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terça-feira, 26 de julho de 2011

LUCIAN FREUD

Lucian Freud está morto. Foi isso que os jornais anunciaram. Requiescat in pace, bloody bastard, exclamei em voz alta, como se fosse possível exorcizar a ignomínia. Li alguns elogios fúnebres na Internet, todos em ritmo de hagiografia. É sempre divertido ver como a canalha adora corromper o que lhe escapa ao entendimento.

Alguns anos atrás, ou melhor, quase no final do século passado, passei alguns bons minutos na frente do original de Girl with a White Dog. Depois, atordoado por aquele realismo excessivo, fui ver outras pinturas, me encantar com diferentes formas de retratar o espanto, amansar a mente com os traços poéticos de Pierre Bonnard. Fui descobrir tons e nuances que as reproduções em livros de arte não nos mostram. Como a vida não é feita apenas de alegrias e sonhos, não fui longe. Em outra sala encontrei telas de Francis Bacon e a loucura voltou a contaminar meus olhos. Para alguém que não sabe (nunca soube) desenhar, aquele passeio por um dos mais importantes parques de diversões das artes plásticas foi uma espécie de conversão ao mundo da magia.

Mexendo em uma dessas caixas de sapato em que guardo pedaços do passado, encontrei vários cartões postais, comprados na loja de souvenires da Tate Gallery. Girl with a White Dog é um deles. Os olhos da mulher, repletos de angústia, a cortina escura como pano de fundo (parecendo esconder segredos pesados), me assustam. A aparente tranqüilidade do cão (em dupla função: descansar, proteger a mulher) se prolonga na lição de anatomia proposta pelo seio descoberto, exposto à visitação pública, desafiando o pudor anglicano. A mão esquerda encobrindo o outro seio (a ilusão de que há outro seio, a ilusão de que o corpo completo saciará a sede proposta pela imagem) traduz a apreensão que encontramos no olhar da mulher. A composição parece nos dizer que a trajeto entre o visível e o que está escondido pelo roupão não é pacífico. O desejo transita por essas ruas que levam até a exaustão.

Em Self−Portrait with Patricia Preece há proposital falta de proporção entre as figuras, a sobreposição de uma imagem sobre a outra, o pescoço masculino torcido, o papel de parede florido, os corpos sem vestimentas, ela prostrada, ele ausente, sem grandes encantos, as cores da pele emparedando os sentimentos. No triste espetáculo da intimidade devassada, utilizando uma luz forte, ofuscante, o artista tentou eliminar a sensualidade ou a excitação. E fez isso com uma pincelada menos contraída, menos preocupada com as minúcias do desenho.

Mestre nos efeitos antirromânticos, Lucian fornecia, em algumas de suas telas, uma feiúra proposital, agressiva. Flertava com os sentimentos mais desagradáveis do ser humano ao oferecer imagens que afastam a visão do espectador. Ao mesmo tempo, estava ciente de que são essas imagens grotescas que serão revisitadas continuamente. É a dor (imaginária, simbólica, real) que fornece humanidade ao espectador.

Eu pinto pessoas não precisamente pelo que elas parecem, não exatamente pelo que elas são, mas como elas deveriam ser, disse o artista, esclarecendo (ou complicando) o seu modo de percepção da arte.

Lucian, um dos netos de Sigmund Freud (e ninguém é da família do "inventor" da psicanálise impunemente), nasceu em Berlim em 1922. Com a ascensão do nazismo, sua família migrou para a Inglaterra, onde se estabeleceu. Foi marinheiro, professor universitário (visitante), ganhou prêmios. Tinha alguns amigos e muitos inimigos. Na vida privada, cometeu alguns excessos – conta a lenda que reconheceu cerca de quarenta filhos, talvez mais.

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