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segunda-feira, 28 de maio de 2012

FILHO DIANTE DA MORTE DO PAI

Algumas pessoas só conseguem entender o verdadeiro significado da morte quando perdem alguém próximo. O vazio que se estabelece com a ausência, em diversos graus e perspectivas, nunca mais vai ser preenchido. Bom é estar vivo − embora cada história humana seja constituída pela morte dos outros. Lembrar a ausência é amarrar a saudade com as histórias comuns, com as imagens de alguém que não existe mais. É construir depósitos de emoções. É amordaçar a noção de que a vida é transitória.

A morte é isso: o dano irreparável. La commedia è finita.

Não vi meu pai nos seus últimos meses de vida. Internado em um hospital, o corpo sendo destruído lentamente por um câncer horroroso, deixei que sofresse sozinho. Provavelmente, foi o ato mais cruel que pratiquei em toda a minha vida, conseqüência do prazer perverso que era imaginar que ele estava morto há muitos anos. Mesmo quando ele estava vivo, éramos estranhos. O pouco que tínhamos em comum eu não queria lembrar. Quando, na manhã de 10 de dezembro de 1989, fui comunicado de que a vida dele havia terminado, reuni todas as forças possíveis e decidi seguir em frente, sem choro, sem lamúrias. Não fui muito longe. Alguns meses depois, ao perceber que a historia que une a nossa família foi construída por desencontro, ressentimento e mágoa, tive uma crise emocional. Comprovando a incapacidade de resolver sozinho, e de forma adequada, os sentimentos represados, durante horas mergulhei em uma espécie de exercício de contrição tardio, a percepção de que nunca mais seria possível reatar os laços de sangue. Todo esse drama não melhorou minha vida, mas me fez ver algumas nuances que, por diversos motivos, sempre tentei ignorar.

Esses sentimentos cuidadosamente escondidos na mais escura das gavetas da memória voltaram à tona com a leitura de um texto autobiográfico de Philip Roth, Patrimônio.

(...) este livro, que, confirmando a falta de decoro de minha profissão, eu vinha escrevendo enquanto ele estava doente e morria, é dolorosamente bem escrito, assustadoramente amoroso. Ao contar os últimos dias de Herman Roth, o filho também descreve um pouco da própria vida, conforme é profetizado em Mortes Imaginárias, o belíssimo livro de Michel Schneider: o escritor é alguém que passa a vida a morrer, nas frases longas e nas palavras curtas.

Infelizmente, com frases curtas e palavras longas não é possível descrever as idiossincrasias de um homem lúcido e teimoso. Como se dizia em outros tempos, Herman foi uma figurinha carimbada. Entre dezenas de cenas divertidas, Philip conta que o seu pai, depois da morte da esposa, mudou−se para um conjunto residencial para idosos e não encontrara dificuldades em convencer as viúvas ricas do prédio (...) que acabara de fazer setenta anos, embora toda a família houvesse se reunido no verão anterior em minha casa de Connecticut para comemorar seus oitenta anos.

Aos 86 anos de idade, cheio de forças para continuar a diversão, Herman descobre que tem um tumor cerebral – que não tarda a se manifestar fisicamente. Em nenhum momento o doente se deixa esmagar pelo horror, embora esteja ciente de que não conseguirá escapar do abatedouro. O que pede é mais algum tempo de vida. Para poder usufruir dessa migalha, aceita o martírio que se estende por salas de espera de consultórios médicos, exames dolorosos e diagnósticos contraditórios. Philip o acompanha em quase tudo. E sofre junto. Sandy, o irmão mais velho, que mora longe, também compartilha do martírio.

A morte do pai é, guardada as devidas proporções, a comprovação de que ninguém está preparado para a perda. Seguindo uma tradição familiar, assim como Herman fez com o seu pai, Sender, Philip fez com Herman. Acompanha a chegada da morte. Sentado ao lado da cama de hospital, aguarda o desfecho inevitável.

O episódio relativo à tigela de barbear de Sender Roth, que Philip pede para Herman como herança familiar, estabelece a ligação atávica entre as gerações. Infelizmente, esse ritual de transmissão do conhecimento e da amizade familiar nunca mais se repetirá. Philip não tem filhos. Somente os filhos de Sandy é que poderão ter esse prazer. De qualquer forma, é um momento impar, onde o pai e o filho se reconhecem como cúmplices e participes da aventura humana.

Mas, a verdadeira revelação, aquele ponto que determina o andamento inexorável da degradação existencial, é muito mais desagradável. Como conseqüência de uma biópsia, Herman passa algum tempo com prisão de ventre. Durante um almoço familiar, Herman se retira abruptamente da mesa. Philip, logo depois, vai procurar pelo pai e o encontra imerso na imundície. Deplorável o corpo do pai, o banheiro sujo, a merda contaminando tudo. Com paciência, o filho acalma o pai, diz que não aconteceu nada importante e o leva para debaixo do chuveiro.

Herman fica no quarto, vestido com roupas limpas e em estado de vergonha infinita. Philip volta ao banheiro e termina a faxina. Nesse momento, como um insight inoportuno, descobre a chave para o entendimento:

Levei a fronha fedorenta para baixo e a pus num saco de lixo preto que fechei bem fechado, jogando−o no porta−malas do carro para deixar mais tarde na lavanderia. E, agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá−lo simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizava nada, porque era nada mais, nada menos do que a realidade existencial nua e crua.
Ali estava o meu patrimônio: não era o dinheiro, não os tefilins, não a tigela de barbear, mas a merda.



P.S.: Para quem tem interesse em narrativas relacionadas com a decadência física dos pais, narradas pelos olhos dos filhos, imperdível é O Lugar Escuro, de Heloisa Seixas, que narra a história de sua mãe, vítima do mal de Alzheimer.


TRECHO ESCOLHIDO

Pedi ao médico que me deixasse a sós com meu pai, ou tão a sós quanto era possível em meio à azáfama da sala de emergência. Sentado ali e observando o seu combate para continuar a viver, tentei me concentrar no que seu tumor já lhe causara. Isso não era difícil, porque naquela maca ele parecia ter lutado cem assaltos com Joe Louis. Pensei nos horrores que inevitavelmente viriam pela frente, mesmo supondo que ele pudesse ser mantido vivo num pulmão de aço. Vi tudo, tudo, e mesmo assim tive de continuar sentado lá por um longo tempo antes de chegar o mais perto dele que pude e, com os lábios quase tocando o seu rosto encovado e arruinado, finalmente encontrar forças para sussurrar: Papai, vou ter que deixar você ir embora. Ele já estava inconsciente havia horas e era incapaz de me ouvir, mas, em choque, aturdido, chorando, repeti aquilo muitas e muitas vezes até eu mesmo acreditar no que dizia.

Depois disso, só me restou seguir sua maca até o quarto onde o puseram e me sentar ao lado da cama. Morrer dá trabalho, e ele era um trabalhador. Morrer é pavoroso, e papai estava morrendo. Peguei sua mão, que ao menos eu ainda sentia como sendo sua mão, afaguei sua testa, que ao menos ainda parecia ser sua testa, e lhe disse todo o tipo de coisas que ele não podia mais registrar. Por sorte, de tudo que eu lhe disse nessa manhã, nada havia que ele já não soubesse.



Por ordem cronológica, os três homens da casa: Herman, Sandy e Philip Roth

3 comentários:

  1. Belíssimo, Raul. Tenho pais idosos e , de vez enquando, passo por situações que me levam a um estado de quase loucura. Mas reflito e agradeço por eles estarem vivos e bem. Ouvi uma vez uma frase - dessas que são ditas por tanta gente que nem lembramos quem foi mesmo o primeiro , o grande gênio, a criá-la: Amar dá trabalho. Acho isso ótimo. Acho que os pais tem uma amor incondicional pelos filhos que, infelizmente, às vezes, é pouco compreendido por nós, filhos. Acho que tive esse momento também. Acho que tudo mudou quando me tornei pai também.

    Grande abraço!

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  2. Olá Raul!
    Chegando para ler seu blog e comentar.
    Saudações literárias,
    Bruna.

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  3. Raul,tenho evitado as leituras do tema, mas um dia lerei. Sincronicidade? Talvez: hoje foi dia de lembrar.
    Um abraço,

    Myrian.

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