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quarta-feira, 2 de maio de 2012

ISAAC BABEL (1894−1940)

Durante a leitura do primeiro capítulo de Os Possessos (aventuras com os livros russos e seus leitores), maravilhoso texto (que mistura autobiografia e teoria da literatura) escrito por Elif Batuman, alguma gaveta mnemônica se abriu. Muitos anos atrás fui alvo da generosidade de Paulo Ramos Derengoski. O jornalista e escritor catarinense, ao longo de nossa amizade, me presenteou com vários livros. Um desses momentos singulares envolve exemplar de Cavalaria Vermelha, de Isaac Emmanouilovitch Babel. Não me lembro do que fiz para merecer o livro. Recordo que foi uma leitura complicada. Primeiro, porque é uma edição portuguesa – o vocabulário, em muitos momentos, exige consultar dicionário. Segundo, na primeira leitura não entendi direito os contos. Terceiro, Babel é um escritor único, muito acima da média, e que é quase desconhecido no Brasil.

Retirei o livro da estante. Edição de 1967, tradução de Armando Pereira da Silva. Foi impresso em papel rústico, grosso, quase papelão. A encadernação somente foi aparada no topo. As laterais ainda estavam fechadas quando o primeiro leitor arrebentou as páginas com espátula, o que causou danos irreparáveis ao volume. Como é comum no trabalho tipográfico mais antigo, apresenta poucos erros ("gatos") – um pecado que qualquer editor se recusa a aceitar em seus livros.

Isaac Emmanouilovitch Babel nasceu em Odessa (Ucrânia) e era filho de comerciante judeu. Estudou ciências sociais. Seus primeiros contos foram publicados em 1909 – o que serviu de base para um conselho de Máximo Gorki: abandonar a literatura por algum tempo e conhecer melhor a vida. Durante a revolução russa de 1917, serviu o exército ao lado dos comunistas. Homem de vida amorosa bastante tumultuada teve inúmeras amantes e duas filhas: Nathalia (com esposa, Yevgenia Gronfein) e Lidia (fruto de um relacionamento com Antonina Pirojkova). Em 1927, publicou Cavalaria Vermelha. Ao lado da fama, a desgraça. O número de inimigos multiplicou−se exponencialmente. Apesar de ser protegido por Gorky, recebeu críticas ásperas do General (alguns anos depois, Marechal e Vice−Comissário para a Defesa) Semion Mikhailovitch Boudienny (que é citado diversas vezes no livro). O protestou foi motivado pela forma com que a vida corriqueira dos militares foi retratada. Faltou grandiosidade, faltou heroicidade. Sobrou humanidade (e descrições sobre a iniqüidade humana). Não era isso o proposto pela propaganda ideológica e pelo realismo socialista (que procuravam exaltar as qualidades do povo soviético e, acintosamente, esconder os defeitos). Não bastasse isso, ainda houve o incidente envolvendo o drama teatral Maria, encenado em 1935. Diversos dirigentes políticos ficaram irritados com a peça. A reação foi imediata. A NKVD (organização político−militar anterior a KGB) impediu a apresentação do espetáculo e solicitou que nunca mais fosse encenado.

Quando Gorky morreu em 1936, o mundo literário russo se surpreendeu ao perceber que Babel tinha mais fôlego do que se imaginava: conseguiu sobreviver ao Grande Expurgo de 1937−1938. No entanto, essa sensação de intocabilidade desapareceu em 1939. Depois de varias sessões de tortura, na prisão Lubyanka, em Moscou, confessou que participava de uma rede de espionagem contra o Estado Soviético. Seu nome foi removido das enciclopédias e dos dicionários literários. Segundo a versão oficial, morreu em um Gulag, em 1941. Estudos mais recentes indicam que foi fuzilado no porão da Lubyanka, em janeiro de 1940.

Em 1954, durante o governo Khrushchev, todos os "crimes" de Babel foram revistos. Foi absolvido das acusações e reintegrado ao panteão dos grandes escritores russos.

O realismo cruel, sem reservas, de Isaac Emmanouilovitch Babel foi visivelmente influenciado pelas preocupações sociais e pela literatura francesa (Maupassant, Flaubert). Tinha predileção pela miséria humana (como Gorky costumava dizer). E isso não era exatamente uma virtude naqueles tempos de homens sombrios.

Cavalaria Vermelha é um livro bélico. E, por extensão, trágico. De uma forma ou de outra, todas as páginas estão manchadas com o sangue dos soldados que combateram na frente polonesa, durante a guerra civil que se seguiu à deposição do Czar Nicolau II. Homens e mulheres foram arrastados por um turbilhão de ódio e insensatez. E isso significa que a atmosfera narrativa está composta por ingredientes pouco louváveis: crueldade, fome, morte e solidão.

As 34 histórias curtas que constituem Cavalaria Vermelha não são fáceis de ler. A linguagem áspera, sem sofisticação, parece emperrar no meio das frases. Os parágrafos (como se fossem escritos por homens com as mãos esfoladas, que se dedicam a cantar a vida nova, numa prosa nada ordinária...) estão repletos de cenas onde o som das metralhadoras e o tropel dos cavalos se confundem com um lirismo deslocado: Sobre a cidade vagabundeava uma lua sem asilo. Eu caminhava com ela, reacendendo em mim sonhos irrealizáveis, cânticos discordantes.

Isaac Emmanouilovitch Babel ficou marcado por ser frontalmente contrária ao autoritarismo estatal. Essa postura custou-lhe a vida, mas produziu uma literatura vigorosa, visceral. E, embora pareça paradoxal, atualíssima.


(Trecho de A Morte de Dolgouchov, conto de Cavalaria Vermelha)

O homem sentado à beira da estrada era Dolgouchov, o telefonista. Pernas afastadas, olha−nos abertamente nos olhos.
− Eu – disse ele, à medida que nos aproximávamos − eis−me... Estou pronto... Compreendido?
− Compreendido – respondeu Grichtchouk, parando os cavalos.
− Têm que gastar... um cartucho... para mim... – disse Dolgouchov num tom severo.
Estava sentado, encostado em uma árvore. As suas botas estendiam−se separadamente. Com os olhos obstinadamente fixos em mim, levantou com cuidado a sua camisa. Com o ventre aberto, as tripas tinham−se desenrolado nos seus joelhos e eu via nitidamente o bater do seu coração.
(...)
− Não – disse eu, numa voz surda, e esporeei o meu cavalo.
(...)
Um suor frio corria pelo meu corpo. As metralhadoras ouviam−se cada vez mais rápidas, com uma teimosia histérica. Perto de nós, nimbado de sol poente, galopava Afonka Bida.
− Damos−lhes uma coça – gritou alegremente. – Que feira é esta, aqui?
Indiquei Dolgouchov e afastei−me.
Falaram muito brevemente, não ouvi as palavras. Dolgouchov estendeu o seu livrete ao chefe de pelotão. Afonka enfiou o documento no bornal, depois deu um tiro de revolver na boca de Dolgouchov.
− Afonka – disse eu com um sorriso piedoso, aproximando−me dele – eu, sabes, não pude...
− Desaparece! – disse ele, empalidecendo – ou mato−te. Vocês, de óculos, vocês têm piedade dos nossos irmãos... como um gato tem do rato!...
Armava ainda o seu revolver.
Afastei−me a passo, sem me voltar, sentindo nas minhas costas o frio da morte.
− Eh, tu – gritou Grichtchouk atrás de nós – tu és louco!... – E agarrava Afonka pelo braço.
− Sangue de patife! – grunhia Afonka – não me escaparás!...
Grichtchouk alcançou−me num instante. O chefe do pelotão partira noutra direcção.
− Vês, Grichtchouk, perdi hoje Afonka, o meu primeiro amigo.
Grichtchouk tirou de baixo do seu assento uma maçã raiada.
− Come − disse−me – come, se te apetece.
Aceitei a oferta de Grichtchouk e comi a maçã, com tristeza e piedade.

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