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segunda-feira, 30 de julho de 2012

CINQUENTA TONS DE CINZA

O romance pornográfico (ou erótico) está esgotado. Ou melhor, morto. Nos últimos dois séculos foram poucas as novidades no front. George Bataille, Boris Vian, Anaïs Nin, Pauline Réage e Henry Miller são exceções. Inclusive porque muitas das travessuras sexuais foram descritas pelos libertinos dos séculos XVIII e XIX. Além disso, raras são as safadeza que não estão descrita em manuais sexuais clássicos como o indiano Kama Sutra e o árabe O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui. 

Tentativas mais recentes, de cunho autobiográfico, como Cem Escovadas Antes de Ir Para a Cama (Melissa Panarello), A Entrega – memórias eróticas (Toni Bentley), A Vida Sexual de Catherine M. (Catherine Millet) e os brasileiros O Garçom B (Alma de Assis) e O Doce Veneno do Escorpião (Bruna Surfistinha) não passam de pálidos simulacros de clássicos como Teresa Filósofa (Anônimo), Os 120 Dias de Sodoma e Escola de Libertinagem (Marquês de Sade), Fanny Hill (John Cleland).  


Cinquenta Tons de Cinza, primeiro volume da trilogia escrita pela inglesa Erika Leonard, mais conhecida como E. L. James, ambiciona provar que esses livros que se lêem com uma só mão" (na saborosa – e verdadeira − expressão criada por Jean−Marie Goulemot) são uma forma de resistir ao marasmo que devora a literatura mundial. Obviamente, por melhores que sejam as boas intenções, a autora não obteve o sucesso ambicionado. O livro que ela escreveu, para dizer o mínimo, é chato. E repetitivo. Pouco criativo.

Como o público distante do mundo literário adora um bom escândalo, a narrativa, que os britânicos apelidaram de mommy porn (pornô para mães), vendeu dez milhões de cópias nos países de língua inglesa. Em Estados Unidos, a trilogia é responsável pelas vendas de 25% do mercado de ficção adulta. A editora que publicou Cinquenta Tons de Cinza no Brasil aposta em igual popularidade, tanto que a tiragem inicial foi de 200 mil exemplares.

Cinquenta Tons de Cinza, recuperando parte da tradição romanesca, é uma narrativa burguesa, daquelas que estão visivelmente preocupadas em glorificar as vantagens do dinheiro, do poder e do bom gosto. Em algumas cenas, a narradora não economiza nas descrições sobre locais paradisíacos, carros velozes, música clássica, comidas e bebidas sofisticadas, objetos de arte, livros raros (Ana Steele é presenteada com um exemplar da primeira edição de Tess of the d’Urbervilles, de Thomas Hardy. Valor aproximado: 14 mil dólares).

Simultaneamente, o livro não esconde a proposta de ser o retrato deslumbrado de uma mulher carente, Anastacia (Ana) Steele, com visíveis problemas de auto−estima, e que se apaixona pelo primeiro sádico com quem vai para a cama – literalmente. Nenhuma novidade. A virgem deflorada pelo pornógrafo e que expõe − com pormenores impressionantes − o aprendizado sexual não é sequer um tema original.

A estratégia literária que envolve o estilo hard porn (pornografia pesada) está no relato da dor. Seja física, seja psicológica.

O prazer do dominador está na dor que inflige no dominado (muitas vezes tentando impedir que o dominado obtenha prazer). O dominado sente prazer no prazer do dominador. E goza no gozo que supostamente deveria lhe ser negado. Essa não é a regra geral, obviamente. Em muitas circunstâncias, seguindo um princípio elaborado pelo Marquês de Sade, gozar está necessariamente vinculado com a dor. Após a degradação da parte submissa, cabe ao torturador oferecer alguma espécie de recompensa. Então, o gozo sexual se torna a forma mais sublime de integração entre as partes envolvidas, asseguram os sado-masoquistas. Acredite se quiser.

A história que (des)une Ana Steele e Christian Grey, como todo texto pornográfico, não se caracteriza pela boa construção literária. O texto não passa de uma espécie de pré−roteiro, desses que sonham em se transformar em filme de sucesso (nenhuma surpresa: o livro foi comprado por uma subsidiária da Universal Pictures por 5 milhões de dólares).

Os diálogos ágeis, bem estudados, quase inteligentes, procuram encobrir os clichês. Procuram esconder os lugares-comuns que caracterizam a literatura pornográfica. Mesmo quando a narrativa parece ser mais contemporânea, mimetizando mensagens eletrônicas (uma forma moderna de diálogo), há visível incentivo ao bocejar. Inacreditavelmente, a protagonista, 21 anos, estudante universitária, nunca, repito, nunca tinha recebido um e-mail. São deslizes desse calibre que destroem o texto. Em compensação, a quantidade − meticulosamente calculada – de descrições sexuais não permite que o leitor durma. Pelo contrário, estimula sensações e fantasias.

Ana Steele (de steel, aço) não está preparada para ser dobrada no fogo siderúrgico de Christian Grey (grey, cinzento). Talvez seja esse o seu páthos (paixão, sofrimento, doença), talvez seja essa a sua vocação. A história que ela conta, na primeira pessoa, repleta de sentimentalismo barato, parece ser uma forma de resistência contra o estilo de vida do amante. Pura ilusão. Somente os leitores politicamente corretos caem nesse conto do vigário. Ela, depois de (a)provou a forma de tratamento que recebe do amante, descobre que gosta de ser humilhada - embora, por diversos motivos, resista a essa aviltação. Em outras palavras, embora adore o sexo selvagem praticado com o amante, possui restrições morais contra o espancamento. Ao mesmo tempo, em estratégia de encolhimento emocional, tenta evitar o conflito. Aguenta o quanto é possível. E gosta. E goza. Diversas vezes.

Ana Steele suporta a humilhação imposta pelo predador sexual porque o prazer que obtém nessas sessões de violência se assemelha às delícias obtidas no uso de alguma droga poderosa. Ou melhor, de algum afrodisíaco muito potente. Poucos viciados conseguem aceitar que estão doentes, que precisam de tratamento. Sou mesmo uma marionete e ele é o titereiro, confessa Ana Steele, quase ao final do livro.

Christian Grey, protótipo do macho autoritário, maníaco por controle, adora bater. Ele goza com a submissão feminina. Nada de novo, mais uma vez. A literatura está repleta de personagens fisicamente poderosos e paupérrimos emocionalmente.

Estranhamente, algumas mulheres imaginam a possibilidade de transformar esse tipo de fascista em príncipe encantado. Algumas conseguem. E vivem felizes para sempre. Pelo menos, em sonhos.

Leitores sádicos ou masoquistas encontrarão em Cinquenta Tons de Cinza algum divertimento – a masturbação (física, intelectual) é uma possibilidade quase incontrolável nesse tipo de literatura.

A atriz Selena Gomes não se intimidou com a controvérsia e posou de leitora voraz dos livros escritos por E. L. James!!!



9 comentários:

  1. As mulheres, pelo menos milhões delas leitoras do livro, anseiam por um Christian Grey, um homem que as submeta e as libere desse discurso feminista de direitos das mulheres em que o homem precisa necessariamente se preocupar com o prazer delas. E. L James teve a coragem de dar voz as fantasias de submissão das mulheres. Ela descreveu a mulher contemporânea farta desse discurso politicamente correto do feminismo.

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  2. Só porque uma mulher leu o livro não significa necessariamente que elas "anseiam por um Christian Grey, um homem que as submeta e as libere desse discurso feminista de direitos das mulheres''. Que pensamento machista ridículo.

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  3. Você no seu íntimo sabe que eu estou certo, Babi.

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  4. Na verdade não sei bem o que esperava do livro, mas fiquei decepcionada, já senti muito mais tesão lendo uma descrição de sexo feita por Sidney Sheldon em Escrito nas Estrelas, só acho que o fato do livro ser ou não ser "lixo" tem feito mais leitores...
    A narrativa desse livro é cansativa e me pareceu que a autora e sua deusa interior ainda não se decidiram entre um romance com príncipe encantado ou com um rico pervertido sexualmente, não sei se terei saco para ler o segundo.Me parece que quem é pertubada é a própria Anastasia, sei lá! rs

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  5. estou lendo o segundo volume do livro estou gostando muito interessante, mas estou achando muito cansativo

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  6. Colega, o livro não é pra um homem. E há mulheres que gostem, como há as que não gostem. E qual o grande problema em cometer o deslize de mencionar que uma estudante de 21 anos nunca recebeu um e-mail? Ah, sei lá, eu curti, curto ser submissa na cama, curto levar uns bons tapas na cara e gostei do livro. E não, não quero (e não preciso de) um homem que me libere desse discurso feminista de direitos das mulheres. Achei totalmente machista, como a Babi falou.

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    1. Camille: Se para você está bom, então bom está!

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  7. Li os três livros e adorei, tirando a parte da deusa interior que realmente é muito babaca entre outras coisas semelhantes. Porém, no sexo e na vida, acho válido cada um fazer aquilo que se sente bem, seja bater, seja apanhar, dominar ou ser submisso. É claro que isso é um controle psicológico disfarçado de tesão e paixão ou amor, mas, o que importa é se os envolvidos são felizes assim, não? Sei lá, assim como cada um tem preferências no sexo, tem coisas diferentes que podem deixar pessoas diferentes felizes ou satisfeitas ou não. Acho que cabe a cada um saber do que gosta e respeitar os outros.

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