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terça-feira, 31 de maio de 2011

RECORDAÇÕES DA RIBALTA (II)

Quando for escrita a história do teatro no Planalto Catarinense, algumas figuras carimbadas se destacarão. Não será possível ignorar a importância de Pe. Ervino Lerner, Mauro Nerbass, Armindo Toigo, Ciro Campos, Leoncir Cardoso Borba, Lota Lotar Cruz, Ivan Cesar Cascaes, Nelson José de Andrade, Alfeu Varela, Marcelo Andrade dos Santos e Ion de Souza, entre outros. Todos, de uma forma ou de outra, contribuíram para que o sonho se concretizasse no palco.

Esse inventário histórico, preocupado com ações pontuais, provavelmente omitirá uma das "personas" mais anárquicas (no bom sentido) que deram o ar da graça nestes confins do Brasil: Carlos Agne.

Nômade por natureza, sempre sorrindo, com um humor de gosto duvidoso, Carlão era o diretor de um único espetáculo: "O macaco e a velha", de Ivo Bender. Sua preocupação maior em cada cidade que morou era a de fundar um novo grupo de teatro – para montar, outra vez, o mesmo espetáculo.

Quando chegou a Lages, lá pelos anos 80, rapidamente se associou ao grupo do SESC. Sem muito esforço, conseguiu impor a sua peça favorita, pois forneceu o cenário, o figurino e a proposta de encenação. Resultado: ganhou o FETEL daquele ano.

Junto com a consagração, Carlão também ganhou alguns desafetos. No entender de algumas pessoas, ele falava demais, aumentava algumas histórias e os seus amigos mais íntimos não constituíam exatamente a fina flor da sociedade. Preconceitos a parte, o descrédito o acompanhava.

Certa vez, assim como quem não quer nada (mas sonha em fica com tudo), interrompeu uma reunião da Associação Lageana de Teatro Amador (ALTA) e fez uma proposta. Parte significativa da comunidade teatral considerou aquele momento como a gota d’água que faz transbordar o copo. Definitivamente, o cara era maluco! Quem é que poderia acreditar que ele era amigo de... Carlos Vereza?

Apesar disso, por alguma razão difícil de explicar, houve quem "comprasse" a idéia. Naquela época o Diretor do Departamento de Cultura era o Ricardo Almeida Varela, que, depois de consultar o Prefeito, prometeu, a contragosto, o apoio indispensável. Cético, não tinha muita fé na vinda do grande ator – que vivia, naquele momento, uma fase áurea: "Memórias do Cárcere" ainda estava em exibição nos melhores cinemas do país.

Apesar da ênfase com que Carlão defendia a amizade com Vereza, ninguém acreditava que o ator global pudesse interromper seus afazeres e vir passar três dias no interior de Santa Catarina.

Os últimos dias foram de pura tensão. Carlão insistia que Vereza estava chegando: "Olha, ele me telefonou ontem...". O pessoal da ALTA sorria amarelo e desconversava. Carlão estava completamente desacreditado.

Na data marcada, um pequeno grupo se reuniu para recepcionar o artista global. Quer dizer, mais da metade queria era ver o Carlão "quebrar a cara".

No aeroporto, quando o avião pousou, fez−se um silêncio assustador − que só foi rompido quando a porta da aeronave se abriu e, lá de dentro, uma voz gritou:

− Carlão, meu velho amigo, que prazer te reencontrar!!!

Para surpresa geral, Vereza, em carne e osso, desceu a escadinha e abraçou Carlos Agne com imenso carinho. Foi a consagração! Naquele momento, algumas pessoas queriam carregar Carlão nos ombros, como se ele fosse o protagonista daquela comédia.

Imediatamente formou−se uma caravana, que – de acordo com grotesca tradição provinciana − desfilou pelas ruas da cidade fazendo o maior estardalhaço. Parecia que todos desejavam se redimir do pecado da descrença. Ninguém dispensou autógrafo e fotografia ao lado dos dois grandes astros!

Durante três intensos dias, Vereza desmistificou idéias e comportamentos. Sem frescuras, tomou cachaça em balcão de boteco, foi a diversos churrascos, dançou, cantou e encantou. Diante de mais de 500 pessoas falou sobre a magia do teatro: foi aplaudido de pé. O mais chocante (em vários sentidos) dessa história, foi o não cansar de chamar Carlos Agne de "meu grande amigo".

Algum tempo depois de Vereza ter ido embora, Carlão também tomou o seu rumo. Por certo foi montar "O macaco e a velha" em outra paróquia. De qualquer forma, deixou saudades.

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P.S: Foto cedida por Telmo Mendonça Matos, que está em primeiro plano, ajoelhado, ao lado de Hermelino de Arruda Neto (com um copo na mão). Carlos Agne, que tinha um visual "Belchior, está em pé, ao lado de Carlos Vereza.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AULA DE HISTÓRIA (farsa em três atos)

ATO 1

Início de março. Final da tarde. Eram cinco, tinham entre 18 e 20 anos, e estavam sem um centavo no bolso. Mais do que isso, estavam entediados.

A voz de Ramiro iluminou a escuridão:

− Lá no colégio está cheio de gatinha carente! Cada uma mais gostosa que a outra! Vou prá aula!

E deu uma piscada cafajeste, como se estivesse compartilhando com os amigos o mapa do tesouro. No princípio, ninguém entendeu exatamente o que estava recebendo. Rubens foi o primeiro a reagir:

−Cê tá é loco! Eu passei a vida toda fugindo da escola e agora me aparece um idiota propondo ir à aula. E sem precisar. Ridículo! E, quer saber de uma coisa, mulher eu arranjo a hora que quiser!

As gargalhadas foram ouvidas na outra quadra. Depois do ponta−pé na bunda fornecido por Marianinha, nem gripe o coitado conseguia "pegar".

Ramiro insistiu:

− Semana passada, uma lourinha, aquela loucura de sempre. Foi bom. Preciso contar os detalhes? Coisa fina! Ela está me esperando, lá no portão do colégio. Tô indo. Um abraço pra quem fica!

Menos de cinco passos e os outros já estavam ao seu lado. Rubens ainda tentou reverter a situação:

− Você falou em assistir aula? E se nos pegarem? Já imaginou o escândalo? E a chamada? E se os nossos nomes não estiverem na chamada? Meu pai vai ficar furioso!

− Covarde! Medroso! Seguinte: o ano escolar está começando, as listas de chamada ainda não estão prontas, qualquer coisa a gente diz que vai até a secretaria resolver o assunto. E, fazer o quê?, não volta mais. Relaxe. Pense no mais importante: as gatinhas! Um monte delas!! E todas a perigo!! Nós vamos salvá−las da solidão. Seremos, por assim dizer, príncipes modernos!!

− Não dá pra acreditar, você enlouqueceu de vez. Acho que essa tua mania de só pensar em sexo ainda vai te trazer grandes complicações

− Tudo bem! Ou você cala a boca e vai conosco ou... sei lá, fica na mão. Escolha de uma vez e pare de encher o saco!

Depois disso ninguém mais abriu o bico para contestar o óbvio.


ATO 2

Na frente do colégio, Ramiro encontrou a tal lourinha e... desapareceu.

Quando soou o sinal de entrada das aulas, os outros, quase por inércia, entraram nas salas de aula. Dois seguiram um ruiva escultural que entrou na sala da direita, os outros resolveram tentar a sorte em outra sala. Foi lá que tudo aconteceu.

Estavam na fase de reconhecimento do "material humano" quando o professor entrou na sala e cumprimentou uma "fofinha" sentada na primeira fila. Depois,0 inspecionou a tropa, digo, os alunos. Ao ver Marcelo e Gabriel, imediatamente suspeitou de alguma coisa, não era comum ter alunos tão bem alimentados no período noturno. Sem o caderno de chamada, nada pode fazer.

A aula era sobre a Revolução Francesa e ele escreveu errado uma das datas.

− Fessor, Danton "perdeu a cabeça" em 1794. Cê errô!

− O quê?

− Tá errado o que cê escreveu no quadro!

Alguma coisa estava errada, não havia dúvida. Além da data, é claro.

− Não me lembro de ter te visto antes. Você é aluno novo?

− Fessor, quequéisso, tá na defensiva? Tô dizendo que você cometeu um equívoco, acho que foi um equívoco, e cê, em lugar de corrigir o erro, pede os meus documentos, como se fosse um meganha?

Lá na frente, a "fofinha" cruzou as pernas, mostrando o quanto a natureza era generosa.

− Meganha? Epa! Aluno meu não usa esse tipo de expressão. De onde é que você surgiu?

Na maior cara−de−pau, Gabriel mostrou que tinha um ás na manga:

− Meu pai é militar. Foi transferido e a família teve que vir morar nesse fim de mundo.

− Sei... E o senhor, pelo visto, sabe tudo sobre a Revolução Francesa, não é mesmo?

− Só o suficiente, sabe como é que é, pro gasto.

− Sei...

− Qué isso, fessor? Num queria tumultuar a aula.

− Está bem. Vamos em frente.

O resto da aula foi aquela tensão: os alunos torcendo para Gabriel interromper o professor, acusando um novo erro; o professor, rezando para que não ocorresse outro incidente.

Depois do intervalo, quando o professor voltou para a sala, faltavam três alunos: Marcelo, Gabriel e a "fofinha".


ATO 3

Alguns dias depois, Gabriel procurou pelo professor. Explicou a brincadeira. Pediu desculpas. E agradeceu. Estava namorando a "fofinha".

sexta-feira, 27 de maio de 2011

BANALIDADES COLOQUIAIS

− Como vai?

− Mal.

Seja por medo dos fantasmas que se escondem na vida alheia, seja por absoluta falta de compromisso com o coletivo, ninguém está preparado para a sinceridade ou para ajudar nas questões intimas. Diante da "educada" pergunta "Como vai?" (que é uma espécie de "foda−se", sem precisar pronunciar o palavrão), ninguém espera outra resposta senão "Tudo bem". Diante de qualquer alternativa que não seja a protocolar, o caos se instala.

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O Brasil foi invadido pelos diminutivos. Tudo é "inho". Um minutinho, um pastelzinho, um cafezinho. Não importa a circunstância ou o assunto, é impossível escapar da infantilização. Esse fenômeno, difícil de definir, talvez esteja relacionado com a necessidade inconsciente de diminuir tudo o que não está sob controle, talvez seja apenas um ponto de fuga no cenário da molecagem que nos caracteriza. Muitas vezes constitui uma tentativa tola de criar alguma forma de (falsa) intimidade. Em outras ocasiões, é apenas um vício de linguagem – desses que acompanham as temporadas de moda. No próximo verão, outra bobagem o substituirá.

− E se fosse à vistinha?, perguntou, ao telefone, a funcionária de uma operadora telefônica. Pouco importa se a conversa versava sobre prazos ou pagamentos na ocasião da compra, o que está errado na frase é a falta de visão lingüística, que não percebe a extensão do ridículo.

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Em algumas lojas, o senso de propriedade confunde o público com o privado. Muitas(os) funcionárias(os) utilizam expressões complicadas: "Não tenho no estoque", "meu computador está estragado". Diante da ausência de senso critico, esse tipo de construção frasal concorda que o estoque não é da loja e sim do empregado e que o computador não é um instrumento de trabalho coletivo, é de uso pessoal e intransferível.

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No país em que todos erram todas as concordâncias e "engolem" os "erres" e "esses", os mal−informados (aproveitando o que imaginam ser um equívoco do governo federal) não param de discutir (como se fossem especialistas!) as diferenças entre norma culta e linguagem coloquial. A mediocridade não para de assustar.

Silenciosamente, apoiado por essa classe media pretensiosa (que não sabe ler e escrever) o verdadeiro inimigo está idiotizando a todos. Entre milhares de exemplos, palavras adequadas para o exercício da comunicação como "apagar", "jogos" e "camiseta" foram substituídas por "deletar", "games" e "t−shirt". Disso ninguém reclama. Também não incomoda o barbarismo que é traduzir algumas expressões pela metade ("top dez") ou aceitar como legítimo esse horror: "Vamos estar indo disponibilizar sua solicitação", que não passa de tradução ridícula de uma estrutura frasal que funciona em inglês, mas que, em português, necessita de correção no tempo verbal

Absurdos como "elencou" ou "alavancou" deveriam motivar discursos indignados no Congresso Nacional, mas isso jamais acontecerá. Provavelmente, alguma "sale" embotou a inteligência, quem é que consegue resistir a essas delícias que são os "60% off"?

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No meio da conversa, alguém diz: "Sucesso. De verdade". "De verdade?". Não há lógica em desejar sucesso "de mentira" − nem mesmo como ironia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

APAIXONADO

Alguns anos atrás, em uma de suas crônicas, Danuza Leão fez uma dessas perguntas que incomodam: "Há quanto tempo você não ouve alguém declarar, com todas as letras, que está perdidamente apaixonado?"

Passo em revista, mentalmente, a vida de meus amigos. Todos eles, em algum momento, estiveram casados, tiveram filhos, se separaram. Alguns casaram outra vez, tiveram outros filhos, mas... Qual deles esteve – ou está – apaixonado? Não sei. Provavelmente nunca saberei. Homens não confessam para outros homens suas fraquezas.

Outro lado da questão: tive um amigo que não suportava viver sozinho. Casou várias vezes. Umas quatro ou cinco. Toda vez que o calor abrasador da paixão se transformava em cinzas, dava a volta por cima e ia à luta. Não se constrangia em procurar, outra vez, pela felicidade (ou algo que suprisse a solidão). Aonde? Ora, para essas coisas não existem "receitas de bolo" – e é isso que dá sentido à procura.

E o que pensam do assunto minhas amigas? Amigas? Desculpem−me, mas tenho poucas "amigas". Somente depois dos 40 anos é que considerei as mulheres do ponto de vista da amizade. Não sabia o que estava perdendo. Minha educação sentimental (até aquele momento) era puro preconceito masculino: homens e mulheres só são amigos quando os homens não "gostam" de mulheres.

As mulheres são melhores interlocutoras do que os homens. Principalmente nesses assuntos espinhosos, constrangedores, que são as relações afetivas. Costumam pensar com o coração – e não se abalam com isso. Sabem que o amor não é (nunca foi) um privilégio dos adolescentes, não é um território hormonal. Sabem que a capacidade de negar esse sentimento é a incapacidade de ter sentimentos.

Mesmo assim, há um bloqueio. No mundo em que vivemos, onde o ego está alguns degraus acima dos valores coletivos, compartilhar é phoda. E, como se não bastasse, há o grande impasse: o medo de que elas, as mulheres, exponham a fragilidade masculina, oferecendo alguma resposta à pergunta formulada no primeiro parágrafo.

A minha experiência pessoal nesse tema é ridícula. Mas como entrei nesse labirinto por livre e espontânea vontade, como estou a desenrolar o fio de Ariadne, nada mais me resta senão "pagar o mico". Em determinado momento de minha vida, estive intensamente apaixonado – não estou mais. Acabou. Como naquele poema de Vinicius de Moraes, posto que fosse chama, foi infinito enquanto durou.

A pergunta feita pela Danuza Leão ainda é uma incógnita. O que será que está faltando? O que será que os homens e as mulheres estão tentando esconder? Como uma pergunta não deve ser respondida com outra(s) pergunta(s), só resta lembrar – e concordar com – a resposta que a cronista dá à própria pergunta: "faz séculos que não ouço alguém declarar, com todas as letras, que está perdidamente apaixonado".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A GENIALIDADE DE MALINVERNI FILHO


Traço inimitável, domínio absoluto das cores, perfeição técnica. A soma dessas características define a pintura de Agostinho Malinverni Filho (1913−1971).

Admiradores mais entusiasmados, não satisfeitos em o considerarem um dos mais importantes artistas plásticos de Santa Catarina, ainda o avaliam como extraordinário interprete das paisagens regionais do sul do Brasil.

Alguns de "seus" pinheiros são considerados como exemplos mágicos de uma arte que vai desaparecendo continuamente, em virtude dos avanços tecnológicos: a pintura.

Mesmo assim, ciente de que a modernidade, assim como os deuses gregos, devora os seus filhos, Malinverni Filho soube resistir às adversidades e legar ao mundo suas obras de incomparável beleza e técnica. 

Suas telas transmitem prazer estético raro, fruto da tentativa fugaz de compartilhar com o espectador a emoção sugerida pela imagem retratada. Exemplar, nesse sentido, é o quadro Flamboyant. A explosão outonal de cores, visível no contraste entre os tons avermelhados com o verde−azulado e o amarelo desbotado, fornece o necessário equilíbrio para a composição, iluminando o passeio visual do espectador. O bucolismo espacial, em uma paisagem que parece bastar em si mesma, é rompido pelo barquinho, que providencialmente parece estar esperando por alguém. E é exatamente esse detalhe que instiga o romper com as estruturas do imaginário e – conseqüentemente − o integrar−se à paisagem.

Com A biblioteca de Rui Barbosa, Malinverni Filho comprova (ao contrário do que alegavam alguns de seus detratores) que também sabia trabalhar interiores. O uso de cores terrosas multiplica a riqueza dos detalhes do mundo intelectual, lapidado com a precisão de um ourives. Diante de tamanho realismo, ampliado pela luz que entra na sala (pelas janelas, pela porta), não seria absurdo imaginar que, em determinado momento, a imagem estática vai ganhar movimento. E isso acontecerá no momento em que Rui Barbosa entrar na ambiente e, com ajuda da pequena escada, estrategicamente colocada no meio da biblioteca, iniciar a procura por algum livro, no alto de uma das estantes.

Em Rua Taylor, uma pintura de juventude (1936), premiada pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, o artista se esmera em contextualizar a perfeita simbiose entre a natureza e o ambiente urbano, entre a rua e o morro, entre o verde das árvores e o ocre dos casarios. Retrato harmônico e delicado de uma parte do universo carioca (e que não existe mais, exceto na memória pictórica produzida pela arte).

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Agostinho Malinverni Filho nasceu em 16 de fevereiro de 1913, em Lages, Santa Catarina, e faleceu em 14 de janeiro de 1971, na mesma cidade.

Desde criança manifestou vocação artística. Com giz desenhava figuras em calçadas e paredes. Com ajuda de seu pai (que também era artista plástico) aprendeu as lições elementares de desenho e pintura. Aos 15 anos, em Florianópolis, venceu um concurso de desenho para estudantes. Em 1934, ganhou uma bolsa do governo catarinense para estudar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Aluno brilhante encantou a comunidade artística carioca, como comprova a exposição realizada no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, em 1946.

Regressou ao Planalto Catarinense em 1947, tendo em mente uma utopia: a Escola de Belas Artes Agostinho Malinverni, a primeira de Santa Catarina. A falta de apoio (financeiro, principalmente) fez com que o artista, quatro meses depois, ao se referir sobre a grande motivação de sua vida, comentasse amargo: Não vai mais funcionar. Eu fechei a escola e joguei a chave fora.

Independente desse percalço, a produção artística de Malinverni Filho foi intensa (pinturas a óleo, esculturas, desenhos).

Parte significativa de seus trabalhos integra o acervo do Museu Malinverni Filho, fundado em 25 de maio de 1986, e que está instalado na casa onde nasceu, viveu e morreu o artista. Além disso, o museu abriga ferramentas de trabalho, documentos pessoais, réplicas das esculturas, farto material iconográfico (fotografias, principalmente) e muitos objetos de uso pessoal. Pincéis e palhetas também estão expostos à visitação. Para os pesquisadores há muitos documentos, abrangendo desde as primeiras críticas sobre o trabalho de Malinverni Filho até vários originais (esboços, poemas, cartas, etc.).

terça-feira, 24 de maio de 2011

BETÃO DA PENHA E OS VALORES CULTURAIS

−Meu fio, nessa vida vancê só presta pra duas coisa: dançá chula i criá increnca!

Em tom de desabafo, as palavras do viúvo Honório da Silva, pai de Adalberto Medeiros Silva, eram a mais pura verdade. O rapaz tinha "bicho carpinteiro", não parava quieto. E adorava uma confusão, principalmente em baile.

O velho Honório, na companhia do grande causídico de porta de cadeira, "Dotô" Sandoval, cansou de atravessar as madrugadas tentando convencer o sub−delegado que seu filho era bom rapaz.

Depois, quando estavam em casa, repetia a velha ladainha:

− Esse guri já mi dexô di cabelo branco, qué mi matá di veiz!

Se foi pelos incômodos causados pelo filho ou pelo excesso de cachaça ninguém sabe, mas um dia o velho "capotou" na estrada da vida e foi gauderiar na pampa do além.

Órfão, Adalberto resolveu morar na cidade.

Alguns vizinhos tentaram fazer o rapaz mudar de idéia. A todos, ele respondia:

− Um homi pricisa errá prá ‘prendê. S’incomódi não, si num dé certo, eu vórto. Eu vórto prá róça, que nunca fui di injeitá trabaio.

Vendeu o sítio por uma ninharia, pagou as contas, se despediu dos amigos e embarcou no ônibus. Pediu pouso na casa de tia Ernestina, que morava no bairro da Penha.

Dez minutos depois de ter chegado e "midindo" a prima Jurema de cima até embaixo, teve a certeza de que a vida estava melhorando. Dito e feito. Foi no capãozinho dos fundos da casa, uns dois dias depois, que uis e ais se confundiram com juramentos de amor.

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No início da nova vida, Adalberto marcou posto nas proximidades do bar Gre−nal. Encostado em um poste, sem camisa, medalhinha de ouro do Sagrado Coração de Jesus no pescoço, palito nos dentes, uma das pernas da bombacha arregaçada e o chinelo de dedos mostrando as unhas encravadas, foi mapeando o terreno, descobrindo onde morava a lourinha, a que horas o marido de Ângela voltava do trabalho, essas pequenas preciosidade que fazem a diferença.

Às vezes aceitava algum trabalho e ajudava na descarga dos caminhões no depósito do supermercado. Coisa pouca, que era para não cansar o corpo e o espírito.

Forte, simpático e bom de briga, passou a ser chamado, pelos amigos, de Betão da Penha.

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Uns dois meses depois, no CTG "Potro Xucro", Betão da Penha venceu o concurso de chula − classificatório para o Rodeio da Vacaria.
Mais importante que o prêmio em dinheiro, foi o rodízio de namoradas que promoveu com as moças que integravam a invernada artística – não escapou uma!

Na Vacaria, Betão chegou, competiu e venceu – na chula e na doma de cavalo!

− Inda tá prá nascê o potro qui mi vai fazê cume puera!

Tamanho sucesso garantiu várias homenagens. O burgomestre e os edis fizeram questão de cumprimentar o herói. Foi aí que aconteceu a desgraça.

Em sessão especial do parlamento provincial, D. Elizabeth Macarrônica Alvarenga Silva Gomide Azevedo, que respondia informalmente (pura philantropia!) pela divisão artística da Intendência, foi a "otoridade" encarregada de entregar ao Betão da Penha a Medalha de Honra ao Mérito Desportivo. Amor à primeira vista. Nada mais, nada menos. Casada, dois filhos adolescentes e "passada do ponto", Elizabeth sentiu o coração palpitar mais forte quando viu aquele "pedaço de carne" na sua frente, conforme confidenciou, no outro dia, para uma amiga.

Na primeira oportunidade, sem esperar pelo término da cerimônia, com a voz trêmula, Elizabeth convidou o Betão para um arroz com galinha, lá no seu apartamento. Fazia gosto da presença do atleta.

No dia combinado, Betão vestiu a melhor bombacha e foi à luta.

"Eitá comidinha gotósa!", dizia o peão, enquanto metia as mãos calejadas dentro da panela e de lá tirava mais uma coxa de frango, sem se importar com os grãos de arroz que caiam em cima da mesa e no chão. Com a boca cheia e as mãos engorduradas ia contando a história de sua vida. Grandes goles de vinho de garrafão ajudavam a destravar a língua. Horrorizado, o marido de Elizabeth alegou cansaço, pediu licença e foi deitar.

Terminada a refeição, seguiram para a sala. Era hora do sarau musical. Os últimos sucessos do Trio Disparada Mole (Muñeco, Manéca e Manequim) receberam aplausos vigorosos.

Próximo das dez da noite, a dona da casa e a visita ainda estavam conversando sobre a importância da preservação dos valores naturais da cultura campeira.

O que aconteceu depois não é difícil de imaginar. Elizabeth começou a ficar cada vez mais solta e, depois de acender um daqueles cigarrinhos perfumados, "pulou" no mancebo. A festa foi grande.

Quando estava no melhor do sono, o marido foi acordado por uma sucessão de pequenos gritos, risos abafados e exclamações entusiasmadas: "Ai, que delícia!", "Faz de novo, é tão bom!".

Sem se conter, desceu a escada e perguntou:

−Alguém poderia me dizer o que está acontecendo?

O que não estava no programa foi a voz arfante de Betão da Penha:

− Moçu, vorte prá tua cama e num atrapaie. I num seja besta de parecê aqui antis da genti urtimá o serviçu!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AFORISMOS DE KARL KRAUS

Não se fazem mais intelectuais como antigamente. Não no sentido romântico do termo. Basta ver alguns chatos engravatados, que andam ditando normas e comportamentos por ai. Cheios de condecorações acadêmicas e um profundo tédio pelo mundo concreto, esses sujeitos se escondem no discurso técnico, que sabe tudo, que domina tudo e tende a resolver os conflitos "administrativamente". Defensores da esterilidade procuram evitar as discussões e as pulsações do desejo. Travestidos de intelectuais, esses fascistas são incapazes de combater o autoritarismo das instituições. Enquanto edulcoram as relações sociais com um discurso ambíguo, fazem o jogo do poder e se locupletam com as migalhas da miséria capitalista.

Karl Kraus (1874−1936) foi o contrário. Importante ativista cultural austríaco, publicou revistas, panfletos, livros. Sem ser cerceado por essa idiotice que é o politicamente correto, tinha opinião sobre tudo e não sentia medo de manifestá−las, notadamente em Die Fackel ("A Tocha") - revista em que, salvo raras exceções, foi o único redator durante quase quarenta anos.
Foi um desses sujeitos que não existem mais e que, independente de certas questões, desafiaram o poder todas as vezes que acharam necessário.

Alguns de seus aforismos ficaram célebres.

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− Muitos desejam me matar. Outros, passar uma horinha conversando comigo. A lei só me protege dos primeiros.

− Mesmo um homem decente pode – contanto que isso jamais se descubra – construir hoje em dia um nome respeitável.

− Antes de suportar a vida, convém tomar anestesia.

− O nacionalismo é o amor que me liga aos imbecis do meu país, aos ofensores dos maus costumes, e aos violadores da minha língua.

−O que são todas as orgias de Baco diante dos êxtases daquele que, desenfreadamente, se entrega à abstinência?

− A perspicácia da polícia é o dom de considerar todo homem capaz de um furto, e a sorte é que a inocência de muitos não pode ser provada.

− Não se pode confiar no esnobe. A obra que ele elogia pode ser boa.

− Ao comer, ele não deixa que nenhum apetite estrague o seu aborrecimento.

− Em casos duvidosos, decida−se pelo correto.

− Ela ingressou no casamento com uma mentira. Era virgem e não lhe disse nada.

− A mulher entra com seu sexo em todos os empreendimentos da vida. Às vezes até no amor.

− Uma mulher que não pode ser feia não é bela.

− Para a perfeição lhe faltava um defeito.

− Ela disse a si mesma: Dormir com ele, sim – mas nenhuma intimidade!

− Maldita lei! A maioria dos meus concidadãos é o triste resultado de um aborto não realizado.

− Nada á mais tacanho que o chauvinismo ou o racismo. Para mim, todos os homens são iguais, em toda parte existem imbecis e tenho igual desprezo para com todos. Mas nada de preconceitos mesquinhos!

− A mulher total engana para ter prazer. A outra tem prazer em enganar.

− Frente às mulheres, a ordem social nos destina a ser mendigo ou ladrão.

− A tarefa da religião: consolar a humanidade que caminha para a forca; a tarefa da política: torná−la desgostosa da vida; a tarefa do humanismo: abreviar a sua espera pela forca e envenenar a comida do carrasco.

− Muitas vezes uma mulher é um substituto perfeitamente utilizável para a auto−satisfação. Naturalmente é preciso uma boa dose de imaginação.

− É preciso ler duas vezes todos os escritores, os bons e os ruins. Os primeiros serão reconhecidos; os outros, desmascarados.

− "Escrever bem", sem personalidade, pode bastar para o jornalismo. Eventualmente, para a ciência. Nunca para a literatura.

− Idéias estão isentas de impostos alfandegários. Mesmo assim, há problemas.

− Medicina: a bolsa e a vida!

Houve um tempo, em passado não muito remoto, que Viena era o centro do mundo!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O PAI DE PÉRSIO ARIDA

O economista Pérsio Arida, que foi presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique, publicou na revista Piauí (n° 55, abril de 2011) um longo e doloroso texto autobiográfico (pedaços editados do seu livro de memórias, que deverá ser publicado no segundo semestre)

Como é de costume, li a revista de forma fragmentária. Não creio que alguém consiga ler a Piauí de uma vez só. E isso significa que li algumas matérias antes de dormir, outras em fila de banco. Deixei o relato de Pérsio por último. E a razão foi a mais cômoda possível: é difícil ler (de uma tacada só) um texto de 27 páginas (na Piauí, que não é exatamente um gibi!).

Com uma linguagem límpida (surpreendente em um economista!) e de excelente qualidade literária, o relato delineia o período de militância política contra os governos militares e o quanto isso afetou Pérsio durante todos esses anos.

No entanto, para mim, não são as indecisões ideológicas ou as descrições de tortura que chamam a atenção no texto. Fernando Gabeira ("O que é isso, companheiro?") e Alfredo Sirkis ("Os carbonários"), entre muitos outros, já haviam destruído antes quaisquer ingenuidades políticas sobre os acontecimentos das décadas de 60, 70 e 80.

Remando contra a maré, há dois parágrafos lá na página 53 da revista. Provavelmente a maioria dos leitores nem os levou em consideração. Basta ver o velho e caótico resmungar sobre quem traiu quem e sobre o quanto é fácil para um banqueiro fazer pose de revolucionário que está estampado na seção de cartas da revista, edição de maio.

Sem medo do desconforto, típico em um acerto de contas com o passado, momento em que surgem no horizonte algumas dívidas não saldadas, salgadas, difíceis de digerir, Pérsio relata um episódio familiar. Na companhia do pai, uma viagem para Estados Unidos.

A tentativa desesperada para encontrar algum tratamento médico contra a leucemia que estava corroendo o pai termina com um toque de non−sense:

− Sabe, Pérsio, o que eu queria? Aproveitar a passagem de volta e conhecer a Disney.

Para o filho, que também é o narrador das inquietações familiares, é a voz do pai que propõe um anestésico para a dor. Mas, com uma diferença fundamental, não é o sofrimento do doente que precisa ser aplacado, é o esforço discursivo que envolve a perda. Nesse sentido, o pedido do pai, aparentemente absurdo naquela situação de aflição, é que determina outra direção para o teatro que une a paternidade e a filiação.

"Pois fomos. E naquele mundo de fantasia, ele se divertindo com os Piratas do Caribe e a Space Mountain, o mundo ficou de ponta−cabeça. Era eu quem falava inglês, quem comprava os bilhetes e organizava a viagem; e era ele quem se maravilhava como uma criança, incrédulo naquele mundo perfeito. Chegou a entrar várias vezes na fila do mesmo brinquedo só para acompanhar um novo amiguinho de 7 anos. Do lado de fora, vi os dois se divertindo a valer na xícara que roda, se esmerando em imprimir máxima velocidade aos rodopios e soltando uma expressão de lástima quando soava o gongo. Em Orlando, era eu quem o carregava de cavalinho no ombro, dando voltas na praça do Magic Castle para fazer com que o ar fluísse naquele sangue cada vez mais enfraquecido. Ele não queria terminar de mal com a vida."

No momento extremo, diante da possibilidade concreta, irremediável, de perder o pai, ou melhor, de perder as referências do mundo ordenado, o olhar do narrador se mostra especular: o menino emerge como pai e o pai mergulha na infância.

No instante em que as imagens se mostram ao contrário, o mundo "de ponta−cabeça", o escapismo inconseqüente e momentâneo do pai emerge da escuridão como um farol. O filho, herdeiro da imagem paterna, em lugar de se alimentar da agonia causada pela perda que se aproxima, aceita que alguns sentimentos não podem ser esvaziados daquilo que neles é substância ("Do lado de fora, vi os dois se divertindo a valer"). É a leitura do testamento paterno ("Ele não queria terminar mal com a vida") que determina o fim do ressentimento e o início da compreensão. Nem o pai nem o filho terminaram mal.

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No filme "And when did you last see your father?" ("Quando você viu seu pai pela ultima vez?"), dirigido por Anand Tucker, em 2007, e baseado em livro de Blake Morrison, também há esse esforço do filho para se aproximar do pai. No entanto, diante dos imperativos do destino, isso não acontece, exceto no plano narrativo. O tragicomédia que envolve a crueldade familiar habitualmente não resulta em final feliz: o pai morre antes que o perdão mútuo seja concedido. Sobra ao filho, a carga emocional de pedir desculpas através das palavras (e, depois, através da adaptação cinematográfica). A dor nunca é atenuada.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

PÃO E AFETO

Em uma das cenas do filme "Antes que o mundo acabe" (Dir. Ana Luiza Azevedo, 2009), Daniel, um adolescente de 15 anos, enumera o que está acontecendo de errado em sua vida:

− Meu melhor amigo está sendo acusado de ladrão por minha causa, tem um cara ai que diz que é meu pai e roubaram minha bicicleta.

O padrasto, interlocutor desse desabafo, responde:

− Nesse caso só há uma coisa a fazer: pão.

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Um enorme pão feito em casa. Esse foi um dos melhores presentes que recebi em toda a minha vida. Lembro que a dádiva estava acompanhada de um bilhete. Com frases simples e emocionantes, D. Dilma mencionava um texto que eu havia escrito algum tempo antes. Lá havia alguma referência sobre o quanto gosto de pão feito em casa.

Diante do presente, fui tomado por uma fome (litúrgica) que só aumentou (em muito) o sabor do alimento. Em um mundo em que o egoísmo e a falta de solidariedade imperam, atos de fraternidade são muito raros. Então, receber um pão de presente, ou melhor, saber que há pessoas que praticam o "repartir o pão", foi uma lição de vida ou um poema – em determinados momentos é quase a mesma coisa.

Pães e poemas, assim como a água translúcida dos mananciais, são formas de relatar o que há de prazer, solidariedade e contentamento no mundo.

Li o bilhete, comi o pão. Guardei a lembrança desses dois episódios (que nada fiz para merecer) como provas inequívocas da beleza intangível que, às vezes, nos momentos mais inesperados, derrubam os muros de exclusão que construímos em volta de nós mesmos.

Queria poder agradecer. Queria. Essa talvez seja a tarefa mais difícil de ser realizada. Diante da impossibilidade de transmutar as palavras em afeto, beijos e abraços, somente sobrou a tentativa retórica de sintetizar minhas emoções em uma palavra: Obrigado.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

IFIGÊNIA

Um dia, desses que nunca mais desaparecem da memória, Aniceto rompeu o namoro com Ifigênia. A justificativa usada foi vaga, esquecendo os quase cinco anos de juras de amor eterno. Como se isso fosse insuficiente, o cara−de−pau pediu compreensão, estava passando por uma fase difícil.

Algum tempo depois, tudo se esclareceu. Aniceto entrou no cinema abraçado com Cleuza, uma morena sorridente, de coxas largas e olhar safado – daqueles que derretem qualquer tipo de resistência masculina.

Não faltou amiga (da onça) para, no mesmo instante, correr até a casa de Ifigênia e contar, tintim por tintim, o que todos haviam visto.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Ifigênia, como se fossem filetes de ódio.

Jurou vingança. Aquela desfeita não poderia passar em branco. Alguma coisa precisa ser feita. Era necessário cobrar, com juros e correção monetária, a humilhação que estava sofrendo. Se aquela (e aqui ela usou um adjetivo "carinhoso" para qualificar a rival) estava pensando em ficar com Aniceto, de graça, pois podia ir "tirando o cavalinho da chuva". Afinal de contas, ela era "filha de Xangô" – lá no terreiro de Mãe Afonsina. E isso todo mundo sabe: nenhum filho de Xangô foge da luta.

De qualquer forma, em um primeiro instante, a vingança ficou na promessa. Sem saber como agir, Efigênia deixou o tempo passar. Enquanto isso, Aniceto e Cleuza aproveitaram as coisas boas da vida – audaciosos amassos escandalizaram as senhoras de respeito. O difícil era entender como elas conseguiam ver o que estava acontecendo nos lugares mais escuros da praça. Quase todas as manhãs, detalhes escabrosos corriam de boca em boca, alimentando o clima de fofoca que incendiava o bairro. Por mais que Ifigênia fizesse "ouvidos de mercador", em alguns momentos era inevitável encarar, de frente, a tragédia. A única diferença era que não havia mais choro. A fonte secara.

Depois de algum tempo, talvez três meses depois, o carteiro entregou para Ifigênia um envelope azul. Era o convite de casamento. Cheia de raiva, ela o rasgou em mil pedaços. Depois, mordeu o lábio inferior até sentir o sabor adocicado do sangue.

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Talvez, por penitência ou para ver com os próprios olhos que a noiva era a outra, Ifigênia reuniu forças e foi até a igreja. Antes, mandou um eletrodoméstico caríssimo como presente. Mesmo estando acima de suas posses, usou o cartão de crédito para parcelar o débito em várias vezes.

Sentou na terceira fila. Durante a marcha nupcial, abriu a bolsa e acariciou o revolver que havia roubado do irmão mais velho, uma semana antes. Um Taurus, calibre 38. Em seguida, sorriu melancolicamente.

Cleuza atravessou a nave com a graça inequívoca das noivas felizes. Diante do altar, estendeu a mão para Aniceto. O padre iniciou a cerimônia. Um clima de angústia tomou conta do ambiente. Todos os convidados, sem exceção, olharam para Ifigênia. Esperavam por algum escândalo. Casamentos solicitam baixarias.

Ifigênia permaneceu imperturbável. Não esboçou a mínima reação – nem mesmo na hora do se alguém souber de alguma coisa que possa impedir esse matrimônio, que fale agora ou cale−se para sempre. Parecia não ter nada com o assunto.

Quando os noivos começaram a receber os comprimentos na porta da igreja, Efigênia fez questão de desejar felicidades para os dois pombinhos. Aproveitou a oportunidade para pedir desculpas: não poderia comparecer à festa, infelizmente tinha outro compromisso.

Em seguida, se afastou um pouco e abriu lentamente a bolsa. Teve dificuldade para encontrar o que estava procurando. Quase derrubou um batom no chão. Finalmente, pegou um lenço cor−de−rosa e, em câmara lenta, enxugou o suor que teimava em borrar a maquiagem.

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Foi para casa. Colocou um CD no aparelho de som. Maysa interpretando Dolores Duran. E esperou. Esperou quase dois anos (não necessariamente ouvindo boleros).

Aniceto, uma tarde, chegou mais cedo em casa. Foi uma gritaria sem fim. Nu, Manoel, filho do dono da mercearia da esquina, fugiu pela janela. Cleuza levou uma surra de cinta, que só foi interrompida com a chegada da polícia.

Sem uma gota de arrependimento, Ifigênia está namorando Francisco (que até agora não havia entrado nessa história). Quer casar. De véu e grinalda. A carta anônima, denunciando a traição de Cleuza foi ela quem escreveu. Aqueles telefonemas estranhos, no meio da noite – bastava Aniceto atender para que desligassem – também foram idéia sua. Em algum lugar no passado havia lido que a vingança é um prato que deve ser servido frio.

terça-feira, 17 de maio de 2011

WALTER BENJAMIN, ROBERTO CAMPOS E A FILOSOFIA DE ALCOVA

Entre os pensadores que praticaram o marxismo (variações, derivações, interpretações), sempre tive um fascínio muito especial por Walter Benjamin.

Autor de uma obra extremamente criativa e múltipla (com destaque para a sociologia da literatura), Benjamin era filho de um comerciante judeu que faliu com a ascensão de Hitler ao poder.

Sem muitas chances de sobreviver como filósofo (literalmente), Benjamin passou uma boa parte de sua vida escrevendo por encomenda (e sendo muito mal pago) para o Instituto de Pesquisas Sociais (leia−se "Escola de Frankfurt"). Vítima do policiamento ideológico e sádico de Theodor Adorno (tão opressor quanto o dos fariseus nazistas), Benjamin teve que superar grandes dificuldades nos últimos anos de sua vida. Suicidou−se em 1940, em Port Bou, um lugarejo na fronteira entre França e Espanha.

Entre os textos de Benjamin, tenho particular predileção por um conjunto de fragmentos chamado "N° 13", publicado originalmente no livro "Rua de mão única". No Brasil, esse texto integra o volume II das Obras Escolhidas (Editora Brasiliense, 1987, p. 33 e 34).

Nesse conjunto de aforismos, Benjamin trabalha com algumas variações comparativas entre livros e prostitutas. A primeira delas me parece mais interessante do que as outras:

I. Livros e putas podem−se levar para a cama.

Contrariando prováveis sutilezas filosóficas que por ventura estejam escondidas entre oito palavras (inclusive duas vogais!), nunca imaginei que alguém pudesse discutir a clareza dessa afirmação. Claro que, nesses tempos neoliberais do politicamente correto e de feminismos xiitas, não podemos deixar de garantir o devido desconto proporcionado pela noção asséptica de que a prostituição é uma profissão tão desonesta quanto qualquer outra e que, embora toda puta seja mulher (ou assim deveria ser), a população feminina não é (e nunca foi) constituída por putas.

Conta o folclore que, certa vez, durante o lançamento da primeira edição de seu livro de memórias, "A lanterna na popa", o ex−Ministro da Fazenda Roberto Campos ouviu a reclamação de que o livro (1417 páginas!) era pesado demais para ser lido na cama.

Roberto Campos (que, incidentemente, detestava os marxistas e, na vida pratica, tinha um senso de humor peculiar), indignado com aquilo que considerou uma falta de tato de seu provável leitor, emitiu um contra−aforismo:

Quem tem imaginação leva para cama uma mulher. Quando a imaginação é muita, a amante. Somente alguém sem imaginação carrega para lá um livro.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

NOJO

O peso da vida. Naquele domingo tudo era desagradável. Deixou de lado o livro que estava lendo por obrigação profissional. Insuportável. Levantou da poltrona. Na janela, teve saudade das coisas. Que nunca conseguiu realizar. Uma ausência inexplicável. Um punhal latejando dentro do peito. O sol prenunciava o fim da estação. Ao mesmo tempo, devorava o rosto – uma carícia amarga e quente. O corpo cansado estava a dar voltas em torno de si mesmo. A rua acenava com promessas. Aceitou o desafio. Jeans surrado, camiseta branca. Sandálias. A porta. O corredor frio do prédio. A luz repentina e absurda, ao seu final. As esquinas. Uma sucessão de penumbras e cinzas. Retratando a tristeza imensa na cidade. Alguns adolescentes, de bermudas folgadas e coloridas – no outro lado da calçada. Vozes alegres ecoam na tarde. Por um instante, descompasso.

A calçada engole os passos e as pernas. O caminho é inexistente. O mapa e a bússola ficaram em casa. Na bagagem, medo e certeza. A contradição é molho agridoce. Surpresas para o paladar.

Os prédios caminham na distância. Janelas e carros somem na velocidade. Passageiros e passarinhos. Alguns versos de Tabacaria são lembrados. O deserto é fugaz. Ou melhor, deserto. Veludo e nácar. Como naquela propaganda. Na revista. Três da madrugada. A insônia batendo ponto. Companhia.

Nada de ficar parado. Olhar e não ver. Pode? É indecente encontrar. Outra vez. Dez anos depois. Alguém que um dia amamos. Diferenças. Estragos. O passado é cruel. O espelho. Quebrado. Na face. Um pergaminho e a revelação. Não existe impunidade. Qualquer justificativa. Inútil. Tolice querer saber dos porquês. Esqueça. Agora não é hora de parar de fumar.

Na banca dos jornais, a manchete: só há conforto na coerência. A vida sempre cumpre com suas promessas. Sofrimento. Transitória felicidade. Rápida. O barulho da sola da sandália. Lambendo as pedras da escada. Degraus. Rádio. Alguém cantarolando Lulu Santos. Futebol, ao lado. A torcida inflamada – diante do televisor.

Atravessou a rua. Visagem. Miragem. A mulher perfeita. Diferenças de idade. Provação divina. O engano. O novo sempre vence. Isto é, a lógica não possui lógica. O fim das ilusões. Alguém chama pelo nome da garota. O som: Helena. Vale uma guerra. Eles se encontram. O rapaz, cabelo comprido, brincos, cheio de sorrisos, se aproxima. Envolve o corpo da princesa. Beijos. Na boca. Demoradamente. Azares da sorte. Nada resta senão voltar. Para o outro lado da rua. A terceira margem do Rio de Janeiro, apesar da temporada de caça aos desatinos iniciar em junho. Não deveria ter tido idéias. Quem pensa se decepciona. Retornar, outra vez. Derrota. Ironias da modernidade. No próximo carnaval. Quem sabe? Sair na avenida. Fantasiado de João Gilberto provinciano.

A praça estava cheia. Crianças constroem música. Areia. Vazias mesas. Para jogar xadrez. Toalha de pic−nic. Estendida na grama. Da cesta aberta, escapam punhados de formigas. Leve garoa. Um menino. A boca suja de danoninho. O pipoqueiro espirra. A insuportável leveza da dor.

Vontade de voltar para casa. Frio corroendo os ossos. Fraquezas da carne. Impossível confundir gostar com gozar. Faz muito tempo que a inutilidade. Tomou conta do coração. Para que serve a poesia?

Erguer parede entre a vida e o desespero. Inferno subterrâneo.

Arrependimento não mata. Deveria ter dito à mulher amada. Entre lágrimas e desejo deveria ter dito, como aquele personagem de Things to do in Denver when you’re dead: "Quer saber de uma coisa? Sou igual aos outros. Só que preciso mais de você do que eles." O horror, o horror. Fazer turismo pelo passado. A solidão é cancerígena. Imagens desfocadas.

Abriu a porta do apartamento. Novamente. Só para descobrir que tudo continuava igual. Pesadelo suburbano. Billie Holiday compreende. A holyday. A holly day. A hollow day. Você precisa de férias. Hoje não é o dia ideal para pescar peixes−banana. Ou marlins. A esperança arrebentada pelo nojo. Dose dupla de brandy. A fragmentação cartesiana do ser. Lesmas sobem pela parede. Na direção do nada.

Apagou as luzes. Todas as luzes. No chão. Ficou. Encolhido. Como um feto. Os joelhos próximos do peito. Os pés sujos. A raiva. A ausência de forças. A noite.


(Imagens de Francis Bacon)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

LEMBRANÇAS DE LAURO JUNKES

Antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, Lauro Junkes já fazia parte de minha vida. Meu primeiro livro, “Um abraço pra quem fica”, quase um folheto mimeografado, recebeu generosos elogios na coluna que ele assinava no jornal “A Gazeta” (“Presença poética de Lages [2]”; Florianópolis, 10/05/1987).

Quase dez anos depois, lá pelos idos de 96 ou 97, mesmo sabendo que a tarefa não seria fácil, ele me recebeu de braços abertos como orientador no Mestrado. Infelizmente não compartilhamos os abraços, nossa relação afetiva sempre foi um pouco fria, havia alguma barreira entre nós. Provavelmente o meu temperamento contribuiu para aumentar essa distância, raramente consigo controlar a vontade de desafinar o estatuto do politicamente correto, os palavrões incomodando ouvidos mais educados. Lauro era o contrário, sempre paciente com os ansiosos, sempre um gentleman (pelo menos em público), não me lembro de tê-lo visto alterar uma única vez o tom de voz, era sempre aquele mar da tranquilidade, nem mesmo uma onda mixuruca para quebrar a rotina.

Quase um zen-budista – apesar de cristão (se não estou enganado, foi seminarista) –, ele passava por cima das dificuldades com um olhar de sabedoria, sempre a sussurrar não para aqueles que sentem prazer em alimentar úlceras.

No início do Mestrado, matriculei-me em uma disciplina de teoria da literatura, que era ministrada por ele. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do Saramago, nos acompanhou durante todo o semestre (meu exemplar, as páginas coloridas com marca-texto, a capa estropiada, ainda está na estante, reluto em substituí-lo por um novo). Para muitos de nós, os alunos, principalmente aqueles que conheciam a literatura de uma forma esculhambada, sem método, as discussões em sala de aula (muitas vezes intermináveis!) foram um divisor de águas, o mundo repartido entre o antes e o depois.

Precisando trabalhar com pessoas heterogêneas (e que apresentavam grandes diferenças políticas, sociais e religiosas), Lauro ministrava aulas tranqüilas, sem grandes exaltações. Escorado em teóricos como Genette, Booth e Pouillon (naqueles tempos, todos desconhecidos para mim), ele procurava esclarecer parte da mitologia literária. Nas várias vezes em que fiz perguntas ou rebati alguma afirmativa menos palatável, o que se destacou nos nossos embates não foi a luta pelo poder (ou pelo saber), foi o abrir as portas do conhecimento, foi o professor que exercia o diálogo socrático: ensinar aprendendo – aprender ensinando.

Quase no final do semestre, ele me presenteou com um exemplar de “O Mito e o Rito” (Florianópolis: Editora da UFSC, 1987). Ao reler a dedicatória (“Para Raul Arruda Filho, este aperitivo para o convívio com alguns autores catarinenses”), e acrescentando vários fatos ocorridos depois, não me é possível deixar de interpretar, nas entrelinhas, que o vínculo literário que nos unia – professor e aluno – estava em extinção. Em um mundo decomposto pelos interesses capitalistas, pela globalização e pela sociedade do espetáculo, o estudo da literatura catarinense estava fadado ao esquecimento; no máximo, receberia o olhar perplexo (e benevolente) de quem contempla um fenômeno raro.

O tempo passou, encontrei outros professores. Embora estivéssemos amarrados pelo vínculo orientador/orientado, raramente nos encontrávamos nos corredores da UFSC. Tínhamos horários diferentes, interesses divergentes. Quando deixei Florianópolis e fui passar alguns meses em Itapema, o nosso contato ficou ainda mais escasso. Estranhamente, ele não desistiu de mim: a cada quinze dias – precisão suíça! – minha caixa postal virtual recebia mensagens eletrônicas reclamando prazos, a necessidade acadêmica de defender a dissertação, de encerrar um ciclo da vida. Como sempre, eu respondia da maneira mais evasiva possível, fazia promessas que não pretendia cumprir (e ele sabia disso!). A vida estava a seguir o seu curso.

Por motivos pessoais, voltei a morar em Lages, criei vergonha na cara e, aos trancos e barrancos, escrevi o que estava faltando. Telefonei contando as boas (boas?) novas. Do outro lado da linha ele me escutou sem fazer sermão, sem demonstrar qualquer tipo de surpresa. Mesmo sem ter certeza de que viajaria até Florianópolis, marquei um encontro na UFSC, uma semana depois. Para surpresa geral, na hora combinada, entreguei em suas mãos o disquete em que estava gravado o texto da dissertação. Como essa não é uma história de filme americano, a porcaria não abriu. Se eu não o tivesse esmigalhado em sei lá quantos pedaços, até hoje continuaria inútil.

Diante de minha reação intempestiva, Lauro ficou perplexo, obviamente sem entender o que estava acontecendo. Deve ter pensado que eu estava com algum tipo de problemas psicológico (talvez a loucura – que, finalmente!, estava se manifestando de forma permanente). Esse diagnóstico não resistiu dois segundos, pois, comprovando que também sei tirar coelho de cartola, mostrei a ele outro disquete. O texto apareceu – milagrosamente! – na tela do computador, salvando o dia. Nas primeiras frases, ele me apontou algumas questões, me fez ver que existiam outras formas de escrever o que eu estava propondo, elogiou alguns pontos. Enfim, cumpriu com o ritual docente da maneira mais doce possível.

Dois ou três meses mais tarde, em incerta manhã, diante de uma única alma errante, que provavelmente havia entrado na sala por engano, a academia testemunhou o encerramento da comédia: a banca se reuniu, pronunciou o veredicto, fui condenado. Lembro que almocei sozinho naquele dia, satisfeito pelo resultado.

O tempo passou, perdemos o contato. Quando voltei para o doutorado, alguns anos depois, já não tínhamos nenhum vínculo, estávamos caminhando por estradas muito distantes. Confirmando que existem mais tolices entre o céu e o inferno do que sonha nossa vã mediocridade, éramos quase estranhos.

Talvez tenha sido nessa época que os jornais noticiaram que ele havia sido eleito presidente da Academia Catarinense de Letras.

Cercado por livros, xerox de jornais e revistas, pesquisas intermináveis na Internet, além de outras milongas (dessas que fazem as novelas mexicanas se transformarem em contos de fadas pós-modernos), estive afastado do mundo objetivo por um bom tempo. O Doutorado me sugou parte da energia vital.

A alienação afetiva diminuiu um pouco quando uma amiga em comum, Salete Lópes Antonio, me contou que Lauro estava doente: as viagens para São Paulo, as sessões de quimioterapia, a dor excruciante. Depois de muito relutar, telefonei. Não foi uma boa idéia. Em lugar de tentar confortá-lo, percebi que não sabia o que dizer, faltava-me a intimidade para fazer piadas ou quaisquer que sejam as bobagens usuais nessas ocasiões.

Depois disso, ainda o encontrei, alguns anos depois, em um evento da UFSC, não lembro qual, ele me pareceu estar bem, havia recuperado o peso, a cor, a vontade de viver. Salete disse-me que o câncer estava controlado.

No dia 20 de outubro de 2010 fui surpreendido por uma mensagem eletrônica, dessas que nunca são agradáveis de receber. Alguém estava me comunicando que o desfecho indesejado havia se cumprido. Como estava em Lages, não me foi possível ir ao enterro.

Poderia encerrar essas lembranças dizendo o óbvio, que Lauro era um intelectual (na expressão mais límpida do termo), que era insubstituível, que fará falta. Embora tudo isso seja verdade, não creio que seja o suficiente. Uma vida não deve ser sintetizada em meia dúzia de histórias tolas ou elogios protocolares. É preciso mais. No entanto, assim como poucas vezes conseguimos dizer um ao outro o que gostaríamos de dizer, também dessa vez me encontro sem fala, sem saber articular as palavras para poder expressar que, no mínimo, sentirei saudades – muitas.



(TEXTO LIGEIRAMENTE MODIFICADO DAQUELE QUE FOI PUBLICADO EM http://www.escritoresdosul.com.br/)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ALGUMAS DOSES DE VENENO (frases sobre a relação homem/mulher)

Homens e mulheres vivem em guerra. Talvez porque não conseguem viver separados. Ou quietos. Na luta constante para um sexo entender o outro, muitas batalhas são travadas. O casamento, as brincadeiras embaixo dos lençóis, o ciúme, a idade, as sogras – tudo é motivo para milhares de acusações: algumas muito sutis; outras, tapas de luva... de boxe!
Deixando de lado essa bobagem que é o politicamente correto, a história e a literatura registram grande parte dessas situações.

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* O amor é o que acontece entre um homem e uma mulher que não se conhecem bem. (Somerset Maughan)

* Ama teu próximo – e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito mais fácil. (Mae West)

* Todas as tragédias terminam em morte e todas as comédias em casamento. (Lord Byron)

* Uma mulher leva vinte anos para fazer de seu filho um homem – e, outra mulher, vinte minutos para fazer dele um tolo. (Helen Rowland)

* O casamento é a única aventura ao alcance dos covardes. (Voltaire)

* Muitos homens se casam por cansaço; as mulheres, por curiosidade. Ambos se decepcionam. (Oscar Wilde)

* O homem rouba o primeiro beijo, implora pelo segundo, exige o terceiro, recebe o quarto, aceita o quinto e suporta os restantes. (Helen Rowland)

* Eu e minha mulher ficamos em dúvida entre tirar férias ou nos divorciarmos. Optamos pela segunda hipótese. Duas semanas no Caribe podem ser divertidas, mas um divórcio dura para sempre (Woody Allen)

* Só se conhece uma mulher de verdade quando cruzamos com ela no tribunal. (Norman Mailer)

* Só exijo três coisas de um homem: que ele seja bonito, insensível e burro. (Dorothy Parker)

* Um homem sem endereço é um vagabundo; um homem com dois endereços é um libertino. (George Bernhard Shaw)

* O marido que quiser continuar feliz no casamento deve conservar a boca fechada e o talão de cheques aberto. (Groucho Marx)

* Não despreze a masturbação – é fazer sexo com a pessoa que você mais ama. (Woody Allen)

* Não se pode confiar nas mulheres. Uma delas pode estar sendo sincera com você. (Douglas Ainslie)

* Garotas que transam de primeira são "piranhas". As que não fazem isso são "direitas". Que maneira antiga de ver as coisas. Se cruzar com uma garota que não vá logo para a cama com você, isso não quer dizer que ela seja careta. É bem provável que seja lésbica. (Fran Lebowitz)

* Se um homem tomar a sua mulher, não há melhor vingança do que deixá−lo com ela. (Sacha Guitry)

* Maridos são bons amantes, principalmente quando estão traindo suas mulheres. (Marilyn Monroe)

* Não sei nada sobre sexo. Sempre fui casada. (Zsa Zsa Gabor)

* Amar é... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no Instituto Médico Legal. (Ivan Lessa)

* Atrás de todo homem bem−sucedido há uma mulher muito espantada. (Maryon Pearson)

* Sabe por que Deus privou as mulheres de senso de humor? Para que elas pudessem amar os homens, em vez de rir deles. (Sra. Pat Campbell)

* Deus fez o homem e disse׃ "Posso fazer melhor". Então fez a mulher. (Adele Rogers St. Johns)

*No amor, as mulheres são profissionais; os homens, amadores. (François Truffault)

* Só há duas espécies de homens׃ os mortos e os mortíferos. (Helen Rowland)

* Nunca odiei um homem o suficiente para lhe devolver os diamantes. (Zsa Zsa Gabor)

* Toda garota nasce sabendo tudo sobre o amor. O que aumenta é apenas a sua capacidade de sofrer por causa dele. (Françoise Sagan)

* Todo marido tem a infidelidade que merece. (Zelda Popkin)

terça-feira, 10 de maio de 2011

DOIS POEMAS ANTIGOS




ALLEGRO MA NON TROPPO

se acaso você ouvir
− não te quero mais!

entenda,
por favor,
em suaves prestações mensais





ANOTAÇÕES SOBRE DARU

o inevitável. pronto.
eis a circunstância.
a cadeira. o revólver.
a xícara de chá.
fotogramas. incêndios.
temores. a porta
entreaberta. neste silêncio
parece que conversam
ao redor.

encostar no espaldar.

alpendre: ao longe, o sol.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O ESPELHO E A ESPOSA DO SILVA

A maior surpresa da história do bairro foi o casamento do Silva com a Conceição. Impossível entender como o "cachacista militante" conseguiu agarrar a ninfa. Sim senhor: ninfa. Outro qualificativo seria inadequado.

Quase 18 anos, bonita, curvas capazes de provocar acidentes automobilísticos, lábios de mel e os olhos cheios de promessas indecorosas. Para completar o cardápio, era magrinha – mas, sem mostrar as costelas, pois quem gosta de osso é cachorro.

Para o pessoal que freqüentava o bar Gre−nal, Conceição tinha potencial para posar na Playboy. Edição internacional.

No início foi aquela festa: amorzinho prá cá, amorzinho pra lá, beijinhos e carinho. Depois... Depois, o mundo desabou.

Silva era machista. Não satisfeito em tratar a esposa como propriedade, dizia que lugar de mulher era pilotando fogão e tanque de roupa. Quando suspeitava que alguém estava olhando para o corpo de Conceição, o ameaçava de morte ou de coisa pior. E ninguém queria saber o que significava essa "coisa pior".

Quando não estava controlando os movimentos da "cara metade", Silva tomava "todas", lá no boteco da esquina. Qualquer motivo era motivo para mais uma cerveja, um "liso" de steinhager, um conhaquezinho para rebater. "Máquina azeitada funciona melhor", explicava para os amigos. E, nesse ritmo, a conversa se estendia madrugada afora. Conceição cansou de esperar pelo marido. Quando o cara chegava cedo em casa era umas três, quatro da madrugada. Depois, dormia até o meio−dia. Acordava com aquela cara de ressaca que nem a mais tolerante das mulheres consegue agüentar.

Depois do banho, o almoço. E depois do almoço, sempre cobrava os seus direitos de marido. Tudo no maior carinho, como se nada tivesse acontecido.

Quando Conceição pediu algum dinheiro para comprar roupas novas, Silva fingiu não ter escutado. A musa insistiu:

− Preciso de vestido, roupas íntimas, essas coisas.

Em ritmo de brincadeira, Silva disse que ela era bonita pelada e não havia motivo para comprar roupa nova porque eles nunca saiam de casa.

− Mulher com roupa nova só serve para atiçar homem. Não quero ver essa cachorrada do bairro babando pela minha princesa. Não quero e ponto final.

E com essa lengalenga enrolou a esposa durante algum tempo. Depois, mudou de tática: colocava uma nota de R$ 100,00 em frente ao espelho da penteadeira e dizia:

− Se você conseguir pegar aquela nota, lá dentro do espelho, pode gastar no que quiser. Essa aqui é minha.

Conceição quase enlouqueceu. Ciente de que para tudo há remédio, deixou a areia escorrer pela fissura que une as duas metades da ampulheta.

Com o passar do tempo, Silva percebeu que a esposa estava diferente. Não era mais aquela "potranca" dedicada, carinhosa.

No boteco, enquanto tomava um "martelinho" de pinga com mentruz, Silva confessou para o Betão da Penha que algo estava fora do lugar. Não conseguia perceber o que exatamente havia mudado.

Espalitando os dentes, Betão escutou o caso. Pediu uma cerveja. E sentenciou:

− Barriga e chifre, quando crescem, são para sempre.

− Isso lá é coisa que se diga para amigo?, rebateu Silva.

De cara feia, pagou a conta e foi embora. Quer dizer, embora não foi, porque, na saída, encontrou um grupo de pagodeiros. Não resistiu ao apelo festivo e caiu na folia. Resultado: chegou em casa lá pelas sete da manhã. Além disso, não conseguiu explicar para a esposa onde havia arranjado aquelas manchas de batom na camisa.

Uma semana dormindo no sofá foi o castigo.

Tentou negociar uma anistia. Tentou. Não teve a necessária habilidade diplomática para contornar as dificuldades conjugais. Conceição pediu, mais uma vez, o dinheiro para comprar roupas. Com a cara−de−pau de sempre, tirou do bolso a nota de R$ 100,00 e, diante da penteadeira, repetiu a conversa de sempre:

− Essa aqui é minha, aquela lá, dentro do espelho, é tua!

Foi a gota d’água, aquela que transborda o copo. Conceição foi até o guarda−roupa. De dentro, retirou um vestido novo e o colocou sobre a cama. O mesmo procedimento foi executado em uma das gavetas da penteadeira: retirou diversas calcinhas e sutiãs e as jogou em cima da cama.

Silva finalmente percebeu que havia perdido o jogo. Mesmo assim, fez uma última tentativa. Puro desespero. Tentou abraçar a esposa. A recusa foi imediata.

Como se isso não bastasse, Conceição levantou a saia, tirou a peça intima e mostrou o sexo diante do espelho.

− Tá vendo lá, no espelho? Aquela é tua. Essa aqui é do Betão da Penha!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

AINDA SOBRE CLÊNIO SOUZA

No início dos anos oitenta do século passado, éramos jovens e bebíamos como se não houvesse amanhã.

Clênio era professor de desenho na Escola de Artes Eluza Bianchini. Sua namorada da época era tão temperamental quanto ele. Brigavam freqüentemente. Conflitos homéricos. Daqueles cheios de gritos, copos espatifados na parede e vizinhos se controlando para não chamar a polícia. No último round dessa série de batalhas não houve agressões físicas. Apenas cicatrizes emocionais. Dolorosas. Dessas que precisam ser carregadas pelo resto da vida. Discutiram sobre alguma bobagem e, para surpresa de todos, inclusive deles mesmos, resolveram se separar. Para sempre.

Nessa época eu estava estudando no período noturno. Colégio Diocesano, último ano do segundo grau. Vivia mais na rua do que em sala de aula. Bebia mais cerveja do que estudava.

Em uma dessas escapadas, provavelmente alguma aula chata, encontrei Jonas Malinverni. Ele estava assustado. Queria ajuda para encontrar Clênio. E me disse:

− Ele saiu lá da escola muito angustiado, disse que a vida não tinha mais sentido. Acho que ele está pensando em suicídio!

Não tive outra opção senão rir.  Não lembro direito. Mas a chance de ter deixado escapar uma risada é grande. Puro nervosismo. Na época não imaginava que alguém pudesse cometer esse tipo de desatino aos vinte e poucos anos.

Entre voltar para a aula e procura pelo desaparecido, o que escolher? Entramos no boteco mais próximo e pedimos uma cerveja. Depois de ter pensado nessa intrigante encruzilhada uns dez segundos, talvez menos, resolvi acompanhar Jonas. Estivemos em todas as espeluncas que conhecíamos. E nada. O cara tinha desaparecido.

A última tentativa de localizar o fugitivo foi em um bar suspeito, mentira, confirmado antro de encontros furtivos e comércio sexual chamado "Cisne branco". E isso nos mostrou como a vida é irônica: ficava muito perto do Colégio Diocesano, onde eu estudava!

O ambiente (escuro, fumacento) era constituído por um corredor. As mesas encostadas na parede (nos dois lados) eram separadas por biombos, que garantiam a privacidade. As garçonetes eram gentis e generosas – sempre dispostas a acompanhar algum solitário no meio da noite. Naquele estabelecimento só trabalhavam mulheres, vigiadas pelo dono, que ficava lá no fundo, controlando tudo.

Para ser atendido, o cliente precisava acionar uma espécie de interruptor na parede, uma luz se acendia acima da mesa, chamando a garçonete.

Foi nesse inferninho que encontramos Clênio Souza. Desmaiado. O rosto enfiado em um prato. Um prato cheio de macarrão à bolonhesa. Tentamos salvá−lo do ridículo, erguendo a sua cabeça. Tudo o que conseguimos foi sujar as mãos de molho. Nojento. Mas, fazer o quê? Amigos são assim mesmo, encrencas que precisamos aceitar como se fossem brinquedos.

Depois de muito esforço, conseguimos arrastá−lo até o banheiro, onde providenciamos uma faxina básica no descornado, digo, no desacordado artista plástico. Também limpamos os seus bolsos, para ver se ele tinha dinheiro suficiente para pagar a conta. Felizmente, tinha. Arrastamos o bêbado de volta para a mesa, pedimos outra cerveja, por conta da vítima, e começamos a discutir sobre o que fazer.

Ao saber que ele estava morando com a irmã, lá na Vila Comboni, que é quase no fim do mundo, sugeri o óbvio: taxi. Lendário pão−duro, Jonas discordou. Disse que não tinha dinheiro. Quem não tinha dinheiro era eu, desempregado naquela época. Eu disse isso para ele, da forma mais inteligível possível. Não o convenci. Então, qual era a alternativa? Carregar o nosso amigo como se fosse um saco de batatas? Pois foi essa a proposta. E foi o que fizemos. Protestei muito − foi apenas para constar, porque não adiantou nada.

Abraçado em nós, um de cada lado, a vítima foi arrastada pelas ruas frias desta cidade gelada. Minha proposta era fazer umas cinqüenta paradas. De preferência em cinqüenta botecos. Mais uma vez, fui voto vencido. Inclusive porque Clênio estava retomando a consciência. E, com aquela voz enrolada de bêbado, disse que queria voltar para casa o mais rápido possível, não estava se sentindo bem. No meio desse discurso, vomitou. Várias vezes.

Escolhemos o caminho mais rápido, não o mais fácil. Subir pela escadaria do Morro do Posto não foi muito inteligente. Primeiro, era íngreme. Segundo, a chance de ser assaltado era de cem por cento. Terceiro, havia a ameaça latente de encontrar a polícia no caminho – e talvez fosse mais seguro ser assaltado. Dizem que Deus protege os bêbados e as criancinhas. Dizem. Não sei em que categoria estávamos enquadrados. De qualquer maneira, foi com grande surpresa que conseguimos chegar ao destino de entrega sem o mínimo problema.

Próximos da casa de madeira, onde morava a irmã de Clênio, encontramos dois pequenos obstáculos: vários cachorros e uma valeta, que só podia ser transposta através de uma pequena ponte, dessas que são feitas com tábuas soltas, basta pisar em ponto que rompa o equilíbrio e a queda na água suja é garantida.

A solução foi gritar por ajuda, ou seja, acordar todo mundo, os parentes de Clênio e os vizinhos. Surpreendentemente, nenhum morador próximo abriu a janela, revolver na mão, querendo tomar satisfação daquela algazarra. Exceto a lâmpada que se acendeu dentro da casa, nenhum movimento foi percebido naquele momento. Instantes depois, alguém abriu a porta e perguntou o que queríamos. Apontando para o traste, contamos a nossa história. Provavelmente cansada de ver a repetição da pantomima sem graça que o irmão protagonizava, a irmã de Clênio nos permitiu a aproximação. Felizmente, os efeitos do porre estavam passando e o infeliz conseguiu atravessar sozinho a ponte de tábuas – amparado provavelmente cairia naquele esgoto.

Na porta da casa, pedimos desculpas à mulher por tê−la acordado, deixamos Clênio entrar e fomos embora – rapidamente. Só respiramos aliviados quando deixamos longe os cachorros, que pareciam ansiosos para tirar um pedaço de nossas pernas.

A volta foi tranqüila, a aragem da noite abençoando a nossa insensatez. No centro da cidade, me separei de Jonas. Continuei caminhando um pouco mais. Na época, eu morava ali perto do Pronto Socorro. Em casa, abri a geladeira e outra cerveja. Depois dormi umas dez horas.

Só voltei a ver Clênio Souza uma semana depois. Ele parecia não se lembrar de nada.