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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

DESEMPACOTANDO MINHA BIBLIOTECA

Quando o homem entrou no apartamento e viu os livros na estante, sua primeira reação foi a de pronunciar, em alto e bom tom, sonoro palavrão.

−São esses?

Olhei para ele, olhei para os livros.

−Na outra sala tem mais.

Outro palavrão. Outro elogio às virtudes da senhora minha mãe.

−Para que alguém quer tanto livro? Garanto que o senhor nem leu tudo isso!

Fiquei esperando, calado. Ele trabalhava com mudanças e estava ali para fazer um orçamento.

− Livro é pesado. Não sei não, vai precisar de muita gente para transportar tudo isso.

Ele caminhou até a outra sala, fez uma avaliação rápida, balançou a cabeça, como que a dizer: o mundo está cheio de malucos.

− E os móveis?

− Não é muita coisa: cama, armário, geladeira, fogão, sofá.

− Estou vendo. O que mais tem aqui é livro.

Ele ficou lá, no meio do apartamento, olhando para aquele mar de papel.

Dois dias depois, a tropa de choque chegou carregando vários caixotes. Deixei−os entrar e fui arrumar as malas, lá no quarto. Não demorou muito e precisei voltar rápido. O barulho dos livros sendo jogados dentro das caixas estava me deixando em pânico.

− O que é isso? Que história é essa? Ficaram loucos?

− Moço, num vai dá pra levá essa livraiada toda duma veiz só!

− Se vocês vão levar em duas ou trinta vezes não me interessa. O que interessa é a falta de respeito com os livros. E, olhe só, essa sujeira. Vocês não limpam os caixotes?

Um deles me olhou durante uns dez segundos, coçou a cabeça, parecia que iria dizer alguma coisa.

− O que o senhor quer que a gente faça?

A voz veio do outro lado da sala. O chefe dos carregadores fez questão de marcar posição. E se assim era, também me foi necessário ser enérgico.

− O que é que eu quero? Quero que limpem essas porcarias. Livros e sujeira não combinam! E outra coisa, e se vocês estivessem carregando esses caixotes com cristais? Vocês iriam jogar tudo dentro dos caixotes? Duvido. Então, pensem no seguinte: esses livros são os meus cristais!

Foi com delicadeza que vi os livros serem depositados no chão do novo apartamento. Aqueles que foram empilhados nas paredes me lembraram episódios dos romances do Luiz Alfredo Garcia−Roza. Só faltava o inspetor Espinosa para completar o cenário. Creio que demorei mais de uma semana para colocar todos nas estantes, para estabelecer aquilo que Walter Benjamin chamou de suave tédio da ordem.

Agora, vários anos depois que essa história ocorreu, preciso trocar alguns livros de lugar. A literatura brasileira precisa de mais espaço. Olho para os livros e perco a coragem. Carregar um ou dois debaixo do braço é fácil, mudar quatrocentos ou quinhentos me causa dores psicológicas. Não sei se vou conseguir. Enquanto isso não se resolve, vou comprando outros livros, ampliando o problema.

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