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sexta-feira, 1 de julho de 2011

DESENCONTROS COM WALTER CAMPOS DE CARVALHO

Não tenho certeza, creio que foi no inicio dos anos 80 do século passado que Mário Lacerda Thevenet me emprestou um exemplar de um livro muito estranho – a começar pelo titulo: A vaca de nariz sutil. Como é de conhecimento público, o nariz das vacas é... é... ah, sei lá, é tudo – menos sutil.

Incomodado por estar recebendo um livro que considerei (só pelo título) infantil, reclamei acintosamente, sublinhando que não pretendia ler esse tal de Campos de Carvalho (quem?). E, para não perder o costume, arrematei: vaca de nariz sutil é a vovozinha!

Diante de tamanho destempero, Thevenet fez grande esforço para conter o sorriso que estava querendo escapar por entre seus lábios. Isso me fez ficar ainda mais furioso. Agradeci e devolvi o livro.

Ele insistiu na oferta e, depois de me pedir paciência, fez um pequeno resumo da vida do escritor. Disse, por exemplo, que Campos de Carvalho havia trabalhado no Pasquim – e acrescentou: aos dessa turma é possível enumerar os desacertos, mas jamais lhes negar o talento. Disse também que o escritor andava recluso, lá pelos lados de Petrópolis, fazendo pose de Rimbaud tupiniquim (mais tarde descobri que Campos de Carvalho detestava Rimbaud: é prosaico). Para terminar, citou Sérgio Miliet e Antônio Olinto como dois dos críticos literários que consideravam os romances de Campos de Carvalho geniais.

A contragosto acabei aceitando o livro. Em casa, o arremessei em um canto qualquer e fui cuidar de outros assuntos. Certo dia, encontrei o volume no meio de alguns recortes de jornal. Movido pela curiosidade, li as primeiras frases:

Onde o senhor dorme? No Hotel Terminus. Mas aqui não tem nenhum Hotel Terminus. É o que o senhor pensa.
Passava das onze, chovia; imperceptivelmente fomos caminhando até o portão do cemitério. Aqui fico − disse−me, estendendo a mão fria: Boa noite!

Cemitério? Mão fria? Hotel Terminus? Que conversa pra boi dormir é essa? Fechei o livro e o abandonei outra vez. E eu lá tinha tempo para perder com essas bobagens? Bom mesmo era o Ulisses, do Joyce. Nunca entendi direito a história, mas... Que beleza! E o monólogo interior da Molly Bloom? Maravilha, maravilha!

Meses depois, mexendo nas estantes, encontrei o livro – outra vez. Foi um torcer mútuo de narizes. E nada sutis. Principalmente quando descobri, ao ler a orelha, que fora Jorge Amado quem o havia recomendado ao Enio Silveira para ser editado. E então eu era leitor de livro recomendado por capacho do stalinismo? Claro que não! E, com essa desculpa risível, abandonei outra vez a vaca e o nariz sutil.

No meio dessa lengalenga surge em cena (outra vez) o Mário Thevenet. Trazia na mão outros dois livros: O apanhador no campo de centeio e A lua vem da Ásia. O Salinger eu queria ler. Então, para obtê−lo, precisei prometer que leria os dois Campos de Carvalho. Aceitei o trato, sem entender o porquê de tamanha insistência – e confesso: sem a mínima intenção de cumpri−lo.

Passados mais alguns meses, abri o "Lua":

Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava−me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.


Como é possível resistir a tal vertigem?, perguntei, perplexo. Não deu outra: a leitura engoliu o tempo, enquanto escorriam as paginas pelos dedos. Foi um abismo. Ou um baile. Ou uma lição. Nunca havia lido algo tão terrível, tão maluco, tão arrebatador, tão non−sense.

Se a lua veio da Ásia, ou não, confesso que ainda não sei. E, às vezes, chego a pensar que isso não importa, pois só os covardes se detêm na geografia do desejo – ou diante dos professores de lógica. O que vale é o corpo, a viagem, o divertimento, a liberdade. E a procura. E essas coisas estão lá, não só no "Lua", mas também no "Vaca" e no Púcaro búlgaro (provavelmente o texto humorístico mais importante da literatura brasileira).

Foi assim, através do desencontro, que encontrei Walter Campos de Carvalho e a sua literatura. Foi assim, através do desencontro, que li em algum jornal que ele morreu dia 10 de abril de 1998, aos 82 anos.



Para quem quiser conhecer Campos de Carvalho, a editora José Olympio publicou, em 1995, um volume com as obras complexas, digo, completas, perdão, semicompletas, de Campos de Carvalho. Obra reunida aglomera A lua vem da Ásia (1956), Vaca de nariz sutil (1961), A chuva imóvel (1962) e Púcaro búlgaro (1964) − os dois primeiros livros de Campos de Carvalho, Banda Fora (1941) e Tribo (1954), não estão incluídas na coletânea.
Segundo pessoas próximas do autor, Campos de Carvalho, um pouco antes de morrer, pretendia escrever um novo texto׃ De novo no ovo ou mosaico sem Moisés.

4 comentários:

  1. Abraços e parabéns pelo Bolg!

    Sidney Santos
    Poeta dos Sonhos

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  2. Muitas vezes "torcemos o nariz" para estilos que divergem dos costumeiros...e desistimos deles...esquecemos em algum canto ou prateleira.
    Mas o tempo nos traz a maturidade...e aquelas "luas" ou "vacas"...passam a fazer sentido...ou nos levam a "perder os sentidos". E gostamos!!!
    Parabéns, Raul! Adorei teu texto! Abraços.

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