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sexta-feira, 27 de julho de 2012

ANTONIO CALLADO: ENTRE A DOÇURA E A DENÚNCIA

Bons escritores são dinossauros, animais extintos. Os livros que eles escreveram são carcaças, esqueletos enterrados no solo, marcas de um passado que não pode mais ser reconstruído pelos arqueólogos – exceto como ficção.

Apesar de saberem disso, de saberem que o horror e a barbárie destroem a sensatez e a coerência, alguns indivíduos insistem em tentar (con)viver dessa arte tola e fútil que, na falta de um palavrão mais adequado, os críticos de arte chamam de literatura.

Antonio Callado era uma dessas pessoas.

O câncer que resultou na sua morte, em 1997, colocou em xeque a inteligência na literatura brasileira. Callado pertencia a uma geração que não teve sucessores. E os poucos remanescentes (Rubem Fonseca, Carlos Heitor Cony, Ligia Fagundes Telles, Manoel de Barros) logo se transformarão em saudade.

Mas não é somente isso. Não se trata da perda física, da ausência perpétua de crônicas, romances, poemas, denúncias. A morte leva um pouco mais do que um corpo.

Quando Callado morreu, perdemos um dos mais importantes interpretes da história recente da República. Perdemos um gentleman, um homem educado – qualidade cada vez mais rara em um país dominado por trogloditas e predadores.

Nascido em Niterói, no dia 26 de janeiro de 1917, Antonio Carlos Callado, tão logo chegou à idade adulta, precisou enfrentar com uma das contradições fundamentais de sua época: aceitar a luta política (era simpatizante do Partido Comunista, mas nunca se filiou) ou as amarras da religião católica. Em alguns de seus romances (Madona de Cedro, Quarup, Bar Don Juan, Sempreviva) esse tormento é nítido.

Apesar de todos esses bloqueios e medos, exemplificado, por exemplo, no martírio do padre Nando (em Quarup), Callado conseguiu, qualitativamente, vencer a paralisia intelectual e produzir uma literatura política, comprometida em mostrar a verdadeira identidade do terror.

Em Reflexos do Baile, um livro infelizmente pouco valorizado pela crítica, a máscara da hipocrisia é retirada da face do marionete em que o Brasil se transformou após o "glorioso" golpe de Estado em 1964.

Esse proceder já estava delineado em livros como Quarup e Bar Don Juan e foi reafirmado posteriormente com Sempreviva. Infelizmente, nesses três romances, há um humor ácido, quase cínico, uma seriedade desnecessária, preocupada em criticar a esquerda festiva, os desacertos da luta armada, a tragicomédia burguesa de resistência ao estupro da nação. Além disso, Quarup (talvez o romance mais conhecido de Callado) é pura metafísica, um texto voltado aos problemas da consciência, da interioridade espiritual. De certa forma, é um acerto de contas particular, entre o que poderia ter havido e aquilo que aconteceu.

Reflexos do Baile tem outra proposta. Com narração epistolar, o romance transcorre em torno de uma festa realizada em uma embaixada. Durante o evento, ocorre uma queda de energia e uma enchente – situações provocadas por um grupo armado que pretende seqüestrar o embaixador. O plano fracassa. A polícia chega antes e mata vários dos envolvidos na ação – inclusive a filha de Rufino, um diplomata aposentado, que enlouquece quando lhe informam os acontecimentos.

Como a velocidade da narração é muito intensa, em alguns momentos o leitor impaciente se sente induzido a elaborar conclusões falsas ou confusas. A imagem total só se torna nítida ao final da narrativa, pois as informações são repassadas de forma fragmentária, através de bilhetes e cartas trocadas entre os seqüestradores, entre os policiais, entre os integrantes do corpo diplomático e suas famílias.

Reflexos do Baile é um quebra−cabeças. No entanto, encaixar as peças e descobrir qual é o desenho se revela angustiante. A imagem que vai se formando, na medida em que a razão substitui o tatear e os espaços vazios, nada tem de agradável. O mundo da corrupção, da tortura policial, das fraquezas humanas e da covardia é descrito sem piedade, sem subterfúgios, sem alusões. Não há elipses ou alegorias – apenas a vida pulsante, que leva o leitor a descobrir, através de pequenas pistas, de detalhes quase imperceptíveis, o quanto vivemos em torno da realidade falsificada, grotesca.

Ao final da narrativa, o leitor precisa aprender a conviver com o que foi revelado. E isso não é tarefa fácil.

Paralelo, a sua especialidade, o romance, Callado escreveu alguns contos. Eles estão reunidos no volume O Homem Cordial e Outras Histórias – um volume tão marginalizado que raramente é incluído na bibliografia. Parece até que Callado queria esconder que o publicou.

Ele não gostava de narrativas curtas. Dizia que não se sentia à vontade com o pouco espaço, com a síntese. Apesar disso, escreveu várias histórias acima da média. Um exemplo é O Homem Cordial, texto centrado em vários momentos de tensão e dramaticidade.

O professor Jacinto assiste ao desmoronamento do mundo. Cordato, ingênuo, otimista, tem os seus direitos políticos cassados pela ditadura, assiste a uma passeata de protesto, vê uma das filhas se envolver no movimento de resistência contra os militares e, por fim, literalmente, vomita todos os sentimentos que até então estavam represados.

A catarse de Jacinto é uma metáfora da vida, uma espécie de proposta de luta contra a opressão – não só a externa, política, mas, basicamente, a interna, espiritual, imobilista.

Não eram apenas os personagens de Antonio Callado que tinham dificuldade com a vida. Apesar de cultivar a doçura, ele era um homem de opinião. Muitas vezes entrou em desacordo com os magarefes do golpe de 1° de abril. Foi preso diversas vezes. Sempre esteve em excelente companhia: Ferreira Gullar, Caetano Veloso, Paulo Francis, além de outros menos votados.

Profissionalmente, Antonio Callado foi um jornalista magnífico. Assistiu de perto a II Guerra Mundial (foi funcionário da BBC, entre 1941 e 1944. Depois trabalhou no Serviço Brasileiro de Rádio – Diffusion Française). Em 1968, foi correspondente de guerra no Vietnam. Foi um dos primeiros jornalistas a se interessar pelas questões indígenas. Participou da expedição que tentou encontrar os restos mortais do lendário Coronel Fawcett. Foi redator−chefe do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil. Escreveu um livro−depoimento sobre Miguel Arraes. Publicou diversos volumes de reportagens. Escreveu várias peças de teatro.

Enfim, era um desses homens que não se fabricam mais

Morreu em 28 de janeiro de 1997, dois dias depois de seu aniversário de 80 anos.

Um comentário:

  1. Antônio Callado de fato foi um grande escritor! Gostei muito do texto postado em seu blog! Parabéns!

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