou morando lá onde o Judas perdeu as botas.
A essência da ficção é trabalho solitário: o trabalho de escrever, o trabalho de ler, escreve Franzen em algum lugar de Como ficar Sozinho. Ao mesmo tempo, ele está consciente de que o verdadeiro material da ficção somente pode ser adquirido com a convivência com outras pessoas, com outros seres humanos. É necessário admitir que, nesse mundo tecnoconsumista (a expressão é dele), Um dos alentos da praga dos celulares na minha vizinhança em Manhattan é que, entre zumbis enviando torpedos e imbecis combinando festas nas calçadas, às vezes caminho ao lado de alguém que está discutindo de peito aberto com a pessoa que ama. Tenho certeza de que eles preferiam não discutir em público, mas de qualquer maneira é isso o que está acontecendo e o comportamento deles não é nada legal. Gritam, trocam acusações, protestam, se insultam. Esse é o tipo de coisa que me dá esperança no mundo.
Alguém me disse que ele esteve na FLIP. Sou leitor a tempo suficiente para não me deixar enganar pelos mecanismos de persuasão da indústria publicitária. Quase disse – em voz alta − que o público literário brasileiro adora brilhar ao lado de celebridades de terceira grandeza. Consegui me controlar. O silêncio eloqüente é mais coerente – conforme recomenda a arte cavalheiresca do arqueiro zen.
A festança passou, o sujeito foi embora e as livrarias ficam entulhadas com as edições e reedições dos calhamaços que o venerável e venerado escritor está legando à humanidade. Uma dessas preciosidades tem título típico de livro de auto−ajuda: Como Ficar Sozinho. Quando o livro perder o ar de novidade, e isso não vai demorar, não será surpresa se o funcionário encarregado de repor o estoque de alguma livraria guardar, em momento de distração, alguns exemplares ao lado de best−sellers como O Segredo (Rhonda Byrne) ou Mulheres Inteligentes, Relações Saudáveis (Augusto Cury). Sim, eu sei que essa foi triste adaptação de piada antiga e descolorida: procurar por Ao Vencedor, as Batatas (Roberto Schwarz) ou Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu) na seção de agricultura.
Na livraria, com um exemplar de Como Ficar Sozinho nas mãos, pensei umas dez vezes antes de me decidir se deveria comprá−lo. Em pé, li a orelha (um desses textos de laboratório, próprio para convencer leitor desavisado), olhei o índice, folhei o livro várias vezes, li alguns trechos. Coloquei−o de volta na prateleira. Fui procurar por outras coisas, quem sabe não encontrava algo melhor na estante do lado? Dez minutos depois... Voltei. Abri o volume em alguma página aleatória e... Tá certo, aquilo que parecia não estar lá na primeira vez, me interessou. Depois de ler alguns parágrafos, vi um ensaio que não tinha percebido na primeira vez. Ele adora Alice Munro (Ela faz parte daquele punhado de escritores, alguns vivos, a maioria morta, que tenho em mente quando digo que a ficção é a minha religião). Foi uma surpresa. Eu também coloco Alice Munro no alto do pedestal. Ou melhor, sou fã de carteirinha. Da Alice.
Sentei numa poltrona e comecei a ler o texto. Não tenho certeza, mas foram uns quinze minutos de leitura. No mínimo. Em alguns trechos, reler se mostrou necessário. Não porque houvesse dificuldades de entendimento, mas há passagens interessantíssimas e um retorno à página anterior equivalia a um abraço em velho amigo – desses que encontramos casualmente na rua, depois de alguns anos sem o ver.
Fiquei surpreso em descobrir que tinha essa afinidade com Franzen. Afinidade eletiva, diria Goethe, naquele alemão árido que poucos conseguem ler nos dias de hoje. Parte do tempo de leitura foi utilizado para lembrar de alguns contos da Munro. Retirar livros da estante (mesmo que seja apenas metaforicamente) e ficar conversando sobre eles é uma sensação embriagadora. Um dos grandes prazeres da vida.
Entretido, com o livro nas mãos, desconsiderei o mundo ao redor. Passei no caixa e paguei o preço da diversão.
Alguns dos ensaios de Como Ficar Sozinho podem se lidos como se fossem peças de ficção. Franzen raramente aborda assuntos polêmicos − no trivial variado, principalmente nos assuntos que o atormentam (telefone celular, privacidade, cigarros) mostra domínio técnico e pensamento analítico diferenciado. O que diminui o brilho dos ensaios é o uso excessivo da narrativa auto−centrada, onde a primeira pessoa é glorificada e santificada. Franzen adora um espelho – e reflete o mundo pelo que visualiza diante de si mesmo: Vou fazer o que escritores fazem, que é falar sobre si mesmos, na esperança de que minha experiência tenha alguma ressonância em vocês. Em temas difíceis como a morte paterna (O Cérebro de meu Pai - também publicado na revista Piauí), o sujeito não se contém e convida Narciso para assumir o proscênio literário.
Talvez o exemplo mais óbvio dessa estratégia sejam os textos Encontre−me em St. Louis, O Fradinho Chinês e Sobre Ficção Autobiográfica.
O primeiro relata as gravações televisivas para divulgar As Correções − que havia sido escolhido para integrar o Clube do Livro do programa da Oprah Winfrey. Cheio de timidez e reticências, o texto pretende persuadir o leitor que tudo aquilo foi um suplicio. Tarefa inútil. Se houvesse timidez e escrúpulos, o texto não teria sido escrito.
O segundo ensaio está centrado em uma viagem à China. Usando como desculpa um estranho hobby ("estranho" para os brasileiros, óbvio), a observação de pássaros, Franzen, enquanto procura por espécimes raros e massageia o próprio ego, descreve suas impressões antropológicas sobre as relações de trabalho. É uma crítica impiedosa ao capitalismo predatório – que mede as relações de produção pelos custos da mão-de-obra.
Talvez o ponto alto do Como Ficar Sozinho esteja no texto Sobre Ficção Autobiográfica. Mostrando bom conhecimento da teoria da literatura, citando dezenas de livros e autores, elaborando alguns aspectos de sua mitologia pessoal, Franzen implode com quatro perguntas básicas do jornalismo sem criatividade (Quais são as suas influencias?, Quando você trabalha e o que você usa para escrever?, Li uma entrevista de um autor que diz que, a certa altura do romance, os personagens "assumem o controle" e lhe dizem o que fazer. Isso também acontece com você? e, por último, Sua ficção é autobiográfica?). São respostas duras e um pouco agressivas − talvez por terem sido ditas, repetidas, reelaboradas milhares de vezes. Provavelmente 80% dos escritores mundiais gostariam de ter escrito esse texto (apesar do tom mal−educado), porque estabelece um marco comportamental às relações entre literatura e jornalismo.
Outra questão que preocupa Jonathan Franzen é a necessidade quase física de citar nominalmente alguns de seus melhores amigos. As ex−esposas são mencionadas de forma indefinida (minha futura mulher, minha mulher era uma nova-iorquina talentosa e sofisticada ou a californiana - como se tivesse medo de usar os nomes das mulheres, ele sempre usa uma dessas fórmulas). Com os amigos não há esse pudor. Quando escreve sobre David Foster Wallace (autor de Breves Entrevistas com Homens Hediondos) ou David Means (autor de Sinistros com Fogo) não disfarça o orgulho de estar cercado por escritores inteligentes. Só baixa a guarda quando, discorrendo sobre a solidão de Robinson Crusoé, lembra o suicídio de David Foster Wallace – morte que ele provavelmente nunca entenderá. Ninguém está preparado para perder aqueles que amam.
Provavelmente a tese mais controversa que Franzen defende em Como ficar Sozinho seja a de seguir o pensamento de Flannery O`Connor e concordar que a ficção se alimenta da especificidade, e que os costumes de determinada região sempre proporcionaram solo especialmente fértil aos ficcionistas. No mundo globalizado, onde a essência é diluída pela força da mercadoria, buscar no regionalismo a redenção literária parece simpático, mas... essa é uma tese que não convence – as grandes empresas editoriais não costumam arriscar com talentos obscuros, surgidos do nada ou morando lá onde o Judas perdeu as botas.
A essência da ficção é trabalho solitário: o trabalho de escrever, o trabalho de ler, escreve Franzen em algum lugar de Como ficar Sozinho. Ao mesmo tempo, ele está consciente de que o verdadeiro material da ficção somente pode ser adquirido com a convivência com outras pessoas, com outros seres humanos. É necessário admitir que, nesse mundo tecnoconsumista (a expressão é dele), Um dos alentos da praga dos celulares na minha vizinhança em Manhattan é que, entre zumbis enviando torpedos e imbecis combinando festas nas calçadas, às vezes caminho ao lado de alguém que está discutindo de peito aberto com a pessoa que ama. Tenho certeza de que eles preferiam não discutir em público, mas de qualquer maneira é isso o que está acontecendo e o comportamento deles não é nada legal. Gritam, trocam acusações, protestam, se insultam. Esse é o tipo de coisa que me dá esperança no mundo.
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