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domingo, 17 de maio de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (LVI)




Quando encontro alguém que diz não ter qualquer tipo de preconceito gastronômico minha vontade de rir é quase incontrolável. Se não faço isso na frente da pessoa é para manter um mínimo de verniz civilizatório. Todo mundo tem algum tipo de alimento que detesta. Inclusive aqueles que adoram dizer que comem de tudo. Nenhum humano possui estômago de avestruz.

Para escândalo geral, não tenho qualquer tipo de afeto por feijão e camarão. Não se trata de alergia ou de algum trauma. Apenas não gosto do sabor. Ou seja, é um critério pessoal. Essa restrição alimentar costuma resultar em problemas graves. Além de ser visto como eternamente do contra, preciso ter diplomacia para superar as pequenas humilhações sociais. A principal é a de ter que explicar para os amigos que não sou fã do cardápio que está sendo servido. Em várias oportunidades em que fui almoçar na casa de conhecidos, enquanto os demais convidados se empanturravam com a feijoada, a minha refeição esteve reduzida a arroz branco, couve e laranja. Além disso, esporadicamente alguém me olhava com o mesmo interesse com que olharia para um alienígena.

Experiência similar costuma ocorrer com moqueca (embora eu não tenha qualquer restrição com peixes). Ou como aconteceu recentemente, quando alguém trouxe de Florianópolis vários quilos de camarão pistola. Para não passar fome precisei me contentar com um bife sola de sapato. E que foi preparado com visível má vontade.

Outra situação, essa mais antiga, se manifesta na presença da cebola e da uva passa.  Encontrar qualquer uma das duas no meio da comida é motivo suficiente para julgar se vale a pena continuar a refeição. Sei que dizer isso pode parecer drástico, mas... No caso da Allium cepa e similares, nada tenho contra o uso culinário. O que não suporto é a textura. Com a uva passa é diferente, a presença física do desidratado comestível causa-me horror.



Quando encontro cebola e/ou uva passa mantenho-me calado. Apenas demonstro. Lentamente surge um montinho na beira do prato. Ninguém, na mesa, consegue ignorar o meu protesto. Minha mãe (em tempo que não volta mais), para não brigar – mais uma vez –, em determinado momento passou a “não ver” esse ato de rebeldia.

O que vale destacar é que não estou sozinho nessa cruzada contra alguns ingredientes gastronômicos. A facção xiita está aumentando exponencialmente. Conheço indivíduos que não economizam discurso contra azeitonas, chuchu, beterraba, coentro, tomate, bifes de fígado, maracujá, morcilha e chouriço. Se não fosse (muito) ridículo essas pessoas subiriam em cima da mesa e usariam megafone para expressar – de forma inquestionável – a repulsa que sentem quando encontram o mínimo traço do alimento indesejado.

Como disse um filósofo desconhecido, as idiossincrasias humanas abrem as portas para estudos muito interessantes. No campo da psiquiatria, por exemplo. 

(P.S: por razões de segurança pessoal, evitei fazer menção aos hábitos nutricionais dos vegetarianos, veganos e usuários de formas alternativas de alimentação. Esses grupos são mais perigosos do que maionese estragada.).

Um comentário:

  1. Essa da maionese estragada vou guardar bem. Como quase de tudo, mas tenho meus desafetos gastronômicos também. Há que se respeitar os gostos e não custar entrevistar os convidados antes de preparar a comida, he he he.

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