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quinta-feira, 22 de abril de 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXCVII)

 


Gosto mais da família dos felidae do que da dos alligatoridae. Mas isso não vai impedir (sobre a nudez forte da verdade e o manto diáfano da fantasia) o início da minha transformação, na próxima semana, em jacaré (crocodilo, alligator, caimão, lacoste, sei lá quais outros nomes esse animal pouco simpático possa ter).

Se isso acontecer, mandarei selfies para amigos e inimigos – todos precisam saber que fui vacinado e que, por enquanto, para alegria e tristeza do distinto público, vivo tranquilamente todas as horas do fim, como diria Torquato Neto, se estivesse por aqui, a contemplar essa paisagem em ruínas que chamam de Brasil.

Chances existem dessa metamorfose ambulante não acontecer. Pelo menos, duas estão na ordem do dia, para desespero dos gigolôs da estatística – aqueles que cravaram 100% de possibilidades para que a festa dos répteis (sem aglomeração, óbvio) seja um retumbante sucesso nas margens de rios, lagoas, igarapés e parques aquáticos.   

Talvez faltem vacinas, a escassez impera e destempera as esperanças de quem morre de medo da indesejada das gentes. Nesse caso, enviarei à ansiedade algum anestésico, direi te acalma, minha loucura, por exemplo. Vida louca, louca vida, nesse momento de frustração o melhor a fazer é colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração, mero recurso de quem, passarinhando, furtou alguns textos de várias antologias amareladas pelo tempo (poeta frustrado, considero que esses versos manchados de lágrimas, rosas secas e tristes recordações são meus, posto que sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, e vivo a brincar de heterônimos e simulacros).

Outro inconveniente está no meu histórico ginecológico, perdão pelo trocadilho imaturo, genealógico. Infelizmente minha família (desde a geração ancestral, aquela que povoou esse pedaço de terra que tomamos dos indígenas) é imune às modificações animalescas – muitas vezes o que fazemos de melhor é o contrário, ou seja, antropomorfizar o que deveria continuar sendo bicho e/ou objeto. Então, cabe entender que a ação mimética desconsidera a aritmética, duas doses de vacina talvez não produzam um descendente dos dinossauros. E isso me deixará desolado. Isolado? Ensolarado? Encantado? (é melhor parar por aqui, antes de esgotar as palavras que rimam e não são uma solução).

Descontando esses pequenos inconvenientes, sonho acordado com a vacina. Meu braço não tem preferência por fabricante ou anunciante. Não é hora de brigar por espaços competitivos ou reserva de mercado. Quero aquela que o Sistema Único de Saúde (SUS) entender que é a parte que me cabe nesse latifúndio (quer dizer, roça de subsistência, que o preço do feijão não cabe no poema, o preço do arroz não cabe no poema, não cabem no poema o gás, a luz, o telefone, a sonegação do leite, da carne, do açúcar, do pão). 

Enfim, Serafim, será o fim do tempo de espera para sair à rua, deixar de lado essa brincadeira que é protestar contra os absurdos do governo nas redes sociais, eu quero é abraçar a vida, ir ao cinema, tomar sorvete no meio da rua, voltar a frequentar bares e restaurantes, conhecer outras cidades e vilarejos e, quizás quizás quizás, pensar (mas não muito) no amor.  


segunda-feira, 12 de abril de 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXCVI)

 


Estou de férias. Resolvi desacelerar e, se for possível, respirar melhor. Trinta dias não serão suficientes para alcançar a serenidade de monge budista ou de mártir cristão. Não tenho vocação para esse tipo de estoicismo. Mas, se isso significa alguma coisa, estou me esforçando para ficar distante dos problemas, para diminuir a aflição.

Estar em casa, envolto no silêncio, deve auxiliar na faxina geral. Mas não se trata de jogar fora objetos que foram sendo acumulados com o passar do tempo. Esses não importam muito e não constituem estorvo ou admoestação. A questão principal é de outra ordem. Um conjunto de acontecimentos pessoais me deixou próximo do nocaute. Cambaleei, quase fui ao chão, estou tentando recuperar o prumo e, na medida do possível, seguir em frente.

Desta vez, o fosso (repleto de jacarés famintos) que construí ao meu redor não foi capaz de fornecer proteção. O desassossego encontrou uma fissura na parede e invadiu – sem pedir licença, sem se importar se estava instalando a angústia e a tristeza. Dizem (esteja o sujeito preparado ou não) que as perdas fazem parte da vida e que o show deve continuar. 

Recomendaram-me procurar por ajuda profissional. Recusei. Decidi – em um primeiro momento – enfrentar a tempestade de mãos limpas, sem escudos, sem rede de proteção. Não quero usar anestésicos. Além disso, tenho mais medo do que se encontra do lado de fora da porta do apartamento em que moro do que dos meus fantasmas particulares.

Inconvenientes, as recordações aparecem nos lugares e nas horas mais estranhas. No supermercado lembrei o pânico diante de escada rolante e de elevador. Não adiantava insistir que aquilo era pouco razoável, um temor bobo, você preferia subir pela escada convencional três, quatro andares, gastando fôlego. Eu, claro, ficava furioso. Depois, uns cinco minutos depois, vencido pelo inevitável, também estava achando graça com aquilo tudo, uma imensa bobagem que compartilhamos tantas vezes.

As fotografias estão ficando desbotadas. Sentado no sofá, olhei uma por uma, o álbum transformado em catálogo de conversas, histórias, desentendimentos. Você sabia que essa coisa estranha que chamam de felicidade encontra sentido em pequenas vitórias, em detalhes quase insignificantes – quantas vezes a risada fácil espantou os vizinhos nos mil e um lugares onde você morou?

Nesses anos todos, uma legião de amigos e conhecidos entrou e saiu de tua vida. Alguns ficavam um pouco mais de tempo, outros eram fugazes. Poucos os permanentes. Essa circunstância parecia te divertir, a perspectiva de quem adorava as mudanças (algumas vezes trocava os móveis de um lugar para outro, na tentativa de imaginar que estava em outra casa, em outra cidade).

Foram muitas as ocasiões, durante uma visita, que você me perguntou, com voz doce, aquele mel da sedução, se eu não tinha uns trocados para “emprestar”. Emprestar a perder de vista?, eu perguntava imediatamente, confirmando a tática de provocação que solidificava o nosso (con)viver. Você olhava para o lado, talvez para dissimular a alegria. Ciente de que eu não negaria o dinheiro, pegava as notas rapidamente, me dava um abraço, e me mandava embora.     

Agora, depois que o cordão umbilical foi rompido em definitivo, só me resta administrar as lembranças, essa herança que emerge do passado em doses homeopáticas. 

Estou de férias – ajustando as contas com a nossa história comum. Ainda não estou preparado para dizer adeus.   




terça-feira, 23 de março de 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXCV)

 

É assim que quero lembrá-la: debochada, mostrando a língua para o mundo.  


Faz uma semana que estou pensando no significado da palavra órfão. Ainda não consegui estabelecer a exatidão do que ela representa nas nossas vidas (de meus irmãos, na minha). Romper o cordão umbilical – desta vez, para sempre. Maria Alvina Furtado Wolff, aquela que durante algum tempo utilizou o sobrenome Arruda, 82 anos, faleceu na manhã de terça-feira (16/03), depois de cinco dias de internamento hospitalar.   

Dona Vina detestava ser chamada de Maria, dizia que não queria se perder na Legião de Maria (todas as suas irmãs são Marias). Era única, dessas que estabelecem identidade própria. Parte da explicação para esse proceder está no fato de que ela conjugava o viver hoje e inventar o amanhã. Detestava o passado. 

Minha mãe era vaidosa, o guarda-roupa repleto de possibilidades. Bastava sobrar algum dinheiro e ia às compras, dezenas de botas e sapatos, calças e blusas, perfumes. Fazia questão de estar bem vestida – a necessidade psicológica de dizer ao mundo que os tempos de penúria tinham passado. Não era verdade, a batalha diária era consequência da falta de dinheiro, o eterno vestir um santo e desvestir outro, como se dizia em outros tempos.

Em 1972, rebelou-se contra o patriarcado e abandonou o marido. Cansou de representar o papel de mulher dócil e submissa. Como não poderia ser diferente, foi alvo de “elogios entusiasmados” da tradicional família lageana, aquela que esconde os próprios pecados e não economiza nos boatos e infâmias (para o bem e para o mal algumas das histórias atribuídas à minha mãe eram verdadeiras).

Precisando cuidar dos filhos pequenos, fez milagres com um orçamento doméstico escasso, insuficiente para pagar a comida e os gastos diários. Mesmo assim, tropeçando aqui, fugindo dos cobradores acolá, ensinou aos filhos que se deve agarrar a vida com as duas mãos, avidez misturada com coragem e teimosia.      

Feminista sem saber o que é o feminismo, e mesmo se soubesse o que isso significa provavelmente faria algumas objeções, o prazer de violar as regras era o seu prazer, minha mãe reconstruiu a vida amorosa inúmeras vezes. Isso quer dizer que trocou de parceiros com frequência. Sabia que amor e sexo são coisas diferentes e que a liberdade não pode ser restringida por convenções de posse ou de domínio masculino.

Adorava viajar. De tempos em tempos ia para Brasília, Curitiba, Cuiabá. Sempre para longe. Sempre voltando, muitas vezes por pura inércia. Parecia cigana, seis meses em lugar, um ano em outro. Devorar horizontes era um de seus lemas. Em um desses passeios sofreu um grave acidente automobilístico. Recuperou-se. E sossegou por algum tempo. Não muito. A estrada não parava de lhe chamar para novas aventuras.

Criada no catolicismo migrou para as religiões de matriz africana e, em menor intensidade, para o espiritismo. Do ponto de vista religioso, Dona Vina era ecumênica. Frequentava terreiros e sessões de passe. Ia à missa. Fazia oferendas para Ogum e Iemanjá. Lia cartas de tarot, receitava remédios caseiros, dava conselhos, rezava para as entidades.

Como mantinha um calculado distanciamento emocional das pessoas, há quem diga que ela guardava os sentimentos em lugar secreto, longe dos olhares. Lembro-me, em especial, de um momento em que deixou escapar a emoção. Em uma das muitas viagens que fiz à Florianópolis, passei no Shopping e, como era dezembro, comprei um boneco de Papai Noel e chocolates. Não me parecia ser coisa importante, apenas algumas lembranças natalinas. Ao desembrulhar o pacote, as lágrimas escorreram pela face. Disse-me que, na infância e adolescência, nunca ganhava presentes, uma das desvantagens de morar – desde criança – na propriedade de meus avós (como era comum na época, foi filha de criação). Fiquei sem saber o que fazer ou dizer. Somente mais tarde é que percebi que, em algum lugar de sua mente, um gatilho havia sido disparado e libertado a dor que acompanha algumas lembranças, mágoas e ressentimentos.     

Por último, uma lenda familiar. 

Minha mãe reuniu os netos mais velhos e disse:

– Vocês estão proibidos, por enquanto, de ter filhos. Eu sou muito nova para ser bisavó.

Tinha quase 70 anos. 

Talvez fosse apenas uma brincadeira. Talvez. Mas, como é comum nessas histórias em que os velhos querem ditar as regras de comportamento para os seus descendentes, foi a neta mais nova quem a desobedeceu primeiro.   


segunda-feira, 15 de março de 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXCIV)

 


O edifício em que moro está situado ao lado de um terreno baldio. Isso significa, entre outras coisas, duas grandes preocupações. Mais cedo ou mais tarde, haverá a inevitável construção de algum prédio, o inferno em forma de barulho incessante. A segunda é mais prosaica: insetos.

Nesses três anos que estou morando aqui, as visitas sempre foram pacificas: formigas, joaninhas, mosquitos, aranhas. A vida se manifestando de diversas formas. Confesso que usei citronela algumas vezes, mas foi mais para manter distância dos animais do que para lhes causar mal. O meu budismo falsificado impede atos sanguinários.

Antes de continuar essa narrativa, quero esclarecer que sou extremamente simpático ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e ao Movimento dos Sem Terra (MST). Acredito que imóveis abandonados e terras improdutivas devem ser ocupadas por aqueles que, por diversos motivos, estão em situação de penúria e vulnerabilidade. Isso significa que estou em lado oposto ao daqueles fazendeiros que contratam pistoleiros para proteger a propriedade privada.   

Dito isso, que talvez sirva de salvo-conduto para minhas ações posteriores, dou prosseguimento ao causo. Duas semanas atrás precisei enfrentar uma situação inesperada. O latifúndio em que moro foi invadido por um inseto minúsculo, porém muito incômodo. Talvez, em consonância com a condição de precariedade habitacional que assola parte dos brasileiros, ele considerou ter encontrado um bom refúgio.

Há quem encontre harmonia no som produzido pelos grilos – eu prefiro outro tipo de andamento musical. Como gosto se discute, fui à procura do indivíduo para solicitar que se retirasse, visto que a sua presença não era bem-vinda. Por várias noites, esse mestre da camuflagem se manteve em lugar incerto e não identificado. Fui forçado a fechar a porta da cozinha para tentar abafar o ruído (qualquer semelhança com o conto Casa Tomada, do Cortázar, não será mera coincidência).

Uma noite, ele se distraiu e foi encontrado. Enxotei-o sem piedade. A paciência (que é pouca) não permitiu outro desfecho. Mas, como acredito que os otimistas sempre estão mal informados, não considerei que o assunto estava resolvido.

Dois dias depois a tortura recomeçou. Não sei se era o mesmo ou alguém estranho. Desta vez, o som parecia vir da região embaixo da pia. O fato é que o ortóptero não queria sair do armário. Então, fui procurar uma maneira de resolver o incômodo (ah, os eufemismos!). A internet é a nova Barsa (pela referência pode-se perceber que faz tempo que deixei de ser jovem). Encontrei várias indicações sobre como proceder, inclusive métodos “desumanos”. O mais cruel consiste em colocar melaço em um prato, o animal é atraído pela guloseima e morre afogado. Descartei esse doce barbarismo. Além disso, a minha Assistente para Assuntos de Limpeza Doméstica (AALD) afirmou, convicta, que matar grilos atrai o azar. Talvez ela esteja certa, porque na China esses animais são considerados sinais de sorte.

Enquanto não conseguia decidir que alternativa deveria adotar, aconteceu algo que não sei explicar adequadamente: o Acheta domesticus (não tenho certeza se o inseto era desse modelo) desapareceu. Suspeito (mas sem convicção) que foi o cheiro da cera líquida que a AALD passou no chão do apartamento que mandou o membro da família das gryllodeas procurar novo endereço. Outra hipótese provável está no falecimento (causas naturais?) do inseto. 

De qualquer forma, o problema desapareceu – por enquanto.


sexta-feira, 12 de março de 2021

DIÁRIO DA QUARENTENA (CXCIII)

 


O som da respiração. Um dos muitos ruídos que acompanham o corpo. Uma segunda pele. No dia a dia ninguém o percebe. Está incorporado às banalidades do cotidiano. Alguma coisa precisa acontecer para que possa ser escutado.

Madrugada de quinta-feira. Sonolento, atendo o telefone. Um funcionário da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) está me informando que abriu vaga no hospital e que preciso assinar os papeis de internamento da minha mãe. Depois de perceber que não se trata de um sonho ruim e que a realidade não economiza na brutalidade, levanto da cama, visto a primeira muda de roupa que encontro, calço o tênis, separo duas máscaras descartáveis e abro a porta do apartamento.

A rua está deserta. Cenário de filme apocalíptico. São cerca de 20 minutos de caminhada entre um ponto e outro. Depois de algum tempo, uma viatura da polícia passa lentamente ao meu lado e desaparece na imensidão que acompanha as luzes urbanas. Mais adiante encontro um sem-teto, que está dormindo numa escada – sem se preocupar com a precariedade que o envolve.

Caminhar ajuda a controlar a ansiedade. Essa é uma das vantagens de não ter carro. A cada passo o pensamento vai sendo separado das impurezas. A procura por algum tipo de explicação envolve as distâncias.   

Há uma beleza inexplicável no silêncio. As casas e os prédios parecem estar flutuando na névoa. Tenho dificuldade para reconhecer os lugares por onde passo cinco dias por semana para ir para o trabalho. Esse estranhamento atrai e repele – simultaneamente.   

Em algum momento, quase como uma revelação, estou diante do hospital. Algumas pessoas estão conversando, um cachorro sem dono implora por um pouco de comida ou de carinho – o que for possível.  

A ambulância está atrasada. Sentado em uma cadeira, lamento ter saído de casa com pressa. Não trouxe comigo um dos vários livros que estou lendo. Impotente, espero. O tempo é uma ilusão interminável. Mantenho o celular no bolso da calça. Não quero me perder nas trapaças da internet.

A maca passa rapidamente pela porta e só consigo ver que minha mãe está inconsciente, o rosto encoberto pela máscara de oxigênio, o fio da vida quase se rompendo.

Assinei alguns papeis. Atordoado, não consegui entender o que aquele conjunto de palavras impressas queria dizer. Provavelmente tratava-se de mera formalidade, a incessante produção de documentos para iludir o caos que a burocracia ambiciona (inutilmente) combater.

Voltei para casa. Depois de quase duas horas atravessei outra vez a cidade. O mundo estava diferente. O entendimento das coisas foi alterado. As lojas e os edifícios perderam o brilho, blocos de concreto, aço e vidro se tornaram incompreensíveis ao olhar. 

Subitamente percebo o som. Estou ofegante. Os pulmões em descompasso – como se estivesse faltando oxigênio. O coração acompanha essa falta de delicadeza. 

O encantamento está em poder respirar – suavemente.