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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO E O CINEMA


Seja pela vontade de pegar o real pela mão e conduzi-lo até o banco dos réus, seja pela morbidez de quem sente prazer em ver, sentir e alimentar o voyeurismo, foi o cinema – depois da televisão – quem assumiu a responsabilidade imediata de expor publicamente os aspectos macabros resultantes do 11 de setembro. Convictos, segundo Beatriz Jaguaribe, “que nosso acesso ao real e à realidade somente se processa por meio de representações, narrativas e imagens”, a teoria cultural foi povoada por defensores da tese de que o cinema se tornou uma forma de representação impiedosa e absolutamente realista do mundo exterior. Em outras palavras, se transformou em uma das ferramentas mais eficazes para conectar o real, para o relato das minúcias que compõem a trajetória épica da humanidade.

No entendimento de Susan Sontag, “existe [na sociedade norte-americana] uma curva ascendente da violência e do sadismo aceitáveis na cultura de massa: filmes, programas de tevê, quadrinhos, jogos de computador”, além da vontade oportunista e compulsiva de transformar o sofrimento em lucro. Foi em decorrência desse pensamento que surgiram filmes "realistas" (e ruins) como World Trade Center (As Torres Gêmeas, Oliver Stone, 2006) e Flight 93 (Vôo United 93, Paul Greengrass, 2006). Um pouco mais significativos são os documentários Fahrenheit 9/11 (Michael Moore, 2004) e National Geographic: Inside 9/11 (2005). Como não é possível separar a sociedade estadunidense dos musicais, a tragédia do 11 de setembro está retratada em Clear Blue Tuesday (Elizabeth Lucas, 2010).

A filmografia que aborda os aspectos assessórios, secundários ou complementares do 11 de setembro é bastante extensa. Ignorando as barreiras geográficas e culturais, esses trabalhos apresentam diferentes graus de qualidade ou de discussão ideológica: In the valley of Elah (No Vale das Sombras, Paul Haggis, 2007), Rendition (O Suspeito, Gavin Hood, 2007), Lions for lambs (Leões e Cordeiros, Robert Redford, 2007), Incendiary (Incendiário, Sharon Maguire, 2008), Jean Charles (Henrique Goldman, 2009), Green Zone (Paul Greengrass, 2010), The hurt locker (Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow, 2010, Oscar de melhor filme), Essential Killing (Jerzy Skolimowski, 2010), Farewell Baghdad (Mehdi Naderi, 2010) e Fair game (Jogo de poder, Doug Liman, 2010), entre outros.

Transitando entre o andamento ficcional e a discussão política e moral, o espetáculo cinematográfico (exposição iconográfica a 24 quadros por segundo) que está atrelado ao 11 de setembro não está preocupado, em alguns momentos, com diversas questões críticas. Procurando saciar a curiosidade pública, o cinema segue um tipo particular de realismo – cujos alicerces são a verossimilhança e a permuta das grandes narrativas pela exposição patológica da crueldade.

Provavelmente essa abordagem (reatualização dos valores jacobinos, julgamento sumário, recusa da mediação para equacionar conflitos), característica do (pior) cinema de ação, não esteja distante do unilateralismo, da perversidade que é o tentar impor (a qualquer custo) ao Outro o que ao Outro não corresponde.

No jogo político, onde os interesses ideológicos e capitalistas nunca são clarificados adequadamente, onde a farsa substitui compulsivamente o real, imagens também podem ser interpretadas como instrumentos de segregação do real. E isso significa que o cinema também é utilizado, mesmo quando aparenta estar comprometido, como um instrumento alienante. A história do 11 de setembro ainda está em aberto. Faltam muitos elementos para serem esclarecidos. No entanto, qualquer análise crítica precisa considerar que isso somente será possível quando o real e a realidade deixarem de ser substituídos por simulacros, por elementos de compensação − introduzidos no campo de atuação humana por ações pouco convergentes com o real.

Enquanto isso não acontece, para quem está interessado no 11 de setembro, In the valley of Elah (No vale das sombras) e Lions for lambs (Leões e cordeiros) continuam representando o farol que todos precisam ver nessa tempestade em que estamos quase naufragando.

(P. S.: Uma versão mais complexa desse texto integra um longo ensaio que está sendo escrito sobre as relações entre literatura, cinema e 11 de setembro e que deverá, até o final do ano, ser publicado em revista especializada.)

2 comentários:

  1. Não devemos esquecer documentários como "Procedimento operacional padrão", e "Um taxi para a escuridão". Que relatam os desdobramentos do 11 de Setembro sobre as liberdades individuais.Ou seja, como prisão injustificada e a tortura foram instituídas como norma.
    Rafael.

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  2. Esses eu tinha esquecido. Obrigado pela lembrança!

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