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sexta-feira, 13 de abril de 2012

HISTÓRIAS DE LITERATURA E CEGUEIRA

Escrever é ato visual. São os olhos que definem as cores e os contornos do mundo literário. Sem a córnea, o cristalino e a íris, emerge a necessidade de alguém auxiliar na construção da escritura, a quebrar o protocolo solitário da criação. São os olhos e as mãos que percebem e manejam o texto, que corrigem as palavras, as frases e os sentidos. E estabelecem a fluência narrativa. A visão compõe a ilusão de que ler é compreender as histórias que foram gravadas no papel com tinta (real, virtual, invisível).

Alguns escritores ficaram cegos. O final de suas vidas se tornou opaco, mineral. Entre óculos e bengalas, três casos clássicos: Jorge Luis Borges, João Cabral de Melo Neto e James Joyce. O primeiro amargou trinta anos de absoluta escuridão. O segundo ficou sem ver as cores por quase oito anos. O terceiro, envolto em sofrimentos e desamparo, foi perdendo lentamente a visão.

Todos eles morreram no escuro, próximos de repetir o mote goethiano: Mehr Licht! (Mais luz!).

O contista Julian Fuks (Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu, 2004), escreveu três narrativas ficcionais em torno desse trio. Agrupou esses textos em um único volume, Histórias de Literatura e Cegueira (Borges, João Cabral e Joyce).

Felizmente, não se deixou levar pelas referências dos mitos gregos (Tirésias, Édipo). Também não quis orbitar em torno de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Sequer ousou a pesquisa linguística ou o experimento com diversos narradores de Blindness, de Henry Green. Ganhou o leitor.

Infelizmente, por algum motivo inexplicável, tentou se aproximar do estilo consagrado por cada um dos homenageados. Perdeu o leitor. Certas narrativas se tornam desconfortáveis ao tentar emular o que não precisa ser imitado.

Histórias de Literatura e Cegueira está dividido em três partes independentes e que relatam particularidades de cada um dos casos. Borges parece uma marionete, manipulado por sua mãe, Leonor, e pela esposa, Maria Kodama. Fora dessa narrativa carcerária, o texto oscila entre a Buenos Aires sem substância e a Genebra inexpressiva. Os lugares-comuns que identificam a linguagem borgeana se repetem ao longo do texto na tentativa pouco espessa de refazer o velho truque da verossimilhança. Entre bibliotecas e poemas, o Outro se faz presente. Um tédio sem fim.

João Cabral recebe a visita de um jornalista que o quer entrevistar. Dentro da sala, fantasiado de Manolete em arena catalã, o rapaz não consegue realizar o trabalho que se propôs. Falta-lhe coragem para provocar o Miura, sobra-lhe admiração pela poesia do dono da casa. Por outro lado, João Cabral nada mais tem a dizer. Os versos não mais fazem parte de sua vida. O que quer é que a dor-de-cabeça diminua e os dias não sejam longos. Nesse deserto de ações e idéias, há uma interrupção. Inez, uma das filhas de João Cabral, aparece para ler para o pai. Toda a cena é a descrição do desastre. A leitura é insípida. O ambiente é inóspito. A linguagem do texto e, por extensão, a do narrador do conto sobre João Cabral, é seca e árida. O Nordeste imitado não é o Nordeste, é imitação.

Nada é mais descartável (e, consequentemente, mais atual) na contemporaneidade do que construir um pastiche da linguagem joyceana. Parece moderno. O velho – embrulhado para presente – sendo apresentado como novo. As palavras-valises ofuscam as informações. Diante dos malabarismos lingüísticos, o desnecessário prevalece. O texto, pretexto para escrever sobre o nada, transforma-se em tapume a impedir a visão dos leitores, lençol branco estendido diante dos globos oculares.

Dizem que Julian está com um novo livro à disposição dos leitores nas prateleiras das livrarias, Procura do Romance. Vou comprar um exemplar, ansioso para me livrar da má impressão que Histórias de Literatura e Cegueira causou.



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