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sábado, 23 de maio de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA (LXIII)




Gominho estava desconfiado de que o seu casamento estava próximo do fim. Motivos para que essa suspeita se confirmasse não faltavam. As repetidas dificuldades com seus deveres nos assuntos domésticos de cama, mesa e banho não estavam ajudando.

Embora nunca tivesse tido o mais ínfimo motivo para duvidar da fidelidade da ilustre consorte – e que tivera o azar de casar com ele –, sentiu que o vento poderia mudar a qualquer instante e...

O alerta vermelho disparou no momento em que viu (ou imaginou) o olhar de cobiça da esposa: um pós-adolescente (calção de futebol e sem camisa) limpava um terreno baldio próximo.

As diferenças eram evidentes. Gominho estava na meia idade, barrigudo, alcoólatra e chevalier servant do burgomestre de plantão. O rapaz era bonito, bem alimentado e sem ocupação definida. Provavelmente frequentava alguma academia.

Aos inseguros, qualquer gota d’água se transforma em tsunami.

A partir desse instante, começou a dormir mal. Nos pesadelos recorrentes, a esposa protagonizava cenas inacreditáveis de contorcionismo sexual com diversos parceiros. O sujeito acordava encharcado em suor.

Diz a sabedoria popular que o ciúme trabalha com lentidão, macerando o veneno, injetando-o na corrente sanguínea dos infelizes. Quem há de duvidar?

No boteco do Frajola, tentou – incontáveis vezes – afogar a crise emocional com cerveja e cachaça. Tudo o que conseguiu foi uma série interminável de ressacas.  

Um dia, próximo do desespero, desabafou com o Zé Currumaça. Contou que estava ficando encurvado. O medo de estar carregando um par de chifres pesava uma tonelada.

O amigo ouviu atento. Depois, quando o silêncio substituiu aquela saraivada de desespero, decretou:

– Vancê precisa marcá uma consurta com Madami Ismerarda. Ela lê o futuro no Tarô. Cê sabe, as carta não mente!

Com a fé inabalável daqueles que não sabem resolver os problemas do cotidiano pelas vias da razão, Gominho se deixou arrastar até o covil, digo, o templo da famosa pitonisa.  

Enquanto aguardava pela leitura dos desígnios do destino, envolto em uma mistura de incenso com flores mortas, Gominho se sentiu mal e quase vomitou.

– Sou um fraco, reconheceu para o amigo (que parecia imune àquele festival de aromas desagradáveis).

O cenário pouco arejado, digamos assim, acionou o gatilho da imaginação. Era como se ele, Gominho, estivesse participando de algum velório, provavelmente o próprio féretro.

Zé Currumaça, segurando-o pelo braço, impediu uma ação mais intempestiva, fruto da confusão mental.  Gominho queria ir até a casa do suposto comborço e dar uns socos bem dados no rosto do canalha, lavando, dessa forma gentil e urbana, a honra manchada com esperma e gemidos orgásmicos.

– Cuidado c’as visage – avisou Zé Currumaça.

– Quero ir embora, disse Gominho.

– O quê? Num vai esperá pelas carta?

– Não quero saber mais disso. Quero ir para casa.

– Num seje assim, omi du céu! Quequiéisso? Vancê tá perdendo as estribeira?

– ?!?!?!

– Nóis veio cá prá vê as carta e nóis vai vê essa porquera. Seje omi e sussegue o facho!

Sem alternativa, o infeliz sentou no primeiro banco mocho que encontrou. Levou as mãos ao rosto e chorou. Um choro lento, amargurado, e que foi aumentando a cada segundo até desaguar em histeria.

Entre um soluço e outro, Madame Esmeralda apareceu subitamente ao lado de Gominho e pousou o braço no ombro do sujeito.

O susto foi monumental. O descontrole urinário, também.

Ao perceber que havia molhado a roupa, Gominho ficou catatônico. Foi preciso chamar o SAMU. Esteve internado no hospital três dias.

Antes de voltar para casa, chamou um corretor de imóveis, queria vender a casa. E assim foi feito. Foi morar, com a esposa, no subúrbio.

Encostado na porta do bar Grenal, mascando um pedaço de gengibre, Betão da Penha acompanhou a chegada da mudança. A vida está repleta de surpresas, disse para si mesmo. E ficou alegre – como talvez possa ficar alegre o leão baio quando decide qual é a ovelha que vai devorar.



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