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sexta-feira, 20 de maio de 2022

FEIJÃO, CAMARÃO, CEBOLA, UVA PASSA (Texto modificado)

 


Quando alguma pessoa diz que não possui qualquer tipo de preconceito gastronômico, a vontade de rir fica quase incontrolável. Se isso não ocorre na frente da criatura é para manter um mínimo de verniz civilizatório. Todo mundo tem algum tipo de alimento que detesta. Inclusive aqueles que adoram dizer que “comem de tudo”. Nenhum humano possui estômago de avestruz.

Causa escândalo nacional encontrar algum indivíduo que diz que não gosta de feijão e camarão. Imediatamente, descontados os casos de alergia ou trauma, surgem situações de humilhação social. Ninguém acredita que existam sujeitos que detestam o sabor. Um conhecido precisou usar de diplomacia superior a que é praticada pelo Itamarati para superar a violência que surgiu ao seu redor. Várias vezes, ao ser convidado para almoçar, enquanto os demais convidados se empanturravam com suculenta feijoada, o fulano precisou se contentar com arroz branco, couve e laranja. Além disso, esporadicamente alguém olhava para ele com o mesmo interesse com que olharia para um alienígena.

Experiências similares ocorreram quando o camarão estava incluído no cardápio. Para não passar fome, precisou se contentar com bifes sola de sapato. E que, obviamente, foram preparados com visível má vontade.

Para alguns homens e mulheres, a cebola e a uva passa são as principais adversárias ao bom gosto gastronômico. Encontrar qualquer um desses dois elementos no meio da comida é motivo suficiente para julgar se vale a pena continuar a refeição. Embora pareça drástica,... a possibilidade não deve ser descartada. Nos casos em que o horror é superado, esses alimentos possibilitam cena antológica: o surgimento – lento, inexorável – de um montinho na beira do prato. Evidentemente, todos os que estão à mesa percebem o protesto silencioso.

Em tempos recentes, a cruzada contra alguns ingredientes culinários está ganhando centenas de adeptos. A facção xiita não economiza palavras de desprezo para azeitonas, chuchu, beterraba, tomate, bife de fígado, miúdos de galinha, lentilha, grão-de-bico, couve-flor, alcachofra, abóbora, picles, além de outras maravilhas da alimentação internacional. Nem mesmo as especiarias e as frutas escapam do sistema de exclusão (cancelamento, na linguagem atual). É o caso do coentro, alho, cravo-da-índia, açafrão, noz-moscada, mostarda, gengibre, anis-estrelado, maracujá, abacate, caqui, manga, mamão.

No âmbito regional, onde a desnutrição se faz presente, existe um bando de terroristas que elegeu como alvo a quirera, a canjica, o cuscuz de milho, a morcilha (morcela), o chouriço, o bucho (dobradinha), o matambre e o arroz de carreteiro. Não bastasse o descalabro, há quem demonize o sagu de vinho, o arroz doce e o doce de gila – símbolos da identidade (açucarada) sul-brasileira.

Se não fosse (muito) ridículo esses intolerantes subiriam em cima da mesa e usariam megafone para expressar – de forma inquestionável – a repulsa que sentem quando encontram o mínimo traço do alimento indesejado.

Como disse um filósofo desconhecido, as idiossincrasias humanas abrem as portas para estudos muito interessantes. No campo da psiquiatria, por exemplo. 

P.S: por razões de segurança pessoal, deve-se evitar menção aos hábitos nutricionais dos vegetarianos, veganos, macrobióticos e outros usuários de formas alternativas de alimentação. Esses grupos são mais perigosos que maionese estragada.




segunda-feira, 16 de maio de 2022

CINQUENTA POEMAS QUE RELEIO FREQUENTEMENTE (3ª PARTE)

 



ESPERANDO AS BÁRBARAS

(Marília Kubota)

 

barbie, tippie ou como você chame,

janet, condoleza, lynndie,

não é mais que uma boneca.

não como konstantin,

que amava os homens e por eles caiu

nos bordeis de Alexandria

anunciando homens

como os de vocês.

vocês são demais.

 

anseiam romances

enquanto seus homens explodem cabeças

de porco no mundo velho.

 

vocês sabem tudo sobre sexo

e leem revistas pornográficas em banheiros iluminados,

controlando hormônios.

 

vocês são híper.

 

jovens americanas, como vocês, mas do sul,

também ousadas, desde os dez anos vendem o corpo

para comer. os abutres comem delas.

 

vocês ensinam as mulheres a serem liberadas

usando as mais modernas técnicas

para conseguir prazer.

 

Todas as mulheres do mundo aguardam o ritmo

que a superestrela virgem ditará,

apertada em corpetes e botas militares.

vocês são o rosto das mulheres do mundo.

o que será de nós sem as barbies?



CASAMENTO

(Adélia Prado)

 

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram

ele fala coisas como ‘este foi difícil’,

‘prateou no ar dando rabanadas’

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

 

 

TEIA

(Orides Fontela)

 

A teia, não

mágica

mas arma, armadilha

 

a teia, não

morta

mas sensitiva, vivente

 

a teia, não

arte

mas trabalho, tensa

 

a teia, não

virgem

mas intensamente

                  prenhe:

 

no centro

a aranha espera.

 

 

Tarot

(Assionara Souza)

 

Vou confessar, querida

Tenho isso de gostar dos loucos

Observo de longe o jeito que eles comem com os olhos

Com você foi assim

Esse esmalte vermelho sempre em dia

Esse passado colado no álbum com cantoneiras e papel vegetal

Quero a receita completa

Desde o suspense antes do desfecho da trama

O disparo, teu olho assustado pra câmera

Por trás da palavra pêssego

corre um rio espesso

Mordo a palavra pêssego

E as comportas desabam — uma cidade inteira vem abaixo

Corremos, corremos para bem longe do set de filmagens

Vida real é um cão dormindo no silêncio da tarde de um domingo

 

 

querida sara,

(Alessandra Safra)

 

agradeço sua umidade nessa tarde ardida tão seca. sobre a

recusa de flores, preciso esclarecer que não aprecio esse

roubo da natureza apenas você [como sempre] basta.

 

Agradável sua visita nesse domingo insípido, aliás, todos

os domingos minhas ilusões tiram folga e esse mal estar

acumulado me força olhar para o ridículo dessa peleja

diária. estava afundada na cólica desses farelos quando

você me salvou com seu instinto de vida.

 

bom passar o tempo sob & sobre seu corpo ouvindo a

música dos seus gemidos.

 

Se puder, volta para me salvar no próximo domingo

também.

 

beijos

Anna S.

 

 


sexta-feira, 13 de maio de 2022

PERDER OS ÓCULOS É PERDER PARTE DO MUNDO

 


Perder os óculos é uma tragédia. Tudo fica opaco – um conjunto de sombras, sobras daquilo que, em tempo anterior, era cor e vida. A beleza do mundo e a emoção que é olhar (o perto e o longe) se diluem na névoa. Claro que isso não é o fim do mundo. Talvez seja o começo de outra catástrofe.

No final da tarde, a garoa ameaçando se transformar em temporal, ele apressou o passo – queria chegar ao apartamento o mais rápido possível. A gripe costuma acompanhar a chuva e, em tempos pandêmicos, todo cuidado é pouco.

No momento em que estava prestes a desfrutar da segurança que é estar em casa notou que alguma estava em falta. O quê? Levou a mão ao rosto, ao bolso da camisa. Procurou na pasta que sempre o acompanha. Desesperou-se. Onde será que estavam os óculos? Procurou por todos os lugares onde poderia procurar. Na cozinha, no escritório, próximo do telefone fixo, no banheiro. Não o encontrou. Tinha desaparecido.

Fez um exercício de memória em relação aos lugares em que esteve antes de chegar ao prédio. Será que tinha deixado no banco, onde fora pagar um daqueles boletos que não cansam de chegar todos os meses? Imediatamente, por analogia, se lembrou das várias vezes que esqueceu o cartão de crédito no caixa eletrônico e teve que retornar correndo, desejando que o objeto ainda estivesse no lugar onde foi abandonado. Nenhuma novidade na vida de um perdedor. Quer dizer, perder coisas é uma de suas especialidades. São incontáveis os livros, as chaves, as canetas, e outros utensílios que ficaram pelo caminho e que nunca foram recuperados. Incorrigível paspalho – foi o que disse para si mesmo.

Outra possibilidade era a de que o tivesse perdido em algum lugar durante o caminhar. Bastaria um gesto brusco e os óculos poderiam ter deslizado suavemente para fora de seu alcance. As calçadas possuem esse tipo de atração. Sim, isso poderia ter acontecido. No desespero, munido do guarda-chuva, refez parte do trajeto por onde poderia ter acontecido a separação. Olhando cuidadosamente para o chão nada encontrou.  

Consciente que precisaria tomar uma série de providências no dia seguinte anotou o número do telefone da clínica oftalmológica. Teria que marcar uma consulta. Depois, precisaria mandar aviar a receita das lentes e da armação– nitidamente em desacordo com o seu saldo bancário. Teria que parcelar os gastos astronômicos em intermináveis parcelas.

Nas primeiras horas da manhã seguinte, estoicamente, decidiu seguir em frente – como se a perda significasse apenas um pequeno contratempo. Um sinal de que não é possível ter controle sobre certas situações.

Um pouco antes de sair para o trabalho, ele pegou a bolsa, que estava em cima do sofá. Nesse momento, os óculos caíram no chão. Perplexo, ele recolheu o objeto e agradeceu aos deuses do Olimpo, além de Buda, Ganesha, São Longuinho (apesar de não ter feito os tradicionais três pulinhos).

Ter encontrado os óculos é um mistério que ele nunca conseguirá resolver. Em cima do sofá foi um dos lugares onde procurou – diversas vezes. Não poderia estar lá. Não poderia. Mas, estava. Algumas pessoas possuem mais sorte do que juízo.

terça-feira, 10 de maio de 2022

CINQUENTA POEMAS QUE RELEIO FREQUENTEMENTE (2ª PARTE)




NATAÇÃO

(Adriane Garcia)

 

Maníaca

Quis casar e ser dona

De casa

Marido filhos vida regular

 

Mas não pode entrar

Num lugar

 E ver aquários

 

A casa inteira alagando.

 

 

CASABLANCA

(Ana Cristina Cesar)

 

Te acalma, minha loucura!

Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!

Esse som de serra de afiar as facas

não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...

Estas molas a gemer no quarto ao lado

Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia

O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos

As hélices do adeus despertam pros meus olhos

Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada

                                                                   [feita de binóculos de gávea

E chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano

 

 

IX

(Camila Assad)

 

Meu companheiro é Barão da Pindaíba

em um país não monárquico.

Usa chapéu de pelo de lebre e

um relógio de corda que parou faz algumas décadas.

Me chicoteia todos os dias às nove e meia

durante o segundo intervalo da novela

 

E vovó diz que isso sim é que é um homem.

Devo usar diariamente o meu melhor peignoir

e servi-lo com um bom boquete, perdão, banquete.

 

 

tempo

(Micheliny Verunschk)

 

o homem toca piano no andar de cima

do lado de fora se misturam

o canto dos pássaros

e as vozes quase infantis dos desenhos animados.

tudo na mais perfeita ordem

exceto, é claro, pelos fascistas que marcham na avenida.

 

 

(Paula Taitelbaum)

 

tô cansada

de foda

cronometrada

queria horas

e mais horas

de cravada

depois dormir

em concha

encaixada

com a xota

cheia

e toda

inchada


terça-feira, 3 de maio de 2022

O TESOURO NO MORRO DO JUCA PRUDENTE

 

 

Contam os moradores mais antigos da região leste da cidade que existe um tesouro enterrado no morro do Juca Prudente (ou nas proximidades). Em algum momento, na segunda metade do século XVIII, um grupo de padres (provavelmente jesuítas) estava sendo perseguido pelos bandidos que se escondiam na imensidão continental que chamamos de Planalto Serrano. Expulsos da região de Sete Povos das Missões, os religiosos provavelmente se dirigiam para o litoral do Oceano Atlântico. Sentindo a proximidade dos inimigos, e impossibilitados de oferecer um mínimo de resistência, resolveram colocar em segurança parte da carga que levavam. Moedas de ouro, castiçais cravejados com pedras preciosas, aspersórios de prata, além de outros objetos valiosos, foram depositados em um lugar secreto. Os fugitivos esperavam voltar – algum tempo depois – para recuperar o que foi deixado para trás. Não voltaram. Não se sabe o motivo. Talvez tenham sido mortos. O rio das Caveiras não leva esse nome sem motivo. 

Em diferentes momentos, por cerca de 200 anos, muitos exploradores tentaram descobrir o local em que está guardada a fortuna. Cavernas foram desbravadas, buracos foram abertos em diversas partes do terreno, esquadrinharam a região com aparelhos que detectam metais, procuraram por diamantes – nenhuma dessas expedições arqueológicas e espeleológicas (estudo de cavernas) obtiveram êxito. Além de morcegos, insetos e cobras, nada de significativo valor foi encontrado.

Algumas pessoas que participaram dessa caça ao tesouro acreditam (na falta de uma teoria com maior consistência) que existe algum tipo de código secreto que permite encontrar o que está escondido. Esse abre-te sésamo precisa ser desvendado para que seja possível desfrutar das benesses econômicas. No entanto, descrentes de sucesso imediato, quase todos concordam que, entre a revelação do mistério e a posse da fortuna, o planeta ainda vai girar em torno do Sol por incontáveis vezes.    

Habitantes das proximidades do morro afirmam que, no período da noite, brotam do chão algumas bolas de fogo – que talvez indiquem o local onde está escondido o espólio. Também podem ser avisos do sobrenatural. Aqueles que acreditam na existência de outros mundos afirmam que alguns fantasmas estão guardando o local, evitando que o tesouro caia nas mãos de quem nada fez para merecê-lo. Fogo-fátuo, rebatem os céticos (essas pessoas que procuram no mundo da ciência a explicação para qualquer coisa). Ou seja, trata-se da combustão de gases provenientes da decomposição de matéria orgânica. Independente da correção de qualquer hipótese, os mais supersticiosos dizem que a lógica nunca é suficiente para explicar alguns fatos. Seguindo um ditado hispânico, repetem, como um mantra: no creo en brujas; pero que las hay, las hay.

Outro acontecimento que está gravado no imaginário popular refere-se à possibilidade do exército ter fechado a entrada da maior das cavernas com um portão de ferro. Ninguém confirma se isso realmente aconteceu. Também são incapazes de explicar o motivo dessa ação (se é que ela ocorreu).

Independente da aparição de almas penadas, de fenômenos físico-químicos, ou de outras intervenções (divinas ou humanas), durante algum tempo foi possível frequentar um restaurante que estava situado no alto do morro. A comida e o atendimento eram de boa qualidade – como complemento, uma interessante vista urbana. Por algum motivo (talvez o difícil acesso), essa alternativa turística e gastronômica se perdeu no passado. Ficou apenas a lembrança – assim como a lenda do tesouro.

 

Foto: Antônio Agostinho Vieira