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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

LITERATURA, LIXERATURA E CAPITALISMO

A política social dessa anomalia que chamam de politicamente correto determina comportamentos e incentiva a hipocrisia. A realidade se torna uma fraude e são raros são os indivíduos que emitem juízos de valor a respeito disso ou daquilo. No campo literário, a mais singular das estratégias de convivência determina que elogios mútuos e tapinhas cordiais nas costas são excelentes escudos contra hostilidades ou, em situação mais complicada, ser processado.

Esse proceder é uma das muitas explicações possíveis para algumas das resenhas publicadas a respeito da coletânea Geração Subzero − 20 autores congelados pela critica, mas adorados pelos leitores, organizada por Felipe Pena.

Para desagrado do organizador da coletânea – que escreveu um longo panegírico introdutório – a função da crítica não é jogar para a torcida. No máximo, é tentar estabelecer uma ordem (vá lá, uma desordem) entre objetos de intensidade e força similares. E, por melhores (ou piores) que sejam as intenções de quem estabelece esse julgamento valorativo, o resultado natural é fracassar estrondosamente. Nenhum problema. Faz parte do show. Como escreveu Carlos Drummond de Andrade: Lutar com palavras / É a luta mais vã. / Entanto lutamos / Mal rompe a manhã.

José Paulo Paes (que possivelmente poucos dos escritores incluídos em Geração Subzero leram), há mais de 20 anos, contrapôs obras de arte e literatura de entretenimento no ensaio Por uma Literatura Brasileira de Entretenimento. Concluiu o crítico que carecemos de obras similares às escritas por Conan Doyle, Emílio Salgari, Karl May ou Julio Verne. E que nunca poderemos aspirar um estatuto literário significativo se essa lacuna continuar aberta. Evidentemente, o mestre defendia em sua tese que o entretenimento nacional deveria possuir voz própria. Isso significa, antes de qualquer outra questão, que autores que emulam temas e estilos que nada acrescentam ao imaginário dos leitores não deveriam ser incensados.

O organizador da coletânea, Felipe Pena, em tom ressentido, defendendo escritores falsamente excluídos, discorda (mas não muito!) de José Paulo Paes e argumenta que Mesmo quando classifico boa parte dos autores contemporâneos como chatos, herméticos e bestas, faço−o do ponto de vista da leitura, não da análise estética, embora essa última esteja intrinsecamente ligada à minha critica.

Então tá! Vamos fazer de contas que tudo está bem e que esse discurso, aparentemente preocupado com a multiplicação dos leitores, não induzirá alguns desavisados a acreditar que os números de vendagem são mais importantes do que outros critérios de análise. E que os escritores que recusam o uso de um discurso palatável ao grande público devem receber o rótulo de chatos, herméticos e bestas.

Felizmente, não é o utilitarismo capitalista (expresso nos números contábeis) que estabelecem os diversos níveis de leitura. Se isso valesse, Paulo Coelho seria superior ao Machado de Assis. Não o é. Nunca o será. Inclusive, porque lhe falta algo. O quê? Talento. Conteúdo. Além, evidentemente, do domínio da linguagem literária e das regras básicas de sintaxe.

Livros são bem ou mal escritos, nada mais, escreveu Oscar Wilde há mais de 120 anos. A frase – atualíssima –, diante da premissa equivocada que é acreditar em autores congelados pela critica, mas adorados pelos leitores, indica que dividir o mundo em críticos malvados e leitores bonzinhos configura exercício de má−fé. A suposição que críticos não são leitores é hilária e somente superada pela ingenuidade que é acreditar na ternura dos leitores. Nem uma coisa nem outra.

Críticos são leitores – antes de qualquer outra qualificação. E se escolhem determinadas leituras não é porque estão separando o joio do trigo ou qualquer outra metáfora desastrada que, por bem ou por mal, se adaptar nesse tropeço que constitui a jornada intelectual. Muitas vezes, apenas evitam o que é ruim. Simples assim.

Leitores querem consumir (literalmente) textos que fornecem prazer. O prazer do texto, para não escapar da referência óbvia. Desta forma, almejam qualidade (seja lá o que isso for). Mas, por mais clichê que isso possa parecer, ninguém deveria confundir quantidade com qualidade. Romances policiais, fantasias românticas, distopias violentas – para tudo existe um público específico. Em outras palavras, escritores como André Vianco, Eduardo Spohr e Raphael Dracon venderam alguns milhares de livros porque há um nicho disposto a consumir esses textos visivelmente mal−elaborados narrativamente.

Felizmente, isso não significa que eles devem receber atenção igual ao Bernardo Carvalho, Milton Hatoum ou Marçal Aquino. Equipará-los equivale ao implodir a história da literatura.

Dito isso, a conclusão é fácil: Geração Subzero − 20 autores congelados pela critica, mas adorados pelos leitores é provavelmente uma das piores publicações lançadas nos últimos anos por uma grande editora. Poucos dos autores que integram o volume merecem alguma atenção. Salvam-se, com restrições, um ou dois. Luis Bras (pseudônimo do Nelson de Oliveira) em primeiro lugar. E depois a Vera Carvalho Assumpção (imaginando que ela pode escrever algo melhor). No nível intermediário, uma risadinha tímida para aqueles textos com sabor de crônica (Thalita Rebouças, Juva Batella, Julio Rocha). O resto... O resto é descartável.

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