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quarta-feira, 8 de junho de 2011

REINALDO MORAES E A LITERATURA

Seguindo uma regra que dizem ter sido propalada e praticada por Leila Diniz (sem palavrão não há solução), destruindo o politicamente correto, declarando com todas as letras e sons o instinto predador (e canalha) dos homens, Reinaldo Moraes, um velho novo escritor, está a dar (epa!) cores menos pessimistas a essa ficção mais ou menos, provavelmente menos, que alguns doutos professores doutores (inclusive o que está a brigar com essas mal−traçadas, digo, mal−tratadas linhas), na falta de expressão melhor, costumam chamar de literatura brasileira contemporânea.

Não é pouca coisa. Ou coisa pouca. Embora a união das palavras "pouca" e "coisa" na mesma estrutura frasal não ajude na construção das referências indispensáveis para estabelecer aquilo que, na falta de expressão melhor ou mais adequada, alguns chatos denominam cânone. O que determina essa classificação é a qualidade. Ou melhor, as qualidades. Ou pior, os defeitos. Na corrida insana por quinze minutos de fama, o capitalismo não perde tempo e transforma o objeto artístico em produto comercial, lata de massa de tomate ao lado de outra lata de massa de tomate na prateleira do supermercado das ilusões descartáveis. Em alguns casos, a obra em si (características, riqueza narrativa, insights, etc.) se perde diante das possibilidades criadas pelos fatores externos de comoção (mídia favorável, público alienado, escândalos, chiliques, etc.).

Talvez seja essa a forma de (des)entendimento que devemos usar diante da literatura produzida por Reinaldo Moraes. Pagando o preço por não compactuar com um dos grandes defeitos da literatura brasileira, a seriedade, embora esteja a soprar (finalmente) ventos frescos (epa!) e divertidos na "nossa" literatura, Reinaldo sempre foi "marginal", isto é, esteve (está) na margem da literatura comportada, "limpa", asséptica.

Como vigora no Brasil a tese que todo escritor deve tentar escrever uma obra−de−arte definitiva, um novo e mais sisudo Grande Sertões: Veredas, por exemplo, alguns dos nossos "melhores" escritores esquecem que os leitores precisam se divertir. José Paulo Paes, em texto escrito no século (ou melhor, no milênio) passado, reclamava a falta do entretenimento na literatura nacional. Se ainda estivesse vivo, o genial crítico provavelmente teria escrito uma crítica genial sobre esse imenso parque de diversões que é o romance "Pornopopéia" (Objetiva, 2009), um calhamaço libertino e libertador, brincadeira lúcida e lúdica com a última flor do felácio, tão puta e bela, que sonora se desdobra em tanto pau pra quanta obra.

(Parênteses necessário: Parte desse libelo contra as mentes e os sexos travados – o capítulo sobre as aventuras anárquicas e cafajestes do publicitário e ex−cineasta Zeca no templo indiano − deveria integrar todas as antologias do humor nacional.).

A recente edição dupla, formato de bolso, papel vagabundo (mas não muito), precinho camarada, não compra quem no quer ou não sabe ler (sim, o Brasil está cheio de analfabetos funcionais), reunindo "Tanto faz (1981) e Abacaxi (1985), publicada pela Companhia das Letras, garante ao leitor algo que estava a fazer falta na atualidade: boas gargalhadas.


Tanto faz anuncia a alegria solar em uma geografia fria e escura. Paris é uma festa e Ricardo de Mello, Ricardinho para os amigos e as amantes, celebra a sua temporada no paraíso, a pretexto de uma bolsa para estudar economia. Ciente que o existir depende de haver ou não uma última cerveja na geladeira, articulando o refinamento do discurso, misturando o escatológico e a educação "de berço", passeando pelo baixo marxismo e a alta cultura, confirmando que a canalhice é uma das mais significativas distinções da brasilidade, o narrador do romance, como toda metralhadora giratória, vai abatendo tudo o que encontra pela frente. Seria um horror, se não fosse divertido. Centrado em um tempo cronológico onde o maior perigo possível para um homem pouco sensato era a gonorréia, as confissões e confusões despudoradas de Little Richard se misturavam com o exílio emocional. Ao largo, como um desses navios que desaparecem no horizonte, provavelmente engolidos pelo oceano, o cenário do romance é povoado por imigrantes políticos, escritores frustrados, intelectuais chapados, a fauna toda, insuportavelmente humana. Impossível (para o leitor) se imaginar fora dessa bagunça.

Em Abacaxi, ainda mais doidão, muito mais canabismado, o mesmo Ricardo, com ares de dandi e modos de cafajeste, se diverte fazendo bilu−bilu na mediocridade que transita entre Nova Iorque e o Rio de Janeiro. Exagerando o estilo garanhão, o galã divide a sua cama com centena de mulheres. À medida do possível, o anti-herói vai evitando se apaixonar. E, enquanto o amor não aparece, traça todas as doidinhas que encontra, gozando sem culpa, ferocidade alegre, como compete ao Peter Pan que quase todos os homens sonham ser.

Trocando em miúdos, nos romances e contos escritos por Reinaldo Moraes, a dupla dinâmica sexo e drogas contamina o ambiente comportado da burguesia nem sempre muito liberal que nos cerca e, triste sina, nos governa. Os reprimidos−de−plantão incapazes de liberarem (hum...) o próprio prazer, sentem prazer cerceando o prazer alheio. Típico. Falta−lhes, por exemplo, entender o encanto carnal (erótico, pornográfico, picaresco, lúbrico, voluptuoso, lascivo) do conto Carta n° 2, incluído em Umidade (Companhia das Letras, 2005). Usando e (l)a(m)buzando a (ins)piração dionisíaca (quiçá, oswaldiana), Reinaldo Moraes desconstrói a carta de Pero Vaz de Caminha. Brincadeira a−pós−o−moderno, repleta de citações eruditas e malditas, até o Míquei Mauz ("de p’lúcia!") dá o ar da graça no meio (epa!) dos bacantes que largam seus bacamartes e descobrem o que é bacana. Corpos se contorcem em orgasmos e gritos histéricos de Quero mais! Com o livro na mão (!!!), o leitor rola pelo chão, a morrer de rir, a ressuscitar de prazer.

E, se ainda não disse, digo agora: Reinaldo Moraes é remédio certo contra úlcera, gastrite, mau humor, cara feia e burrice.

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