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terça-feira, 16 de agosto de 2011

SUSAN SONTAG EM SARAJEVO

Em abril de 1993, David Rieff fez um pedido singular à sua mãe. Nessa época ele estava escrevendo um livro sobre uma guerra insana e que quase destruiu parte do território que o passado cada vez mais distante um dia chamou de Iugoslávia (Slaughterhouse: Bosnia and the Failure of the West, 1995). O que David pediu para Susan Sontag era simples: deixar o conforto de Nova Yorque e encarar a guerra como metáfora da vida – ou a vida como metáfora da morte. Em outras palavras, ela estava sendo convidada para visitar Sarajevo, a cidade em que bombas, granadas e morteiros matavam diariamente dez a quinze pessoas; o número de feridos ultrapassava o dobro. Sitiados pelo exército sérvio, os 350 mil habitantes de Sarajevo estavam sendo vítimas da violência gerada pela conjunção incestuosa entre história, geografia, religião e ressentimento.

Durante duas semanas, uma escritora americana excêntrica que nas horas vagas dirige peças de teatro, como Susan Sontag definiu a si mesma, foi espectadora privilegiada dessa tragédia contemporânea.

Como as atividades culturais em Sarajevo somente eram exercidas durante a tarde (para evitar o desperdício de energia elétrica, para não se tornarem alvos fáceis durante os bombardeios noturnos), Susan Sontag escondeu o medo assistindo diversos espetáculos teatrais na companhia de alguns amigos. Ao final de uma das apresentações de Grad (Cidade), uma colagem de textos de Kostantinos Kavafis, Zbigniew Herbert e Sylvia Plath, o diretor de teatro Haris Pašović lhe perguntou se estaria interessada em voltar à Sarajevo, alguns meses depois, para dirigir algum trabalho. Sontag, sem pensar muito, respondeu: Mais do que interessada. Sem permitir que ela tomasse fôlego ou acrescentasse alguma ressalva, Pašović lançou a isca: Que peça?

Surpreendida pelo inconsciente (ou por seu representante, Pašović), cheia de coragem e energia, Susan Sontag não compactuou com o maior dos pecados intelectuais: a indiferença.

Em depoimento sobre o episódio, Sontag escreveu: Eu não tinha a ilusão de que ir à Sarajevo dirigir uma peça faria de mim uma pessoa útil, da maneira como eu poderia ser útil se fosse médica ou engenheira hidráulica. Seria uma contribuição pequena, mas era a única das três coisas que faço – escrever, filmar, dirigir peças de teatro – que poderia produzir algo que só existiria em Sarajevo, algo que seria feito e consumido lá mesmo.

Sabedora de suas limitações, ou melhor, das limitações da cultura, além da extensão do poder publicitário de certos eventos, Sontag decidiu contribuir. Isto é, além de montar um espetáculo para o público de Sarajevo, parte de sua proposta era atrair o olhar mundial à encenação. E à estupidez da guerra. Então, ela fez uma opção emblemática: Esperando Godot. Somando a fala inicial, Nada a fazer, o cenário mínimo (metonímia da cidade despojada) e o pessimismo da dramaturgia de Samuel Beckett, o palco se tornou uma representação do campo de batalha, o desespero controlado de Vladimir e Estragon contra o reacionarismo político, as angústias de uma cidade que procurava esquecer a guerra indo ao teatro assistir um espetáculo angustiante.

A montagem proposta por Sontag se caracterizou por uma leitura bastante diferente da idealizada originalmente por Beckett. Além de suprimir o segundo ato, sob a alegação que o desespero beckettiano já estava representado no primeiro ato, um rodízio multi−étnico entre os atores contribuiu para que as sessões (quatro a cinco apresentações por semana, em ocasiões especiais duas vezes ao dia) fossem consideradas como um convite à volta do público ao teatro, a necessidade psicológica de ver as outras variações da mesma comédia.

Infelizmente, a imprensa internacional não entendeu a proposta. Com o mesmo poder de destruição da artilharia sérvia, criticas e ofensas se espalharam em jornais e revistas. No contra−ataque, Godot comes to Sarajevo (publicado no Brasil, na coletânea Questão de Ênfase), Sontag tentou explicar o porquê de ter escolhido o texto de Beckett. Não convenceu. Além dos danos físicos na cidade, o fascismo embotou a inteligência.

A temporada de Esperando Godot em Sarajevo iniciou em uma terça−feira, dia 17 de agosto de 1993. Enquanto o público dentro do teatro esperava por um personagem que nunca chegaria, lá fora os tiros efetuados por franco−atiradores lembravam que a destruição da vida estava cada vez mais próxima.


4 comentários:

  1. Grande mulher...Uma ET das boas, como gosto de me referir às pessoas essenciais. Talvez ela nem tivesse noçao de seu potencial amor e caridade como missão de vida. Fazia o que sabia para o BEM.

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  2. "Esperando Sontag": taí o título de um ensaio que eu gostaria muito de escrever sobre ela. Seu "Esperando Godot em Sarajevo", ao lado de "A escrita como leitura", figuram, em minha opinião, entre outros ensaios seus, como duas de suas mais expressivas publicações.

    O que fez de Susan Sontag a autora que era tem mais a ver com uma questão de estilo que de ênfase. Porque sua vida já era ênfase pura. Ela só precisou de conduzir esse elemento ao longo de suas intensas linhas traçadas em prosa. "Pensar e escrever são fundamentalmente questões de resistência." Num mundo como esse, pós-moderno, pós-pós-guerra, póstumo, pós-tudo, tão nadificado, essa resistência também se torna sinônimo de sobrevivência.

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