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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CIÊNCIAS MORAIS, UM ROMANCE DE MARTÍN KOHAN


A mentalidade pragmática e controladora de María Teresa Cornejo, bedél da turma 10 da oitava série do Colégio Nacional de Buenos Aires, não admite quaisquer tipos de transgressões às normas escolares. Supervisionando as filas, conferindo o tamanho das saias, advertindo a necessidade de corte nos cabelos dos rapazes, impedindo que os corpos dos meninos e meninas fiquem muito próximos uns dos outros, María Teresa exerce suas atribuições profissionais com rigor e disciplina.

Sempre atenta ao comportamento dos alunos e suspeitando que um dos alunos estivesse fumando no banheiro, em um dos intervalos entre as aulas, María Teresa, sem muito pensar, decide se esconder dentro de uma das cabinas do banheiro masculino e ficar aguardando o momento em que, comprovado o crime, poderá castigar rigorosamente o transgressor.

Ouvindo os ruídos e respirando os odores expelidos pela masculinidade adolescente, María Teresa sente o desconforto da tarefa. No entanto, amparada na superioridade moral do cargo que ocupa, resiste e decide manter a tocaia por tanto tempo quanto for necessário. Havendo crime, punição precisa haver.

Mais do que isso. Em determinado momento, María Teresa sente um tipo de prazer difícil de ser definido. Estar ali, naquele lugar infecto, gera uma sensação de preenchimento na vida vazia de uma mulher sem vida. No serviço regular ou na casa onde mora com a mãe (o irmão está servindo o exército, lutando na Guerra das Malvinas) nada acontece. A monotonia domina o existir de María Teresa.

A possibilidade de vigiar e punir a falta disciplinar produz adrenalina, antecipa e motiva o gozo.

O fim desse devaneio ocorre de forma abrupta, violenta. Durante uma inspeção no banheiro masculino, Biasutto, o chefe dos bedéis, suspeitando da possibilidade de algum aluno estar praticando o inominável, arromba a cabina onde María Teresa estava escondida.

María Teresa, que sente atração física pela figura grosseira de seu chefe – ou pela autoridade que dele emana −, confrontada com o inexplicável, imediatamente perde a capacidade de reação, imediatamente perde o direito à integridade física. Como uma aluna apanhada em falta disciplinar – e, portanto, ciente que deve ser punida −, nada faz para impedir, alguns dias depois a agressão sexual.

Ciências Morais, romance escrito por Martín Kohan, termina no dia 14 de junho de 1982, quando o General Mario Benjamin Menéndez se rende ao General Jeremy Moore. O fim da Guerra das Malvinas não implica, necessariamente, em novos tempos. Não há aulas por três dias. Na quinta−feira as atividades são retomadas, algumas autoridades são trocadas, as antigas desaparecem de cena para nunca mais regressar. No geral, tudo continua funcionando como se nada tivesse acontecido.

Ciências Morais é um dos mais interessantes e criativos romances políticos contemporâneos. Como um bom estudioso de Walter Benjamin, Kohan sabe que Articular historicamente o passado não significa conhecê−lo "como ele de fato foi". Significa apropriar−se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Centrado em um intervalo político, o romance quer denunciar um desses relampejar, um desses momentos de perigo.

A história de María Teresa Cornejo e do Colégio Nacional de Buenos Aires constituem uma grande metáfora da história argentina – e, por extensão, da America Latina. A agressão sexual e a ruptura dos limites que contornam as liberdades individuais são ações políticas idênticas à forma com que os militares violentam a população que deveriam servir. Ao se refugiar na alienação produzida pelo trabalho – que é uma forma doentia de fugir de atos e pensamentos que poderiam resultar em outros tipos de preocupações −, Maria Teresa somente conseguiu encontrar (de maneira inviesada) uma forma compensatória para o vazio que se instala em sua vida: a transgressão moral, o espiar o banheiro masculino.

Nestes tempos neo−bobos, a−pós−o−moderno, a narrativa de Martín Kohan tenta nos ensinar que a História, a política e a literatura são ciências morais. Para alguns filósofos gregos, aquele que pune deve, necessariamente, ser superior a quem é punido. Esse preceito está presente em cada palavra de Ciências Morais, alertando que as ações humanas precisam estar escoradas em algum tipo de comprometimento com a correção moral. María Teresa peca pela alienação; Biasutto, porque extrapola o exercício do poder. Da mesma forma, age a Argentina e o governo militar. Ou seja, mais uma vez, o idealismo foi superado pela pratica social, pela distorção, pelo autoritarismo e, sobretudo, pela barbárie.


Martín Kohan nasceu em 1967, em Buenos Aires, Argentina, e é um dos nomes mais significativos da literatura argentina contemporânea. Publicou vários romances, dois livros de contos e diversos ensaios (Walter Benjamin, Eva Peron, José de San Martín). No Brasil foram publicados os romances Duas vezes Junho, Ciências Morais e Segundos Fora, além de alguns contos esparsos. Ciências Morais foi adaptado para o cinema: Una mirada invisibe (Dir. Diego Lerman, 2010).


2 comentários:

  1. Ciências morais é o próximo da lista que só faz aumentar.

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  2. Acabei de ler agora,Raul!de um fôlego só,envolvente,sutil e vrrtiginoso.Amei,obrigada!

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