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sexta-feira, 18 de maio de 2012

DINHEIRO QUEIMADO, DE RICARDO PIGLIA

Alguns livros iluminam os olhos e a mente do leitor. E, simultaneamente, revelam o gosto amargo da vida. Dinheiro Queimado (Plata Quemada), romance escrito por Ricardo Piglia, é um exemplo.

Edificado na fronteira intangível entre a ficção e a realidade mais crua, Dinheiro Queimado revela aspectos e espectros da crueldade humana como se fosse um espelho desconfortável, um refletor das sujeiras e iniqüidades que o ser humano gostaria de esconder debaixo do tapete.

Tendo como base um fato real, um assalto a banco em San Fernando, província de Buenos Aires, em 1965, Piglia escreveu um romance vertiginoso, daqueles que se lê de um fôlego só, como se fosse uma aventura ou um thriller.

O assalto foi realizado com relativo sucesso. O início da tragédia veio depois, quando os integrantes da quadrilha liderada por Enrique Mario Malino resolvem que não vão dividir o dinheiro do roubo com os informantes, com os políticos corruptos e, sobretudo, com a polícia. Essa atitude (que constitui uma evidente infração ao código de honra da bandidagem) resulta em perseguição implacável a todos os participantes do assalto (e aos que os ajudaram).

Quarenta dias depois, os três últimos fugitivos são encurralados em um insólito apartamento de Montevidéu, Uruguai. O quarto sobrevivente, Malino, desaparece sem deixar rastro.

Durante umas quinze horas eles ensaiam a resistência. Contra trezentos policiais uruguaios (e alguns argentinos), Nene Brignone, Gaúcho Doda e Corvo Meireles escrevem com sangue a palavra luta.

Dinheiro Queimado é a reconstrução dessa história. Ricardo Piglia que leu sobre o assalto na época em que ocorreu. Depois se ocupou de outras coisas e acabou esquecendo o assunto. Um dia, em abril de 1966, conheceu Blanca Galeano, a namorada de Corvo Meireles. A garota, com uma linguagem que soava hostil, como costuma soar a linguagem quando e usada para contar uma derrota, fez um relato dos acontecimentos (ou, pelo menos, do que imaginava ter acontecido). Piglia se sentiu contagiado. Escreveu uma primeira versão da história. Não gostou muito do resultado. Por isso, o manuscrito ficou guardado durante muito tempo. No verão de 1995, durante uma mudança, Piglia encontrou o texto original e, conforme ele mesmo conta no Epílogo de Dinheiro Queimado: Essa distância (mais de trinta anos) me ajudou a trabalhar a história como se se tratasse de um sonho. Reescreveu tudo, procurando ser fiel aos acontecimentos. Quando não pude comprovar os fatos em fontes diretas, preferi omitir, explica.

O título do livro faz referência a um dos momentos cruciais da história (ver trecho abaixo). Acossados no apartamento, os três assaltantes, sem perspectivas ou esperanças, decidem vender caro suas vidas. Para eles, a rendição é pior do que a morte (e mofar em uma cela de prisão não constitui uma espécie de morte dolorosa?). Por algum mecanismo intelectual difícil de ser compreendido, os ladrões concluem que essa opção está condicionada à quebra dos laços sócio−econômicos que os levaram até aquela situação.

Trocando em miúdos: é o dinheiro (cinco milhões de pesos – quinhentos mil dólares) o agente causador de todas as mortes, instrumento da degradação humana e da violência gratuita. Quando começam a queimar as cédulas e a jogar esse papel em chamas pela janela estão decretando (através de um ato anárquico − puro sacrilégio, esbravejam os capitalistas) os ideais de uma liberdade impossível. Desfazer−se do dinheiro não diminui o cerco policial; ao contrário, o intensifica. Ao mesmo tempo, estabelecem conceitualmente o rompimento definitivo entre a loucura e a sanidade. Obviamente, aqueles que queimam dinheiro, consomem barbitúricos e cocaína e resistem à truculência policial mostram mais coerência e racionalidade do que aqueles que confundem justiça com proteção à propriedade burguesa. Queimar dinheiro, nesse contexto, tem o valor filosófico da contestação social – apesar de sua evidente ingenuidade.

Dinheiro Queimado é um livro fantástico. Escrito em ritmo de romance de entretenimento, mas com uma estrutura narrativa da melhor literatura contemporânea, o texto de Ricardo Piglia consegue contar a história de forma linear. O que, em uma leitura despretensiosa, parece ser simples, constitui uma trama extremamente elaborada. A questão do narrador diluído, atuando através de diversas vozes, basta para configurar o nível de complexidade narrativa proposto por Piglia.

Outra qualidade que merece ser destacada é o relato ficcional de acontecimentos reais. Tudo o que está descrito em Dinheiro Queimado aconteceu. Como um arqueólogo, a tarefa de Piglia foi recuperar os fatos e trazê−los à luz. Algo que lembra, guardadas as proporções, um axioma de Walter Benjamim: Nada que um dia aconteceu pode se considerado perdido para a História. Partindo dessa tese, talvez seja essa uma das funções da literatura: juntar, entre as ruínas da civilização, os fragmentos da História e oferecê−los ao leitor como uma narrativa ficcional. Não é uma tese nova. José Saramago, por exemplo, praticou bastante esse expediente.

Uma curiosidade muito interessante: Dinheiro Queimado recebeu o prêmio Planeta de 1997. Muitos dos concorrentes protestaram. Um personagem está sempre presente em todas as narrativas de Ricardo Piglia. É uma espécie de alter−ego. Emílio Renzi também dá o ar da graça em Dinheiro Queimado. As más línguas dizem que... que conceitos fluídos como ética e honestidade perdem um pouco da força quando estão em jogo 40 mil dólares. Conta o folclore que Piglia não gostou desse falatório (e quem gostaria?). Por essas e outras é que, quando foi à Argentina receber o prêmio (na época lecionava literatura em Estados Unidos), alugou uma mansão nos arredores de Buenos Aires e promoveu uma festa imensa, dessas que duram vários dias. Literalmente, queimou o dinheiro.

A versão cinematográfica de Plata Quemada foi dirigida por Marcelo Piñeyro, em 1998.


TRECHO ESCOLHIDO

Depois, a certa altura se soube que os delinqüentes estavam queimando cinco milhões de pesos que lhes restavam do assalto à Prefeitura de San Fernando, de onde, como é sabido, levaram sete milhões.
Começaram a jogar notas de mil em chamas pela janela. Do postigo da cozinha conseguiram que o dinheiro queimado voasse para a quina da parede. Pareciam vagalumes, as notas queimando.
Um murmúrio de indignação fez a multidão rugir.
− Estão queimando.
− Estão queimando o dinheiro.
Se o dinheiro é a única coisa que justificava as mortes e se fizeram o que fizeram por dinheiro e agora o queimam, isso quer dizer que eles não têm moral, nem motivações, que agem e matam gratuitamente, pelo gosto do mal, por pura maldade, são criminosos natos, criminosos insensíveis, desumanos. Indignados, os cidadãos que observavam a cena davam gritos de horror e ódio, como num conciliábulo de bruxos da Idade Média (segundo os jornais), não podiam suportar que diante de seus olhos se queimassem cerca de quinhentos mil dólares numa operação que paralisou de horror a cidade e o País e que durou exatamente quinze intermináveis minutos, que é o tempo que se leva para se queimar essa quantia astronômica de dinheiro, essas notas que por motivos alheios a vontade das autoridades foram destruídas sobre uma placa que no Uruguai se chama "patona" e que é usada para remover a brasa nas grelhas das churrasqueiras. Numa folha de lata "patona" foram queimando o dinheiro e os policiais ficaram imóveis, estupefatos.

Um comentário:

  1. É preciso queimar muitos neurônios para queimar tanto dinheiro. Piglia as vezes funde o cérebro da gente.

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