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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ANA CRISTINA CESAR

Sei que cheguei tarde, mas houve um momento em que pensei em me casar com Ana Cristina Cesar. Estava a encenar reprise da cena descrita no poema Happy end, um clássico da geração mimeógrafo. Não tenho certeza, parece que são versos de Cacaso:

o meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente


Eis o problema: ninguém nos apresentou. Só conheço a poesia escrita por Ana Cristina Cesar (Ana C, como é costume grafar o seu nome).

É a distância que nos une. Claro, eu a vi em dezenas de fotografias, um punhado de poemas e cartas (nenhuma para mim!). Foi através da projeção imagética que construí o entusiasmo amoroso. Foi através desse mecanismo perverso que acordei do sonho bom e percebi que minha paixão jamais seria correspondida. Nosso encontro nunca foi possível.

Um dos obstáculos estava na diferença de idade, sete anos nos afastaram. Lonjura cronológica ou psicológica mais do que suficiente para separar o interior de Santa Catarina do Rio de Janeiro. Além disso, quando comprei o primeiro de muitos exemplares de A teus pés, ela já estava morta. Eu ainda não sabia disso, só o soube depois de ter presenteado alguns amigos com o livro.

Deslumbramento. O que descobri de imediato é que a mulher capaz de escrever aqueles versos cheios de pontas (feitos para machucar o leitor), provavelmente se divertia asfixiando os homens − para depois soprar lentamente o oxigênio nos pulmões vazios através de beijos enlouquecedores.

Em 1983, ela tinha 31 anos. E uma vivência que me deixaria envergonhado se soubesse um terço dos detalhes sórdidos − que me deixam constrangido, quase vinte anos depois de sua morte. Retrato de época. Entre o Rio de Janeiro e a Inglaterra, um turbilhão de emoções, a voracidade da liberação sexual, a iconoclastia juvenil, a luta contra a repressão política.

O corpo fala, relata, cont(r)ata, delata. Eram de metais preciosos as dezenas de corações despedaçados, inclusive o próprio, muitas dessas historias escorrendo sub−repticiamente na Correspondência Incompleta, organizada pelo Armando Freitas Filho e a Heloisa Buarque de Hollanda. São cartas que mencionam outras loucuras, inúmeras "viagens" intelectuais, literárias, químicas, a destruição interna, a perda de contato com o mundo externo – a esperança de encontrar abrigo depois das portas da percepção, lá nos jardins suspensos dos paraísos artificiais.

Estou bonita que é um desperdício, imaginei a poeta sussurrando no meu ouvido. Arrepiou tudo. Ninguém consegue resistir a esse tipo de provocação. Quase cometi uma écloga em retribuição. Coisa de rapaz deslumbrado com mulher fatal. Um haicai já estava de bom tamanho, mas sequer essa síntese fui capaz de compor.

Há um amor que é anestésico, há um amor // que entra de férias. Não queria nenhum dos dois. Queria um pouco mais, muito mais, provavelmente ultrapassar limites. Certamente, em algum momento, alguém me diria que isso é demais. Eu responderia, jamais, ciente de que é difícil manter o controle com Essas molas a gemer no quarto ao lado, trechos da trilha sonora que anuncia a felicidade de outro casal. Entre sobressaltos, colagens de sentimentos alheios e crises de ansiedade, digo para mim mesmo, Te acalma minha loucura! Digo sem acreditar no que estou a dizer, sem saber se serei capaz de cumprir com essa promessa.

Na Correspondência completa, descubro que Thomas era um nome capaz de alterar o eixo do mundo. Diante da possibilidade de repetir cenas de Casablanca, pensei em modificar meu nome. Brincar de ser outro. Mas, o fato é que Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura, entende?. Desisti de cometer essa imprudência. Também não aceitei ser chamado de Augusto. Depois de outras leituras, suturas na alma, alguém me informou que alimentar fantasias não diminuiria a minha fome. Ou o apetite que a corroia.

Cenas de abril foram encenadas no dia 29 de outubro. Arpejos e tragédia suburbana, Ser a greta, // o garbo, as palavras deslizando pela página, corpos colados um ao outro, compondo o poema, o grego teorema, a certeza de que nada, nem mesmo um terremoto, seria capaz de diminuir o desespero e acalmar a dor. No fim da história, nenhum nome de homem ou mulher foi capaz de impedir os passos para atravessar o saguão do mal−entendido, como (d)escreveu o Armando Freitas Filho, em um daqueles poemas−epitáfios que foram escritos depois do vôo sem volta, sem fim, o corpo despedaçado no meio da rua.

Não casei com Ana Cristina Cesar. Inédito e disperso, só me restou repetir – como um mantra: Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

UM ESTUDO SOBRE A TANATOFOBIA


O bom−humor como antídoto contra o medo da morte. Essa é uma das diversas sugestões defendidas pelo escritor inglês Julian Barnes, no texto autobiográfico Nada a temer, originalmente publicado em 2008.

Concordando com a tese de que escrever é visitar os mortos, pelo menos aqueles a quem a literatura paga tributos diariamente, o autor de Um toque de limão estabelece inúmeras ligações − algumas inusitadas − entre a precariedade da vida e a tanatofobia (o medo da morte). Ciente de que a literatura não deve ser entendida como profilaxia contra a morte, Julian Barnes evoca o pensamento de Gustave Flaubert, Mal nós entramos neste mundo e pedacinhos de nós começam a cair. Ou seja, a liturgia das células em decomposição muitas vezes se confunde com a possibilidade do fim da vida estar próximo, assustadoramente próximo.

Para aqueles que se preocupam com o prazo de validade da vida, a paranoia adora brincar de esconde−esconde com os fantasmas mais íntimos. E isso resulta no entendimento psíquico de que é verdadeira a hipótese de que a morte está pronta para surpreender a todos nós a qualquer instante. Talvez até esteja respirando atrás da porta, nesse instante. Como alerta Julian Barnes, o problema é de difícil resolução: Não é só olhar para a cova que é difícil, mas olhar para a vida. E para os que não resolveram algumas das questões essenciais da existência, a fuga surge como uma maneira de buscar o esquecimento dos problemas − sendo a mortalidade um dos momentos cruciais desse processo de negação.

Literatura e morte constituem uma dupla imbatível. Estão sempre juntas. Desde o Apocalipse bíblico até parte da literatura contemporânea. Ao lado, como um anjo adormecido, o medo causado pelo espectro da morte. O músico Dmitri Shostakovich lembrou que A ironia está em que, sob a influência desse medo, as pessoas criam poesia, prosa e música; isto é, fortalecer seus elos com os vivos e aumentar sua influência sobre eles.

Em clássicos literários como A divina comédia (Dante Alighieri), O diário do ano da peste (Daniel Defoe), A Peste (Albert Camus) e A montanha mágica (Thomas Mann), a possibilidade de extinção da vida constitui o tema principal. Personagens como Hans Castorp e Bernard Rieux são faces da mesma moeda. Enquanto o segundo arrisca a própria vida para salvar a de outros, o primeiro quer encontrar uma maneira de salvar a si mesmo. Entre os contemporâneos, não é possível esquecer as obras de Emil Cioran (Breviário da decomposição, Silogismos da amargura) e Susan Sontag (A doença como metáfora, AIDS como metáfora, A dor dos outros, o conto Assim vivemos agora). No Brasil, a poesia de Manuel Bandeira está toda impregnada pela proximidade com a indesejada das gentes. Em outros momentos, o enfoque é ficcional. As memórias póstumas de Quincas Borba (Machado de Assis) e A morte e a morte de Quincas Berro d’Água (Jorge Amado) querem esclarecer diversas questões que ficaram para trás.

Epitáfios, as últimas palavras, o que os familiares escrevem nas lápides e nos elogios fúnebres. São esses pequenos gestos de resistência humana que procuram preservar a memória daqueles que "foram embora". Mesmo naqueles momentos em que faltam as palavras para expressar a dor – e o alívio −, a morte está envolta em sentimentos muito complexos, individuais, particulares.

Unindo riso, tristeza e o saudável escárnio que acompanha os nativos das ilhas britânicas, Julian Barnes também se preocupa com a transitoriedade do existir. Provavelmente é esse o motivo que o faz atravessar as 252 páginas de Nada a temer contando casos familiares, mostrando o quanto as suas memórias diferem das de seu irmão filósofo ou tornando público o ressentimento contra a mãe que, depois de ler um de seus romances, disse: Um dos meus filhos escreve livros que consigo ler, mas não consigo entender, e o outro escreve livros que consigo entender, mas não consigo ler. Ela não entende a filosofia de Jonathan e abomina a ficção produzida por Julian.

Nada a temer é um livro comportado, mais uma conversa entre amigos do que uma análise exaustiva. Até porque não é esse o propósito. A literatura confessional impede que Barnes faça algo diferente do que o consagrou. É muito mais divertido relembrar algumas histórias literárias, os Diários (Journal) de Jules Renard à frente de várias centenas de mortos convocados a deporem em favor da vida. No fundo, a pretensão de Julian Barnes talvez seja a de invadir o território do irmão e filosofar sobre o tema. Será? Certamente não é a favor da morte que ele gasta tempo e reflexão. De qualquer forma, como escreveu Montaigne, citando Cícero, Filosofar não é outra coisa senão preparar−se para a morte.



P.S: Para quem tem interesse no entrecruzamento entre morte e literatura, não falta bibliografia. Cinco possibilidades: Mortes imaginárias (Michel Schneider), Morte em Veneza (Thomas Mann), Descanse em paz (Joyce Carol Oates), Vésperas (Adriana Lunardi), Memorial do fim (Haroldo Maranhão).

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

COLECIONANDO LIVROS


Entre os leitores obsessivos é comum "esgotar" a obra de um autor. Por exemplo, alguns amigos costumam comprar e ler (em alguns momentos, reler) quase toda a obra de Anton Tchekov, Fiodor Dostoievski, Ernest Hemingway, Philip Roth, John Updike, Amos Óz, Ítalo Calvino, Juan Carlos Onetti e José Saramago. São escritores que satisfazem determinadas idiossincrasias. E que escrevem criativamente sobre assuntos que emocionam. Raramente o leitor se decepciona ao comprar e ler qualquer um dos livros escritos por eles.

Um fenômeno paralelo está vinculado à temática. Outro amigo coleciona livros de ficção com animais. Aquelas histórias açucaradas de cachorrinhos que salvam vidas? Ele tem todas! Também tem relatos sobre golfinhos, tartarugas e ornitorrincos, gatos e cobras, porcos e leões. Sem exageros, sua pequena biblioteca temática (quase duzentos volumes) é um zoológico.

Coleções temáticas quase nunca me interessaram. Exceto, umas duas vezes. Talvez a mais importante tenha ocorrido depois de ler um exemplar de Mestre de Armas – seis histórias sobre duelos (org. Cláudio Figueiredo, 2007). Poucos livros me causaram tanto prazer.

Dias depois, revi o filme baseado no conto de Joseph Conrad (Os duelistas, The duellists. Dir. Ridley Scott, 1977). Fiquei atônito. O primeiro filme do diretor de Blade Runner (a cena final é, de certa forma, um duelo!) é obra-prima, belíssima fotografia e a qualidade indiscutível de captar a essência proposta pelo texto original.

Colocar a vida em risco na defesa de alguns ideais, nem sempre compreensíveis ou justos, refletiu em alguns de meus valores. Na modernidade − de onde o romantismo foi expulso −, pouco se discute sobre a honra e o heroísmo. Parece assunto fora de moda. Coerente com o contemporâneo é a emboscada e a covardia.

Em Mestre de Armas – seis histórias sobre duelos, junto com as narrativas escritas por Joseph Conrad, Arthur Schnitzler, Guy de Maupassant (um estudo sobre a covardia), Henrich von Kleist, Ivan Turguêniev e Vladimir Nabokov, há uma introdução ao tema. Cláudio Figueiredo, com bom humor, relata várias histórias interessantes e cita alguns romances relacionados com duelos. Foi uma revelação. E o início de uma nova mania.

Acessei a internet, mais especificamente www.estantevirtual.com.br, e comecei a busca. Foi difícil. Alguns títulos não estavam disponíveis. Outros, em compensação, possuem várias traduções. Comprei, por exemplo, O duelo (Anton Tchekov), numa dessas edições pouco confiáveis, fruto de direitos autorais que se transformaram em domínio público. Parte do prazer se perdeu ao imaginar o sabor literário que perdi nessa tradução de alguma tradução inglesa ou estadunidense.

Uma lacuna se preencheu quando anexei ao acervo um clássico legítimo, O herói do nosso tempo (Mikhail Liérmontov), traduzido diretamente do russo. Aqui, a leitura foi diferente, parecia banquete em restaurante francês. Até porque na época em que viveu Liérmontov, a moda na corte russa era falar e imitar os costumes parisienses.

Paguei um valor razoável (bem acima da tabela) em edição de 1933 de O duelo (A. Kuprin). O livro está inteiro, bem conservado e alguém escreveu em uma de suas páginas iniciais que o exemplar foi adquirido em 17 de março de 1939. Há algo de anacrônico em folhear um livro vinte anos mais velho do que seu leitor!

Como sou um fã do David Grossman, não me contive e adquiri um texto infanto−juvenil, O duelo. Na minha avaliação, seu valor está em ser um objeto colecionável.

Li, deliciado, cada um dos livros citados. De vez em quanto, faço uma pesquisa pelos sítios de busca da Internet, tentando descobrir se existe alguma novidade sobre o assunto. Fico torcendo para ser surpreendido. Infelizmente, raramente acontece. Embora não tenha pretensões de formar uma coleção, ainda continuo interessado no tema.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

SIMONE CAMPOS NO SHOPPING


Sob/sobre a proteção do trocadilho bi−lingüístico, Simone Campos, aos 17 anos, escreveu uma dessas narrativas que, logo depois de seu lançamento, desaparecem de circulação. O motivo sério ou fútil, difícil de explicar ou entender, implica no surgimento de fenômeno relativamente comum: alguns amigos do/a autor/a e/ou críticos literários, na tentativa (muitas vezes in/útil) de garantir lugar na história literária para esse livro, por falta de palavra melhor, "Cult" (um conceito, por definição, discutível), passam a dedicar todos os esforços possíveis e imaginários para promover o objeto de suas paixões.

A primeira edição de No Shopping tem formato de livro de bolso, apenas 72 páginas. Na época de sua publicação, 2000, teve três tiragens e alguma badalação. Depois, caiu em suave esquecimento. Parece não requerer muito esforço na leitura. Parece. Felizmente, não é texto assim tão fácil. Há uma densidade muito bem elaborada, quase trabalho profissional. Quase. De qualquer forma, alguns/muitos/inúmeros leitores derrapam nas páginas que compõem a narrativa desconexa, ágil, confusa, bem escrita, tribal, criativa, cheia de reticências e reminiscências de um tempo que ainda não cumpriu com suas obrigações trágicas. Nos momentos mais ternos, aqueles que jamais serão eternos, o texto tenta e consegue brincar com a rima fornecida pela tradição literária. Nada muito profundo, o suficiente para cutucar algum rato de biblioteca precoce ou a pouca espessa camada cultural obtida nas aulas de literatura no segundo grau.

No Shopping, como qualquer narrativa pop que se preze, utiliza linguagem contemporânea, afiada pelo sub−texto, cortante em múltiplos sentidos, sentidos nos escorregões múltiplos dos personagens − em alguns casos, pré−anunciados; em outros descasos, pronunciados. Nos melhores momentos, saltam faíscas para todos os lados, o suficiente para começar um incêndio (sem duvida, criminoso).

Essa história será contada como me foi contada. Por essa menina. A memória jovem dela confunde os fatos. Prometo que às vezes eles vão soar confusos e dispersos, avisa a narradora, sem identificação, em alguns momentos indiferente aos acontecimentos, em outros emitindo opinião e posição/oposição sobre os fatos relatados. Em todas essas situações, procurando omitir que o grande segredo, aquele que vale um milhão de euros, não será entregue, logo de cara. A idéia é manter a tensão, o suspense, evitar que alguns leitores percebam que o cheque não tem fundo, não há saldo ou salvação que resolva a equação mal formulada pela vida, mimetizada pela literatura.

A história confusa que une − e separa − Délia, Juliana, Yuri, Victor e os demais personagens secundários é puro drama de adolescentes, composta pela ausência de substância e diversos equívocos.

Yuri ama Délia – que não sabe exatamente o que quer. Juliana ama Victor – que não ama ninguém. Juliana fica furiosa, ao suspeitar que, talvez, Délia tenha colocado as mãos (e outras partes do corpo) no corpo de Victor. Rompimento da amizade, com direito a gritos e escândalo. A velha cena heróica da luta pelo macho que não pertence a nenhuma das fêmeas. Enquanto isso, como se estivessem participando de novela diferente, Délia e Yuri, entre tapas e beijos, vão se acertando e errando, como convém aos casais que sentem tesão ou algo que talvez se aproxime do amor. Pelo menos, é isso o que sente o menino. Pelo mais, a menina quer salvar o menino do mundo das drogas, a erva maldita ou o pó brilhante que o solícito atendente da vídeo−locadora fornece aos clientes fiéis.

Obviamente, algumas das tramas paralelas não possuem a mínima importância, embora sirvam de pilar de sustentação para que a carpintaria narrativa não resulte em escombros. Situações similares se repetem nos filmes que Yuri e Délia assistem nos finais de tarde, no shopping. Será?

Personagem importante, o shopping, aparece e desaparece da narrativa. É o local em que as personagens estão amarradas e amordaçadas. Locus e objeto. Manipulado e manipulador. Espelho que reflete a crítica quase lúcida - em alguns momentos apenas o esperneio adolescente contra o consumo desenfreado: Sábado era dia sem descanso para os burgueses que vendem e para os que compram. Estes, indianamente perfilados, sofriam no estacionamento, nas cabines das lojas, na hora de pagar, arrastando−se pelo deserto refrigerado. Carregavam muitas sacolas e nenhuma culpa. Milhares de rostos cretinos formando uma estatística.

Ou, em versão mais divertida, esculacho a-pós-o-moderno, vale lembrar a cena protagonizada por Délia e Yuri:

A fome interminável do Shopping levou−os ao meio da praça, onde faziam sua escolha. Délia queria ir ao cibercafé. Yuri não. Achando−se conhecedor da raça, ele tentou até se amotinar. Bateu o pé. Mas aquela sereia sabia cantar para marinheiros nostálgicos, se preciso.
Ah! Que saudades da minha infância tecnológica!
Do meu XT de letras verdes
64 KB de RAM
Todos os meus árcade
Bad command or filename...
Dobrai a lingual, ó insensato!
Sei o que é WordStar 2.0!

Depois Yuri ficou sério. Murmurou:
− Você é cruel demais com os poetas.


Não de deve comprar emoções no shopping. Na confusão entre o descartável e o permanente, algumas coisas ficam para trás. A poesia é a menos importante. Mãos vazias, ilusões plenas, o leitor chega à última página, cheio de dúvidas. Talvez precise reler No Shopping – ciente de que existem respostas, mas que talvez esteja fazendo as perguntas erradas.


P.S: Além de No Shopping, Simone Campos publicou A Feia Noite (2006) e o romance “on-line” de ficção científica Penados y Rebeldes (2007). Alguns de seus contos podem ser encontrados nos livros Geração 90 – Os Transgressores (org. Nelson de Oliveira, 2003), 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (Org. Luiz Ruffato, 2004) e Entre nós (Org. Luiz Ruffato, 2007).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

QUATRO POEMAS MENORES, QUE ESTAVAM ESQUECIDOS, E DUAS GRAVURAS DE RENOIR


DECLARAÇÃO

sou tudo
o que você
quiser,
menos
um caso qualquer


MINHA CIDADE

sentados no calçadão
os bois
esperam
os fazendeiros
engordarem



LOUCA

até que não era feia
só que tinha
o estranho hábito
de querer encontrar
um pai para o filho
que nunca teve


FLAGRANTE

vizinha
por favor
tome conta da minha criança
que eu quero ver a novela
sossegada



(ARRUDA FILHO, Raul. Um abraço pra quem fica. Lages: Prefeitura do Município de Lages, 1984)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"A FELICIDADE É FÁCIL", DIFÍCIL É ESCREVER UM ROMANCE


O segundo romance escrito por Edney Silvestre foi publicado em 2011, tem título de livro de auto−ajuda, A felicidade é fácil, apresenta epígrafe em francês de um trecho do filme Asas do Desejo, escrito e dirigido por dois alemães (Peter Handke e Wim Wenders), e se concentra em um período da história recente, o governo Fernando Collor de Mello.

Esse conjunto de aparentes contradições não atrapalha o texto que muita gente devorará "de uma sentada", as 219 páginas fluindo diante dos olhos ávidos do leitor, com estilo cortante, desses que parecem acenar gulosamente para o "quero mais". Parte dessa vertigem é conseqüência do uso abusivo de anacronias literárias, mistura competente de analepses (também chamadas de flashback) e prolepses, recursos cada vez mais raros na literatura contemporânea. Obviamente, esse truque não é nenhum ovo de Colombo. Se utilizado de forma competente, adiantar e recuar a ordem temporal de alguns trechos de uma narrativa fornece um dinamismo que a arquitetura textual em ordem natural (início, meio e fim, nessa ordem) muitas vezes não consegue obter.

Tendo como eixo dramático o primeiro bloco narrativo e reconstruindo o enredo ao longo de cenas que vão acrescentando inúmeras camadas de informações, mas em ordem pouco ortodoxa, o romance desliza na direção do desfecho sem grandes tropeços, ampliando a curiosidade do leitor ao fim de cada um dos 17 capítulos, a cada soma de novos elementos. Esse tipo de encadeamento, acrescido de vários monólogos interiores, fornece suspense e impede que a atenção (e a tensão) narrativa se disperse.

A tentativa de seqüestro, em São Paulo, do filho de um publicitário ligado ao governo federal detona o conflito. A associação entre agências de publicidade e o governo federal está conectada com um dos problemas mais significativos das narrativas contemporâneas. Ou seja, a necessidade psicológica do leitor de buscar amparo em fatos que ainda estão gravados na sua memória (e no inconsciente coletivo). Leitores menos experimentados e/ou mais mal−intencionados recordarão de episódios policiais (e pouco públicos) em que se misturam histórias de sequestros e nomes de publicitários como Roberto Medina, Luiz Salles, Washington Olivetto e Marcos Valério. Mas não são apenas as sombras desses quatro personagens que servem de moldura para a estrutura do texto e se deslocam transversalmente pela narrativa. Também adentra ao palco o inconfundível Turco ("Rouba, mas faz". O povão gosta dele. Enquanto estiver construindo túneis e viadutos, e mandando matar bandidos, continuará sendo eleito.) ou alguns novos ricos, figurinhas eternamente presentes nas colunas sociais (Cuidando da conta de uma rede de supermercados dos arrogantes filhos de um português semianalfabeto, a quem a inflação e a falta de escrúpulos transformaram em milionário em menos de uma década.). A classe política verde−amarela também é identificada nesse espetáculo grotesco (Quando estava perto evitavam citar cargos e sobrenomes. Só usavam prenomes. O Fernando. O Marcílio. O Bernardo. A Zélia. O Leonel. O Pedro. A Teresa. Se queriam evitar revelações ou demonstrar intimidade com os poderosos, para ela tanto fazia.).

Como Amar é um verbo que só faz sentido em publicidade, o maior peso social acaba sendo despejado nas costas dos pobres. Para quem precisa trabalhar de sol-a-sol, a felicidade nunca foi fácil, é preciso tentar renová-la a cada dia. Como peso extra, há um pacote de pragas bíblicas a separar a casa grande e a senzala. Enquanto os ricos se divertem construindo ligações perigosas, aos trabalhadores resta o discurso religioso, onde se misturam ignorância e má-fé. Ou então, o desastre que é descobrir que o menino surdo−mudo, filho dos empregados, Irene e Stephan, foi raptado em lugar do bem−nutrido filho do patrão.

Do outro lado da situação, os seqüestradores são mercenários multinacionais (argentino, uruguaio, chileno, brasileiro), alguns deles mimetizando os ideais da direita reacionária, saudosa de um tempo que já não mais existe, mas esperta o suficiente para farejar onde está o dinheiro e, conseqüentemente, se adaptar aos novos tempos.

Enquanto o Brasil procura adentrar na modernidade, superando o arcaísmo que o acompanha desde a época da colonização, a classe política (e seus asseclas) se locupleta no assalto diário ao erário público. Na tarefa sempre complicada de explicar o porquê do patrimônio pessoal de alguns dirigentes políticos ser incompatível com o salário que recebem ao final de cada mês, "laranjas" surgem a todo instante − entre eles, sem fazer muito alarde, alguns valorosos publicitários, os abre−alas da corrupção.

A tarefa proposta pela narrativa escrita por Edney Silvestre está em retratar esse movimento de usurpação da dignidade nacional por parte da República de Alagoas. Travestida de narrativa policialesca, parte da intenção ficcional se cumpre, apesar da óbvia ausência de densidade do enredo (que é encoberto pela esperteza de usar uma forma narrativa pouco usual). Também falta um pouco mais de profundidade ao descrever as duas quadrilhas. Como o romance está concentrado em São Paulo, a política "suja" praticada em Brasília ficou restrita ao mundo "limpo" dos crimes de colarinho branco. Mesmo assim − e isso é uma qualidade −, ao final do romance, é arriscado apontar quem são os criminosos: os políticos ou os seqüestradores.

Outra deficiência está no fato de diversos personagens (Olavo, Ernesto, Daniel, Emiliano) serem "planos" (como gostava de definir E. M. Foster). Falta−lhes humanidade, sentimentos, interação com a estrutura narrativa. A escolha da fórmula "menos é mais" como elemento constituinte das características mais significativas das personagens aumentou a superficialidade temática.

Enfim, se A felicidade é fácil, difícil é escrever um romance.

P.S: Edney Silvestre é o autor de Se eu fechar os olhos agora, vencedor do Prêmio Jabuti, categoria Melhor Romance, em 2010. Apresenta o programa Espaço Aberto Literatura, na televisão a cabo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O ANO DO DRAGÃO


Começou o ano do dragão. Ano 4710 do calendário chinês. Segundo uma antiga lenda, Buda convidou todos os animais para uma festa de Ano Novo. Apenas doze compareceram. Cada um deles recebeu como presente um ano, de acordo com a ordem de chegada: rato (ou camundongo), boi (ou búfalo – vaca, na Tailândia), tigre (pantera, na Mongólia), coelho (gato, na Tailândia), dragão (crocodilo, na Pérsia), cobra (ou serpente – pequeno dragão, na Tailândia), cavalo, cabra (ou bode ou carneiro), galo (ou galinha), macaco, cão, porco (ou javali). A cada 60 anos, a regência é do cavalo de fogo.

O dragão é o animal mais poderoso do horóscopo chinês: orgulhoso, altivo, determinado, vaidoso, passional, cheio de vitalidade e potência sexual. Sempre está procurando por uma causa para lutar – e faz desse objetivo a razão de seu existir. Com tantas qualidades mágicas, ilusórias ou não, muitos pais chineses se programaram para que seus filhos nasçam neste ano, seguindo o vaticínio de que serão abençoados com sorte, força e fortuna.

No Oriente, o dragão representa o imperador ou alguém que detém muito poder.

No Ocidente, a palavra dragão vem do grego drakón e também do latim draco. Provavelmente é derivada dos verbos gregos derkomai (ver) ou deskesthai (lançar olhares). Quer dizer, o dragão está relacionado com a visão e, por analogia, com o conhecimento. Segundo algumas lendas, assim como o saber é perigoso, olhar nos olhos de um dragão pode ser destrutivo. Em outras línguas, as palavras que o nominam, drache, drake, também servem para designar as serpentes. Em algumas situações também se utiliza as palavras worm ou wyrm (verme).

De acordo com o horóscopo chinês, há cinco tipos de dragão: metal, madeira, água, fogo e terra. O ano de 2012 será regido pelo dragão água, que se caracteriza por ter personalidade própria, ser democrático e liberal (embora não seja um conciliador). Pode se transformar em um negociante de sucesso. Na antiguidade, quatro dragões da água governavam os quatro oceanos do mundo: Ao Kuang, Ao Jun, Ao Shun e Ao Chi. Todos moravam no fundo das águas e eram escravos do Imperador de Jade.

O cristianismo costumava aceitar a existência dos dragões. Principalmente quando eles estão relacionados com a história de Jorge, um cavalheiro da Capadócia, na Ásia Menor, que lutou nas cruzadas e que é o santo protetor da Inglaterra. A bandeira do país de Gales é composta por um dragão vermelho sobre um campo verde e branco.

Conta uma lenda que, em indeterminada cidade pagã do norte de África, um dragão assustava o povo. Para tentar acalmar a fera, o povo sacrificava ovelhas e seres humanos. Certa vez, a filha do rei foi sorteada para ser entregue ao monstro. Um pouco antes de ser morta, ela foi salva por um cavaleiro que voltava das Cruzadas. O dragão foi morto e a princesa libertada. Todos os habitantes da região se converteram ao Cristianismo como agradecimento ao herói. Em outra versão dessa mesma história, o dragão se abrigava num pântano. Quase todas as moças já haviam sido sacrificadas. A última era a filha do rei. Jorge, o cavaleiro, chegou ao pântano e libertou a princesa. O dragão foi amarrado e conduzido até o povoado, onde, na presença de todos, Jorge o matou. O herói recusou a mão da moça em casamento e manteve a castidade de missionário cristão.

O que isso tudo tem a ver (a haver) com a literatura? Não sei. Provavelmente nada. Ou tudo. Os desígnios da natureza e da imaginação são insondáveis e inesperados − como uma vertente de água, que, em filetes cristalinos, brota no meio das pedras para saciar a nossa sede.

Dragões são seres que estão presentes em diversos relatos mitológicos. Na mitologia grega eles são abundantes. Os homens comandados por Cadmo, que estava procurando por sua irmã Europa, raptada por Zeus, foram atacados por um dragão. Hércules derrotou Ládon, que protegia os pomos de ouro no jardim das Hespérides. Na mitologia nórdica, um exemplo significativo é Fafner, do Anel dos Nibelungos. Na mitologia anglo-saxã, o grande destaque é Grendel, o dragão que atacou a Dinamarca e que seria morto por Beowulf.

Os dragões raramente são animais amistosos, desses que costuma−se levar ao parque para brincar no gramado. Costumam ser comandados por homens e mulheres ambiciosos, que querem impor o terror como instrumento de dominação – como não poderia ser diferente, costumam ser derrotados nas cenas finais da trama.

Enfim, os dragões costumam frequentar a literatura que muitos tolinhos jamais considerarão como "séria" (seja lá o que isso for!). Desajeitados como os dinossauros, cuspindo imensas labaredas de fogo, embora sejam seres fascinantes, os dragões costumam fazer grandes estragos nos lugares retratados nos textos destinados ao público infanto−juvenil: velhos romances de capa−e−espada (dos tempos do Távola Redonda ou do Santo Graal) ou em narrativas fantásticas como as séries Dragões de Pern (Anne McCaffrey), Crônicas de Spiderwick (texto de Holly Black, ilustrações de Tony DiTerlizzi), Trilogia da Herança (Christopher Paolini), O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien), Harry Potter (J. K. Rowling) e Crônicas de Fogo e Gelo (George R. R. Martin).

Lizabeth Salander, a protagonista da trilogia Millennium (Stieg Larsson), tem um dragão tatuado nas costas.

No romance Cobras e Piercings, escrito pela japonesa Hitomi Kanehara, os dragões ligam Shiba, Ama(deus) e Lui. Shiba é um tatuador punk e skinhead. Ele possui uma tatuagem na parte posterior da cabeça: um dragão enrolado no próprio rabo. Ama tem varias tatuagens pelo corpo, inclusive um dragão nas costas. Lui, namorada de Ama, contrata os serviços de Shiba para tatuar em suas costas um dragão sem olhos e um Kirin (animal quimérico da mitologia chinesa, parecido com uma girafa.), também sem olhos. Segundo a lenda de garyotensei, um pintor estava desenhando os olhos de um dragão, último detalhe do quadro em que estava trabalhando. Quando terminou, o animal ganhou vida e saiu voando.

Seja para o bem ou para o mal, começou hoje o ano do dragão. Ni hao.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O BRASIL E OS LIVROS


O Brasil foi "descoberto" em 1500. Mas, a história do livro em terras portuguesas deste lado do Atlântico somente teve início em 1808. Teoricamente, foram 300 anos de obscuridade (com um pequeno intervalo durante a invasão holandesa, na década de 1640). O governo colonial considerava crime de alta periculosidade a importação de equipamentos gráficos. Em outras palavras, era proibido publicar. Uma das razões desse descalabro tem explicação política: conflitos entre o governo do marquês de Pombal (1750−1777) e os jesuítas. Proibido aqui, porque durante muitos anos as gráficas inglesas funcionaram noite e dia para imprimir jornais, livros e folhetos destinados à lusa possessão sul-americana.

Foi a fuga da família real para o Brasil e a emissão de uma carta régia, no dia 13 de maio de 1808, pelo Príncipe Regente, Dom João, que modificou o panorama mercantilista. O documento que instituiu a reprodutibilidade técnica em terras tropicais foi impresso no Rio de Janeiro, em um dos dois prelos (prensas) com 28 fontes de tipos para impressão, que Portugal comprou da Inglaterra e que, por conta das turbulências políticas portuguesas de 1807, ficaram, durante muitos meses, encaixotados no cais de Lisboa.

Entre 1808 e 1821, a Imprensa Régia foi monopólio do governo regencial. Esse privilégio foi contestado em 1811, quando o comerciante Manuel Antonio da Silva Serva instalou uma tipografia em Salvador. Como os preços cobrados pelo Rio de Janeiro eram abusivos, não foi difícil conseguir várias encomendas de trabalho.

Com o fim do monopólio, surgiram as primeiras tipografias particulares na capital real. Historiadores relatam que, em 1822, o Rio de Janeiro contava com cerca de sete gráficas. Um número significativo se for considerado que, na mesma época, Paris contava com 480 livrarias e 850 tipografias.

A partir da Independência, a indústria gráfica nacional progrediu significativamente e se espalhou por "todo" o Império. No entanto, os livros continuavam sendo importados da Europa. Além da precariedade dos "parques gráficos", a elite intelectual do Brasil era completamente dependente da cultura produzida no outro lado do mar. Tentando reagir (mas não muito) contra esse atrelamento, surgiram alguns personagens significativos. Talvez o mais importante tenha sido Francisco de Paula Brito, que, entre tantas contribuições, imprimiu a primeira constituição brasileira, em 1824. Ao redor de Paula Brito se reuniram os mais significativos nomes do movimento romântico de 1840−1860.

Como não poderia ser diferente, impressores se transformaram em livreiros. O que era "composto" e gravado na sala dos fundos era discutido e vendido no balcão da livraria.

Mas, qual teria sido a primeira publicação sobre o Brasil? Rubens Borba de Moraes considera que foi um folheto de oito páginas, Mundus Novus, escrito por Américo Vespúcio e publicado por Johannes Otmar, em 1504, na cidade alemã de Augsburg. O mesmo autor revela que o primeiro impresso brasileiro também foi um folheto (22 páginas) e surgiu no Rio de Janeiro em 1747. Impresso por Isidoro da Fonseca, seu título era Relação de entrada que fez... D. F. Antônio do Desterro Malheiro, Bispo do Rio de Janeiro... Composta pelo Doutor Antônio Rosado da Cunha....

Ao saber dessa publicação, e de outras duas, Lisboa mandou fechar a tipografia, aprender os impressos e remeter tudo ao Reino.

Entre 1808 e 2012 a indústria do livro, assim como outros setores comerciais, se desenvolveu bastante, assimilou a tecnologia e tornou o acesso à cultura mais fácil, ágil e democrático. Entre tropeços e pequenas vitórias, foi uma aventura e tanto!


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

SÍNDROME DE STENDHAL


Conta a lenda que Henri-Marie Beyle, alguns dias antes de completar 28 anos, em 1811, diante dos afrescos que estão na igreja de Santa Croce, em Florença, teve uma espécie de desfalecimento. Segundo o seu relato no livro Roma, Nápoles e Florença, publicado em 1817, ele atingiu o grau supremo de sensibilidade em que as “sugestões divinas” da arte se mesclam com a sensualidade apaixonada da emoção.

Intérpretes mais modernos desse episódio, utilizando-se das ferramentas teóricas fornecidas pela psicologia e pela psicanálise, dizem que (diante da beleza plástica das artes religiosas) o homem que alguns anos depois adotaria o pseudônimo de Stendhal, não conseguiu se conter e teve um orgasmo. E esse acontecimento atingiu tal força e potência que a perda da consciência foi resultado natural. Beyle, que naqueles tempos ainda não se chamava Stendhal, escreveu que Quando saí de Santa Croce, fui tomado de palpitações... A fonte da vida secou dentro de mim e caminhei com medo de cair no chão.

Se isso tem algum sentido, ou não, pouco importa, pois havendo divergência entre os acontecimentos e a lenda, a lenda ganha com vários corpos de vantagem. De qualquer forma, o futuro autor de dois dos mais importantes romances do século XIX, O vermelho e o negro (publicado em 1830) e A cartuxa de Parma (publicado em 1839), foi o primeiro caso da doença identificada em 1979 por um psiquiatra florentino. Segundo esse estudioso, as riquezas artísticas de Florença são responsáveis por mais de cem casos registrados de tonteiras e náuseas em locais onde estão expostas algumas das mais importantes obras-primas italianas. Diante dessa eventualidade, o guia Firenze Spettacolo listou alguns lugares que devem ser evitados pelos burgueses semi-letrados que são sensíveis ao ponto de serem tragado pela vertigem causada pela arte que jamais conseguirão imitar.

Os italianos são um caso raro na história humana. As pinturas, afrescos e esculturas criadas por Giotto, Michelangelo, Botticelli e Rafael, entre outros, são únicas.

Nenhum outro país consegue rivalizar com “a bota” em termos de qualidade artística. A França produziu pensadores e vinhos maravilhosos; Bélgica tem excelente chocolate; Suíça ficou famosa por canivetes e esconder dinheiro roubado; Espanha nos legou histórias de bravura; Alemanha nos mostrou o poder militar, iniciado com Bismarck e Von Clausewitz, além disso, eles produzem as melhores “Würst” do mundo.

Mas, os italianos... Bem, os italianos, antes de tudo, sempre procuraram se divertir. Muitas vezes, isso é necessário admitir, à custa dos outros. Mas, deixando de lado a megalomania dos Césares e as loucuras protagonizadas por Mussolini e Berlusconi (em muitos momentos, faces da mesma moeda), quem é que consegue resistir a aquelas refeições imensas, a aquele vinho rascante de trattoria, a aquelas ragazzas que enlouquecem olhares e produzem erupções vulcânicas?

Na Itália, cada igreja é um museu. Cada museu é um deslumbramento. Cada alumbramento, uma forma de conversar com Deus – se é que esse sujeito existe! Então, talvez o melhor a fazer seja as malas e ir desfalecer nos braços dessa mulher carinhosa (e possessiva) que se esparrama no Adriático e no Mediterrâneo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ROBERTO BOLAÑO

Roberto Bolaño foi o último mártir a ser canonizado pela literatura mundial. Sua morte de insuficiência hepática, em 2003, aos 50 anos, no auge do potencial criativo, renovou o mito ideológico da pequena−burguesia de que a arte é um dos portais para a imortalidade. E pouco importa se a lenda impressa combina minimamente com os fatos ocorridos ou imaginados, porque um dos muitos objetivos da literatura é ser confundida com a vida que poderia ter sido e que não foi.

Em 1968, aos 15 anos, a família de Bolaño se mudou do Chile para o México. Em 1973, Roberto resolveu voltar para casa, disposto a viver o sonho proposto pelo governo socialista de Salvador Allende (eleito em 1970). Por um desses caprichos da sorte (ou do azar) escolheu conhecer primeiro o continente. Segundo o que ele mesmo escreveu sobre essa tumultuada viagem de ônibus, foi uma espécie de a viagem iniciática de todos os jovens pobres latino−americanos. Depois de inúmeras aventuras, chegou ao Chile na véspera do golpe militar promovido pelos asseclas de Augusto Pinochet. O inevitável aconteceu: foi preso. Como se fosse um dos capítulos de algum dos romances que Roberto escreveria vinte anos depois, o acaso surgiu outra vez: um dos guardas tinha sido seu colega de colégio. Foi com a ajuda desse amigo que conseguiu fugir.

Essa história mirabolante e pouco crível talvez tenha sido a gênese de um dos textos seminais da literatura de língua espanhola. As 622 páginas de Los detectives salvajes, vencedor do prêmio Rómulo Gallegos de 1999, estão divididas em três partes assimétricas que glosam (e gozam de) diversos gêneros literários, incluindo nessa brincadeira quase borgeana, quase espetáculo inverso do jogo da amarelinha proposto por Cortázar, romances de formação, novelas epistolares, fragmentos de diários, narrativas de viagem e histórias policiais.

Em Os detetives selvagens, conforme o diário de Juan Garcia Madero, parte da juventude literária mexicana dos anos 70 do século XX se reunia em torno de Arturo Belano e Ulises Lima, os criadores do realismo visceral. As cenas que constituem a espinha dorsal da segunda parte do enredo estão pontuadas por (cerca de 50) narradores múltiplos que, por vias transversas, muitas vezes em episódios que parecem estar desconectados com a história principal, contam a loucura que resultou na procura pela desaparecida poetisa Cesárea Tinajero na imensidão do desértico estado de Sonora, a nordeste do território mexicano. Na parte final, centrada em 1976, o diário de Madero estabelece o fecho para a peripécia protagonizada por Belano e Lima, embora deixe o leitor perplexo, a se perguntar se não precisa reler o texto, visto que, assim como alguns truques de prestidigitação, algum fio parece ter ficado solto, a reter o entendimento sobre o que aconteceu, como aconteceu e o porquê de toda essa ilusão.

Em outro romance, Noturno no Chile, Bolaño também criou uma trama quase surrealista, onde o protagonista se envolve em uma situação constrangedora: sacerdote, poeta e crítico literário, ministra aulas de marxismo para a Junta Militar. Ao mesmo tempo, freqüenta saraus em uma casa que também é utilizada para torturar presos políticos.

Os fantasmas do autoritarismo se repetem diversas vezes, romance após romance, na obra de Bolaño, denunciando o avanço inexorável da barbárie, do fascismo militar e da negação dos direitos humanos mais elementares. O exemplo mais evidente se encontra em La literatura nazi en América, em que conjuga o mito de Janus, o deus romano de duas faces: entre o torturador e o poeta, entre a vanguarda e o autoritarismo, a humanismo desaparece, soterrado pela ausência de razão.

Estrela distante, Amuleto e Putas Assassinas são alguns dos títulos que impedirão que o nome do escritor nascido em Santiago de Chile, em 1953, seja esquecido. Seu testamento literário, o inacabado 2666, foi planejado, por razões econômicas, para ser publicado em cinco volumes. Com uma estrutura híbrida (romance policial, ensaio filosófico e comédia), a narrativa esta centrada em uma história que em alguns momentos parece se aproximar de Os detetives selvagens, em outros se afasta de qualquer modelo estrutural proposto anteriormente.

Bolaño foi (ainda o é) um ícone dos escritores de língua espanhola. Tanto que alguns amigos o transformaram em personagem em, pelo menos, dois romances: Mantra, escrito pelo argentino Rodrigo Fresan (outro malabarista da carpintaria narrativa) e Soldados de Salamina, escrito pelo espanhol Javier Cercas.

Em alguns momentos - os dias difíceis de um escritor que somente começou a publicar quando tinha 40 anos -, Roberto Bolaño precisou engolir o orgulho. Com esposa e filho pequeno para sustentar, morando em Espanha, qualquer emprego era agarrado com as duas mãos, tábua de salvação para quem ainda alimentava a esperança de não morrer de fome. Em um desses momentos foi vigia noturno de camping (episódio recriado no romance Pista de gelo).

Segundo Javier Cercas,que foi seu amigo, a coragem e honestidade invioláveis com que Bolaño assumiu sua vocação de escritor e o fato incontornável de que ele é, até onde sei e ao menos até que alguém se apresse a provar o contrário, o escritor latino−americano mais imprescindível de sua geração.



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

VINTE E CINCO CITAÇÕES LITERÁRIAS


Há sempre algo de ofensivo nos detalhes da astúcia. (AUSTEN, Jane: Persuasão)

Existem três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas, ou torná-las literatura. (STILLS, Stephen)

Escrever foi a tábua à qual me agarrei para não ser considerado um idiota. (CONY, Carlos Heitor)

Casar deve ser para sempre. É uma pena, porque neste mundo de hoje, em que tudo tem que ser reaprendido a cada cinco anos, faz tempo que o sempre acabou. (MONTEIRO, Reinaldo: As Afinidades)

Literatura, a volúpia de mentir por escrito. (MORAES, Reinaldo: Tanto faz)

Não foi capaz de vencer o habito de uma vida inteira de pacificar as mulheres com surpresas embrulhadas em papel colorido. (McEWAN, Ian: Solar)

A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo. (FERNANDES, Millor)

Embora eu não me importe de ser considerado inteligente, confesso que compreendo a grande desgraça de ser identificado como intelectual. (BELLOW, Saul: Trocando os pés pelas mãos e outras histórias)

Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo. (GIDE, André)

Filosofar não é outra coisa senão preparar−se para a morte (CICERO, citado por MONTAIGNE, Michel de: Ensaios)

Ela lambeu o mamilo dele com os meneios simples e firmes de um gato que se limpa. (FRANZEN, Jonathan: Liberdade)

Existe, afinal de contas, certa felicidade na infelicidade, se ela for uma infelicidade do tipo certo. (FRANZEN, Jonathan: Liberdade)

Sentiu também um forte cheiro de água−de−colônia, ou de perfume, talvez de madressilva, que o excitou muito, disse−me, já que uma das suas fraquezas eram esses aromas refinados das mulheres, "que as envolvem", acrescentou, já emocionado, "e ao cheirar o ar perto delas parece que você está cheirando−lhes a pele debaixo da roupa". (MOLINA, Antonio Muñoz: Carlota Fainberg)

Costumo pensar nesta casa como um barco. Um velho navio a vapor cortando a custo a lama pesada de um rio. A floresta imensa. A noite em volta. – Felix disse isso e baixou a voz. Apontou num gesto vago os vagos livros: − Está cheio de vozes, o meu barco. (AGUALUSA, José Eduardo: O vendedor de passados)

Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúmes é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha. (VENTURA, Zuenir: Mal secreto).

Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. (TOLSTOI, Leon: Ana Karenina)

Todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes; todas as famílias infelizes são mais ou menos semelhantes. (NABOKOV, Vladimir: Ada ou Ardor)

Tudo precisa ser arrumado. Ponho as mesmas coisas juntas, separando o parecido do diferente. É o que fiz a vida inteira. As pessoas misturam tudo. Jogam tudo fora no mesmo lugar. É assim que produzem lixo. Lixo é a confusão que fazemos ao jogar as coisas fora. (BERGER, John: O dia do casamento)

A maioria das pessoas não dá atenção aos detalhes – disse Samuel. – Mas são os detalhes que me espantam. (STEINBECK, John: Vidas Amargas [A leste do Eden])

Talvez fosse melhor medir as distâncias de outra maneira. Não por espaço e tempo, como se faz agora. Mas pelo que se aprende no caminho. (CARRASCOZA, João Anzanello: Caçador de vidro)

Brigas de família são coisas amargas. Não seguem nenhuma regra. Não são como dores ou feridas; são mais como farpas na pele, que custam a sarar porque não há substância suficiente. (FITZGERALD, Francis Scott: Babilônia revisitada)

Nunca estamos infinitamente longe daqueles que odiamos. Pela mesma razão, portanto, poderíamos crer que nunca estaremos absolutamente perto daqueles que amamos. Quando embarquei já conhecia esse principio atroz. Mas há verdades que merecem a nossa atenção, e há outras com as quais não nos é conveniente dialogar. (PIÑOL, Albert Sánchez: A pele fria).

Fevereiro chegava, e eu continuava minha carreira de imbecil olímpica que, temo, se iniciou desde meu nascimento, mas que só agora obtinha seu mais que merecido reconhecimento público. (VIGNA, Elvira: Nada a dizer)

A inveja não pode se dar entre pessoas que mal se conhecem. Não se invejam pessoas de outras terras nem de outras épocas. Não se invejam os forasteiros, e sim os da mesma aldeia; não os de mais idade, os de outra geração, e sim os contemporâneos, os camaradas. E a maior inveja se dá entre irmãos. Não é à toa que existe a lenda de Caim e Abel... (UNAMUNO, Miguel de: Abel Sanchez)

E aí, o professor Plumb e a senhora Chase empurraram o resto do bolo para o lado, deixaram os restos da refeição espalhados na mesa como dois amantes abandonando uma cama desfeita em um motel barato, e partiram para a porta da galeria. (COE, Jonathan: Bem−vindo ao clube)