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quarta-feira, 21 de março de 2012

MAR DE HISTÓRIAS

A ideia era copilar um pouco da história do conto mundial. Tarefa gigantesca. Provavelmente não seria aceita nos dias de hoje. Mas, na metade do século XX − quando a Internet ainda não havia achatado o saber, e o conhecimento enciclopédico ainda tinha algum valor −, o projeto desenvolvido por Paulo Ronai e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (aquele mesmo do Dicionário) foi um sucesso. Por diversos motivos. O mais prosaico: os dez volumes de Mar de Histórias ocupam 16,5 cm na estante e pesam quase três quilos. Não é pouca coisa. E para quem deseja impressionar amigos ou clientes, "tanto conhecimento" ajuda na composição do cenário intelectual.

Mas, o mais importante é o conteúdo. Raras coleções de textos literários conseguem traçar um panorama tão abrangente e com tanta qualidade. Entre os anos 70 e 90 do século XX, foi pelo Mar de Histórias que a aventura literária separou a ignorância do esclarecimento.

Estou na minha terceira coleção de Mar de Histórias.

A primeira, junto com outros livros, desapareceu entre mudanças e tragédias familiares. Sobraram uns dois volumes, talvez o terceiro e o oitavo, mas não tenho certeza. Prometi a mim mesmo reconstruir a coleção. Demorou vários anos até que isso fosse possível.

Da segunda coleção, dois livros desapareceram em circunstâncias estranhas. O segundo volume foi perdido dentro do ônibus, na volta de uma viagem para Florianópolis. Levei para ilustrar um trabalho acadêmico, alguma coisa relacionada com o Rip van Winkle, do Washington Irving. Foi e não voltou. Não lembro exatamente das circunstancias. Só percebi a ausência alguns dias depois, quando olhei para a estante e não o vi lá. O volume cinco foi emprestado para um estudante que precisava do conto José Matias, do Eça de Queirós. Nunca mais vi o livro ou o aluno.

Em todas as circunstâncias adquirir os livros nunca foi fácil, meus rendimentos sempre foram insuficientes para financiar todas as minhas aventuras. Imagino que, atualmente, os dez volumes devem custar entre R$ 300 e R$ 350.

Dito isso, descontados os tropeços, estou na terceira coleção. Avaliei o estado físico dos livros remanescentes, descartei mais uns dois ou três, e consegui comprar os que estavam faltando. Infelizmente, não são exemplares da mesma edição. Alguns são da segunda, outros da terceira. Pensei em uniformizar a coleção. A Estante Virtual está ai para isso mesmo. Mas,... Controlei a ansiedade. Há coisas mais importantes para gastar minhas energias (e o dinheiro que não tenho).

Minhas primeiras leituras do Decamerão (Giovanni Boccaccio) foram no Mar de Histórias. Gostei tanto que logo depois comprei o texto completo, acho que foi numa daquelas edições populares, vendidas em banca de jornal, e que faziam enorme sucesso na época. Li, deliciado, todas aquelas sacanagens envolvendo padres, freiras, reis e camponeses. Quando revisitei esse delírio, na versão cinematográfica dirigida por Pier−Paolo Pasolini, a parte mais difícil foi esquecer a imagem residual que leitura deixou impressa na minha mente.

Xavier de Maistre, Fiodor Dostoievski, Gérard de Nerval, Jerome K. Jerome e Rainer Maria Rilke são autores que integram a coleção e que nunca mais esqueci. Parte do ritual de leitura era complementado com visitas à Biblioteca Pública. A carteirinha número 318 registra, nesse período, pilhas de livros emprestados. Crime e Castigo e Os Cadernos de Malte Laurids Brigge são textos que li nessa época, influenciado pelo Mar de Historias.

Depois de tantos anos acumulando poeira nas estantes, olho para os livros com nostalgia e carinho.
De vez em quando abro um volume e releio, aleatoriamente, algum conto. Não é a mesma coisa. Nos tempos de antigamente havia mais sabor. Quer dizer, eu imaginava que havia. O que é uma bobagem. O ser humano muda a cada instante e o texto gravado no papel fica parado no tempo. Nada é permanente. Embora seja difícil perceber que a vida (e, por extensão, a leitura) evolui. Muitos livros são substituídos por traduções mais atuais, menos datadas, que acrescentam informações ou variações de linguagem mais adaptadas à contemporaneidade. De qualquer forma, não é isso que é o mais importante. O importante é que muitos leitores naufragaram e se salvaram nas páginas do Mar de Histórias.

3 comentários:

  1. Linda história essa sua relação com "O MAR DE HISTÓRIAS"...virou uma crônica muito gostosa de se apreciar...saudades de antigamente. Sou do tipo saudosista...amo ficar revendo fotos e postais antigos, slides de familia no velho projetor do meu pai, meus livros, nunca os abandonei. Está certo que a internet trouxe praticidade à vida, mas não é a mesma coisa... saborear um livro, com seu cheiro, textura, até o movimento de ir e vir das paginas, tudo isso encanta...na internet não tem a mesma graça. Agora meu sonho de consumo é um gramofone( mas original e em perfeito funcionamento...difícil!!).
    É verdade Raul, o ser humano muda a cada instante, mas no meu caso, o amor a essas impressões do passado fez com que eu as carregasse através dos tempos e hj as trago comigo, na minha saudade sempre presente.
    Beijos!

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  2. Raul, gostaria que escrevesse um pouco sobre Steve Jobs. Ele era um daqueles "ETs" de que tanto falo...ser especial, essencial, foi um gênio! Pena ter partido tão cedo... Atuou em diversas áreas da criação e fez tudo com perfeição...( revolucionou a internet, nos conectando com o mundo, atuou em criaçoes artisticas- fundador da PIXAR, etc, etc....) Foi um exemplo de persistência e determinação.
    Beijo!

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  3. Mar de histórias, leituras marcantes como Mark Twain, Collete, Maistre... Sou desse jeito, a nostalgia bate e releio essas preciosidades.

    Abraços

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