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quinta-feira, 28 de julho de 2011

NA INFÂNCIA, O DOMINGO TINHA SABOR DE PIRULITO ZORRO

Na infância, o domingo tinha sabor de pirulito Zorro, balas azedinhas, Mentex e Diamante Negro.

Antes, no almoço, lasanha. Uma travessa de vidro enorme, fumegante, colocada no meio da mesa, o queijo derretendo diante dos olhos. Pai, mãe, irmãos – todos comportados, fingindo amor. A sobremesa variava: arroz−doce, sagu ou doce de gila. Depois, no início da tarde, quando podíamos nos livrar das amarras familiares, cinema. Cine Tamoio, onde o pai de alguns amigos era funcionário. Às vezes, Cine Marajoara. Raramente no Cine Avenida − era longe, precisava pegar ônibus.

Domingo era dia de faroeste. Dólar furado, Por um punhado de dólares, Django, Lee van Cliff fazendo pose de pistoleiro que vai levar tiro no peito na cena final do filme. Alegria grande, dessas de quem ganha na loteria, eram aqueles filmes em que os amigos Winnetou e Mão−de−ferro lutavam contra os bandidos. A Biblioteca Pública tinha todas essas aventuras, cansei de levar emprestados os livros escritos por Karl May.

Às vezes passavam filmes de Maciste, Hércules, Sansão e Dalila. Victor Mature fazendo pose de galã. Umas histórias enroladas, muitas cenas de lutas com espadas, gladiadores vencendo leões no Coliseu, mulheres com togas curtas, o contorno dos corpos se insinuando debaixo do tecido fino. Ninguém perdia essas sessões. Assunto garantido no recreio da escola, na manhã seguinte.

Naquele tempo, a bomboniere do cinema era sortida em doces e não vendia pipoca. Em uma cidade próxima, um juiz não gostou de ouvir alguém estourar a embalagem. Proibiu a venda em todos os cinemas. Anos 70. A repressão torturava impunemente e nós íamos ao cinema se divertir.

Refrigerantes também não vendiam. Não lembro o motivo. Se estivesse com sede e algum dinheiro, era preciso entrar em algum bar e pedir no balcão. Não havia nada melhor do que Crush gelado, aquele gostinho artificial de laranja descendo pela garganta como se fosse festa. Sabor muito diferente daquelas limonadas aguadas que acompanhavam as refeições lá em casa. Em dias especiais tínhamos permissão para beber capilé (um xarope de groselha gosmento).

Não importava se tínhamos assistido filmaço ou bomba, ir ao cinema era um prazer. Depois, revista em quadrinhos. Essa era uma parte indispensável do programa. Em uma banca lá perto do Marajoara tinha de tudo: Pato Donald, Zé Carioca, Batman, Super−Homem. Muitas vezes não era possível comprar todas as novidades. Acordos financeiros com os irmãos raramente funcionavam. O usual eram as brigas, os gritos e acusações, as promessas de contar "tudo" para a mãe.

Domingo, no inicio da noite, costumávamos visitar um dos irmãos de meu pai. Lá tinha televisão. Na nossa casa, não. Solenes, fazíamos silêncio diante das imagens transmitidas pela TV Gaúcha, único canal possível naqueles tempos. Nossa diversão era, primeiro, o Show do Gordo − um mix de entretenimento, com direito a calouros musicais. Uma hora depois, a grande atração da noite: Ringue 12 Marinha Magazine. Todo mundo torcendo por Ted Boy Marino, que julgávamos o maior lutador de todos os tempos.

Mais tarde, não lembro quando, o mundo das imagens se expandiu através da TV Coligadas, de Blumenau.

Na infância, em alguns momentos, a felicidade esteve por perto – depois, como sempre acontece, foi embora.

4 comentários:

  1. Maravilha, Raul!

    Assisti muito faroeste no Tamoio, Marrocos e Marajoara, e tb muito filme de kung fu e gladiadores.

    Boas lembranças, ótima crônica!

    Abç!
    Tchello d'Barros
    Hj em Belém PA.

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  2. Tchello:

    Abraços! E obrigado pelo comentário e pelo compartilhar das lembranças de um tempo que a memória ainda não nos subtraiu!

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  3. Nossa quantas coisas comuns, também de minha infãncia! Acho que todos passamos por esses momentos, fingir amor à mesa, bem assim, o cinema, lá em casa tinha as missas ai! As revistinhas, até as lutas, hehehe, eu gostava de Grapete, aquele gosto, sim artificial, de uva, do Ted Boy e das revistas do Bolinha e Luluzinha. Adorei voltar no tempo.

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