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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

ALGUÉM PARA AMAR NO FIM DE SEMANA

Literatura é conquistar o leitor com boas histórias. Basta um bom enredo, linguagem límpida, objetiva, e esses truques do a-pós-o-modernismo (experimentações com múltiplos narradores, monólogo interior, prolepses e analepses, metaficção, auto−ficção, fricção demi bombé) se tornam supérfluos. O que vale é a simplicidade dos relatos com início, meio e fim − nessa ordem. Que a desordem é de outra ordem − concorde ou não o leitor. O que importa é o combate corpo−a−corpo. Passeios por alcovas e matagais, ais e uis femininos compondo parte da trilha sonora. Gozar é a regra. Sem medo, sem culpa, sem desculpa. Tesão como estratégia narrativa.

Alguém para Amar no Fim de Semana, livro de contos (uma quase novela fragmentária, como diz Luiz Ruffato), brinca de dar voltas em torno de si mesmo, como que a querer voltar ao ponto. Retomar a ponta. Da erva maldita. O livro é todo perfumado. Un concentré d'odeurs intimes de femme, diria algum poeta passadista, desses que esquecem que o amor rima com dor em poemas paupérrimos; um desses poetas que nunca conseguirão apre(e)nder que a felicidade não se mistura com as fantasias românticas.

Luis Roberto Guedes, maitre à penser, driblando a selvageria atemporal que acompanha o existir, não deseja se afogar em pouca água. Quer exercer suas vontades em, no mínimo, um oceano. Talvez para poder construir embarcações com as palavras. Talvez para se esconder da crueldade − essa mulher com um sorriso encantador. Ou será enganador? Não importa. A vida é confusão. Fusão de equívocos e perigos. Pessoas inexistentes, Dois Elementos num Jipe Amarelo ou A Ilha dos Caranguejos relatam, delatam, o fluxo da barbárie.

Em outro tom, a voz de Billie Holiday escorrendo pelo mundo, formigando a pele, produzindo arrepios, prometendo sabores sexuais: o escritor cego que é seduzido (ou seduziu?) a secretária; a potência emocional do marido impotente que autoriza o acesso adolescente às necessidades da esposa; o desesperado que telefona para todas as mulheres que conhece e não encontra alguém para acompanhá-lo em uma festa (ou a um motel). O cenário de bolero fora de moda se completa no imobilismo do cara que foi abandonado pela mulher amada e recebe a visita do meio−irmão (que está se mudando para o Rio de Janeiro). Quando percebe que o isqueiro foi esquecido em cima da poltrona, o rejeitado corre até a rua para devolver o objeto e descobrir que destino de corno é triste: Deu tempo de ver uma figura de mulher no banco do passageiro, e de ouvir sua risada de pura felicidade, aquela risada infantil de Maria Alice.

Alguns contos são bem−humorados. Quer dizer, agridoces: o sabor travoso está sempre presente, a impor avisos de que as aparências enganam e que, por trás do cenário com cada coisa em seu lugar, há todo tipo de improvisos e violências. Josué Peregrino (algumas vezes acompanhado por seus primos, Zelito e Jefferson, ou pelo baterista Marcão), na medida em que tenta escapar da loucura cotidiana, assemelha−se a um Argonauta: quer encontrar o velocino de ouro. Nada muito explícito. Quem é que consegue resistir aos seios durinhos da namorada? Joboy é que não. Aos prazeres bem remunerados proporcionados pela mulher que complementa a renda de empregada doméstica domesticando ereções? Novamente Joboy sucumbe. Loucura pouca é bobagem, comprova quando encontra Maia Moon na Lua Minguante – esfinge que estabelece oásis outros.

A vida − pulsante, visceral, brutal – está presente em todas as páginas de Alguém para Amar no Fim de Semana. Para o bem ou para o mal, parece desmentir uma das melhores frases do livro: Só escritores é que se ocupam de pessoas que não existem.

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