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segunda-feira, 23 de abril de 2012

XINGU

Para o aficionado pelo cinema nacional, a leitura de Minha Cerimônia do Adeus, texto escrito por Fernanda Torres e publicado na revista Piauí (n° 67, abril de 2012), sobre algumas historias relacionadas com as filmagens de Quarup, em 1989, serve de convite para assistir Xingu (Dir. Cao Hamburger, 2012), uma espécie de hagiografia cinematográfica dos irmãos Villas−Bôas.

Cláudio, Orlando e Leonardo Villas−Bôas foram, talvez, os maiores defensores da causa indígena no Brasil. No entanto, não fizeram o trabalho sozinhos. Nem que fossem super−heróis de história−em−quadrinho conseguiriam executar essa façanha. Sem a ajuda de inúmeros sertanistas (inclusive o médico Noel Nutels, que aparece de relance no filme) e algumas figuras públicas (Janio Quadros à frente) não teria sido possível, por exemplo, criar o Parque Nacional do Xingu, reserva indígena que garante a sobrevivência de diversas nações silvícolas.

Infelizmente, o roteiro de Xingu apostou na produção do artificialismo − na medida em que eliminou a análise crítica sobre alguns fatos. Simultaneamente, não soube resistir à ambicão de reproduzir a proposta estética dos documentários apresentados no National Geographic Channel. Em outras palavras, seguindo a ingenuidade defendida pelo triunfalismo da História, mostrar Orlando (interpretado por Felipe Camargo) com uma arara no ombro é muito mais interessante (e mais rentável economicamente) do que tecer análises sobre os episódios sangrentos que envolvem e encobrem a covardia predatória do homem branco. Não importa que os personagens repitam esse mantra (que o homem branco é o inimigo) toda vez que o conflito se instala, nada fazer contra é que é a questão. A mesma abordagem vale para as cenas que mostram várias brigas fraternas (representação grosseira, anestésica e alienante de que os sertanistas eram "gente como a gente").

Salvo episódios rápidos (ocupação violenta das terras indígenas, danos causados pela gripe e o início da Transamazônica), o filme não causa impacto. Ou estranhamento (exceto na última abordagem indígena). Parte dessa percepção, filtrada pelo uso indiscriminado do enquadramento politicamente correto (o filme utiliza com regularidade o plano americano), está relacionada com uma questão objetiva: o relacionamento superficial entre os homens brancos "bons" e os aborígenes. As questões políticas e economicas raramente são abordadas, pois o ângulo proposto pelo filme não as comportam. Nesse contexto, onde o folclore e o clichê se misturam indiscriminadamente, a figura indígena quase atrapalha. A missão civilizatória (que, em alguns momentos, se assemelha com algumas manifestações religiosas) dos irmãos Villas−Bôas é auto−suficiente. E isso significa que, para dar ares de verossimilhança ao filme e à crueldade (onde as nações indígenas são sempre vítimas), o filme está repleto de índios fantasiados de atores − todos comportadíssimos, dóceis, incapazes de lutarem por seus direitos. E por que fariam isso, se os irmãos Villas−Bôas lá estavam para protegê-los?

Comparado com outros dois filmes de ficção sobre a questão indígena brasileira, Quarup (Dir. Ruy Guerra, 1989) e Hans Staden (Dir. Luis Alberto Pereira, 1999), Xingu parece desenho animado. Diverte, mas não educa.

Enfim, se o espectador engajado (talvez depois de ter lido o artigo de Fernanda Torres) entrar na sala de cinema imaginando que verá um soco no estômago dos predadores, o melhor a fazer é desistir de Xingu – que, no máximo, não passa de um ridículo e comportado peteleco.

P.S.: Magnífica interpretação de João Miguel, como Cláudio Villas−Bôas.

Um comentário:

  1. Faltou o som das trombetas apocalípticas do choque das civilizações.

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