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quarta-feira, 13 de julho de 2011

AS AVENTURAS DA MULHER BERGAMOTA NO REINO DO BETÃO DA PENHA (farsa em quatro atos)

ATO 1

No meio de fogoso amasso, Margarida Açucena exigiu fidelidade exclusiva. Disse, assim como quem não quer nada e sonha em ter tudo, que "estava cansada de ser trocada por qualquer vagabunda". E que, se ele não "se emendasse", poderia tirar o cavalinho da chuva que daquele mato nunca mais sairia coelho.

Essa declaração amistosa destruiu o clima de romance que pairava no ar. Adepto de um modo de vida, cuja regra número um era "macho nasceu livre pra gauderiar na pampa", Betão da Penha coçou o nariz, a orelha e o cabelo. E disse para si mesmo: "Mas u quiéra qui essa muié qué?". Trinta segundos depois, fez nova pergunta retórica: "E, di mais a mais, quem é qui essa guria tá pensando qui é?".

Como era um "homem de veneta", saiu da cama, vestiu as roupas, calçou as botas. Com o lenço colorado pensou em estrangular a sirigaita, mas desistiu porque "china" daquele feitio dava mais do que chuchu na serra e, graças a Deus, a sua horta estava em plena safra.

Disse "Inté" e foi embora, batendo os cascos e a porta. Furioso, seus passos firmes e determinados fizeram a casa de madeira estremecer. A porta ficou entreaberta.

Como tinha deixado o tordilho em casa, nada mais lhe restou senão esperar pelo ônibus. Encostado em um poste, tirou do bolso um pedaço de fumo em corda e palhas de milho. Com o canivete amaciou a palha, picou um pouco de fumo. Preparou o "paieiro" com carinho e esmero. Depois, tirou do outro bolso o "avio". Com a chama queimou a ponta do cigarro e as (boas) lembranças de uma história amorosa.

Entre longas baforadas, pensou no que havia acontecido um pouco antes. Quer dizer, pensar ele não pensou muito, como dizia o seu falecido pai, "Quem força a cachola acaba com dor de cabeça". E, para evitar a "fiasquera", entrou no boteco mais próximo e pediu um "martelinho de canha" para amortecer o descontentamento. Bebeu gute−gute, o líquido queimando a garganta.

ATO 2

Depois de vinte minutos dentro do ônibus, desceu no centro da cidade. Foi dar uma "bombiada" nas vitrinas, espairecer. Diante das lojas, recordou de um tempo que só existia na sua lembrança. Passo a passo, caminhou pelas ruas, sem destino.
Foi diante da banca de jornais que o mundo perdeu o sentido. Ou melhor, passou a ter algum sentido. Em um cartaz, a mulher de seus sonhos. "Que potranca!", exclamou. E ao ver aquele corpo, ficou assanhado: "Oigalê, se pego essa prendinha, dou−lhe uns pranchaços, no mais, e levo pra casa pra tirá cria".

Todo prosa, iniciou a prosa:

− Ô xiru, adonde qui posso di incontrá essa guria?

− Quem? A mulher bergamota?

− Sei lá si é vergamota ou mixirica, comigo ela mexeu, tô inté co’as vontades qui nem vô ti contá, ô guapeca sarnento!

− O senhor quer comprar a revista?

− Que revista?

− Esta!

− Ah!

Depois de ter comprado a revista – em que a mulher bergamota mostrava tudo, absolutamente tudo –, o Betão da Penha perdeu o rumo e o prumo. As fotos o enlouqueceram. Por isso, quase enlouqueceu o funcionário da banca de jornais. Queria conhecer, ao vivo e em cores, a cabocla. "Minh’arminha du céu, quéru essa muié − nem qui tenha qui gastá uma trupilia, daquelas di patrão", gritou para que metade da cidade o ouvisse.

O vendedor, ensandecido com aquela situação, deixou escapar que a mulher bergamota trabalhava em um programa de televisão.

− O quê? Então esse xuxuzinho é guria de programa?

− O senhor não está entendendo. Não foi isso que eu disse.

− Disse sim.

− Não...

− Não me desminta, que de surdo nada tenho. E vá logo me dizendo em que casa essa menina trabaia. E diga logo, senão te passo o fuero, labasco!

Nesse momento, para alívio do rapaz e desagrado geral (uma platéia havia se formado nas imediações, apostando em quem venceria a briga), Pedro Alecrim fez valer a sua autoridade de vereador e presidente do Sindicato Rural.

− Que redivú é esse, seu Betão? Dexe di sê encanzinado e num gaste pórva cum chimango. Adonde é qui já si viu, um moço taludote como o sinhô, de currumaça no meio da praça. Pois pegue essa revista, essa indecência, e vá pra casa, home!

Sem alternativa, com o orgulho ferido, Betão pensou em dizer alguma coisa. Desistiu. Só iria piorar as coisas se começasse outra discussão.

Na volta para casa, dentro do ônibus, Betão quase estrangulou a revista, tamanha a força e a raiva com que a segurava. Espumando de raiva, não se conformava em não ter conseguido o endereço da mulher bergamota.
Mentalmente listou todos os locais onde poderia a encontrar. Depois de algum tempo, desistiu. "Só se for gado novo, por causa qui não alembro dessa pinguancha", disse, em voz alta, para espanto dos demais passageiros.
Perto de casa, no bar Gre-nal, pediu uma dose "daquela que matou o guarda" e colocou a revista sobre o balcão, com a capa virada para baixo. A soma de todos os incidentes da noite garantiram ao gaudério uma sede inesgotável. E, de martelinho em martelinho, o porre foi macanudo.

ATO 3

Na manhã seguinte, o efeito da ressaca parecia o encontro das águas do rio Amazonas com o Oceano Atlântico. Além do gosto de guarda−chuva na boca, mal−estar intestinal, sono interminável. Sem conseguir se lembrar dos acontecimentos da noite anterior, só percebeu que havia algo estranho quando se espichou na cama e o pé bateu em alguma coisa. "Que diacho esse relho faz aqui?", perguntou para as paredes. Morando sozinho há vários anos, Betão nunca conseguiu perder o costume de falar alto, como se estivesse cercado pela família.

Fortes batidas na porta anunciaram novos acontecimentos.

− Quequiéra?

A pergunta, feita em um tom de voz que lembrava a soma de mil trovões, intimidaria o presidente da República.

− Seu... Seu... Seu Bé... Bé...to.

− Infeliz, desembucha duma veiz!

− As pa... pa... passa... passagens.

− Tá loco? Num pidi passage arguma! Dexa vê essa porquera.

− ...

− Quiéquiéisso? Donde já si viu tamanha bobage? Mas nem di arrasto vô vuá, inda mais prá São Paulo, qui fica pra lá donde o diabo perdeu as bota. Diga pro teu patrão qui num queru mais! Qui tô devorvendu i num si fala mais nisso, entendeu, piá?


ATO 4

Palito entre os dentes, bombacha arregaçada na perna esquerda, chapéu de beijar santo em parede, chinelo de dedos, Betão da Penha entrou no bar Gre−nal. Foi saudado pelos presentes com vários gritos de alegria. "Uquiéra isso?", perguntou, inocente. "Ora, seu Beto", disse Tunico Manjericão, atrás do balcão, o pano de prato na mão direita, um copo molhado na outra. "Num seje acanhadu. Até mandei comprá televisão nova prá vê vancê".

Betão da Penha tirou o palito da boca, umedeceu os lábios, pensou nas bobagens que poderia ter feito na noite anterior, sentou perto do balcão, fez um sinal para lhe servirem uma dose de Oncinha e perguntou:

− U Tunico, quié qui’conteceu ontem?

− Qué dizê que ocê num lembra di nada?

− Lembrá di que, homi?

− Ora...

− Num gostei desse teu jeito! Até pareci qui ocê qué forra a guaiaca nas minhas custas. E, como essa história tá mar dizida, desembuche duma veiz, senão num respondo pelo qui pódi contecê!

Tunico, para não arriscar a pele, contou tudo.

− Vosmicê chego aqui mais desenxavido qui guapéca adispois qui levô chute. Tomô cachaça até num querê mais, cada talagaçu qui nem ti conto. Aí começô a mostrá pra todo mundo a revista, qué dizê, a muié pelada. Bêbo, gritava qui tava cum vontadi di dá um pegão naquele corpinho. E qui daria, custasse o que custasse. Aliás, quando o Pedro Tiririca chego, cê tiro a cartera du borso e, cumu ele trabaia naquele lugá que vendi passage, cê pidiu o preço duma viagem pra... sei lá pronde... adonde mora a tar rapariga qui, ô coisa gotosa di si vê, tava mostrando tudinho na revista. Adispois, pagô rodada di canha prô pessoar e avisô qui’ria parecê na televisão. Domando a potra, num tar di "Programa M" − "M" di macho, qui num é pra ninguém tê mar pensamento."

Nesse ponto, Tunico Manjericão interrompeu a narrativa, tomou um gole de água mineral sem gás, pensou em como arrematar a história e continuou:

− Nessa hora, chego a Soninha Alicate. Quiria comprá cigarro. Vancê pidiu mais cachaça, pego o avio e, enquanto acendia o oliu da guria, falô arguma coisa nu orvido dela. Sei lá o que vanceis cunversaram, num custumu metê o bedelho na vida aieia, mas sempre sobra arguma coisa nu ar, cê sabi cumu é qui é, num sabi? Entonces, vanceis isqueceram di oiá pru mundu e, mi adescurpe dizê essas coisa, sô um homi di paiz, num queru intriga cum ninguém, muito menos cum vosmice, qui é meu cumpadre, mas vanceis... ora, cê sabi o qui aconteci quando um homi e uma muié ficam enrabichados. O pessoar qui tava jogando dominó até comentô qui aquilo era uma poca−sem−vergonhice i qui o finar daquilo só pudia ser as canhadas ou um vassorar, purque entourada a chinóca já tava e vancê num parecia querê perdê a carga das bruacas. Quando vanceis saíram tevi genti qui si benzeu, pensando qui o pixurum seria dus grandi. Vancê tem certeza que num si alembra du qui conteceu adispois?

Bocejando, Betão da Penha baixou os olhos, pegou o chapéu de cima do balcão e caminhou até a porta. Lá se espreguiçou. Um sorriso rápido atravessou o seu rosto.

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