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sexta-feira, 13 de maio de 2011

LEMBRANÇAS DE LAURO JUNKES

Antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, Lauro Junkes já fazia parte de minha vida. Meu primeiro livro, “Um abraço pra quem fica”, quase um folheto mimeografado, recebeu generosos elogios na coluna que ele assinava no jornal “A Gazeta” (“Presença poética de Lages [2]”; Florianópolis, 10/05/1987).

Quase dez anos depois, lá pelos idos de 96 ou 97, mesmo sabendo que a tarefa não seria fácil, ele me recebeu de braços abertos como orientador no Mestrado. Infelizmente não compartilhamos os abraços, nossa relação afetiva sempre foi um pouco fria, havia alguma barreira entre nós. Provavelmente o meu temperamento contribuiu para aumentar essa distância, raramente consigo controlar a vontade de desafinar o estatuto do politicamente correto, os palavrões incomodando ouvidos mais educados. Lauro era o contrário, sempre paciente com os ansiosos, sempre um gentleman (pelo menos em público), não me lembro de tê-lo visto alterar uma única vez o tom de voz, era sempre aquele mar da tranquilidade, nem mesmo uma onda mixuruca para quebrar a rotina.

Quase um zen-budista – apesar de cristão (se não estou enganado, foi seminarista) –, ele passava por cima das dificuldades com um olhar de sabedoria, sempre a sussurrar não para aqueles que sentem prazer em alimentar úlceras.

No início do Mestrado, matriculei-me em uma disciplina de teoria da literatura, que era ministrada por ele. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do Saramago, nos acompanhou durante todo o semestre (meu exemplar, as páginas coloridas com marca-texto, a capa estropiada, ainda está na estante, reluto em substituí-lo por um novo). Para muitos de nós, os alunos, principalmente aqueles que conheciam a literatura de uma forma esculhambada, sem método, as discussões em sala de aula (muitas vezes intermináveis!) foram um divisor de águas, o mundo repartido entre o antes e o depois.

Precisando trabalhar com pessoas heterogêneas (e que apresentavam grandes diferenças políticas, sociais e religiosas), Lauro ministrava aulas tranqüilas, sem grandes exaltações. Escorado em teóricos como Genette, Booth e Pouillon (naqueles tempos, todos desconhecidos para mim), ele procurava esclarecer parte da mitologia literária. Nas várias vezes em que fiz perguntas ou rebati alguma afirmativa menos palatável, o que se destacou nos nossos embates não foi a luta pelo poder (ou pelo saber), foi o abrir as portas do conhecimento, foi o professor que exercia o diálogo socrático: ensinar aprendendo – aprender ensinando.

Quase no final do semestre, ele me presenteou com um exemplar de “O Mito e o Rito” (Florianópolis: Editora da UFSC, 1987). Ao reler a dedicatória (“Para Raul Arruda Filho, este aperitivo para o convívio com alguns autores catarinenses”), e acrescentando vários fatos ocorridos depois, não me é possível deixar de interpretar, nas entrelinhas, que o vínculo literário que nos unia – professor e aluno – estava em extinção. Em um mundo decomposto pelos interesses capitalistas, pela globalização e pela sociedade do espetáculo, o estudo da literatura catarinense estava fadado ao esquecimento; no máximo, receberia o olhar perplexo (e benevolente) de quem contempla um fenômeno raro.

O tempo passou, encontrei outros professores. Embora estivéssemos amarrados pelo vínculo orientador/orientado, raramente nos encontrávamos nos corredores da UFSC. Tínhamos horários diferentes, interesses divergentes. Quando deixei Florianópolis e fui passar alguns meses em Itapema, o nosso contato ficou ainda mais escasso. Estranhamente, ele não desistiu de mim: a cada quinze dias – precisão suíça! – minha caixa postal virtual recebia mensagens eletrônicas reclamando prazos, a necessidade acadêmica de defender a dissertação, de encerrar um ciclo da vida. Como sempre, eu respondia da maneira mais evasiva possível, fazia promessas que não pretendia cumprir (e ele sabia disso!). A vida estava a seguir o seu curso.

Por motivos pessoais, voltei a morar em Lages, criei vergonha na cara e, aos trancos e barrancos, escrevi o que estava faltando. Telefonei contando as boas (boas?) novas. Do outro lado da linha ele me escutou sem fazer sermão, sem demonstrar qualquer tipo de surpresa. Mesmo sem ter certeza de que viajaria até Florianópolis, marquei um encontro na UFSC, uma semana depois. Para surpresa geral, na hora combinada, entreguei em suas mãos o disquete em que estava gravado o texto da dissertação. Como essa não é uma história de filme americano, a porcaria não abriu. Se eu não o tivesse esmigalhado em sei lá quantos pedaços, até hoje continuaria inútil.

Diante de minha reação intempestiva, Lauro ficou perplexo, obviamente sem entender o que estava acontecendo. Deve ter pensado que eu estava com algum tipo de problemas psicológico (talvez a loucura – que, finalmente!, estava se manifestando de forma permanente). Esse diagnóstico não resistiu dois segundos, pois, comprovando que também sei tirar coelho de cartola, mostrei a ele outro disquete. O texto apareceu – milagrosamente! – na tela do computador, salvando o dia. Nas primeiras frases, ele me apontou algumas questões, me fez ver que existiam outras formas de escrever o que eu estava propondo, elogiou alguns pontos. Enfim, cumpriu com o ritual docente da maneira mais doce possível.

Dois ou três meses mais tarde, em incerta manhã, diante de uma única alma errante, que provavelmente havia entrado na sala por engano, a academia testemunhou o encerramento da comédia: a banca se reuniu, pronunciou o veredicto, fui condenado. Lembro que almocei sozinho naquele dia, satisfeito pelo resultado.

O tempo passou, perdemos o contato. Quando voltei para o doutorado, alguns anos depois, já não tínhamos nenhum vínculo, estávamos caminhando por estradas muito distantes. Confirmando que existem mais tolices entre o céu e o inferno do que sonha nossa vã mediocridade, éramos quase estranhos.

Talvez tenha sido nessa época que os jornais noticiaram que ele havia sido eleito presidente da Academia Catarinense de Letras.

Cercado por livros, xerox de jornais e revistas, pesquisas intermináveis na Internet, além de outras milongas (dessas que fazem as novelas mexicanas se transformarem em contos de fadas pós-modernos), estive afastado do mundo objetivo por um bom tempo. O Doutorado me sugou parte da energia vital.

A alienação afetiva diminuiu um pouco quando uma amiga em comum, Salete Lópes Antonio, me contou que Lauro estava doente: as viagens para São Paulo, as sessões de quimioterapia, a dor excruciante. Depois de muito relutar, telefonei. Não foi uma boa idéia. Em lugar de tentar confortá-lo, percebi que não sabia o que dizer, faltava-me a intimidade para fazer piadas ou quaisquer que sejam as bobagens usuais nessas ocasiões.

Depois disso, ainda o encontrei, alguns anos depois, em um evento da UFSC, não lembro qual, ele me pareceu estar bem, havia recuperado o peso, a cor, a vontade de viver. Salete disse-me que o câncer estava controlado.

No dia 20 de outubro de 2010 fui surpreendido por uma mensagem eletrônica, dessas que nunca são agradáveis de receber. Alguém estava me comunicando que o desfecho indesejado havia se cumprido. Como estava em Lages, não me foi possível ir ao enterro.

Poderia encerrar essas lembranças dizendo o óbvio, que Lauro era um intelectual (na expressão mais límpida do termo), que era insubstituível, que fará falta. Embora tudo isso seja verdade, não creio que seja o suficiente. Uma vida não deve ser sintetizada em meia dúzia de histórias tolas ou elogios protocolares. É preciso mais. No entanto, assim como poucas vezes conseguimos dizer um ao outro o que gostaríamos de dizer, também dessa vez me encontro sem fala, sem saber articular as palavras para poder expressar que, no mínimo, sentirei saudades – muitas.



(TEXTO LIGEIRAMENTE MODIFICADO DAQUELE QUE FOI PUBLICADO EM http://www.escritoresdosul.com.br/)

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