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segunda-feira, 19 de março de 2012

CHET BAKER (1929−1988)

Chesney Henry Baker Júnior sentia incerto prazer mórbido quando ultrapassava limites. Auto−destrutivo, viciado em todas as drogas possíveis de obter antes da polícia chegar à cena do crime, tentou manter a chama da vida até o prazer ínfimo da próxima dose. Estava sempre precisando de dinheiro − para sustentar traficantes, prostitutas e agiotas. Centenas de discos levam o seu nome na capa, milhares de gravações com clássicos inesquecíveis, o talento resumido entre os estúdios de gravações, os bares de quinta categoria e a degradação corporal. Provavelmente, acreditava estar protegido pela benção dos deuses.

O trompete foi a arma com que Chet Baker enfrentou a adversidade. Filho de músico, desde criança se interessou pela música. Em casa, cantava acompanhando o rádio. Sua mãe, Vera, o levava a pequenos shows de calouros, onde o rosto bonito e a voz fina faziam algum sucesso. Chesney pai, um alcoólatra violento, concluiu que esse perfil não era adequado para o filho. Tratou de repaginar o menino com algo másculo: um trombone. O instrumento era muito grande, quase do tamanho do rapaz. Ao ver que tinha escolhido o instrumento errado, a contragosto o trocou por um trompete.

Segundo a lenda familiar, o aprendizado demorou apenas duas semanas. Um recorde, pois a maioria dos instrumentistas precisa entender, além da teoria musical, as dificuldades técnicas de um instrumento bastante complexo. Músico intuitivo, Chet expandia o ritmo das melodias e encantava a todos com improvisações de rara qualidade.

Tinha bom ouvido − bastava duas ou três audições para entender a melodia. Não lhe foi difícil aprender novas canções. Harry James, principalmente. E, nesse ritmo, devorou a juventude, compartilhando a música com carros velozes, sexo casual e pequenas transgressões.

Para fugir do ambiente familiar opressivo, se alistou no exército. A II Guerra Mundial tinha terminado, mas o colonialismo estadunidense não. Em Berlim, ao ouvir um ensaio da banda do 56° Exército, finalmente encontrou um lugar no mundo. Como não sabia ler partitura direito, aprendeu de ouvido o repertório da banda. E, sem se preocupar com as dificuldades, seguiu em frente. O próximo passo estava em um grupo menor, uma orquestra dançante do Exército. Foi ali, como uma espécie de terapia contra o exílio pouco confortável, que se deixou seduzir por um novo estilo jazzístico: o bebop. Ao ouvir a música produzida por alguns dos mais importantes músicos do período (Stan Keaton, Woody Herman, Dizzy Gillespie) se descobriu apaixonado à primeira nota, ao primeiro acorde. Entre tanta beleza queria acordar no mundo sonoro que parecia fazer parte de algum conto de fadas com final feliz.

Dispensado do Exército, Baker voltou para casa dos pais, terminou o colegial − onde se tornou o encrenqueiro oficial. Brigava o tempo todo. No El Camino Júnior College, em Torrance (Califórnia), conheceu a música de Miles Davis. Na companhia de alguns amigos passou a fumar maconha. Não terminou o curso. Preferiu a vida. Em Los Angeles arrumou emprego em uma banda que se apresentava em um hotel. Logo depois estava tocando em todo lugar que fosse permitido.

Nas palavras de James Gavin, na biografia No Fundo de um Sonho – a longa noite de Chet Baker: Centenas de jovens músicos tinham voltado da guerra e ansiavam por tocar jazz de verdade em vez de musica de bandas do exército. Invadindo bares, restaurantes, clubes, garagens, porões e estúdios, tocavam 24 horas por dia. A música era uma droga e nunca havia o bastante para eles.

Drogas, um tema recorrente na seção dos metais: Charlie Parker, Art Pepper, Dexter Gordon, Miles Davis, Chet Baker e milhares de outros. Dava para montar diversas bandas, naqueles anos loucos, com a turma que considerava que os paraísos artificiais eram uma espécie de passaporte para a arte, para a música. A regra geral era viver o mais intensamente possível. E isso significava um caminho sem volta: drogas, sexo e jazz.

Chet Baker tinha fascínio pelas drogas e por seus usuários. Adorava os marginais, aqueles que costumam participar de intermináveis jam sessions na face escura da lua. Sentia grande prazer quando estava na companhia dessa gente. Foi em um desses momentos que descobriu a heroína. A primeira picada não foi boa. Um ano depois, experimentou outra vez. Nunca mais conseguiu se livrar dessa namorada possessiva.

O resto da história não é difícil de ser resumido. O talento sendo consumido pelas inúmeras dificuldades, as várias vezes em que esteve preso, a loucura de ser espancado até quase a morte, meses de recuperação, o reaprender a tocar, o retorno ao vício, algumas over−doses, as promessas quebradas, os filhos que raramente via, o horror sendo revisitado constantemente. E o mistério de sua morte. Ninguém sabe se ele se suicidou ou se foi jogado pela janela de um hotel em Amsterdam. Caso a segunda hipótese seja a verdadeira, o principal motivo parece ter sido uma dívida não paga com um fornecedor de heroína.

Chet Baker, ao longo do tempo, exercendo seu talento, aprimorou o estilo quase sem estilo, fusão dos sons que foi colhendo pelo caminho. Mais do que isso, foi aprimorando−os como se fossem seus. Com um fraseado anti−clássico, pontilhado pelo romantismo cool, quase brega, conseguiu construir uma obra consistente. Como contraponto ao som metálico do trompete, a sua voz era aveludada, dessas que adquirem consistência em contato com o ar. Quem duvidar que ouça My Funny Valentine ou The Touch of Your Lips ou Time After Time ou (There is) No Greater Love ou I Fall in Love Too Easily.

É música para quem gosta de cortar o próprio coração em mil partes desiguais, embrulhar cada pedaço em papel colorido, e mandar entregar no endereço da pessoa amada.


5 comentários:

  1. Chet Baker merece uma homenagem,sou aficionada por ele. Sempre digo que o jazz clarifica a alma e atenua a mente.

    Abraços

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  2. Chet Baker: sensibilidade, intensidade e inteligencia acima da média...esses seres que fogem do padrão "normal" costumo chama de "ETs".Chet era um "ET" que se destacou por seu dom e por uma biografia resultante da dor do percurso...não aguentou a dor do percurso nos caminhos dessa vida...gente muito sensivel é assim; muitas vezes entram numa auto- destruição progressiva e não há analista ou remédio que dê jeito...entendo bem disso.
    Parabéns pela escolha da postagem.
    Abs!
    Jeanne

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  3. Srta G: Jazz é tudo de bom! E eu sou um fã (de carteirinha do Chet Baker!

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  4. Jeanne: Ainda bem que parte do mundo foi povoada por "ETs"! Obrigado! Beijos e abraços!

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  5. grande talento sou fã dele mas esse merdinha não era para ter se apegado a essas merdas de vida-louca com viviados e marginais não.,devia se APEGAR NAS FÃS-DELICIAS que daí ele iria GOZAR avida ehehee

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