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quarta-feira, 23 de maio de 2012

A DAMA DE FERRO

Será Meryl Streep a melhor atriz da atualidade? Difícil responder. Sua espetacular atuação em The Iron Lady (Dir. Phyllida Lloyd, 2011) acaba com parte da resistência. Somente uma atriz da velha escola, com muitos anos de experiência e talento, seria capaz de interpretar com tamanho brilho uma das mulheres mais ambiciosas e arrogantes da história política mundial.

No dia 04 de maio de 1979, Margareth Tatcher, depois de dez anos como deputada do Partido Conservador, foi eleita para ocupar (e essa não é uma palavra excessiva) um dos endereços emblemáticos do governo inglês: 10, Downing Street − a residência oficial do Primeiro−Ministro do Reino Unido da Grã−Bretanha.

Essa mulher, que era avessa aos serviços domésticos e familiares, tanto que disse que não posso morrer lavando uma xícara, foi responsável por alguns dos anos mais difíceis da história inglesa. Durante o período que liderou a nação houve recessão econômica, desemprego, privatizações, greves, manifestações populares. Além disso, o Irish Republican Army (IRA) não deu trégua e realizou alguns dos ataques mais devastadores contra o opressor. Foram tempos de pânico e terror. O colapso total do governo só não aconteceu por milagre. Surpreendentemente, um milagre que durou onze anos e meio.

A espinha dorsal do filme está concentrada na velhice senil de Margareth Tatcher, uma mulher que foi tão importante quanto alguns homens. No jogo especular, onde os papeis e os gêneros estão invertidos, Tatcher se mostra mais poderosa, mais prepotente, mais masculina do que aqueles que deveriam se comportar como homens. A disputa com a Argentina pelas Falklands Islands, embaralhando uma das questões mais canalhas que envolvem o jogo democrático - o patriotismo -, mostra o quanto a obstinação e a liderança ditatorial podem manipular o eleitor, transformando índices de impopularidade e complicações econômicas em benefícios políticos.

Na companhia imaginária de Denis, o marido morto muitos anos antes, Margareth relembra alguns dos seus melhores momentos. Alguns dos piores também. Entre estes, o mais visível é o distanciamento afetivo dos filhos (gêmeos, Mark e Carol). Ou seja, a mulher que colocou a carreira política como propósito de vida não colheu, em troca, amor filial – sentimento que ela, como determina o conjunto de regras da asséptica educação britânica, nunca demonstrou ser importante.

Depois que deixou o poder, Tatcher teve dificuldades para administrar a nova situação. Um dos primeiros problemas que descobriu é que ficou cada vez mais complicado levar o navio em segurança até o cais. O narcisismo contemporâneo se espalhou pelo tecido social como se fosse metástase. Ao final de um encontro social, uma mulher tenta lhe agradar afirmando que inspirou a sua (dela) vida na ex−primeira−ministra. Sem temor de ofender brios ou vaidades, Tatcher, com a rispidez que lhe era peculiar, diz: Costumava ser sobre tentar fazer alguma coisa. Agora é sobre tentar ser alguém.

Mesmo senil, Tatcher se mostra lúcida. Em determinado momento, liga todos os aparelhos eletrodomésticos, procurando causar o máximo de barulho possível. Envolta no desespero, quer evitar ouvir as vozes das alucinações, quer resistir ao chamado da loucura.

É uma luta inglória, sem esperanças. O passado e o presente desaparecem da memória, projetando um futuro inexistente. Acabou, parece dizer Margareth Tatcher, na última cena, enquanto lava uma xícara.

Margareth Tatcher e a rainha Elizabeth II, em 1979.

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