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quinta-feira, 9 de junho de 2011

A FESTA E O SOUVENIR

Todas as festas de aniversário são chatas. Algumas mais do que as outras. Aquela, por exemplo, bateu todos os recordes. Promovida por um, digamos, "novo rico", sedento em sua escalada de alpinista social, reuniu "todo mundo" (leia−se, somente aqueles que fazem parte da tchurma). O esnobismo era tanto que o "rei da cocada preta" alugou uma chácara para o "happening".

O anfitrião vestia bermuda e a camiseta com estampa alusiva ao evento, a mão direita, apoiada na barriga indecente (típico visual de caminhoneiro bêbado, três mil quilômetros longe de casa), segurava um copo de plástico com cerveja choca. Na porta, recebia os convidados com falso carinho, muitos sorrisos e um arzinho de "Meus Deus, eu cheguei lá", embora não soubesse distinguir o aqui do acolá.

Um conjunto "cover" (des)animava o evento. Tocavam todo aquele barulho que compõe o lixo que toca nas rádios ou na casa de quem não tem gosto musical. Até fandango "nativista" assustou o público desavisado, aqueles que imaginavam que festa é sinônimo de diversão.

Eram seis e não haviam sido convidados. Como conheciam o aniversariante, e eram cara−de−paus, foram entrando, se enturmando e depois de uns dois ou três uísques a vida estava sob controle. Dois deles até arriscaram a sorte com algumas aprendizes de peruas que aparentemente estavam a procura de carinho. Não era ganhar na loteria, mas...

Duas horas depois, o líder do bando, cansado de ver tantos idiotas fantasiados de imbecis, resolveu ir embora. Antes, reuniu o pessoal e abriu o jogo:

− Isso aqui está uma porcaria. Vou voltar para a civilização. Quem é que vem comigo?

Todos concordaram com a proposta, mas com uma objeção: era necessário levar uma recordação, sem um souvenir ninguém deveria sair da festa.

Tudo bem, mas levar o quê? Alguém sugeriu o espelho do banheiro, uma coisa enorme, uns dois metros quadrados. A proposta não obteve quorum, apesar de mais tarde alguém se perguntar: por que não? O carro do aniversariante também foi recusado. No meio do impasse, João lembrou um "objeto sagrado", e, portanto, ideal para o seqüestro. A adesão foi geral.

Começaram a conversar sobre os preparativos do plano estratégico e tático para liquidar a fatura. João foi descobrir a localização do alvo. Pedro e Antônia colocaram os carros da turma em posição adequada para a fuga. Os demais ficaram pelo caminho, "cobrindo" a operação.

Depois de intermináveis cinco minutos, João saiu de um dos quartos, atravessou o salão onde todos estavam dançando com o "souvenir" na mão. Entrou na cozinha, sorriu para todo mundo, e saiu, lépido e faceiro, pela porta dos fundos. Entrou em um dos quartos e, junto com a turma, foi embora.

Conta a lenda que foi grande o espanto dos "festeiros", algum tempo depois, quando, no momento de cantar o "Parabéns", descobriram o elementar: alguém havia roubado o bolo de aniversário!

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