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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O DECLINIO DO IMPÉRIO AMERICANO E AS INVASÕES BÁRBARAS


Seguindo a adaptação de uma das definições de Ítalo Calvino, Um clássico (...) nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer, determinadas obras de arte estão constantemente a pedir revisitações. Ver/ler/ouvir outra vez alguns filmes, livros, músicas, pinturas, danças, implica em aceitar que a surpresa interromperá − a cada instante – o que até então parecia ser inquestionável. Cada reencontro amplia o leque de significados e significantes, acrescentando camadas de entendimento no resultado final.

Se isso não ocorrer, fica comprovado que a riqueza que havíamos imputado no primeiro encontro era miragem, um entusiasmo passageiro, um amor de verão.

Na outra ponta da confusão, aquela que consagra as grandes paixões, assistir filmes como O Declínio do Império Americano (Le déclin de l’empire américain. Dir. Denys Arcand, 1986) e As Invasões Bárbaras (Les invasions barbares. Dir. Denys Arcand, 2004) equivale ao reencontro com uma antiga amante. Enquanto as lembranças de um passado que parecia destinado ao esquecimento reacendem as brasas do arrebatamento, a perspectiva de usufruir de novas delícias abre as portas da percepção física e emocional. No bosque dos afetos, o complemento alimenta.

Nesses dois filmes, a vida e a morte estão unidas (e separadas) por dezoito anos.

Em O Declínio do Império Americano um grupo de amigos e amigas (quase todos professores universitários) traçam a linha de separação entre gêneros e sensibilidades. Em alguns momentos, a oposição entre o ser e o estar no mundo se pronuncia em alto e bom tom; em outros, todos querem a mesma coisa: liberdade. Querer não é poder, como lembra Remy na cena inicial: A História não é uma ciência moral. Os direitos, a compaixão, a justiça são noções estranhas à História. Embora ele não diga, também é estranha à História a falsa consciência de que os indivíduos constroem o próprio destino.

Os homens (Remy, Pierre, Claude e Allain) se reúnem em uma espécie de condomínio privado na beira de um lago. Enquanto preparam o jantar, conversam. Muito. Basicamente sobre a vida sexual. Com exceção de Allain (que é jovem e provavelmente ainda não possui experiências significativas), os outros não se inibem de falar sobre o desejo. Falam porque desejam. Falam sobre a maneira com que costumam se servir nesse banquete em que todos comem e se lambuzam vorazmente.

Enquanto isso, em uma academia de ginástica, as mulheres (Louise, Danielle, Diane e Dominique)... conversam! O assunto principal é... sexo! Mas esses diálogos mostram visíveis diferenças de opiniões sobre isso e aquilo. Sexo é bom, mas pode ser melhor se acompanhado por algo mais. A palavra amor não é pronunciada, embora esteja presente em cada frase. Até mesmo Diane, que não se detém diante de nenhum obstáculo sexual, gostaria de ter um homem para chamar de seu. Além disso, a conversa das mulheres está envolta na lealdade aos sentimentos e, conseqüentemente, na omissão. Enquanto falam de seus maridos e parceiros ocasionais, deixam de citar várias histórias paralelas (principalmente as que Remy protagonizou).

Falar é o que os intelectuais mais gostam de fazer, como lembra Louise depois de quase duas horas de projeção. Homens e mulheres estão reunidos. De forma um pouco mais comedida, continuam falando sobre o falo − o órgão masculino condenado, na maior parte do tempo, à languidez, a inércia, à ausência de ação. É isso o que insinua o amante de Diane, intruso a interromper a refeição. Esse ligeiro mal−estar não atrapalha o curso da vida. O grande empecilho surge depois, quando o desatino resolve cobrar dívidas que ainda não foram saldadas. Dominique perde a paciência quando recebe uma crítica desfavorável ao seu último livro. Ao revelar quem dormiu com quem, consegue desagradar a todos. Vasos de cristal não podem mais ser recuperados depois que se espatifaram no chão.

Parte desse cenário volta à tona com As Invasões Bárbaras (vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2004). O tempo, dezoito anos, não eliminou ressentimentos. Sebastien, atendendo um pedido de Louise, visita Remy − condenado a uma cama de hospital público. Olá, cavalheiro, saúda o filho. Meu jovem, responde o pai. E essa indiferença polida é tudo o que parecem ter a transmitir um ao outro.

Não o é. A proximidade da morte muda perspectivas, estabelece laços, diminui o rancor. Quer dizer, tudo ao seu tempo, porque o filme, entre outras coisas, é um grande ataque à religião católica. Remy não economiza argumentos, nem estatísticas, para condenar o genocídio indígena no continente americano. Investido da fúria de um iluminista, embora fora de tom e de lugar, o professor se manifesta em grande estilo para a freira que trabalha no hospital. É a maneira intempestiva que escolheu para mostrar que a doença não o deixou impotente. E isso significa, entre tantas coisas, que não colocou (e não colocará) a alma à venda.

Em compensação, Sebastien não perde tempo com escrúpulos intelectuais. Rapidamente descobre como funciona a estrutura do hospital e, sem grandes dores de consciência, compra tudo o que é necessário para ampliar o conforto do pai. Paga em dinheiro, que é para não deixar rastros ou constranger quem está corrompendo. Também não mede esforços para trazer para perto do pai os velhos amigos. Deixa que a fraternidade se espiche e se espalhe, escondendo as lágrimas, tentando negar que Remy está próximo da morte.

Nathalie, a filha de Diane, ajuda Sebastien. Viciada em heroína, faz o meio de campo entre o filho e os traficantes de morfina - único remédio capaz de diminuir as dores que atormentam Remy. Em consequência desse acordo complicado, estabelece um vínculo afetivo com o homem doente, substituto imediato do pai que nunca teve. Como um anjo da guarda, ela o faz entender o estoicismo, compreender que não há mais motivos para se apegar a algo que desapareceu na poeira do tempo: Não é a sua vida atual que [você] não quer deixar. É a sua vida passada. E essa já está morta.

Outro tema abordado no filme é a eutanásia (prática sem amparo legal que abrevia o sofrimento de um doente incurável). E, mais uma vez, o anti−clericalismo se pronuncia. Com a fúria de uma represa que arrebentou. Com a doçura de quem não quer perder tempo com a insensibilidade. A cerimônia do adeus protagonizada pelos amigos de Remy é emocionante, um tributo a aquele que fez da vida um combate contra a barbárie. O filme não deixa claro quem são esses bárbaros, mas permite vislumbrar os danos causados pela ignorância, pelo valor venal/letal do capitalismo e pelo desapego afetivo.

Parte do dano é quase recuperado quando pai e filho se abraçam pela última vez. Sabe o que lhe desejo?, pergunta Remy. Não, responde Sebastien. Remy olha para o filho e complementa: Que tenha um filho como você.

Para quem se mostrou, até aquele instante, um resistente, esse não é o melhor epitáfio. Alguns minutos antes, quando mencionava o poder de destruição dos bárbaros, Remy disse, ao ver o filho, com senso de humor duvidoso, Eis seu príncipe que se aproxima.

Cumprido o ritual, Sebastien empresta o apartamento do pai para Nathalie. Como se fosse um complemento natural, eles se beijam. Mas, em seguida, a moça o empurra para fora. Para fora do apartamento. Para fora de sua vida. É preciso recusar, de uma forma ou de outra, repetir a história de Remy, Diane e todos os outros.

(Denys Arcand,diretor de Le déclin de l’empire américain e Les invasions barbares)

Um comentário:

  1. Muito boa a análise. Acabo de assitir os dois filmes...um deleite para a alma

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