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sexta-feira, 3 de junho de 2011

ERNESTÃO

Lembrar algum episódio do passado implica em perceber que houve um tempo em que a vida era retratada em preto­-e­-branco – nuance comprovada nos detalhes desbotados que se confundem com o sépia das fotografias.

Salvo engano, fiquei um pouco mais de 25 anos sem o ver. Já era um velho, quando o conheci. Não tenho muita certeza disso. Pode ser apenas uma ilusão de ótica, efeito típico em menino quase adolescente, desses que rotulam tudo o que não compreendem.

O fato é que o reconheci imediatamente, mesmo depois de tanto tempo. Continuava carregando aquele olhar intimidatório (metade sorriso irônico, metade desprezo pelas transitoriedades da vida) com que atormentava os alunos do Centro Educacional. A única mudança visível era a bermuda folgada, camisa com as fraldas de fora, chinelo de dedos. Talvez esteja aposentado. Talvez de férias. Não sei. Mas apresenta uma leveza que lhe cai bem. Provavelmente adquirida no percurso da existência.

Os passos rápidos o levaram embora em uma fração se segundos. Não tive tempo de atravessar a rua, para conversar com ele. E mesmo se conseguisse isso, provavelmente as palavras trocadas teriam pouco ou nenhum valor. Somos estranhos. Nada temos em comum, exceto o passado.

Ernesto Daniel foi meu professor de ciências no primeiro grau. Em sala de aula, o sabor do saber era quase amargo. Diante dos infelizes que tinham o azar de estudar com ele, fazia questão de manifestar, como parte da tarefa professoral, uma postura forte, impositiva, dessas que caracterizam o autoritarismo. É possível que tenha perdido muitos alunos em razão desse estilo pedagógico.

Contraditoriamente, suas aulas eram concorridas. Ministradas com competência, constituíam uma promessa de prazer e curiosidade científica. Poucos alunos faltavam. Para quê? Era mais divertido estar em sala de aula!

Certa vez levou a nossa turma para o "Tanque". Motivo? Ensinar botânica. Com uma voz grave, tonitruante, mostrava pecíolos, caules, estames, corolas e cálices. Vez ou outra se irritava com algum aluno relapso, desses que – para desprezo do Mestre – não conseguiam entender a distinção entre sépala e pétala. Mas isso era passageiro. Entre uma e outra explosão de mau humor, demonstrava – com uma paciência que nele não parecia ser natural – que não estava ali apenas para "repassar conteúdos". Estava convicto de que ser professor era estar acima das banalidades curriculares: ensinar era preparar os alunos para a vida. Ensinar era (é) um exercício de paixão. Por isso mesmo brigava conosco, ameaçando reprovar "todo mundo", e, nas horas de folga, elaborava testes capazes de enlouquecer os geniozinhos−de−plantão. Enfim, de uma forma quixotesca, lutava contra a ignorância.

Algum tempo depois, mudei de colégio. Fui aluno de outros professores, alguns melhores, a maioria pior. Levei muitos sustos e alguns zeros absolutamente merecidos. Abandonei a escola – várias vezes – e aprendi as sutis diferenças entre o ser e o nada do sistema educacional brasileiro. Mas uma das lembranças mais significativas de minha vida escolar está ligada, inegavelmente, com aquele homem que – despojado de cargos e cargas – um dia desses vi passar despreocupadamente no outro lado da rua.

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P.S: Texto publicado em 1994. A versão original sofreu várias alterações.

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