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segunda-feira, 20 de junho de 2011

BETÃO DA PENHA, CERVEJA E AMOR

Vestindo a bombacha suja, arregaçada na perna esquerda, tomando a sua cervejinha básica de toda hora, ali no balcão do bar Gre−nal, Betão da Penha viu Miosótis passar. Quer dizer, naquele momento, ele não sabia que a moça se chamava Miosótis, mas com aquele corpo, com aquele gingar de cadeiras, com aquele ar de delicadeza, só podia ter nome de flor.

Amor a primeira vista? Não sei. Como narrador pouco posso escrever sobre o que estava se passando na mente do personagem; o que está ao meu alcance é relatar as suas ações. E, nesse sentido, o que aconteceu foi que Betão deixou sobre o balcão uma nota de dez reais e, tastaviando, saiu à rua.

A mulher havia desaparecido na multidão. Quer dizer, pela rua caminhavam umas cinco ou seis pessoas, mas nenhuma delas era Miosótis. Como acontece nesse tipo de situação, a ausência instalou uma fenda no peito de nosso herói. Buraco que ele tentou preencher com um Amazonas de cerveja, quando voltou ao balcão do boteco. Só tentou. Um sentimento complicado impediu a inundação. Será possível sentir saudades de uma mulher que − até aquele momento − lhe era uma estranha?

Pela primeira vez na vida, Betão sentiu medo. Para aquele que anulava os finais de semana domando touro e cavalo, medo era uma palavra estranha. E, por mais estranho que isso possa parecer, Betão estava com medo. Medo de se apaixonar.

Foi então que o seu olhar, até aquele instante vago e incerto, se encheu de alegria e esperança. Na parede, um cartaz da festa de São Bom Jesus de Iguape. Não sei se foi a cerveja, o destino ou pura sorte, mas Betão, naquele instante, teve a premonição de que Miosótis estaria lá, na festa. Recuperou a consciência e a lucidez. E tomou uma decisão. Iria à festa. Iria encontrar aquela "prendinha mimosa qui nem flor na encosta da serra, qui nem pelego em noite di inverno, qui nem...".

Para comemorar essa decisão, solicitou ao garçom uma água mineral. Sem gás. O garçom ficou apavorado com o inusitado desse pedido.

Durante a semana, com o olhar de cachorro pidão, Betão aguardou. Aguardou pelo dia da festa. A espera corroeu a alma, atiçou a úlcera que cultivava com carinho e o tornou irritadiço. A isso devemos acrescentar outros horrores: parou de beber, roeu unhas, se alimentou mal, empalideceu. Como um personagem romântico, sofreu de amores.

No sábado, por cima da camisa de seda amarela, fez questão de usar um lenço colorado. E assim vestido, como um piá que vai para a primeira comunhão, "esticou as canelas" até a gruta de Bom Jesus de Iguape.

Mal chegou lá, encostou no primeiro balcão que viu e, "pra firmá o purso e diminuí o nervoso", pediu um liso de canha. Depois, tomou uma cerveja − para rebater.

E teria ficado ali, bebericando, durante uma eternidade se não tivesse encontrado um amigo de infância. Começaram a contar "causo dus antigamente", Betão se distraiu, e a conversa ficou "loco di especiar, qui nem dinhero achado".

Só depois de umas dez cervejas e duas porções de lingüiça frita, o nosso herói foi em frente, disposto a conquistar o coraçãozinho de gazela de sua amada.

No quiosque do Gervásio, pediu um engradado de cerveja e disse, em alto e bom tom, para quem quisesse ouvir, que o amor precisa ser comemorado como uma dádiva divina. Em seguida, mandou distribuir "pra xiruzada macanuda" metade das "ampolas". A outra metade fez corredeira na garganta de Betão. Pelo entusiasmo, poder−se−ia dizer que o cara estava com tudo e não estava prosa.

Isso era apenas aparência. Tanto que Betão estava bebendo para afogar as mágoas. Em sua mente, a vida parecia letra de bolero. Só faltava ouvir as vozes de Lucho Gatica e Altemar Dutra: "El día que me quieras / la rosa que engalana se vestirá de fiesta con su / mejor / color."

Pediu mais alguns quilos de cerveja, vários centímetros de cachaça e umas três coxinhas de galinha (uma gota de óleo escorreu pela camisa). Dez minutos depois, debruçado sobre a mesa de metal, babando ligeiramente, entrou em coma alcoólica.

Foi nesse instante que Miosótis, na companhia de amigos, sentou próxima da mesa onde o esqueleto de Betão da Penha roncava. Com voz mimosa, puro veludo, a garota pediu um guaraná diet. E, intimamente, lamentou não ter um namorado.

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