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domingo, 3 de maio de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (XLII)




Conta a lenda que, no dia 14 de julho de 1789, Luís XVI, rei de França, escreveu em seu diário uma única palavra: Rien. Encastelado em Versalhes, o monarca não percebeu que uma revolução estava em curso.

Guardadas as devidas proporções, torcendo para que nenhuma desgraça esteja ocorrendo enquanto estamos em quarentena, as minhas atividades no domingo poderiam ser descritas como um imenso nada.

Acordei tarde, lavei a louça, limpei o banheiro, passei pano molhado no chão da cozinha, almocei salada de atum (enlatada), tomei sol, li uns três contos de uma antologia sobre gatos, ouvi música (Vivaldi, Bach), dormi um pouco, joguei xadrez pela internet.

Foi praticamente uma reprise do que faço em outros dias desse autoexílio. Não estou me queixando. Gosto do isolamento. O que me incomoda é a interminável repetição de afazeres pouco afáveis.  

Ontem foi dia mais agitado. Ou seja, quebrei a rotina. Por quê? As contas continuam me atormentando, lépidas e faceiras. Antes eram papéis coloridos que chegavam ao escaninho da correspondência – agora são avisos virtuais na caixa de e-mail. Infelizmente, os boletos não foram afetados pelo Covid-19 e as datas de pagamento continuam imutáveis. Alguém precisa avisar as companhias telefônicas, as empresas de distribuição de água e luz, os bancos e as administradoras de cartão de crédito que estamos vivendo em estado de exceção. Ou estou delirando?




Como não confio em transações bancárias pela Internet (sim, eu sei, sou maluco), nada mais restou senão ir ao banco. A agência estava deserta. Agendei quase tudo. Como era de se prever, alguns esquecimentos. Duas faturas. Poderia ser mais. Durante a semana vou tentar resolver esse percalço. Nasci distraído – e a pandemia não está me ajudando a diminuir esse pequeno desajuste social.

Aproveitei a ocasião para passar no supermercado. Sem a mínima intensão de prever um cenário similar ao do romance A Estrada, do Cormac McCarthy, ou ao de qualquer outra distopia, abasteci a geladeira e o armário com comida. Essa é a minha estratégia de resistência a um outro perigo: o canto da sereia – que, maviosamente, está nos chamando para transitar pelas ruas. Poucos possuem a astúcia de Odisseu. Eu não tenho.    
   
Apesar do desconforto, usei máscara descartável. Nos lugares onde estive, untei as mãos com uma gosma não identificada. Talvez fosse álcool gel. Nestes tempos sombrios, há que se acreditar no efeito placebo.

Ninguém pode dizer onde a felicidade está – mas enquanto estivermos em isolamento social, somos um cego procurando a luz na imensidão do paraíso, como canta Zé Ramalho.

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