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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

EMIL CIORAN: QUARENTA E UM SILOGISMOS DA AMARGURA

Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo.

Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.

Um livro de guerra – o de Clausewitz – foi o livro de cabeceira de Lênin e de Hitler. E ainda se pergunta por que este século está condenado!

Há almas que nem o próprio Deus poderia salvar, ainda que se pusesse de joelhos e rezasse por elas.

O espermatozóide é o bandido em estado puro.

Quem não conhece a humilhação ignora o que é chegar ao último grau de si mesmo.

Quem não viu um bordel às cinco da manhã não pode imaginar para que lassitudes se encaminha o nosso planeta.

Cada dia é um Rubicão no qual desejo me afogar.

O Real me dá asma.

Se Noé tivesse o dom de prever o futuro, teria certamente naufragado.

Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas.

Todas as águas são cor de afogamento.

Em contato com os franceses se aprende a ser infeliz gentilmente.

O erro da filosofia é ser demasiado suportável.

Fracassar na vida é ter acesso à poesia – sem o suporte do talento.

Só os espíritos superficiais abordam as idéias com delicadeza.

Por necessidade de recolhimento, livrei−me de Deus, desembaracei−me do último chato.

A insônia é a única forma de heroísmo compatível com a cama.

Só enlouquecem os tagarelas e os taciturnos: os que se esvaziam de todo mistério e os que o acumulam demasiado.

Nos momentos mais cruciais da vida, a ajuda do cigarro é mais eficaz que a dos Evangelhos.

A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.

Como todo iconoclasta, destrocei meus ídolos para consagrar−me a seus restos.

A história das idéias é a história do rancor dos solitários.

Só se entregam ao tédio as naturezas eróticas, decepcionadas de antemão pelo amor.

Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, não envelhecerão jamais.

Quem se mata por uma mulherzinha vive uma experiência mais completa e profunda do que o herói que altera a ordem do mundo.

Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá.

A dignidade do amor consiste no afeto desiludido que sobrevive a um instante de baba.

Quando nem sequer a música é capaz de salvar−nos, um punhal brilha em nossos olhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime.

Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do homicídio.

Temo um homem político que não dá sinal de caduquice.

Quanto maior é minha intimidade com os crepúsculos, mais me convenço de que os únicos que compreendem algo de nossa horda são os humoristas, os charlatões e os loucos.

Feliz no amor, Adão teria nos poupado da História.

O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.

Evolução: Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição.

A criação foi o primeiro ato de sabotagem.

Algumas gerações mais e o riso, reservado aos iniciados, será tão impraticável como o êxtase.

Chopin elevou o piano à condição da tuberculose.

A carne é incompatível com a caridade: o orgasmo transformaria um santo em lobo.

Macbeth: um estóico do crime, um Marco Aurélio com um punhal.

Prolixa por natureza, a literatura vive da pletora de vocábulos, do câncer da palavra.

4 comentários:

  1. Oi Raul, por que me proibiste de comentar teus textos? Que pena!! MPerez

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  2. Acho que vou gostar dessa figura literária tão rápido quanto o possível

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