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sexta-feira, 9 de março de 2012

A PAIXÃO PELOS LIVROS

Quem gosta de livros provavelmente guarda um espaço em sua estante para livros sobre livros. Não para aqueles que abrigam ensaios teóricos ou de análises literárias – que também são indispensáveis. Para outros. Para as diversas formas de narrativas (contos, crônicas e depoimentos) que usam como tema a bibliofilia (o amor pelos livros). São volumes muito específicos, de tiragens pequenas, que relatam prazeres quase proibidos. Mas, que, acima de tudo, valorizam o livro como uma ferramenta de resistência contra a ignorância humana.

No final dos anos 70, talvez um pouco antes, fui contemplado com um "insight", uma revelação espiritual. Ao folhear um exemplar de Bibliófilo Aprendiz (Rubens Borba de Morais) descobri que o mundo dos livros era muito diferente daquele que imaginava. Depois desse instante, não posso negar que quase tudo o que sei sobre a conservação física dos livros aprendi ali. Mas, não foi só isso, o volume está repleto de sabedoria. Há capítulos sobre a história da impressão, curiosidades, primeiras edições, tipografia, etc. Depois que o li pela primeira vez, fiquei fascinado: abri os olhos para um mundo que me era desconhecido. Como se fosse um amor que deixou saudades, volto sempre às suas páginas.

Infelizmente, por diversos motivos (alguns absolutamente ridículos), Rubens Borba de Morais não é o santo padroeiro da bibliofilia brasileira. No máximo, o consideram como uma espécie de são João Batista, um profeta menor, destinado a anunciar a vinda do Salvador. O papel de protagonista coube a José Mindlin. Seu relato, escrito com ternura, Uma vida entre livros (seguido de No mundo dos livros) conseguiu atrair as atenções (e a devoção) de um público que até então parecia desconhecer que os livros também são objetos colecionáveis. E, infelizmente, que possuem valor comercial diferenciado. Uma primeira edição de Machado de Assis ou José de Alencar vale bem mais do que o salário de um ano de trabalho.

A história dos livros está intimamente ligada à história da leitura. E esse é um território que o argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel domina com absoluta tranqüilidade. Livros como Uma História da Leitura, A Biblioteca a Noite, Os Livros e os Dias e A Cidade das Palavras são mais do que exercícios de erudição, são reflexões lúcidas sobre a condição humana e o poder de transformação intelectual dos livros.

Outros dois grandes mestres do conhecimento bibliográfico são Roger Chartier e Robert Darnton. A Ordem dos Livros, escrito pelo primeiro, e A questão dos livros, do segundo, merecem atenção.

O incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria deve ser interpretado como uma metáfora da perenidade do conhecimento. Parte dessa história alegórica está relatada em livros como A Biblioteca Desaparecida (histórias da biblioteca de Alexandria), de Luciano Cânfora, História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez, e A Conturbada História das Bibliotecas, de Mathew Battles. Imperdível também é a pesquisa histórica feita por Lilia Moritz Schwarcz, que recuperou em A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil), o tortuoso percurso dos livros que deveriam ter vindo junto com a família real portuguesa em 1808. Os volumes ficaram embalados no Porto. Só depois de muito tempo é que chegaram ao Brasil, para constituir o cerne da Biblioteca Nacional.

Ler e gostar de livros muitas vezes implica em vivenciar o horror. É isso o que revela o romance Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), é isso o que relata o russo Varlam Chalámov em um texto maravilhoso: Minhas Bibliotecas, incluído no volume A Paixão pelos Livros, clássico indispensável no gênero. Miguel Sanches Neto também contribuiu para o tema com Herdando uma Biblioteca, livro−depoimento de uma vida repleta de dificuldades. Quem prefere o glamour não pode deixar de lado Shakespeare and Company (uma livraria na Paris do entre−guerras), escrito por Sylvia Beach. Escritores talentosos como Ernest Hemingway, Scott FitzGerald, James Joyce e Gertrudes Stein, entre outros, costumavam freqüentar aquela que ainda é considerada a livraria Cult da história da literatura.

A história do mais importante colaborador do Dicionário Oxford está relatada em um livro impressionante: O Professor e o [Demente], escrito por Simon Winchester.

A bibliofilia também é motivo de risos. Essa é a proposta de Anne Fadiman em Ex−Libris (confissões de uma leitora comum). Mais do que um texto engraçadíssimo, onde hábitos de leitura, erros gráficos e idiossincrasias são abordados e dissecados pelo bisturi do humor, esse livro nos pega pela mão e nos leva a passear pelos bosques da literatura.

Nesses anos todos em que – muitas vezes – troquei a companhia dos seres humanos para ler, pensar e escrever, correndo o risco de ser discriminado em vários e diversos graus, estive acompanhado pela sabedoria do filósofo Marco Túlio Cícero: Se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo. Ainda me falta o jardim – mas não será por muito tempo. Espero.

2 comentários:

  1. E tem ainda "Não contem ainda com o fim dos livros", Umberto Eco e Jean Claude Carriere, "O último leitor", do Ricardo Piglia, "Como falar dos livros que não lemos", de Pierre Bayard, e tantos outros apaixonantes textos de bibliofilia.
    Ótimas recomendações Raul, vou adquirir um ou dois deles que não tenho agora mesmo.

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  2. E A Memória Vegetal, de Eco.

    kleitongoncalves.blogspot.com.br

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